favoravel ao desenvolvimento d'estas imaginações--parti, viajei
sobriamente, sem pompa, com um bahú e um lacaio.
Visitei, na sua ordem, classica, Paris, a banal Suissa, Londres, os
lagos taciturnos da Escocia; ergui a minha tenda diante das muralhas
evangelicas de Jerusalém; e d'Alexandria a Thebas, fui ao comprido
d'esse longo Egypto monumental e triste como o corredor d'um mausoléo.
Conheci o enjôo dos paquetes, a monotonia das ruinas, a melancolia das
multidões desconhecidas, as desillusões do _boulevard_: e o meu mal
interior ia crescendo.
Agora já não era só a amargura de ter despojado uma familia veneravel:
assaltava-me o remorso mais vasto de ter privado toda uma sociedade d'um
Personagem fundamental, um letrado experiente, columna da Ordem, esteio
d'Instituições. Não se póde arrancar assim a um Estado uma personalidade
do valor de cento e seis mil contos, sem lhe perturbar o equilibrio...
Esta idéa pungia-me, acerbamente. Anciei por saber se na verdade a
desapparição de Ti-Chin-Fú fôra funesta á decrepita China: li todos os
jornaes de Hong-Kong e de Chang-Hai, velei a noite sobre Historias de
viagens, consultei sabios missionarios:--e artigos, homens, livros, tudo
me falla da decadencia do Imperio do Meio, provincias arruinadas,
cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebelliões, templos
aluindo-se, leis perdendo a authoridade, a decomposição d'um mundo, como
uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!...
E eu attribuia-me estas desgraças da Sociedade chineza! No meu espirito
doente Ti-Chin-Fú! tomára então o valor desproporcionado d'um Cesar, um
Moysés, um d'esses sêres providenciaes que são a força d'uma raça. Eu
matára-o; e com elle desapparecera a vitalidade da sua patria! O seu
vasto cerebro poderia talvez ter salvado, a rasgos geniaes, aquella
velha monarchia asiatica--e eu immobilisára-lhe a acção creadora! A sua
fortuna concorreria a refazer a grandeza do Erario--e eu estava-a
dissipando a offerecer pecegos em janeiro ás messalinas do
Helder!...--Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um
imperio!
Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me á orgia.
Installei-me n'um palacete da avenida dos Campos-Elysios--e fui medonho.
Dava festas á Trimalcião: e, nas horas mais asperas de furia libertina,
quando das charangas, na estridencia brutal dos cobres, rompiam os
_can-cans_; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas
canalhas; quando os meus convidados bohemios, atheus de cervejaria,
injuriavam Deus, com a taça de _Champagne_ erguida--eu, tomado
subitamente como Heliogabalo d'um furor de bestialidade, d'um ódio
contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e
zurrava formidavelmente de burro...
Depois quiz ir mais baixo, ao deboche da plebe, ás torpezas alcoólicas
do _Assomoir_: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete para a
nuca, de braço dado com _Mes-Bottes_ ou _Bibi-la-Gaillarde_, n'um tropel
avinhado, fui cambaleando pelos _boulevards_ exteriores, a uivar, entre
arrotos:
_Allons, enfants de la patrie-e-e!...
Le jour de gloire est arrivé..._
Foi uma manhã, depois d'um d'estes excessos, á hora em que nas trevas da
alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual--que me nasceu, de
repente, a idéa de partir para a China! E, como soldados em acampamento
adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se vão juntando e
formando columna--outras idéas se foram reunindo no meu espirito,
alinhando-se, completando um plano formidavel... Partiria para Pekin;
descobriria a familia de Ti-Chin-Fú; esposando uma das senhoras,
legitimaría a posse dos meus milhões; daria áquella casa letrada a
antiga prosperidade; celebraria funeraes pomposos ao Mandarim, para lhe
acalmar o espirito irritado; iria pelas provincias miseraveis fazendo
colossaes distribuições d'arroz; e, obtendo do Imperador o botão de
crystal de Mandarim, accesso facil a um bacharel, substituir-me-hia á
personalidade desapparecida de Ti-Chin-Fú--e poderia assim restituir
legalmente á sua patria, senão a authoridade do seu saber, ao menos a
força do seu oiro.
Tudo isto, por vezes, me apparecia como um programma indefinido,
nevoento, pueril e idealista. Mas já o desejo d'esta aventura original e
epica me envolvera; e eu ia, arrebatado por elle, como uma folha secca
n'uma rajada.
Anhelei, suspirei por pisar a terra da China!--Depois d'altos
preparativos, apressados a punhados d'oiro, uma noite parti emfim para
Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o _Ceylão_. E na manhã
seguinte, por um mar azul-ferrete, sob o vôo branco das gaivotas, quando
os primeiros raios do sol ruborisavam as torres de Nossa Senhora da
Guarda, sobre o seu rochedo escuro--puz a prôa ao Oriente.
IV
O Ceylão teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.
D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno _steamer_ da
Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa
de _touriste_: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos
vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas
calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente
indifferente.
Quando o capitão do _steamer_, um _yankee_ impudente de focinho de
chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as
ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,--eu recusei, com um
movimento secco de cabeça, sem mesmo desviar os olhos tristes da
corrente barrenta do rio.
Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a
Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes
empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao
longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre
aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos;
topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e
esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!
Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos
que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official
das campanhas da Asia Central, e então embaixador da Russia em Pekin. Eu
vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso
interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu serviço, explicou-me que as
cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle,
havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia
em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e
entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro
escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.
Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um
cartão de visita, com estas palavras traçadas a lapis sob o seu nome:
«_Saúde! o animal é dôce de bocca_!»
Montei o poney: e a um _hurrah_! dos cossacos, n'um agitar heroico de
lanças, partimos á desfilada pela poeirenta planicie--porque já a tarde
declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa
as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho
batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de
marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de
Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de dragões arrogantes.
Vamos correndo então á beira de canaes d'agua negra: começam a apparecer
pomares, aqui e além uma aldêa de côr azulada, aninhada ao pé de um
Pagode:--de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado...
Pekin está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e barbara,
d'um negro baço, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as
architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um
fundo de poente de purpura ensanguentada...
Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como
suspensas no ar, as montanhas da Mongolia...
Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu
atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora,
ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construcção
biblica: á sua base apinhava-se uma confusão de barracas, feira exotica,
onde rumorejava uma multidão, e a luz de lanternas oscillantes cortava
já o crepúsculo de vagas manchas côr de sangue; os toldos brancos faziam
ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.
Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate
todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha
Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas,
cadeirinhas de xarão, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos
de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos
dromedarios balançando a sua carga em cadencia...
D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e
vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros
seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz dôce, como colossaes
lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes
murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a
vermelhão, aclarado por fios de lampadas de papel transparente,
esperava-me um membrudo figurão, de bigodes brancos, apoiado a um grosso
espadão. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o
passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores...
O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo,
segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de
porcelana, onde entre rodelas finas de limão sobrenadavam esponjas
brancas, n'um perfume forte de lilaz...
Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito
fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no _boudoir_
da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de
Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa
escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo
e de chá.
Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Leão XIII, e da
magreza de Sarah Bernardth...
Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio.
Depois ella sentou-se ao piano--e a sua voz de contralto quebrou até
tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias
de _Madame Favart_ e com as melodias afagantes do _Rei de Lahore_.
* * * * *
Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim,
contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me
traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso
bigode cossaco...
--O meu prezado hospede sabe o chinez?--perguntou-me de repente, fixando
em mim a pupilla sagaz.
--Sei duas palavras importantes, general: _Mandarim_ e _chá_.
Bile passou a sua mão de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que
lhe sulcava a calva:
--_Mandarim_, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguem a entende
na China. É o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu
bello paiz...
--Quando nós tinhamos navegadores...--murmurei, suspirando.
Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:
--...Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do
seu verbo, do seu lindo verbo...
--Quando tinhamos verbos...--rosnei, no habito instinctivo de deprimir a
patria.
Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho--e proseguiu
paciente e grave:
--Do seu lindo verbo _mandar_ ... Resta-lhe por tanto _chá_. É um
vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o
insufficiente para servir a todas as relações sociaes. O meu estimavel
hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a
grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e
socialmente, esse chorado defunto... Para tudo isto dispõe da palavra
_chá_. É pouco.
Não pude negar--que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz
adunco de milhafre, pôz-me ainda outras objecções que eu via erguerem-se
diante do meu desejo--como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora
da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e
seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do
Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um
Mandarim...
--Mas porque m'as recusaria?--exclamei.--Eu pertenço a uma boa familia
da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em
Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma repartição publica... Possuo
milhões... Tenho a experiencia do estylo administrativo...
O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus
attributos.
--Não é--disse elle emfim--que o Imperador realmente o recusasse: é que
o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei
chineza, n'este ponto, é explicita e secca.
Baixei a cabeça, acabrunhado.
--Mas, general--murmurei--eu quero livrar-me da presença odiosa do velho
Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!... Se eu entregasse metade dos meus
milhões ao thesouro chinez, já que não me é dado pessoalmente
applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado...? Talvez
Ti-Chin-Fú se calmasse...
O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o hombro:
--Êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao
thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes
dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar
porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas:
não alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das
estradas publicas... Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de
Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso não a satisfaria.
--E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer
particularmente, como philanthropo, largas distribuições d'arroz á
populaça faminta? É uma idéa...
--Funesta--disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.--A côrte
imperial veria ahi immediatamente uma ambição politica, o tortuoso plano
de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia... O meu bom
amigo seria decapitado... É grave...
--Maldição!--berrei.---Então para que vim eu á China?
O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um
sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:
--Faça uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú... Eu indagarei do
primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole
interessante... Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milhões...
Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial,
com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de
estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de
carpideiras ululando sinistramente, etc. etc... Se depois de tudo isto a
sua consciencia não adormecer e o phantasma insistir...
--Então?
--Córte as guelas.
--Obrigado, general.
* * * * *
Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o
respeitoso Sá-Tó e a generala:--que, para frequentar a familia
Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia
desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me
ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim...
A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a
caracterisação:--e quando na manhã seguinte, depois d'arranjado pelos
costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda
escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almoço sobre a mesa de
charão negro,--a generala recuou como á appariçâo do proprio Tong-Tché,
Filho do Céo!
Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o
peitilho ricamente bordado de dragões e flôres d'oiro: por cima um
casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fôfo: as
calças de setim côr de avellã descobriam ricas babouches amarellas
pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras:
e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque
de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e são fabricados
em Swaton.
E, pelas mysteriosas correlações com que o vestuario influenceia o
caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:--o amor dos
ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta
de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio
ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o
gosto das coisas assucaradas...
Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse á
generala:--_Bon jour, Madame_. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos
fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o _chin-chin_!
--É adorável, é precioso!--dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as
maosinhas pallidas.
N'essa manhã, em honra da minha nova incarnação, havia um almoço chinez.
Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros
fabulosos desenhados a negro! O serviço começou por ostras de Ning-Pó.
Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram
deliciosas febras de barbatana de tubarão, olhos de carneiro com picado
d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cantão, e
emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós...
Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Chão-Chigne!
E por fim, com que gôzo recebi a minha taça d'agua a ferver, onde deitei
uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março,
colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas mãos puras de
virgens!...
Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma
modulação guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia
Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous
tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A
China tem encantos d'um raro gosto...
Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a _Femme à barbe_: e
quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do
principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú--eu,
repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.
* * * * *
A habitação de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares
e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a
largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre
se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de
sycomoros.
Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol,
com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o
toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e
dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros,
a cabeça toda cheia de flôres, fazendo girar nos pulsos dois aros de
prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica
cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto,
vão levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os
uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com
inscripções bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem
bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita
de beiço cahido...
A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas
verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um
silencio d'igreja, subtis como sombras, vão examinando as
preciosidades--porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins,
sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes,
uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas
tranças, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o
contempla beatamente, com os dedos cruzados na pança: ao fundo o
mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas
taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas
perturba e entristece...
Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do
Imperador! Moços nobres vem descendo do terraço d'um templo onde se
estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da
guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda
amarella, com o Dragão bordado, que é o emblema sagrado do Imperador.
Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de
barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do
ancião; vinha fallando só, e trazia na mão uma vara sobre que pousavam
cotovias domesticadas... Era um principe do Imperio.
Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma
porta de jardim, dois Mandarins pançudos que para entrar se trocavam
indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos
d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico--que lhes fazia oscillar d'um
modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pavão. Depois se
erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de
papel, ora em fórma de dragões, ora de cetaceos, ora d'aves
fabulosas--enchendo o espaço d'uma inverosimil legião de monstros
transparentes e ondeantes...
* * * * *
--Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes...
E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de
Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a populaça. As ruas
alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da
immundicie de gerações recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz
alguma das lages de marmore côr de rosa que outr'ora o calçavam, no
tempo da grandeza dos Ming.
Dos dois lados são--ora terrenos vagos onde uivam manadas de cães
famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas
taboletas esguias e sarapintadas, balouçando-se d'uma haste de ferro. A
distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes côr de
purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues
envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multidão rumorosa e
espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem
cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre
exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de
camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios
vestidos de pelle de carneiro...
Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos
semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas
d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os
astrologos de longas tunicas, com dragões de papel collados ás cóstas,
vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade
fabulosa e singular!
De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que
um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados
uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o
estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de
auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham
queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam
de dôr espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um
kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em
fórma d'ave.
Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de
mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as
mulheres, com os cabellos entremeados de velhas flôres de papel, roiam
ossos tranquillamente; e cadaveres de crianças apodreciam ao lado, sob o
vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um
condemnado estendia, através das grades, as mãos descarnadas, á
esmola... Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita:
ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabeças
de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e
negro...
* * * * *
--Ouf!--exclamei, fatigado e aturdido.--Sá-Tó, agora quero o repouso, o
silencio, e um charuto caro...