Paulo Antonio da Rocha

_O. e D._

O Auctor.

I

_Primus circumdidisti me._--Foste o primeiro que me circumdou.--Foi esta

a divisa que Carlos V, o imperador, escreveu na esphera que encimou o

brazão de Sebastião de Elcano, o afortunado piloto castelhano, que do

mar do sul trouxe a S. Lucar de Barrameda, a nau _Victoria_, com a

noticia da descoberta das ilhas Mariannas, tendo dado a volta ao mundo.

Afortunado chamámos a Sebastião de Elcano, e que maior fortuna que

colher os loiros que deviam cingir a fronte de outro, a quem a sua má

estrella lhe anoitou a existencia depois de o ter guiado á victoria!

E que outro podia ser que um portuguez a devassar os mares, a circundar

o globo?!

Que de emprezas arrojadas; que de feitos d'armas; que de acções

generosas; que de progressos das sciencias se poderão apontar na

historia, que não encontreis á sua frente primeiro entre os

primeiros:--o portuguez.

Ah! que até chego a duvidar se estou acordado ou sonhando, quando ouço

para ahi tanto pessimismo a amesquinhar o nosso valor, a duvidar, a

descrêr de nós proprios!

Não ha talvez outro exemplo de uma nacionalidade assim!

Tão grande; tão prestimosa; tão brilhante, que o seu nome está escripto

no mundo inteiro, pelos mares, nas ilhas, nos continentes, nos mais

reconditos sertões e até nos astros--como adiante veremos--e que tão

pouco julgue de si; tendo-se por fraca quando tanto é o seu valor;

julgando-se pobre quando é tão rica, que tem dado prodigamente a outros

e tanto ainda lhe resta para si; que tendo uma historia tão gloriosa

como outra não ha, pense que não é d'ella que ha-de viver, como se fosse

uma Roma cahida, que já não tem a girar-lhe nas veias o mesmo sangue com

que escreveu essa historia!

Mas então o que valem os feitos dos nossos soldados, que ainda nos

principios d'este seculo se batiam e levavam de vencida as legiões do

primeiro capitão, que avassalava o mundo com a sua espada e que veio

encontrar, n'este recanto da peninsula, os primeiros revezes da guerra

que o levaram por fim a Santa Helena:--O grande Bonaparte!; mas que

valem, em nossos dias essas victorias alcançadas em Africa; que

dispertam a admiração do mundo; que significa ainda o triumpho que

n'este momento as armas portuguezas estão alcançando na Oceania?; o que

vale o resurgir das nossas artes, que vão honrar o nome portuguez nos

certamens onde concorrem os artistas de todo o mundo, como agora, em

Berlim; que gloria nos vem de um dramaturgo portuguez Pinero (Pinheiro),

em Inglaterra, alcançar os maiores triumphos nos theatros de Londres, e

das suas peças percorrerem toda a America; para que orgulhar-mo-nos dos

Luziadas que é um poema eterno porque canta as glorias de um povo de

guerreiros e de navegadores; para que serve a expansão d'este paiz

pequeno, cujos seus filhos affirmam a victalidade da patria pelas cinco

partes do mundo, em colonias tão importantes como as da America, da

Africa, da Oceania e da Asia; que importancia tem os nossos homens

scientificos que se distinguem nos congressos onde se reunem as

summidades da sciencia; o que quer dizer essa lucta da industria

portugueza a medir-se com as industrias de outros paizes mais

adiantados, supprindo as necessidades de um povo civilisado a que a má

administração das suas finanças acarretou uma crise economica; o que

importa o renascimento de um paiz que em meio seculo tem realisado todos

os progressos que o aproximam das nações mais cultas?

Serão proprios de uma raça degenerada, de um paiz perdido, de uma

civilisação extincta, todas estas manifestações de vida, affirmações de

força, de lucta pela existencia, sob um sol creador, n'uma terra

uberrima, que se desentranha em fructos, que encerra thesouros, em suas

minas, fertilisada por abundantes rios, que tem tudo que ha em outros

paizes e mais o que elles não teem, que é rica, emfim, de todos os bens

que a natureza possue e que Deus parece ter reunido aqui como no paraizo

terreal!

E para que foi que este povo, achando-se apertado no solo que as suas

espadas conquistaram, se aventurou aos mares a alçar a sua bandeira em

terras até então desconhecidas, levantando imperios na India e na

America, avassallando novos mundos onde a familia portugueza póde viver

como na patria porque são patria tambem de portuguezes.

Mas basta. Não ennumeremos mais o que deveria estar na lembrança de

todos os filhos de Portugal, o que nunca deveriam esquecer, porque é

esquecerem-se da sua nacionalidade, do que prova a sua existencia e

autonomia, do que dá razão da sua vida atravez de todas as vicissitudes

porque tem passado.

Pois quê! se Portugal não fosse um élo importante da cadeia que liga a

grande familia da humanidade, teria resistido aos embates da sorte que

tantas vezes o hão experimentado?

Se elle não tivesse concorrido tão bastamente para a civilisação que o

mundo disfructa, como teria atravessado por entre os seculos e luctado

contra as ambições de extranhos que tentaram apagar dos mappas as linhas

que demarcam as suas fronteiras!

A Polonia succumbe sob o grande collosso porque a sua nacionalidade não

coopera na transformação porque o mundo passa ao sahir da idade media; o

mesmo acontece á Hungria. Veneza cahiu quando as novas descobertas

empanam o brilho da sua navegação e do seu commercio.

Portugal existe e vive porque o ciclo da civilisação de que elle lançou

os primeiros segmentos ainda não se fechou.

Descobrimento das Filippinas pelo navegador portuguez Fernão de Magalhães · 第 13 / 41 题