Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas

muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a

par podem percorrer durante leguas.

E emquanto Sá-Tó, sentado n'um vão d'ameia, bocejava n'um desafôgo de

_cicerone_ enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a

vasta Pekin...

É como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta

Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os

quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes,

que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na

immensidão do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de

bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como aço, pontes de

marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo

ao sol; por toda a parte são pagodes heraldicos, brancos terraços de

templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as

folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de

porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a

intervallos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, d'um aspecto

heroico e fabuloso...

A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos

d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando...

Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os

seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe

os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a

magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes

sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca

como o Genio mesmo da Raça: e adiante branquejam n'uma meia tinta

sobrenatural os terraços de jaspe do Santuario da Purificação...

Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo

dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilhão das Flôres

das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os

bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças

azues, verdes, escarlates e côr de limão. Eu devorava, d'olho avido,

esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer

as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Instituições, a

significação dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o

dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez... Mas

esse mundo é inviolavel como um Santuario...

Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa

que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes

mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira;

a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas... Então invadiu-me

a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo

Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim

mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle

mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha

aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um

ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos

quando verdejam os linhos...

Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu

via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos

templos e dos pavilhões imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos

milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens

brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no

silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondulação eolia, que se

perdia nos ares pallidos...

Voltei para casa, pesado e pensativo.

Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com

bonhomia as minhas impressões de Pekin.

--Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

Sôbolos rios que vão

Por Babylonia me achei...

--Pekin é um monstro!--disse Camilloff oscillando reflectidamente a

calva.--E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e

conquistadora que a possue, obedecem trezentos milhões d'homens, uma

raça subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora... Estudam as

nossas sciencias... Um calice de Medoc, Theodoro?... Teem uma marinha

formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destroçar o estrangeiro com

dragões de papelão d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica

prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

--E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se

falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e

dizem negligentemente: _Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a

China_...

A esta sandice--fez-se um silencio. E o general, depois de tossir

formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

--Portugal é um bello paiz...

Eu exclamei com seccura e firmeza:

--É uma choldra, general.

A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango,

e limpando o dedinho, disse:

--É o paiz da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira...

O gordo Meriskoff, doutor allemão pela Universidade de Bonn, chanceller

da legação, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

--Generala, o dôce paiz de Mignon é a Italia: _Conheces tu a terra

privilegiada onde a laranjeira dá flor_? O divino Goethe referia-se á

Italia, _Italia mater_... A Italia será o eterno amor da humanidade

sensivel!

--Eu prefiro a França!--suspirou a esposa do primeiro secretario, uma

bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

--Ah! a França!...--murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho

ternissimo.

O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

--A França tem um mal, que é a Questão social...

--Oh! a Questão social!--rosnou sombriamente Camilloff.

--Ah! a Questão social!...--considerou ponderosamente o addido.

E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu

braço, murmurou-me, junto á face:

--Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os

laranjaes!...

--É lá que se ama, generala--segredei-lhe eu, levando-a dôcemente para a

escuridão dos sycomoros...

V

Foi necessario todo um longo verão para descobrir a provincia onde

residira o defunto Ti-Chin-Fú!

Que episodio administrativo tão pittoresco, tão chinez! O serviçal

Camillof, que passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado,

teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada d'um velho

Mandarim não encobria uma conspiração contra a segurança do Imperio; e

depois foi-lhe ainda preciso jurar que não havia n'esta curiosidade um

attentado contra os Ritos sagrados! Então, satisfeito, o principe Tong

permittiu que se fizesse o inquerito imperial: centenares d'escribas

empallideceram noite e dia, de pincel na mão, desenhando relatorios

sobre papel d'arroz; mysteriosas conferencias sussurraram

incessantemente por todas as repartições da Cidade Imperial, desde o

Tribunal astronomico até ao Palacio da Bondade Preferida; e uma

população de koulis transportava da legação russa para os kiosques da

Cidade Interdicta, e d'ahi para o Pateo dos Archivos padiolas estalando

ao peso de maços de documentos vetustos...

Quando Camilloff perguntava _pelo resultado_, vinha-lhe a resposta,

satisfactoria que se estavam consultando os Livros Santos de Lá-o-Tsé,

ou que se iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chú. E para

calmar a impaciencia bellica do russo, o principe Tong remettia, com

estes recados subtis, algum substancial presente de confeitos recheados,

ou de gomos de bambú em calda d'assucar...

* * * * *

Ora em quanto o general trabalhava com fervor para encontrar a familia

Ti-Chin-Fú,--eu ia tecendo horas de sêda e oiro (assim diz um poeta

japonez) aos pés pequeninos da generala...

Havia um kiosque no jardim sob os sycomoros, que se denominava, á

maneira chineza, do _Repouso discreto_:--ao lado um arroio fresco ia

cantando dôcemente sob uma pontesinha rustica pintada de côr de rosa. As

paredes eram apenas um gradeado de bambú fino forrado de sêda côr de

ganga: o sol, passando através d'ellas, fazia uma luz sobrenatural de

opala desmaiada. Ao centro afofava-se um divan de sêda branca, d'uma

poesia de nuvem matutina, attrahente como um leito nupcial. Aos cantos,

em ricas jarras transparentes da época de Yeng, erguiam-se, na sua

gentileza aristocratica, lirios escarlates do Japão. Todo o soalho

estava recoberto d'esteiras finas de Nankin; e junto á janella

rendilhada, sobre um airoso pedestal de sandalo, pousava aberto ao alto

um leque formado de laminas de crystal separadas, que a aragem entrando

fazia vibrar, n'uma modulação melancolica e terna.

As manhãs do fim d'agosto em Pekin são muito suaves; já erra no ar um

enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff, os

officiaes da legação, estavam sempre na chancellaria _fazendo a mala_

para S. Petersburgo.

Eu então, de leque na mão, pisando subtilmente na ponta das babouches de

setim as ruasinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do _Repouso

discreto_:

--Mimi?

E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

--_All right_...

Como ella era linda vestida de dama chineza! Nos seus cabellos

levantados alvejavam flôres de pecegueiro; e as sobrancelhas pareciam

mais puras e negras avivadas a tinta de Nankin. A camisinha de gaze,

bordada a soutache de filigrana d'oiro, collava-se aos seus seios

pequeninos e direitos: vastas, fôfas calças de foulard côr de _côxa de

Nympha_, que lhe davam uma graça de serralho, recahiam sobre o tornozêlo

fino, coberto de meia de seda amarella:--e apenas tres dedos da minha

mão cabiam na sua chinelinha...

Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fôra educada

por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabello

empoado, e parecia a grossa lithographia cossaca d'uma dama galante de

Versalhes...

O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente

as folhas de chá, pedia-me historias ladinas de _Cocottes_, e dizia-me o

seu culto por Dumas filho...

Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de sêda côr de folha morta,

e ia fazendo viajar os meus labios devotos pela pelle fresca dos seus

bellos braços;--e depois sobre o divan, enlaçados, peito contra peito,

n'um extasi mudo, sentiamos as laminas de crystal resoar eoliamente, as

pêgas azues esvoaçarem pelos platanos, o fugitivo rhythmo do arroio

corrente...

Os nossos olhos humedecidos encontravam ás vezes um quadro de setim

preto, por cima do divan, onde em caracteres chinezes se desenrolavam

sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas

nenhum de nós percebia o chinez... E no silencio os nossos beijos

recomeçavam, espaçados, soando dôcemente, e comparaveis (na lingua

florida d'aquelles paizes) a perolas que cahem uma a uma sobre uma bacia

de prata...--Oh suaves séstas dos jardins de Pekin, onde estaes vós?

Onde estaes, folhas mortas dos lirios escarlates do Japão?...

* * * * *

Uma manhã Camilloff entrando na chancellaria, onde eu fumava o cachimbo

d'amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um

canapé, e contou-nos radiante as noticias que lhe dera o penetrante

principe Tong.--Descobrira-se emfim que um opulento Mandarim, de nome

Ti-Chin-Fú, vivera outr'ora nos confins da Mongolia, na villa de

Tien-Hó! Tinha morrido subitamente: e a sua larga descendencia residia

lá, em miseria, n'um casebre vil...

Esta descoberta, é certo, não fôra devida á sagacidade da burocracia

imperial--mas fizera-a um astrologo do templo de Faqua, que durante

vinte noites folheára no céo o luminoso archivo dos astros...

--Theodoro, ha-de ser o seu homem!--exclamou Camilloff.

E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

--Ha-de ser o seu homem, Theodoro!

--O meu homem...--murmurei sombriamente.

Era talvez o _meu homem_, sim! Mas não me seduzia ir procurar o _meu

homem_ ou a sua familia, na monotonia d'uma caravana, por essas

desoladas extremidades da China!... Depois, desde que chegára a Pekin,

eu não tornára a avistar a fórma odiosa de Ti-Chin-Fú e do seu papagaio.

A Consciencia era dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o

alto esforço de me ter arrancado ás doçuras do _boulevard_ e do Loreto,

de ter sulcado os mares até ao Império do Meio, parecera á Eterna

Equidade uma expiação sufficiente e uma peregrinação reparadora.

Certamente Ti-Chin-Fú, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio á

sempiterna Immobilidade... Para que iria eu, pois, a Tien-Hó? Porque não

ficaria alli, n'aquelle amavel Pekin, comendo nenufares em calda

d'assucar, abandonando-me ás somnolencias amorosas do _Repouso

discreto_, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio pelo braço do

bom Meriskoff, nos terraços de jaspe da Purificação ou sob os cedros do

Templo do Céo?...

Mas já o zeloso Camilloff, de lapis na mão, ia marcando no mappa o meu

itinerário para Tien-Hó! E mostrando-me, n'um desagradavel

entrelaçamento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados

de lagôas:

--Aqui está! O meu hospede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó...

D'ahi, em barcos chatos vai a My-yun. Boa cidade, ha lá um Buddha

vivo... D'ahi, a cavallo, segue até á fortaleza de Ché-hia. Passa a

grande muralha, famoso espectáculo!... Descança no forte de Ku-pi-hó.

Póde lá caçar a gazella. Soberbas gazellas... E com dois dias de

caminhada está em Tien-Hó... Brilhante, hein?... Quando quer partir?

Ámanhã?...

--Ámanhã--rosnei, tristonho.

Pobre generala! N'essa noite, em quanto Meriskoff, ao fundo da sala,

fazia com tres officiaes da embaixada o seu _whist_ sacramental; e

Camilloff, ao canto do sophá, de braços cruzados, solemne como n'uma

poltrona do Congresso de Vienna, dormia de bocca aberta;--ella sentou-se

ao piano. Eu ao lado, na attitude d'um Lara, devastado pela fatalidade,

retorcia lugubremente o bigode. E a dôce creatura, entre dois gemidos do

teclado, d'uma saudade penetrante, cantou revirando para mim os seus

olhos rebrilhantes e humidos:

L'oiseau s'envole,

Lá bas, lá bas!...

L'oiseau s'envole...

Ne revient pas...

--A ave ha-de voltar ao ninho,--murmurei eu enternecido.

E, afastando-me a esconder uma lagrima, ia resmungando furioso:

--Canalha de Ti-Chin-Fú! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!...

* * * * *

Ao outro dia lá vou para Tien-Hó--com o respeitoso interprete Sá-tó, uma

longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma populaça de koulis.

Ao deixar a muralha da cidade tartara, seguimos muito tempo ao comprido

dos jardins sagrados que orlam o templo de Confucio.

Era no fim do outono; já as folhas tinham amarellecido; uma doçura

tocante errava no ar...

Dos kiosques santos sahia uma susurração de canticos, de nota monotona e

triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, iam-se

arrastando, já entorpecidas da friagem. E aqui e além, ao passar,

avistavamos buddhistas decrepitos, sêccos como pergaminhos e nodosos

como raizes, encruzados no chão sob os sycomoros, n'uma immobilidade de

idolos, contemplando incessantemente o umbigo, á espera da perfeição do

Nirvana...

E eu ia pensando, com uma tristeza tão pallida como aquelle mesmo céo

d'outubro asiatico, nas duas lagrimas redondinhas que vira brilhar, á

despedida, nos olhos verdes da generala!...

VI

Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal

candente, quando chegámos a Tien-Hó.

As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma

torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e

poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um

vasto edificio--que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo

norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar

como nuvens.

Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado _Estalagem da Consolação

terrestre_. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria

fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel

recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor

aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com

um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi

ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro--os

casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça

abjecta... Recolhi ao albergue--onde arreeiros mongoes e crianças

piolhosas me miravam com assombro.

--Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó--disse eu, franzindo a

testa.

---Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes

de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente.

Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos... Quer Vossa Honra

o chá?...

--Traze, Sá-tó.

Bebido o chá, conversámos do _grande plano_: na manhã seguinte eu a

levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú,

annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin:

depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa

distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças como

n'uma gala publica...

--Que te parece, Sá-tó?

--Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio... Vai ser

grande! Vai ser grande!

Como vinha cançado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o

estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China;

enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos

braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia...

Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que

envolvia o barracão--como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia

grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no

quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos dragões suspensos do

tecto fórmas, semelhanças chimericas...

Ergui-me, já nervoso--quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na

facha luminosa do luar...

--Sou eu, Vossa Honra!--murmurou a voz apavorada de Sá-tó.

E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras

roucas a sua afflicção:--emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que

um estrangeiro, o _Diabo estrangeiro_, chegára com bagagens carregadas

de thesouros... Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces

agudas, d'olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes... E

ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das

bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara... Mas pouco

a pouco a malta crescera... Agora vinha d'espreitar por um postigo: e

era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando

sinistramente... A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do

gallo preto!... Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra

negra recuar!... A noite sería de terrores!... E sua mulher, o osso do

seu osso, que estava tão longe, em Pekin!...

--E agora, Sá-tó?--perguntei eu.

--Agora... Vossa Honra! Agora...

Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja

sob o açoite.

Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro

fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com

effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura,

rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as

carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se

na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento

á luz algum ferro de lança inclinada...

--Que querem vossês, canalha?--bradei eu em portuguez.

A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma

pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma

flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n'um barrote...

Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados

sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos

que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú

nos joelhos.

O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo

deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crianças

piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo

d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão

vociferar.

Interpellei então Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós

estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o

assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador,

revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe

Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da

hospitalidade!...

Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um sôpro, que o Governador

de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até

aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas

d'oiro inflammára todos os appetites!... A prudencia ordenava, como um

mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas

de comestiveis...

--E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem

mantimentos?...

--Mas com a rica vida, Vossa Honra!

Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse propôr á turba uma copiosa

distribuição de sapeques,--se ella consentisse em recolher aos seus

casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha...

Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á

malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um cão que

ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de

sapeques--que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador...

Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes;

depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma

suspensão _de quem espera mais_...

--Mais!--murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.

Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de

moedas de meio real enfiadas em cordeis... Já a maleta estava vazia. A

turba rugia, insaciada.

--Mais, Vossa Honra!--supplicou Sá-tó.

--Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

--Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!--chamou Sá-tó, abatendo-se sobre

os joelhos.

A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem

rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as

carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o

madeiramento da _Estalagem da Consolação terrestre_ rangeu e oscillou...

Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros

derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o

coiro das malas abria-se fendido á faca por mãos innumeraveis: no

alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da

lua, eu via em roda do barracão errarem tochas, n'uma dispersão de

fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os cães; e

de todas as viellas desembocava, corria populaça, sombras ligeiras,

agitando chuços e foices recurvas...

Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas

portas despedaçadas: de certo me procuravam, suppondo que eu teria

commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros... O terror

desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo.

Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n'um cheiro acre de

immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando

furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as

crinas...

O Mandarim · 第 3 / 5 段