II

Que serie de heroes encontramos ao folhear da historia, desde os que

tentam as primeiras descobertas geographicas até os que fundam imperios

como Affonso de Albuquerque.

Como as prôas das naus portuguezas foram deliniando, na immensa tabola

do Oceano os fundamentos da civilisação moderna.

Os argonautas precedem os venezianos nas suas viagens; o scandinavo Leif

Erik descobre tres seculos antes de Colombo a America do norte e os

noruegueses estabelecem-se na Islandia; Roger Bacon e o cardeal Pedro

d'Ailly esboçam os primeiros deliniamentos geographicos, mas tudo isto é

nebuloso no espirito dos navegadores e cosmographos do seculo XV e faz

crescer a vontade de conhecer os caminhos do mar, para chegar áquellas

regiões mysteriosas de que se contavam historias da Fabula.

Christovão Colombo e Amerigo Vespucci estudam e fazem calculos para

achar o caminho do Oriente de que falla Marco Polo, e o aventuroso

genovez despresado na sua patria vem offerecer a Portugal os seus

serviços e pedir-lhe naus para ir á descoberta, mas não é mais feliz nas

suas pretenções do que o fôra na Italia.

Já Portugal então andava tambem empenhado n'essas emprezas, e o immortal

infante D. Henrique lançava, na supposta eschola de Sagres, as bases das

grandes navegações e descobertas que iam seguir-se.

Ali se planeava a grande revolução geographica que se ia operar e que

seria o fóco de novas revoluções, nas sciencias, nas artes e no

commercio, o prologo d'esta civilisação que hoje nos maravilha.

Vasco da Gama, mais feliz do que Colombo encontra o caminho da India. Os

seus marinheiros vencem os mares tenebrosos e quebram o encanto das

sereias que se rendem ás suas canções maritimas; o indomito Adamastor

respeita tão grande audacia e deixa passar adiante a frota que entra

alfim no Oceano Indico.

Depois que serie de descobertas se succedem; que trabalho de civilisação

de novas gentes se enceta.

Os nossos arsenaes apparelham, sem cessar, naus e caravellas para novos

emprehendimentos. Desenvolve-se a febre da navegação; cada portuguez é

um navegador. Portugal quasi se despovoa para ir povoar novas terras

onde leve a luz da nova civilisação.

Os seus capitães vão continuar para além do Atlantico a sua obra de

conquista principiada em Ourique. Eram ainda o mesmo peito d'aço, o

mesmo braço esforçado. A flôr da mocidade adiantava-se; os que ficavam

tinham inveja dos que partiam. Vieram as emolações, as intrigas da

côrte, os despeitos, e quantos d'isto foram victimas, os maus, os bons.

Houve, porém, um homem na côrte de D. Manuel, mais audaz, por ventura

que outros, que acariciava a idéa de dar a volta ao mundo por mares

ainda não devassados de europeus.

Era a idéa predominante no espirito dos navegadores achar a passagem

para o mar do Sul que incurtaria o caminho para a India.

Colombo já o pensára, Balboa estivera a ponto de o realisar, mas o

Destino tinha escripto no seu insondavel livro que seria a um portuguez

que caberia essa gloria: e esse portuguez, esse homem da côrte de D.

Manuel;--foi Fernão de Magalhães, que quizera enflorar na corôa de

Portugal uma nova joia de alto valor, mas que o mesmo Destino quiz que a

fosse engastar na Corôa de Castella!

Descobrimento das Filippinas pelo navegador portuguez Fernão de Magalhães · 第 14 / 41 题