ilharga, obeso e côr d'óca,--porque os seus milhões, que jaziam agora
estereis e intactos nos Bancos, ainda de facto eram meus!
Desgraçadamente meus!
Então, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu
palacete e no meu luxo. N'essa noite, de novo o resplendor das minhas
janellas alumiou o Loreto: e pelo portão aberto viram-se como outr'ora
negrejar, nas suas fardas de sêda negra, as longas filas de lacaios
decorativos.
Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques
chamou-me, chorando, _filho do seu coração_. Os jornaes deram-me os
qualificativos que, de antiga tradição, pertencem á Divindade: fui o
_Omnipotente_, fui o _Omnisciente_! A aristocracia beijou-me os dedos
como a um Tyranno: e o clero incensou-me como a um idolo. E o meu
desprezo pela Humanidade foi tão largo,--que se estendeu ao Deus que a
creou.
Desde então uma saciedade enervante mantem-me semanas inteiras n'um
sophá, mudo e soturno, pensando na felicidade do _não-ser_...
Uma noite, recolhendo só por uma rua deserta, vi diante de mim o
Personagem vestido de preto com o guarda-chuva debaixo do braço, o mesmo
que no meu quarto feliz da travessa da Conceição me fizera, a um
_ti-li-tin_ de campainha, herdar tantos milhões detestaveis. Corri para
elle, agarrei-me ás abas da sua sobrecasaca burgueza, bradei:
--Livra-me das minhas riquezas! Resuscita o Mandarim! Restitue-me a paz
da miseria!
Elle passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro braço, e
respondeu com bondade:
--Não póde ser, meu prezado senhor, não póde ser...
Eu atirei-me aos seus pés n'uma supplicação abjecta: mas só vi diante de
mim, sob uma luz mortiça de gaz, a fórma magra de um cão farejando o
lixo.
Nunca mais encontrei este individuo.--E agora o mundo parece-me um
immenso montão de ruinas onde a minha alma solitaria, como um exilado
que erra por entre columnas tombadas, geme, sem descontinuar...
As flôres dos meus aposentos murcham e ninguem as renova: toda a luz me
parece uma tocha: e quando as minhas amantes véem, na brancura dos seus
penteadores, encostar-se ao meu leito, eu chóro--como se avistasse a
legião amortalhada das minhas alegrias defuntas...
* * * * *
Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus
milhões ao Demonio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os
reparta...
E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: «_Só
sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o
Mandarim_!»
E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéa: que do
Norte ao Sul e do Oeste a Léste, desde a Grande Muralha da Tartaria até
ás ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Imperio da China, nenhum
Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses
supprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, creatura improvisada por
Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irmão!
Angers, junho, 1880.
PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
62, Cancella Velha, 62