lanternas, lanças, n'um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um
regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no
hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso
rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, archejando, com
a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n'uma
desfilada furiosa ao longo d'uma lua negra... De repente vejo diante de
mim a muralha, um bastião, a porta da villa fechada!
Então, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o
soccorro humano--_precisei de Deus_! Acreditei n'elle, gritei-lhe que me
salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe
offerecer, fragmentos de orações, de _Salvè-Rainhas_, que ainda me
jaziam no fundo da memoria... Voltei-me sobre a anca do potro: d'uma
esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!... Larguei de
golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta
fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um
boqueirão erriçado d'esgalhos de sarças, e fóra a planicie que sob a lua
parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá,
desesperadamente, sacudido aos galões do potro... E muito tempo galopei
no descampado.
De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lagôa.
Entrou-me pela bocca agua putrida, e os pés enlaçaram-se-me nas raizes
molles dos nenufares... Quando me ergui, me firmei no sólo,--vi o poney,
correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento...
Então comecei a caminhar por aquella solidão, enterrando-me nas terras
lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me
pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado
regelava-se-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me vêr
luzir olhos de feras.
Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto
negro, um d'aquelles montões d'esquifes amarellos que os chinezes
abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caixão,
prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia
o viscoso d'um liquido que escorria pelas fendas das tábuas... Quiz
fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas
altas, todo o horisonte começou a girar em torno de mim como um disco
muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e
senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d'uma penna que
desce...
Quando recuperei a consciencia estava estirado n'um banco de pedra, no
pateo d'um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio
envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar
fresco circulava; a roldana d'um poço rangia lentamente; um sino tocava
a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas
gradeadas e uma cruz no topo: então, vendo n'aquella paz de claustro
catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consolação,
rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.
VII
De madrugada, dois padres lazaristas, dirigindo-se a Tien-Hó, tinham-me
encontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot,
«era já tempo»; porque em redor do meu corpo immovel um negro
semi-circulo d'esses grossos e soturnos corvos da Tartaria já me estava
contemplando com gula...
Trouxeram-me sem demora para o convento n'uma padiola,--e grande foi o
regosijo da communidade quando soube que eu era um latino, um christão e
um subdito dos Reis Fidelissimos. O convento fórma alli o centro d'um
pequeno burgo catholico, apinhado em torno da maciça residencia como uma
casaria de servos á base d'um castello feudal. Existe desde os primeiros
missionarios que percorreram a Manchouria. Porque nós estamos aqui nos
confins da China: para além já é a Mongolia, a Terra das Hervas, immenso
prado verde-escuro, leziria sem fim, colorida aqui e além do vivo das
flôres silvestres...
Ahi jaz a vasta planicie dos Nomadas. Da minha janella eu via negrejar
os circulos de tendas cobertas de feltro, ou de pelles de carneiro; e
por vezes assistia á partida d'uma tribu, em filas de longas caravanas,
levando os seus rebanhos para o oeste...
O superior lazarista era o excellente padre Giulio. A longa permanencia
entre as raças amarellas tornára-o quasi um chinez: quando eu o
encontrava no claustro com a sua tunica rôxa, o rabicho longo, a barba
veneravel, agitando devagar um enorme leque--parecia-me algum sábio
letrado mandarim commentando mentalmente, na paz de um templo, o Livro
sacro de Chú. Era um santo: mas o cheiro d'alho que exhalava--afastaria
as almas mais doloridas e precisadas de consolação.
Conservo suave a memoria dos dias alli passados! O meu quarto, caiado de
branco, com uma cruz negra, tinha um recolhimento de cella. Acordava
sempre ao toque de matinas. Em respeito aos velhos missionarios, vinha
ouvir a missa á capella: e enternecia-me, alli, tão longe da patria
catholica, n'aquellas terras mongolicas, vêr á clara luz da manhã a
casula do padre, com a sua cruz bordada, curvando-se diante do altar, e
sentir ciciar no fresco silencio--os _Dominus vobiscum_, e os _Cum
spiritu tuo_...
De tarde ia á escóla, admirar os pequenos chinezes declinando _Hora,
Horoe_... E depois do refeitorio, passeando no claustro, escutava
historias de longiquas missões, de viagens apostolicas ao _Paiz das
Hervagens_, as prisões supportadas, as marchas, os perigos, as Chronicas
heroicas da Fé...
Eu por mim não contei no convento as minhas aventuras phantasticas:
dei-me como um _touriste_ curioso, tomando apontamentos pelo Universo. E
esperando que a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, n'uma lassidão
d'alma, áquella paz de mosteiro...
Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse Imperio barbaro,
que eu odiava agora, prodigiosamente!
Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Occidente, para
trazer a uma provincia chineza a abundancia dos meus milhões, e que
apenas lá chegára fôra logo saqueado, apedrejado, fréchado--enchia-me um
rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver coisas
feras que tentaria para me vingar do Imperio do Meio!
Retirar-me com os meus milhões era a desforra mais pratica, mais facil!
Demais, a minha idéa de resuscitar artificialmente, para bem da China, a
personalidade de Ti-Chin-Fú, parecia-me agora absurda, d'uma insensatez
de sonho. Eu não comprehendia a lingua, nem os costumes, nem os ritos,
nem as leis, nem os sabios d'aquella raça: que vinha pois fazer alli,
senão expôr-me, pelo apparato da minha riqueza, aos assaltos d'um povo,
que, ha quarenta e quatro seculos, é pirata nos mares e traz as terras
varridas de rapina!...
Além d'isso, Ti-Chin-Fú e o seu papagaio continuavam invisiveis,
remontados de certo ao Céo chinez dos Avós: e já o aplacamento do
remorso visivel diminuira em mim singularmente o desejo da expiação...
Sem duvida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regiões
ineffaveis para se vir estirar pelos meus moveis. Vira os meus esforços,
o meu desejo de ser util á sua prole, á sua provincia, á sua raça--e,
satisfeito, accommodára-se regaladamente para a sua sésta eterna. Eu
nunca mais avistaria a sua pança amarella!...
E então mordia-me o appetite de me achar já tranquillo e livre, no
pacifico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no _boulevard_, sorvendo o mel
ás flôres da Civilisação...
Mas a viuva de Ti-Chin-Fú, as mimosas senhoras da sua descendencia, os
netos pequeninos?... Iria eu deixal-os barbaramente, na fome e no frio,
pelas viellas negras de Tien-Hó? Não. Esses não eram culpados das
pedradas que me atirára a populaça. E eu christão, asylado n'um convento
christão, tendo á cabeceira da cama o Evangelho, cercado d'existencias
que eram incarnações de Caridade--não podia partir do Imperio sem
restituir áquelles que despojára, a abundancia, esse conforto honesto
que recommenda o Classico da Piedade Filial...
Então escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as
pedras da turba chineza; o abrigo christão que me dera a Missão; o vivaz
desejo de partir do Imperio do Meio. Pedia-lhe que remettesse elle á
viuva de Ti-Chin-Fú os milhões depositados por mim em casa do mercador
Tsing-Fó, na avenida de Cha-Coua, ao lado do arco triumphal de Tong,
junto ao templo da deusa Kaonine.
O alegre padre Loriot, que ia a Pekin em missão, levou esta carta, que
eu lacrára com o sêllo do convento--uma cruz sahindo d'um coração em
chammas...
Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas
septentrionaes da Manchouria: e eu occupava-me a caçar a gazella pela
Terra das Hervas... Horas energicas e fortemente vívidas, as d'essas
manhãs, quando eu largava á desfilada, no grande ar agreste da planicie,
entre os monteadores mongolicos que, com um grito ululado e vibrante,
batiam o matagal á lançada! Por vezes, uma gazella saltava: e, d'orelha
baixa, estirada e fina, partia no fio do vento... Soltavamos o falcão
que voava sobre ella, d'aza serena, dando-lhe a espaços regulares, com
toda a força do bico recurvo, uma picada viva no craneo. E iamo'l-a
abater, por fim, á beira d'alguma agua morta, coberta de nenufares...
Então os cães negros da Tartaria amontoavam-se-lhe sobre o ventre, e,
com as patas no sangue, iam-lhe a ponta de dente, desfiando devagar as
entranhas...
Uma manhã o leigo da portaria avistou emfim o alegre padre Loriot,
galgando á lufa-lufa pelo caminho ingreme do burgo, de volta de Pekin,
com a sua mochila ao hombro, e uma criancinha nos braços: tinha-a
encontrado abandonada, nuasinha, morrendo á beira d'um caminho:
baptisára-a logo n'um regato com o nome de _Bem-Achado_: e alli a
trazia, todo enternecido, arquejando de tanto que estugára o passo, para
dar depressa á creaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento...
Depois d'abraçar os religiosos, d'enxugar as grossas bagas de suor,
tirou da algibeira dos calções um enveloppe com o sello da aguia russa:
--É isto que manda o papá Camilloff, amigo Theodoro. Ficou optimo. E a
senhora tambem... Tudo rijo.
Corri a um recanto do claustro a lêr as duas folhas de prosa. Meu bom
Camilloff, de calva severa e olho de mocho! Como elle alliava tão
originalmente ao senso fino d'um habil de Chancellaria as caturrices
picarescas de diplomata bufo! A carta dizia assim:
«Amigo, hospede, e carissimo Theodoro,
«Ás primeiras linhas da sua carta ficámos consternados! Mas logo as
seguintes nos deram um grato allivio, por nos certificar que estava
com esses santos padres da Missão christã... Eu parti para o Yamen
imperial a fazer uma severa reclamação ao principe Tong, sobre o
escandalo de Tien-Hó. Sua excellencia mostrou um jubilo
desordenado! Porque, se lamenta como particular a offensa, o roubo
e as pedradas que o meu hospede soffreu, como ministro do Imperio
vê ahi a dôce opportunidade d'extorquir á villa de Tien-Hó, em
multa, em castigo da injuria feita a um estrangeiro, a vantajosa
somma de _trezentos mil francos_, ou, segundo os calculos do nosso
sagaz Meriskoff, _cincoenta e quatro contos de reis_ na moeda do
seu bello paiz! É, como disse Meriskoff, um excellente resultado
para o Erario imperial, e fica assim a sua orelha copiosamente
vingada... Aqui, começam a picar os primeiros frios, e já estamos
usando pelles. O bom Meriskoff lá vai soffrendo do figado, mas a
dôr não lhe altera o criterio philosophico nem a sábia
verbosidade... Tivemos um grande desgosto: o lindo cãosinho da boa
Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretario, o adoravel
_Tu-tu_ desappareceu na manhã de 15... Fiz, na policia, instancias
urgentes, mas o _Tu-tu_ não nos foi restituido,--e o sentimento é
tanto maior, quanto é sabido que a populaça de Pekin aprecia
extremamente estes cãesinhos, guisados em calda de assucar...
Deu-se aqui um facto abominavel e de consequencias funestas: a
ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse _galho
sêcco_ (como diz o nosso Meriskoff), no ultimo jantar da legação,
deu, em desprezo de todas as regras internacionaes, o braço, o seu
descarnado braço, e a sua direita á mesa a um simples addido
inglez, lord Gordon! Que me diz a isto? É crivel? É racional? É
destruir a ordem social! O braço, a direita, a um addido, um
escossez côr de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia
presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem
causado, no corpo diplomatico, uma sensação inenarravel...
Esperamos instrucções dos nossos governos. Como diz Meriskoff,
oscillando tristemente a cabeça--_é grave... é muito grave_!--O que
prova (e ninguem o duvidava) que lord Gordon é o Benjamim do _galho
sêcco_. Que podridão! Que lodo!... A generala não tem passado bem,
desde a sua partida para essa malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff
não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa
indolencia que a conserva horas e horas immovel sobre o sophá, no
_Pavilhão do Repouso discreto_, com o olhar vago e o labio cheio de
suspiros... Eu não me illudo: sei perfeitamente o que a mina: é a
desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más aguas, quando
estivemos na legação de Madrid... Seja feita a vontade do
Senhor!... Ella pede-me para lhe mandar _un petit bonjour_, e
deseja que o meu hospede apenas chegue a Paris, se fôr a Paris, lhe
remetta pela mala da Embaixada para S. Petersburgo (d'ahi virá a
Pekin) duas duzias de luvas de doze botões, numero _cinco e tres
quartos_, da marca _Sol_, dos armazens do Louvre; assim como os
ultimos romances de Zola, Mademoiselle de Maupin de Gautier, e uma
caixa de frascos de _Opoponax_... Esquecia-me dizer-lhe que mudámos
de padeiro: fornecemo-nos agora na padaria da Embaixada ingleza:
deixámos a da Embaixada franceza para não ter communicações com o
_galho sêcco_... Ahi estão os inconvenientes de não termos aqui na
Embaixada russa uma padaria--apesar de tantos relatorios, tantas
reclamações que, sobre esse ponto, tenho feito para a chancellaria
de S. Petersburgo! Elles sabem bem que em Pekin não ha padarias,
que cada legação tem a sua propria, como um elemento d'installação
e d'influencia. Mas quê! Na côrte imperial desattendem-se os mais
serios interesses da civilisação russa!... Creio que é tudo o que
ha de novo em Pekin e nas legações. Meriskoff recommenda-se, e
todos d'esta Embaixada; e tambem o condesinho Arthur, o Zizi da
legação hespanhola, o _Focinho cahido_, e o Lulú; emfim todos; eu
mais que ninguem, que me assigno com saudade e affeição
«_General Camilloff_».
«P.S. Em quanto á viuva e familia de Ti-Chin-Fú, houve um engano: o
astrologo do templo de Faqua equivocou-se na interpretação sideral:
não é realmente em Tien-Hó que reside essa familia... É ao sul da
China, na provincia de Cantão. Mas também ha uma familia Ti-Chin-Fú
para além da Grande Muralha, quasi na fronteira russa, no districto
de Ka-ó-li. A ambas morreu o chefe, a ambas assaltou a pobreza...
Portanto, esperando novas ordens, não levantei os dinheiros da casa
de Tsing-Fó. Esta recente informação mandou-m'a hoje sua
excellencia o principe Tong, com uma deliciosa compota de
calombro... Devo annunciar-lhe que o nosso bom Sá-Tó aqui
appareceu, de volta de Tien-Hó, com um beiço rachado e leves
contusões no hombro, tendo apenas salvado da bagagem saqueada uma
lithographia de Nossa Senhora das Dôres, que, pela inscripção a
tinta, vejo que pertencera a sua respeitavel mamã... Os meus
valentes cossacos, esses, lá ficaram n'uma poça de sangue. Sua
excellencia o principe Tong condescende em m'os pagar a dez mil
francos cada um, das sommas extorquidas á villa de Tien-Hó... Sá-Tó
diz-me que se o meu hospede, como é natural, recomeçar as suas
viagens através do imperio em busca dos Ti-Chin-Fú,--elle
considerar-se-hia honrado e venturoso em o acompanhar, com uma
fidelidade canina e uma docilidade cossaca...
«_Camilloff_».
--Não! nunca!--rugi com furor, amarrotando a carta, monologando a largas
passadas pelo melancolico claustro.--Não, por Deus ou pelo Demonio! Ir
de novo bater as estradas da China? Jámais! Oh sorte grotesca e
desastrosa! Deixo os meus regalos ao Loreto, o meu ninho amoroso de
Paris, venho rolado pela vaga enjoadôra de Marselha a Chang-Hai, soffro
as pulgas das bateiras chinezas, o fedor das viellas, a poeirada dos
caminhos aridos--e para quê? Tinha um plano, que se erguia até aos céos,
grandioso e ornamentado como um trophéo: por sobre elle scintillavam,
d'alto a baixo, toda a sorte d'acções boas: e eis que o vejo tombar ao
chão, peça a peça, n'uma ruina! Queria dar o meu nome, os meus milhões,
e metade do meu leito d'oiro a uma senhora Ti-Chin-Fú--e não m'o
permittem os prejuizos sociaes d'uma raça barbara! Pretendo, com o botão
de crystal de Mandarim, remodelar os destinos da China, trazer-lhe a
prosperidade civil,--e veda-m'o a lei imperial! Aspiro a derramar uma
esmola sem fim por esta populaça faminta--e corro o perigo ingrato de
ser decapitado como instigador de rebelliões! Venho enriquecer uma
villa--e a turba tumultuosa apedreja-me! Ia emfim dar a abundancia, o
conforto que louva Confucio, á família Ti-Chin-Fú,--e essa familia
some-se, evapora-se como um fumo, e outras familias Ti-Chin-Fú surgem,
aqui e além, vagamente, ao sul, a oeste, como clarões enganadores... E
havia d'ir a Cantão, a Ka-ó-li, expôr a outra orelha a tijolos brutaes,
fugir ainda pelos descampados, agarrado ás crinas d'um potro? Jámais!
Parei: e de braços erguidos, fallando ás arcadas do claustro, ás
arvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:
--Ti-Chin-Fú!--bradei--Ti-Chin-Fú, para te aplacar, fiz o que era
racional, generoso e logico! Estás emfim satisfeito, letrado veneravel,
tu, o teu gentil papagaio, a tua pança official? Falla-me! Falla-me!...
Escutei, olhei: a roldana do poço, áquella hora do meio dia, rangia
devagar, no pateo: sob as amoreiras, ao longo da arcaria do claustro,
seccavam em papel sêda as folhas de chá da colheita d'outubro: da porta
meio cerrada da aula vinha um susurro lento de declinações latinas: era
uma paz severa, feita da simplicidade das occupações, da honestidade dos
estudos, do ar pastoril d'aquella collina, onde dormia, sob um sol
branco d'inverno, o burgo religioso... E com aquella serenidade
ambiente, pareceu-me receber na alma, de repente, uma pacificação
absoluta!
Accendi com os dedos ainda tremulos um charuto, e disse, limpando na
testa uma baga de suor, esta palavra, resumo d'um destino:
--Bem, Ti-Chin-Fú está contente. Fui logo á cella do excellente padre
Giulio. Elle lia o seu Breviario á janella, debicando confeitos
d'assucar, com o gato do convento no collo.
--Reverendissimo, volto á Europa... Algum dos nossos bons padres vai por
acaso em missão, para os lados de Chang-Hai?...
O veneravel superior pôz os seus oculos redondos: e folheando com uncção
um vasto registro em letra chineza, ia assim murmurando:
--Quinto dia da decima lua... Sim, ha o padre Anacleto para Tien-Tzin,
para a novena dos Irmãos da Santa Creche. Duodecima lua, o padre Sanchez
para Tien-Tzin tambem, para a obra do Catecismo aos Orphãos... Sim, caro
hospede, tem companheiros para Léste...
--Ámanhã?
--Ámanhã. É dolorosa a separação n'estes confins do mundo, quando as
almas se comprehendem bem em Jesus... O nosso padre Gutierrez que lhe
faça um bom farnel... Nós já o amavamos como irmão, Theodoro... Coma um
confeito, são deliciosos... As coisas estão em feliz repouso quando se
acham no seu lugar e elemento natural: o lugar do coração do homem é o
coração de Deus: e o seu está n'esse asylo seguro... Coma um confeito...
Que é isso, meu filho, que é isso?
Eu estava collocando sobre o seu Breviario aberto, n'uma pagina do
Evangelho de pobreza, um rôlo de notas do _Banco d'Inglaterra;_ e
balbuciei:
--Meu reverendissimo, para os seus pobres...
--Excellente, excellente... O nosso bom Gutierrez que lhe faça um farnel
copioso... _Amen_, meu filho ... _In Deo omnia spes_!...
Ao outro dia, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez, montado na mula
branca do convento, desci o burgo, ao repique dos sinos. E ahi vamos
para Hiang-Hiam, villa negra e murada, onde atracam os barcos que descem
a Tien-Tzin. Já as terras ao longo do Pei-Hó estavam todas brancas de
neve: nas enseadas baixas já a agua ia gelando: e embrulhados em pelles
de carneiro, em roda do fogareiro, á pôpa do barco, os bons padres e eu
iamos conversando de trabalhos de Missionarios, de coisas da China, por
vezes dos interesses do Céo--passando em redor sem cessar o grosso
frasco da genebra...
Era Tien-Tzin separei-me d'aquelles santos camaradas. E d'ahi a duas
semanas, por um meio dia de sol tepido, passeava, fumando o meu charuto
e olhando a azafama dos caes d'Hong-Kong, no tombadilho do _Java_ que ia
levantar ferro para a Europa.
* * * * *
Foi um momento commovente para mim, aquelle em que vi, ás primeiras
voltas do helice, afastar-se a terra da China.
Desde que acordára, n'essa manhã, uma inquietação surda recomeçava a
pesar-me na alma. Agora, punha-me a pensar que viera áquelle vasto
imperio para acalmar pela expiação um protesto temeroso da Consciencia:
e por fim, impellido por uma impaciencia nervosa, ahi partia, sem ter
feito mais que deshonrar os bigodes brancos d'um general heroico, e ter
recebido pedradas pela orelha n'uma villa dos confins da Mongolia.
Estranho destino, o meu!...
* * * * *
Até ao anoitecer estive encostado sombriamente á borda do paquete, vendo
o mar liso, como uma vasta peça de sêda azul, dobrar-se aos lados em
duas pregas molles: pouco a pouco grandes estrellas palpitaram na
concavidade negra; e o helice na sombra ia trabalhando em rhythmo.
Então, tomado d'uma fadiga molle, fui errando pelo paquete, olhando,
aqui e além, a bussola alumiada; os montões de cabrestantes; as peças da
machina, n'uma claridade ardente, batendo em cadencia; as fagulhas que
fugiam do cano, n'um rôlo de fumaraça negra; os marinheiros de barba
ruiva, immoveis á roda do leme; e as fórmas dos pilotos, sobre o pontal,
altas e vagas na noite. Na _cabine_ do capitão, um inglez de capacete de
cortiça, cercado de damas que bebiam Cognac, ia tocando melancolicamente
na flauta a aria de _Bonnie Dundee_...
Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes já estavam
apagadas: mas a lua que se erguia ao nivel da agua, redonda e branca,
batia o vidro da _cabine_ com um raio de claridade: e então, a essa meia
tinta pallida, lá vi estirada sobre a maca a figura pançuda, vestida de
sêda amarella, com o seu papagaio nos braços!
Era _elle_, outra vez!
E foi _elle_, perpetuamente! Foi elle em Singapura e em Ceylão. Foi elle
erguendo-se dos areaes do deserto ao passarmos no canal de Suez;
adiantando-se á prôa d'um barco de provisões quando parámos em Malta;
resvalando sobre as rosadas montanhas da Sicilia; emergindo dos
nevoeiros que cercam o morro de Gibraltar! Quando desembarquei em
Lisboa, no caes das Columnas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da
rua Augusta; o seu olho obliquo fixava-me--e os dois olhos pintados do
seu papagaio pareciam fixar-me tambem...
VIII
Então, certo que não poderia jámais aplacar Ti-Chin-Fú, toda essa noite
no meu quarto ao Loreto, onde como outr'ora as velas innumeraveis das
serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir de
mim, como um adorno de peccado, esses milhões sobrenaturaes. E assim me
libertaria talvez d'aquella pança e d'aquelle papagaio abominavel!
Abandonei o palacete ao Loreto, a existencia de Nababo. Fui, com uma
quinzena coçada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e
voltei á Repartição, d'espinhaço curvo, a implorar os meus vinte mil
reis mensaes, e a minha dôce penna de amanuense!...
Mas um soffrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me
arruinado,--todos aquelles, que a minha opulencia humilhára, cobriram-me
de offensas, como se alastra de lixo uma estatua derrubada de principe
decahido. Os jornaes, n'um triumpho de ironia, achincalharam a minha
miseria. A aristocracia, que balbuciára adulações aos pés do Nababo,
ordenava agora aos seus cocheiros que atropellassem nas ruas o corpo
encolhido do plumitivo de Secretaría. O clero, que eu enriquecera,
accusava-me de _feiticeiro_; o povo atirou-me pedras; e a Madame
Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza granitica dos
bifes,--plantava as duas mãos á cinta, e gritava:
--Ora o enguiço! Então que quer vossê mais? Aguente! Olha o pelintra!...