Senti tremer o Globo sob os meus pés--e cerrei um momento os

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EÇA DE QUEIROZ

O MANDARIM

LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON, EDITOR.

Porto e Braga

1880

O MANDARIM

PROLOGO

1.^o AMIGO (_bebendo Cognac e soda, debaixo d'arvores, n'um terraço, á

beira d'agua_)

Camarada, por estes calores do estio que embotam a ponta da sagacidade,

repousemos do aspero estudo da Realidade humana... Partamos para os

campos do Sonho, vaguear por essas azuladas collinas romanticas onde se

ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as

ruinas do Idealismo... Façamos phantasia!...

2.^o AMIGO

Mas sobriamente, camarada, parcamente!... E como nas sabias e amaveis

Allegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade

discreta...

(COMEDIA INEDITA).

I

Eu chamo-me Theodoro--e fui amanuense do Ministerio do Reino.

N'esse tempo vivia eu á travessa da Conceição n.^o 106, na casa

d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major

Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração

do bairro central, esguio e amarello como uma tocha d'enterro; e o

possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola

franceza.

A minha existencia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas

de lustrina á carteira da minha repartição, ia lançando, n'uma formosa

letra cursiva, sobre o papel Tojal do Estado, estas phrases faceis:

«_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr._--_Tenho a honra de communicar a V. Exc.^a...

Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a, Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr..._»

Aos domingos repousava: installava-me então no canapé da sala de jantar,

de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa,

costumava limpar com clara d'ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora,

sobretudo no verão, era deliciosa: pelas janellas meio cerradas

penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da

Conceição Nova, e o arrulhar das rolas na varanda; a monotona susurração

das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véo nupcial da

Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas

bicaes; pouco a pouco o tenente, envolvido n'um lençol como um idolo no

seu manto, ia adormecendo, sob a fricção molle das carinhosas mãos da D.

Augusta; e ella, arrebitando o dedo minimo branquinho e papudo,

sulcava-lhe as rêpas lustrosas com o pentesinho dos bichos... Eu então,

enternecido, dizia á deleitosa senhora:

--Ai D. Augusta, que anjo que é!

Ella ria; chamava-me _enguiço_! Eu sorria, sem me escandalisar.

_Enguiço_ era com effeito o nome que me davam na casa--por eu ser magro,

entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter á

cabeceira da cama uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres que

pertencera á mamã, e corcovar. Infelizmente corcóvo--do muito que

verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pêga assustada

diante dos senhores Lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó

perante os meus Directores Geraes. Esta attitude de resto convém ao

bacharel; ella mantem a disciplina n'um Estado bem organisado; e a mim

garantia-me a tranquillidade dos domingos, o uso d'alguma roupa branca,

e vinte mil reis mensaes.

Não posso negar, porém, que n'esse tempo eu era ambicioso--como o

reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lepido Couceiro. Não que me

revolvesse o peito o appetite heroico de dirigir, do alto d'um throno,

vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jámais aspirasse a

rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida d'um correio

choitando;--mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com

Champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas

vezes por semana, adormecer, n'um extasi mudo, sobre o seio fresco de

Venus. Oh! moços que vos dirigieis vivamente a S. Carlos, atabafados em

paletots caros onde alvejava a gravata de _soirée_! Oh! tipoias,

apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros--quantas

vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil

reis por mez e o meu geito encolhido de enguiço me excluiam para sempre

d'essas alegrias sociaes vinha-me então ferir o peito--como uma frecha

que se crava n'um tronco, e fica muito tempo vibrando!

Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida

humilde tem doçuras: é grato, n'uma manhã de sol alegre, com o

guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o Diario de

Noticias; pelas tardes de verão, nos bancos gratuitos do Passeio,

gozam-se suavidades de idyllio; é saboroso á noite no Martinho, sorvendo

aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a patria... Depois, nunca

fui excessivamente infeliz--porque não tenho imaginação: não me

consumia, rondando e almejando em torno de paraisos ficticios, nascidos

da minha propria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago; não

suspirava, olhando as lucidas estrellas, por um amor á Romeo, ou por uma

gloria social á Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao

tangivel, ao que já fôra alcançado por outros no meu bairro, ao que é

accessivel ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma _table

d'hôte_ mastiga a bucha de pão secco á espera que lhe chegue o prato

rico da _Charlotte russe_. As felicidades haviam de vir: e para as

apressar eu fazia tudo o que devia como portuguez e como

constitucional:--pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dôres, e

comprava decimos da loteria.

No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvoluções do meu

cerebro me não habilitavam a compôr odes, á maneira de tantos outros ao

meu lado que se desforravam assim do tedio da profissão; como o meu

ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permittia um vicio--tinha

tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes

desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras

curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia,

Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados... O typo venerando, o

papel amarellado com picadas de traça, a grave encadernação freiratica,

a fitinha verde marcando a pagina--encantavam-me! Depois, aquelles

dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu sêr,

sensação comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na

quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua

triste...

Uma noite, ha annos, eu começára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos,

um capitulo intitulado _Brecha das Almas_; e ia cahindo n'uma

somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom

neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova

brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:

«No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis

de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o

nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu

herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa

campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um

suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu

verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro.

Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

Estaquei, assombrado, diante da pagina aberta: aquella interrogação

«homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me facêta, picaresca, e

todavia perturbava-me prodigiosamente. Quiz lêr mais; mas as linhas

fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, d'uma

lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpellação

estranha--«tocarás tu a compainha?»

Se o volume fosse d'uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarella,

eu, que por fim não me achava perdido n'uma floresta de ballada allemã,

e podia da minha sacada vêr branquejar á luz do gaz o correame da

patrulha--teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a

allucinação nervosa. Mas aquelle sombrio in-folio parecia estalar magia;

cada letra affectava a inquietadora configuração d'esses signaes da

velha cabala, que encerram um attributo fatidico; as virgulas tinham o

retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos n'uma alvura de

luar; no _ponto d'interrogação_ final eu via o pavoroso gancho com que o

Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na

inviolavel cidadella da Oração!... Uma influencia sobrenatural

apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fóra da realidade, do

raciocinio: e no meu espirito foram-se formando duas visões--d'um lado

um Mandarim, decrepito, morrendo sem dôr, longe, n'um kiosque chinez, a

um _ti-li-tin_ de campainha; do outro toda uma montanha de ouro

scintillando aos meus pés! Isto era tão nitido, que eu via os olhos

obliquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos d'uma tenue

camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E immovel,

arripiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente

diante de mim sobre um diccionario francez--a campainha prevista, citada

no mirifico in-folio...

Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metallica me

disse, no silencio:

--Vamos, Theodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um

forte!

O _abat-jour_ verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a

tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um individuo corpulento, todo

vestido de preto, de chapéo alto, com as duas mãos calçadas de luvas

negras gravemente apoiadas ao cabo d'um guarda-chuva. Não tinha nada de

phantastico. Parecia tão contemporaneo, tão regular, tão classe-média

como se viesse da minha repartição...

Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e

duras; o nariz brusco, d'um aquilino formidavel, apresentava a expressão

rapace e atacante d'um bico d'aguia; o córte dos labios, muito firme,

fazia-lhe como uma bocca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam

dois clarões de tiro, partindo subitamente d'entre as sarças tenebrosas

das sobrancelhas unidas; era livido--mas, aqui e além na pelle,

corriam-lhe raiações sanguineas como n'um velho marmore phenicio.

Veio-me á idéa de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo

o meu raciocinio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu

nunca acreditei no Diabo--como nunca acreditei em Deus. Jámais o disse

alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes

publicos, encarregados de manter o respeito por taes entidades: mas que

existam estes dois personagens, velhos como a Substancia, rivaes

bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amaveis,--um de barbas

nevadas e tunica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos

luminosos, entre uma côrte mais complicada que a de Luiz XIV; e o outro

enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chammas

inferiores, n'uma imitação burgueza do pitoresco Plutão--não acredito.

Não, não acredito! Céo e Inferno são concepções sociaes para uso da

plebe--e eu pertenço á classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora

das Dôres: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar

no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil reis, implorei a

benevolencia do senhor deputado; igualmente para me subtrahir á tisica,

á angina, á navalha de ponta, á febre que vem da sargeta, á casca de

laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males publicos,

necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapa-pé ou pelo

incensador o homem prudente deve ir fazendo assim uma serie de sabias

adulações desde a Arcada até ao Paraiso. Com um compadre no bairro, e

uma comadre mystica nas Alturas--o destino do bacharel está seguro.

Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao individuo

vestido de negro:

--Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

Elle ergueu um pouco o chapéo, descobrindo a fronte estreita, enfeitada

d'uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e

respondeu, palavra a palavra:

--Aqui está o seu caso, estimavel Theodoro. Vinte mil reis mensaes são

uma vergonha social! Por outro lado, ha sobre este globo coisas

prodigiosas: ha vinhos de Borgonha, como por exemplo o _Romanée-Conti_

de 58 e o _Chambertin_ de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze

mil reis; e quem bebe o primeiro calix, não hesitará, para beber o

segundo, em assassinar seu pai... Fabricam-se em Paris e em Londres

carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferivel

percorrer n'ellas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses,

pelos céos, sobre os fôfos coxins das nuvens... Não farei á sua

instrucção a offensa de o informar que se mobilam hoje casas, d'um

estylo e d'um conforto, que são ellas que realisam superiormente esse

regalo ficticio, chamado outr'ora a «Bemaventurança». Não lhe fallarei,

Theodoro, d'outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Theatro do

_Palais Royal_, o _baile Laborde_, o _Café Anglais_... Só chamarei a sua

attenção para este facto: existem sêres que se chamam

Mulheres--differentes d'aquelles que conhece, e que se denominam Femeas.

Estes sêres, Theodoro, no meu tempo, a paginas 3 da Biblia, apenas

usavam exteriormente uma _folha de vinha_. Hoje, Theodoro, é toda uma

symphonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, _baptistes_,

setins, flôres, joias, cachemiras, gazes e velludos... Comprehende a

satísfação inenarravel que haverá, para os cinco dedos de um christão,

em percorrer, palpar estas maravilhas macias;--mas tambem percebe que

não é com o troco d'uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as

contas d'estes cherubins... Mas ellas possuem melhor, Theodoro: são os

cabellos côr do ouro ou côr da treva, tendo assim nas suas tranças a

apparencia emblematica das duas grandes tentações humanas--a fome do

metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda teem

mais: são os braços côr de marmore, d'uma frescura de lirio orvalhado;

são os seios, sobre os quaes o grande Praxiteles modelou a sua Taça, que

é a linha mais pura e mais ídeal da Antiguidade.... Os seios, outr'ora

(na idéa d'esse ingenuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de

quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram

destinados á nutrição augusta da humanidade; socegue porém, Theodoro;

hoje nenhuma maman racional os expõe a essa funcção deterioradora e

severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gaz das

_soirées_,--e para outros usos secretos. As conveniencias impedem-me de

proseguir n'esta exposição radiosa das bellezas, que constituem o _Fatal

Feminino_... De resto as suas pupillas já rebrilham.... Ora todas estas

coisas, Theodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus

vinte mil reís por mez... Confesse, ao menos, que estas palavras teem o

veneravel sello da verdade!...

Eu murmurei com as faces abrasadas:

--Teem.

E a sua voz proseguiu, paciente e suave:

--Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma

bagatella... Mas emfim, constituem um começo; são uma ligeira

habilitação para conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o

Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrepito e está

gottoso: como homem, como funccionario do celeste imperio, é mais inutil

em Pekin e na humanidade, que um seixo na bocca d'um cão esfomeado. Mas

a transformação da substancia existe: garanto-lh'a eu, que sei o segredo

das coisas... Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido,

e restitue-o além ao conjuncto das fórmas como vegetal viçoso. Bem póde

ser que elle, inutil como Mandarim no Imperio do Meio, vá ser util

n'outra terra como rosa perfumada ou saboroso repôlho. Matar, meu filho,

é quasi sempre equilibrar as necessidades universaes. É eliminar aqui a

excrescencia para ir além supprir a falta. Penetre-se d'estas solidas

philosophias. Uma pobre costureira de Londres anceia por vêr florir, na

sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flôr consolaria aquella

desherdada; mas na disposição dos sêres, infelizmente, n'esse momento, a

substancia que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem d'Estado... Vem

então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro

leva-lhe os intestinos; enterram-no, com tipoias atraz; a materia começa

a desorganisar-se, mistura-se á vasta evolução dos atomos--e o superfluo

homem de governo vai alegrar, sob a fórma de amor perfeito, a agua

furtada da loura costureira. O assassino é um philanthropo! Deixe-me

resumir, Theodoro: a morte d'esse velho Mandarim idiota traz-lhe á

algibeira alguns milhares de contos. Póde desde esse momento dar

pontapés nos poderes publicos: medite na intensidade d'este gozo! É

desde logo citado nos jornaes: reveja-se n'esse maximo da gloria humana!

E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer _ti-li-tin._ Eu não sou

um barbaro: comprehendo a repugnancia d'um _gentleman_ em assassinar um

contemporaneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é

repulsivo o agonisar d'um corpo humano. Mas aqui, nenhum d'esses

espectaculos torpes... É como quem chama um criado... E são cento e

cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus

apontamentos... O Theodoro não duvída de mim. Sou um

cavalheiro:--provei-o, quando, fazendo a guerra a um tyranno na primeira

insurreição da justiça, me vi precipitado d'alturas que nem Vossa

Senhoria concebe... Um trambulhão consideravel, meu caro senhor! Grandes

desgostos! O que me consola é que o OUTRO está tambem muito abalado:

porque, meu amigo, quando um Jehovah tem apenas contra si um Satanaz,

tira-se bem de difficuldades mandando carregar mais uma legião

d'archanjos; mas quando o inimigo é o homem, armado d'uma penna de pato

e d'um caderno de papel branco--está perdido... Emfim são seis mil

contos. Vamos, Theodoro, ahi tem a campainha, seja um homem.

Eu sei o que deve a si mesmo um christão. Se este personagem me tivesse

levado ao cume d'uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia,

e ahi, mostrando-me cidades, raças e imperios adormecidos, sombriamente

me dissesse:--«Mata o Mandarim, e tudo o que vês em valle e collina será

teu»,--eu saberia replicar-lhe, seguindo um exemplo illustre, e erguendo

o dedo ás profundidades constelladas:--«O meu reino não é d'este mundo!»

Eu conheço os meus authores. Mas eram cento e tantos mil contos,

offerecidos á luz d'uma vela de stearina, na travessa da Conceição, por

um sujeito de chapéo alto, apoiado a um guarda-chuva...

Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha. Foi talvez

uma illusão; mas pareceu-me que um sino, de bocca tão vasta como o mesmo

céo, badalava na escuridão, através do Universo, n'um tom temeroso que

decerto foi acordar sóes que faziam né-né e planetas pançudos resonando

sobre os seus eixos...

O individuo levou um dedo á palpebra, e limpando a lagrima que ennevoára

um instante o seu olho rutilante:

--Pobre Ti-Chin-Fú!...

--Morreu?

--Estava no seu jardim, socegado, armando, para o lançar ao ar, um

papagaio de papel, no passatempo honesto d'um Mandarim retirado,--quando

o surprehendeu este _ti-li-tin_ da campainha. Agora jaz á beira d'um

arroio cantante, todo vestido de sêda amarella, morto, de pança ao ar,

sobre a relva verde: e nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que

parece tão morto como elle. Ámanhã são os funeraes. Que a sabedoria de

Confucio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!

E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chapéo, sahiu, com o

seu guarda-chuva debaixo do braço.

Então, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia d'um

pesadêlo. Saltei ao corredor. Uma voz jovial fallava com a Madame

Marques; e a cancella da escada cerrou-se subtilmente.

--Quem é que sahiu agora, ó D. Augusta?--perguntei, n'um suor.

--Foi o Cabritinha que vai um bocadinho á batota...

Voltei ao quarto: tudo lá repousava tranquillo, identico, real. O

in-folio ainda estava aberto na pagina temerosa. Reli-a: agora

parecia-me apenas a prosa antiquada d'um moralista caturra; cada palavra

se tornára como um carvão apagado...

Deitei-me:--e sonhei que estava longe, para além de Pekin, nas

fronteiras da Tartaria, no kìosque d'um convento de Lamas, ouvindo

maximas prudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de chá, dos

labios de um Buddha vivo.

II

Decorreu um mez.

Eu, no entanto, rotineiro e triste, lá ia pondo o meu cursivo ao serviço

dos poderes publicos, e admirando aos domingos a pericia tocante com que

a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim

que, n'essa noite, eu adormecera sobre o in-folio, e sonhára com uma

«Tentação da Montanha» sob fórmas familiares. Instinctivamente, porém,

comecei a preoccupar-me com a China. Ia lêr os telegrammas á Havaneza; e

o que o meu interesse lá buscava, eram sempre as noticias do Imperio do

Meio; parece porém que, a esse tempo, nada se passava na região das

raças amarellas... A _Agencia Havas_ só tagarellava sobre a Herzegovina,

a Bosnia, a Bulgaria e outras curiosidades barbaras....

Pouco a pouco fui esquecendo o meu episodio phantasmagorico: e ao mesmo

tempo, como gradualmente o meu espirito reserenava, voltaram de novo a

mover-se as antigas ambições que lá habitavam,--um ordenado de Director

Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.

Mas taes regalos pareciam-me tão inaccessiveis, tão nascidos do

sonho--como os proprios milhões do Mandarim. E pelo monotono deserto da

vida,--lá foi seguindo, lá foi marchando, a lenta caravana das minhas

melancolias...

Um domingo de agosto, de manhã, estirado na cama em mangas de camisa, eu

dormitava, com o cigarro apagado no labio--quando a porta rangeu

devagarinho, e entreabrindo a palpebra dormente, vi curvar-se ao meu

lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

--O snr. Theodoro?... O snr. Theodoro do Ministerio do Reino?...

Ergui-me lentamente sobre o cotovêlo e respondi, n'um bocejo:

--Sou eu, cavalheiro.

O individuo recurvou o espinhaço: assim na presença augusta d'el-rei

Bobeche se arquêa o cortezão... Era pequenino e obeso: a ponta das

suiças brancas roçava-lhe as lapellas do fraque d'alpaca: veneraveis

oculos d'oiro reluziam na sua face bochechuda, que parecia uma prospera

personificação da Ordem: e todo elle tremia desde a calva, lustrosa até

aos botíns de bezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:

--São noticias para vossa senhoria! Consideráveis noticias! O meu nome é

Silvestre... Silvestre, Juliano & C.^a... Um serviçal criado de vossa

excellencia... Chegaram justamente pelo paquete de Southampton... Nós

somos correspondentes de Brito, Alves & C.^a de Macau... Correspondentes

de Craig and Co d'Hong-Kong... As letras vem d'Hong-Kong...

O sujeito engasgava-se; e a sua mão gordinha agitava em tremuras um

_enveloppe_ repleto, com um sello de lacre negro.

--Vossa excellencia--proseguiu--estava decerto prevenido... Nós é que o

não estavamos... A atrapalhação é natural... O que esperamos é que vossa

excellencia nos conserve a sua benevolencia... Nós sempre respeitámos

muito o caracter de vossa excellencia... Vossa excellencia é n'esta

terra uma flôr de virtude, e espelho de bons! Aqui estão os primeiros

saques sobre Bhering and Brothers de Londres... Letras a trinta dias

sobre Rothschild...

A este nome, resoante como o mesmo oiro, saltei vorazmente do leito.

--O que é isso, senhor?--gritei.

E elle, gritando mais, brandindo o _enveloppe_, todo alçado no bico dos

botins:

--São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre

Londres, Paris, Hamburgo e Amsterdam, sacados a seu favor,

excellentissimo senhor!... A seu favor, excellentissimo senhor! Pelas

casas de Hong-Kong, de Chang-Hai e de Cantão, da herança depositada do

Mandarim Ti-Chin-Fú!!

Senti tremer o Globo sob os meus pés--e cerrei um momento os olhos. Mas

comprehendi, n'um relance, que eu era, desde essa hora, como uma

incarnação do Sobrenatural, recebendo d'elle a minha força e possuindo

os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem

desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha

hieratica--abstive-me de ir soluçar, como m'o pedia a alma, sobre o

vasto seio da Madame Marques...

D'ora em diante cabia-me a impassibilidade d'um Deus--ou d'um Demonio:

dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano

& C.^a estas palavras:

--Está bem! O Mandarim... Esse Mandarim que disse portou-se com

cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de familia. Deixe

ahi os papeis... Bons dias.

Silvestre, Juliano & C.^a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e

fronte voltada ao chão.

Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a

cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada...

Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava,

n'uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e

além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes

brilhantes d'arreios. E de repente, veio-me esta idéa, esta triumphante

certeza--que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno!

Que nenhuma das mulheres que via, deixaria de me offerecer o seu seio

nú, a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de

domingo, se prostrariam diante de mim como diante de um Christo, de um

Mahomet ou de um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis

mil contos sobre as praças da Europa!...

Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera

d'aquella humanidade subalterna--que se considerava livre e forte, em

quanto por cima, n'uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n'um

_enveloppe_ lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua

escravidão!... Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do

Poder, tudo gozei, pela imaginação, n'um instante, e d'um só sôrvo. Mas

logo, uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e sentindo o mundo

aos meus pés--bocejei como um leão farto.

De que me serviam por fim tantos milhões, senão para me trazerem, dia a

dia, a affirmação desoladora da villeza humana?... E assim, ao choque de

tanto oiro, ia desapparecer aos meus olhos como um fumo a belleza moral

do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira;

e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.

D'ahi a pouco a Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas

sêdas pretas.

--Está-se á sua espera para jantar, enguiço!...

Emergi da minha amargura para lhe responder seccamente:

--Não janto.

--Mais fica!

N'esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo,

dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me

deliciosamente:--era a tourada vista d'um camarote; depois um jantar com

_Champagne_; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei

as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d'abutre

fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a,

berrei:

--Aos touros!

--São dez tostões, meu amo!

Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada--que

fallava em placas de prata a um colosso d'oiro! Enterrei a mão na

algibeira ajoujada de milhões, e tirei o meu metal: tinha setecentos e

vinte!

O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:

--Mas tenho letras!... Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!...

--Não péga.

Setecentos e vinte!... E touros, jantar de lord, andaluzas nuas, todo

esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.

Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote,

apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n'aquella abstracção em

que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.

Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu

quarto andar; humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e

passei essa primeira noite de riqueza, bocejando sobre o leito

solitario,--em quanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de

quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o

_Fado da Cotovia_.

* * * * *

Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem

dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.

Mas como o meu Racionalismo me impedia d'attribuir estes thesouros

imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções

puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que

constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação

_das causas primarias, das origens essenciaes_--bem depressa me decidi a

aceitar seccamente este Phenomeno; e a utilisal-o com largueza. Portanto

corri de quinzena ao vento para o _London Brazìlian Bank_...

Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o _Banco

d'Inglaterra_, de mil libras; e soltei esta deliciosa palavra:

--Oiro!

Um caixeiro suggeriu-me com doçura:

--Talvez lho fosse mais commodo em notas...

Repeti seccamente:

--Oiro!

Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado,

icei-me para uma caleche. Sentía-me gordo, sentia-me obeso; tinha na

bocca um sabor d'oiro, uma seccura de pó d'oiro na pelle das mãos: as

paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d'oiro: e

dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes--como o

movimento d'um oceano que nas vagas rolasse barras d'oiro.

Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um odre mal firme,

deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr

repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna,

empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça...

Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n'um gozo de Nababo.

Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me

enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.

--Pára, animal!--berrei, ao cocheiro.

A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma

coisa cara a comprar--joia de rainha ou consciencia de estadista: nada

vi; precipitei-me então para um estanco.

--Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

--Quantos?--perguntou servilmente o homem.

--Todos!--respondi, com brutalidade.

Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio,

estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de

cobre por entre os meus punhados d'oiro. Repelli-a, impaciente: e, de

chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.

Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director

Geral: immediatamente, achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo

comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus

milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha...

Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d'elle, muito

tempo, grunhindo n'um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e

o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de

opulencia... Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

Ah, que dia! Jantei n'um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista,

com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de

todas as communidades religiosas--como para matar uma sêde de trinta

annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me

para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e

achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a

alma como esvaírem-se, dissolverem-se n'aquelle ambiente abafado onde

errava um cheiro de pó de arroz, de fêmea e de punch...

Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam

fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão.

Então ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a

coberta, jazia uma figura bojuda, de Mandarim fulminado, vestida de sêda

amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços como morto

tambem, tinha um papagaio de papel!

Abri desesperadamente a janella: tudo desappareceu;--o que estava agora

sobre o leito era um velho paletot alvadio.

III

Então começou a minha vida de milionario. Deixei bem depressa a casa da

Madame Marques--que, desde que me sabía rico, me tratava todos os dias a

arroz dôce, e ella mesma me servia, com o seu vestido de sêda dos

domingos. Comprei, habitei o palacete amarello, ao Loreto: as

magnificencias da minha installação são bem conhecidas pelas gravuras

indiscretas da Illustração Franceza. Tornou-se famoso na Europa o meu

leito, d'um gosto exuberante e barbaro, com a barra recoberta de laminas

d'ouro lavrado, e cortinados d'um raro brocado negro onde ondeam,

bordados a perolas, versos eroticos de Catullo; uma lampada, suspensa no

interior, derrama alli a claridade lactea e amorosa d'um luar de verão.

Os meus primeiros mezes ricos, não o occulto, passei-os a amar--a amar

com o sincero bater de coração d'um pagem inexperiente. Tinha-a visto,

como n'uma pagina de novella, regando os seus craveiros á varanda:

chamava-se Candida; era pequenina, era loira; morava a Buenos-Ayres,

n'uma casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me pela graça e

pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem creado de mais fino e

fragil--Mimi, Virginia, a Joanninha do Valle de Santarem.

Todas as noites eu cahia, em extasis de mystico, aos seus pés côr de

jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil

reis: ella repellia-as primeiro com um rubor,--depois, ao guardal-as na

gaveta, chamava-me o seu _anjo Tótó_.

Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso

tapete syrio, até ao seu _boudoir_--ella estava escrevendo, muito

enlevada, de dedinho no ar: ao vêr-me, toda tremula, toda pallida,

escondeu o papel que tinha o seu monogramma. Eu arranquei-lh'o, n'um

ciume insensato. Era a carta, a carta costumada, a carta necessaria, a

carta que desde a velha antiguidade a mulher sempre escreve; começava

por _meu idolatrado_--e era para um alferes da visinhança...

Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa.

Descri para sempre dos Anjos loiros, que conservam no olhar azul o

reflexo dos céos atravessados: de cima do meu oiro, deixei cahir sobre a

Innocencia, o Pudor, e outras idealisações funestas acida gargalhada de

Mephistopheles: e organisei friamente uma existencia animal, grandiosa e

cynica.

* * * * *

Ao bater do meio dia, entrava na minha tina de marmore côr de rosa, onde

os perfumes derramados davam á agua um tom opaco de leite: depoîs pagens

tenros, de mão macia, fríccionavam-me com o ceremonial de quem celebra

um culto: e embrulhado n'um _robe-de-chambre_ de sêda da India, através

da galeria, dando aqui e além um olhar aos meus Fortunys e aos meus

Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife á ingleza,

servido em Sèvres, azul e oiro.

O resto da manhã, se havia calor, passava-o sobre coxins de setim côr de

perola, n'um _boudoir_ em que a mobilia era de porcelana fina de Dresde

e as flôres faziam um jardim d'Armida; ahi, saboreava o Diario de

Noticiais, em quanto lindas raparigas vestidas á japoneza refrescavam o

ar, agitando leques de plumas.

De tarde ia dar uma volta a pé, até ao Pote das Almas: era a hora mais

pesada do dia: encostado á bengala, arrastando as pernas molles, abria

bocejos de fera saciada,---e a turba abjecta parava a contemplar, em

extasis, o Nababo enfastiado!

Ás vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos occupados da

Repartição. Entrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento

da Humanidade repousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava

uma penna de pato, e ficava horas lançando sobre folhas do meu querido

Tojal d'outr'ora: «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr.--Tenho a honra de participar

a V. Exc.^a... Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a!..._».

Ao começo da noite um criado, para annunciar o jantar, fazia soar pelos

corredores na sua tuba de prata, á moda gothica, uma harmonia solemne.

Eu erguia-me e ia comer, magestoso e solitario. Uma populaça de lacaios,

de librés de sêda negra, servia, n'um silencio de sombras que resvalam,

as vitualhas raras, vinhos do preço de joias: toda a mesa era um

esplendor de flôres, luzes, crystaes, scintillações d'oiro:--e

enrolando-se pelas pyramides de fructos, misturando-se ao vapor dos

pratos, errava, como uma nevoa subtil, um tedio inenarravel...

Depois, apopletico, atirava-me para o fundo do coupé--e lá ia ás

Janellas Verdes onde nutria, n'um jardim de serralho, entre requintes

musulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me d'uma tunica de sêda

fresca e perfumada,--e eu abandonava-me a delirios abominaveis...

Traziam-me semi-morto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia

machinalmente o meu signal da cruz, e d'ahi a pouco roncava de ventre ao

ar, livido e com um suor frio, como um Tiberio exhausto.

* * * * *

Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pateo do palacete estava

constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janellas

da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar

a sotaina do Clero, e luzîr o suor da Plebe: todos vinham supplicar, de

labio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu oiro. Ás

vezes, consentia em receber algum velho de titulo historico:--elle

adiantava-se pela sala, quasi roçando o tapete com os cabellos brancos,

tartamudeando adulações; e immediatamente, espalmando sobre o peito a

mão de fortes vêas onde corria um sangue de tres seculos, offerecia-me

uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.

Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Idolo sobre o

altar--uns Odes votivas, outros o meu monogramma bordado a cabello,

alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciencia. Se o meu olhar

amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher--era logo ao outro dia

uma carta em que a creatura, esposa ou prostituta, me offertava a sua

nudez, o seu amor, e todas as complacencias da lascivia.

Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da

minha grandeza; fui o _sublime snr. Theodoro_, cheguei a ser o _celeste

snr. Theodoro_; então, desvairada, a Gazeta das Locaes chamou-me o

_extra-celeste snr. Theodoro_! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jámais

coberta--ou usasse a corôa ou o côco. Todos os dias me era offerecida

uma Presidencia de Ministerio ou uma Direcção de Confraria. Recusei

sempre, com nojo.

Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da

Monarchia. O Figaro, cortezão, em cada numero fallou de mim,

preferindo-me a Henrique V; o grotesco immortal, que assigna

_Saint-Genest_, dirigiu-me apostrophes convulsivas, pedindo-me para

salvar a França; e foi então que as Illustrações estrangeiras

publicaram, a côres, as scenas do meu viver. Recebi de todas as

princezas da Europa enveloppes, com sêllos heraldicos, expondo-me, por

photographias, por documentos, a fórma dos seus corpos e a antiguidade

das suas genealogias. Duas pilherias que soltei durante esse anno foram

telegraphadas ao Universo pelos fios da Agencia Havas; e fui considerado

mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort, e que esse fino

entendimento que se chama _Todo-o-Mundo_. Quando o meu intestino se

alliviava com estampido--a Humanidade sabia-o pelas gazetas. Fiz

emprestimos aos Reis, subsidiei guerras civis--e fui caloteado por todas

as Republicas latinas que orlaram o golfo do Mexico.

E eu, no entanto, vivia triste...

* * * * *

Todas as vezes que entrava em casa estacava, arripiado, diante da mesma

visão: ou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito

d'oiro--lá jazia a figura bojuda, de rabicho negro e tunica amarella,

com o seu papagaio nos braços... Era o Mandarim Ti-Chin-Fú! Eu

precipitava-me, de punho erguido: e tudo se dissipava.

Então cahia aniquilado, todo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no

silencio do quarto, onde as vélas dos candelabros davam tons

ensaguentados aos damascos vermelhos:

--_Preciso matar este morto_!

E todavia, não era esta impertinencia d'um velho phantasma pançudo,

accommodando-se nos meus moveis, sobre as minhas colchas, que me fazia

saber mal a vida.

O horror supremo consistia na idéa, que se me cravára então no espirito

como um ferro inarrancavel--_que eu tinha assassinado um velho_!

Não fôra com uma corda em torno da garganta á moda musulmana; nem com

veneno n'um calix de vinho de Syracusa, á maneira italiana da

Renascença; nem com algum dos methodos classicos, que na historia das

Monarchias teem recebido consagrações augustas--a punhal como D. João

II, á clavina como Carlos IX...

Tinha eliminado a creatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo,

phantastico, faceto. Mas não diminuia a tragica negrura do facto: _eu

assassinára um velho_!

Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e

como uma columna n'um descampado dominou toda a minha vida interior: de

sorte que, por mais desviado caminho que tomassem os meus pensamentos

viam sempre negrejar no horisonte aquella Memoria accusadora; por mais

alto que se levantasse o vôo das minhas imaginações, ellas terminavam

por ir fatalmente ferir as azas n'esse Monumento de miseria moral.

Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banaes transformações da

Substancia, é pavoroso o pensamento--que se fez regelar um sangue

quente, que se immobilisou um musculo vivo! Quando depois de jantar,

sentindo ao lado o aroma do café, eu me estirava no sophá, enlanguecido,

n'uma sensação de plenitude, elevava-se logo dentro em mim, melancolico

como o côro que vem d'um ergastulo, todo um susurro de accusações:

--E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais

fosse gozado pelo veneravel Ti-Chin-Fú!...

Debalde eu replicava á Consciencia, lembrando-lhe a decrepitude do

Mandarim, a sua gôta incuravel... Facunda em argumentos, gulosa de

controversia, ella retorquia logo com furor:

--Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida é um bem supremo:

porque o encanto d'ella reside no seu principio mesmo, e não na

abundancia das suas manifestações!

Eu revoltava-me contra este pedantismo rhetorico de pedagogo rigido:

erguia alto a fronte, gritava-lhe n'uma arrogancia desesperada:

--Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? o teu grande nome de

Consciencia não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade

nervosa. Posso eliminar-te com _flôr de laranja_!

E immediatamente sentia passar-me n'alma, com uma lentidão de briza, um

rumor humilde de murmurações ironicas:

--Bem, então come, dorme, banha-te e ama...

Eu assim fazia. Mas logo, os proprios lençoes de Bretanha do meu leito

tomavam aos meus olhos apavorados os tons lividos d'uma mortalha; a agua

perfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pelle, com a

sensação espessa d'um sangue que coalha: e os peitos nús das minhas

amantes entristeciam-me, como lapides de marmore que encerram um corpo

morto.

Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti-Chin-Fú

tinha de certo uma vasta familia, netos, bisnetos tenros, que,

despojados da herança que eu comia á farta em pratos de Sèvres, n'uma

pompa de sultão perdulario, iam atravessando na China todos os infernos

tradicionaes da miseria humana--os dias sem arroz, o corpo sem agasalho,

a esmola recusada, a rua lamacenta por morada...

Comprehendi então porque me perseguia a figura obesa do velho letrado; e

dos seus labios recobertos pelos longos pellos brancos do seu bigode de

sombra, parecia-me sahir agora esta accusação desolada:--«Eu não me

lamento a mim, fórma meio morta que era; chóro os tristes que

arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas

amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados n'um grupo

expirante, entre leprosos e ladrões, na _Ponte dos Mendigos_, ao pé dos

terraços do Templo do Céo!»

Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chineza! Não podia levar á bocca

um pedaço de pão sem imaginar immediatamente o bando faminto de

criancinhas, a descendencia de Ti-Chin-Fú, penando, como passarinhos

implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me

abafava no meu paletot era logo a visão de desgraçadas senhoras, mimosas

outr'ora de tepido conforto chinez, hoje rôxas de frio, sob andrajos de

velhas sêdas, por uma manhã de neve; o tecto d'ébano do meu palacete

lembrava-me a familia do Mandarim, dormindo á beira dos canaes, farejada

pelos cães; e o meu coupé bem forrado fazia-me arripiar á idéa das

longas caminhadas errantes, por estradas encharcadas, sob um duro

inverno asiatico.

O que eu soffria!--E era o tempo em que a populaça invejosa vinha pasmar

para o meu palacete, commentando as felicidades inaccessiveis que lá

deviam habitar!

Emfim, reconhecendo que a Consciencia era dentro em mim como uma

serpente irritada--decidi implorar o auxilio d'Aquelle que dizem ser

superior á Consciencia porque dispõe da Graça.

Infelizmente eu não acreditava n'Elle... Recorri pois á minha antiga

divindade particular, ao meu dilecto idolo, padroeira da minha familia,

Nossa Senhora das Dôres. E, regiamente pago, um povo de curas e conegos,

pelas cathedraes de cidade e pelas capellas d'aldêa, foi pedindo a Nossa

Senhora das Dôres que voltasse os seus olhos piedosos para o meu mal

interior... Mas nenhum allivio desceu d'esses céos inclementes, para

onde ha milhares d'annos debalde sobe o clamor da miseria humana.

Então eu proprio me abysmei em praticas piedosas--e Lisboa assistiu a

este espectaculo extraordinario: um ricaço, um Nababo, prostrando-se

humildemente ao pé dos altares, balbuciando de mãos postas phrases de

_Salvè-Rainha_, como se visse na Oração e no Reino do Céo que ella

conquista, outra cousa mais que uma consolação ficticia que os que

possuem tudo inventaram para contentar os que não possuem nada... Eu

pertenço á Burguezia; e sei que se ella mostra á Plebe desprovída um

paraiso distante, gozos ineffaveis a alcançar--é para lhe afastar a

attenção dos seus cofres repletos e da abundancia das suas searas.

Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas,

para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fú. Pueril desvario d'um

cerebro peninsular! O velho Mandarim na sua classe de letrado, de membro

da Academia dos Han-Lin, collaborador provavel do grande tratado

Khou-Tsuane-Chou que já tem setenta e oito mil e setecentos e trinta

volumes, era certamente um sectario da Doutrina, da Moral positiva de

Confucio... Nunca elle, sequer, queimára mechas perfumadas em honra de

Buddha: e os ceremoniaes do Sacrificio mystico deviam parecer á sua

abominavel alma de grammatico e de sceptico como as pantomimas dos

palhaços, no theatro de Hong-Tung!

Então prelados astutos, com experiencia catholica, deram-me um conselho

subtil--captar a benevolencia de Nossa Senhora das Dores com presentes,

flôres, brocados e joias, como se quizesse alcançar os favores

d'Aspasia: e á maneira d'um banqueiro obeso, que obtem as complacencias

d'uma dançarina dando-lhe um _Cottage_ entre arvores--eu, por uma

suggestão sacerdotal, tentei peitar a dôce Mãi dos Homens, erguendo-lhe

uma cathedral toda de marmore branco. A abundancia das flôres punha

entre os pilares lavrados perspectivas de paraisos: a multiplicidade dos

lumes lembrava uma magnificencia sideral... Despezas vãs! O fino e

erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja; mas, quando eu

n'esse dia entrei a visitar a minha hospeda divina, o que vi, para além

das calvas dos celebrantes, entre a mystica nevoa dos incensos, não foi

a Rainha da Graça, loira, na sua tunica azul,--foi o velho malandro com

o seu olho obliquo e o seu papagaio nos braços! Era a _elle_, ao seu

branco bigode tartaro, á sua pança côr d'oca, que todo um sacerdocio

recamado d'oiro estava offerecendo, ao roncar do orgão, a Eternidade dos

Louvores!...

* * * * *

O Mandarim · 第 1 / 5 段