Das nossas relações com Flandres só conheciamos--até ha bem poucos

annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a

reciproca acção dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o

sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias

e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da

protecção dada aos artistas nacionaes por D. João II e por D. Manoel, de

uma só vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas

portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje

apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,

entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,

proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.

Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos estão sendo diligentemente

continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.

Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.

Em uma recente publicação do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais à Envers

au XVI^{ème} siècle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos

documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que

em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licença para ahi

viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os

seus creados, foi para a civilisação que os acolheu de uma importancia

incomparavelmente superior á que jámais exerceu a colonia flamenga em

Portugal.

Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundação da

primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,

além das exportações do reino, o commercio das especiarias trazidas da

India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da

nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de

cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas

viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasião

da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada

portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta

creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os

senhores trajavam de brocado e seda côr de purpura, bordada de ouro e de

rubis, com botões, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram

orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraça e espada,

vestiam librés de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de

seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose

moult riche et triomphante à voir_.

Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos

Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam

as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do

Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe

Filippe de Hispanha, de D. João II e de D. Manoel. Em outro arco de

triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando

d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros

representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da

Felicidade, da Religião, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. João

I, D. Manoel e D. Filippe II.

Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos

saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a

lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e

queimar canela em todas as fogueiras das chaminés.

Outro portuguez, Simão Rodrigues d'Evora, era barão de Rhodes,

cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme

fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na

principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que

successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de

Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim

caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia

reduzidas á indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de

Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua

mulher D. Anna Lopes Ximenes de Aragão.

O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais

nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade

conferida pelos portuguezes a Alberto Dürer ficou assignalada pelas

grandes festas a que deu origem. Dürer retribuiu esses favores com

presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de

Portugal.

Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias

de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um

catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Dürer, de

Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea

del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe

D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.

Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as

sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,

escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia

Lopes, Damião de Goes, etc.

Outro curioso symptoma da nossa desaffeição dos estudos da arte nacional

é a estagnação das velhas idéas preconcebidas na apreciação dos nossos

monumentos architectonicos. Já me referi ao ôco basbaquismo privilegiado

de que é objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um

pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.

Por notavel superstição epidemica, por inercia de espirito, por

servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por

commodidade, por convenção admirativa, ou por qualquer outro motivo, os

criticos portuguezes, que mais teem governado a opinião, estabeleceram

axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o

unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal é o

da Batalha. Toda a modificação nas linhas constructivas ou nos motivos

ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a

qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!

Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. João em

Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!

Decadencia emfim toda a obra architectonica da época manoelina.

A termos acceitado tal principio na sua applicação pratica, teriamos

tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e

invariavel, como o neo-greco-romano da renascença, que é o triumpho

consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas

de construir, a cristalisação da rotina, a sujeição de toda a

imaginação, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos

tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como tão cegamente, tão

estupidamente, tão inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas

centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com

os seus correspondentes aphorismos de proporção e de symetria, seu

pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,

sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilhão, a

mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gôta, a mesma carranca! Ora

precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua

effusão esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos

ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as

suas desproporções e todas as suas assymetrias, não é precisamente senão

a contraposição da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores

á enfatuação idolatrica, á pedantesca preceituação rhetorica, ao

esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o

neo-classicismo da renascença razoirou todo o talento humano. O stylo

gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos

seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que

o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim

architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um

elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na

palpitação do seu lavor evocações de idéas e de sentimentos proprios dos

homens da sua raça e da sua terra. Os artistas manoelinos não teriam

feito talvez monumentos _correctos_, na accessão indigente em que as

academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos

_expressivos_,--o que é melhor. Porque não são as academias que pautam

as proporções e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode

formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um

producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma,

convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma

vibração nova do sentimento.

A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,

deduz-se da maior ou menor quantidade das idéas que a sua obra suggere e

dos sentimentos cuja percussão ella determina. Nos monumentos

architectonicos é pela sobreposição do ornato esculptural ás linhas

geometricas da construcção que a arte se exerce. É principalmente na

esculptura que reside a expressão poetica do monumento.

Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem

pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construcção,

submettendo assim as fórmas constructivas á ornamentação esculptural. Os

grandes criticos da Inglaterra, que tão consideravel impulso teem dado

ás idéas estheticas e á moderna evolução artistica, entendem porém, ao

contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas é na

construcção de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta

affirmativa envolve a consagração da escola manoelina pela critica que

n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a

arte gothica e a arte da renascença.

Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes

da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela

carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o

reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes tão vigorosamente

accentuaram a palpitação victoriosa do genio, da originalidade, da

poesia, da gloria do povo lusitano.

O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evolução do stylo

gothico em Portugal é a modificação portugueza d'esse stylo, é a sua

nacionalisação, é a originalidade local, imposta pelos architectos

portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construcção, commum a

toda a Europa. Dirão que não é isso precisamente um novo stylo.

Certamente que não, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura á

constituição complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se

tomarmos a palavra stylo em tal accepção, nenhum stylo é novo em toda a

architectura da edade média e da renascença. Todo o processo

constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da

Syria, do Egypto. Os mesmos gregos não inventaram a columna, nem os

romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na

architectura de qualquer povo é, como em Portugal, na época manoelina, a

subordinação de um systema qualquer de geometria architectural ás

condições do clima e da paizagem, á natureza dos materiaes empregados, á

flora, á fauna, á concepção religiosa, á historia, á poesia, ao

temperamento e á psychologia dos artistas, em cada região. Quanto mais

intensa for a intervenção d'esses factores mais original será a obra.

Assim, na evolução do gothico na architectura portugueza, quanto menos

modificado, isto é, quanto mais _puro_ fôr o stylo, mais insignificante

será o monumento como documentação artistica, como expressão social.

É á _decadencia_ do gothico da Batalha que nós devemos o incomparavel

claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o

mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a

flammejante janella da sala do capitulo é a obra mais eloquente, mais

convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais

estremecidamente portugueza, que jámais realisou em nossa raça o talento

de esculpir e de fazer cantar a pedra.

Na ornamentação d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais

entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno

da idéa christã, todo o sagrado pantheismo das velhas religiões da

India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,

acompanhada ao orgão, no deslumbramento dos cirios, no aroma das

açucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos

decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggestão mais profunda. O

artista, em plena posse da sua idéa, em completa independencia do seu

espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execução, desdiz todos

os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe

todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando

nas entranhas da sua propria vaidade a opinião de si mesmo, unicamente

porque tem fé na verdade que enuncia, porque concentrou toda a força da

sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixão do seu sangue, no

amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em

torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que

verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.

As columnas na janella da sala do capitulo são polipeiros de coral, dos

mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra

cobriu o berço da civilisação no littoral mediterraneo, providencia dos

peregrinos nos oasis do deserto, á qual os arabes da Peninsula dedicavam

uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminação do polen,--a

arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico

é um attributo da paixão e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os

demais elementos decorativos são as ondas do mar, taes como ellas se

representam na heraldica; são os troncos seculares e as raizes profundas

dos sobreiros dos nossos montes, extrema expressão de força na

fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradição e a

familia prendem a debil e errante creatura humana, ao coração da terra

em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas á carreta

alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos

feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes

cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortiça, enlaçam a

decoração, amarrando-a vigorosamente á empena por fortes argolões, como

se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composição, partindo

das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende

n'uma trepidação de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as

espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante

na vastidão dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema

esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,

formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de

um galeão da India.

O nosso povo porém desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e

nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,

que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.

Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito

malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender

os productos d'arte.

Em julho de 1890 o então ministro da Instrucção Publica consultou sobre

a questão de que se trata uma commissão de artistas, de archeologos e de

escriptores. Da resposta, até hoje inedita, d'essa commissão, de que me

coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.

O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se propõe effectuar o

ministerio da instrucção publica e das bellas artes é--ponderava o

relatorio--a pedra fundamental de toda a construcção destinada a dar á

arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da

nacionalidade, na orientação do sentimento collectivo do povo, no

conjuncto dos elementos de impulsão e de progresso para o

desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da

Europa.

O inventario de que se trata, comprehendendo não só os edificios

monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de

toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentação preciosa para a

historia da arte em Portugal,--determinação das suas origens ethnicas e

sociaes, fixação dos seus caracteres distinctivos e sua relação com a

psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspirações, com as

ideias, com os costumes e com as instituições sociaes. Esse repositorio

tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas

modalidades, segundo as influencias especiaes de cada época, de cada

phase de cultura, de cada estadio social, todas as forças emotivas,

todas as aptidões estheticas da nossa raça. A historia dos seus

monumentos é para cada povo a historia da sua individualidade, porque

não ha monumento artistico que não traduza, mais ou menos directamente,

a acção intellectual e politica da sociedade que o concebeu.

A ideia do inventario projectado não é--para honra nossa--inteiramente

nova. No reinado de D. João V existia na Bibliotheca Real uma obra em

cinco volumes, datada de 1686 e intitulada «Theatro do reino de Portugal

e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que

por scenas repartido.» Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre

Frei Luiz de S. José, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse

os debuxos de todas as povoações do Minho, o que elle cumpriu no anno de

1726. Por indicação da Academia Real da Historia, e para o fim de

inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto

de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus

archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos não chegaram a

ser dados á estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de

1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas

casas dos duques de Bragança, ao Thesouro Velho.

As disposições do alvará de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte

trecho do mesmo alvará: «Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessôa

de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em

todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos

(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)

ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,

marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou

tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de

qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como

outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos

inferiores até o reinado do Senhor Rey D. Sebastião; nem encubrão ou

ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego ás camaras das cidades

e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e

guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que

houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu

districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, darão conta

ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e

censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia

que se lhes participar, poderão dar a providencia que lhes parecer

necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.

Etc.»

Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvará sobre a mesma materia, assim

designado: «Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real he

servido suscitar o alvará de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em

beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservação e

integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peças de

Antiguidade: mandando que as funcções do mesmo Alvará, que até agora

pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do

presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca

Publica; tudo na forma acima declarada.»

Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mór da Bibliotheca Nacional de

Lisboa José Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos

seguintes termos: «Para o bibliothecario mór passaram attribuições que

competiam á Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente

tem sido até hoje letra morta, a tal ponto que até ignoram as suas

disposições os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave

detrimento, não só d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se

acha estacionario em aquisições archeologicas, mas tambem de todo o

reino, onde o bibliothecario mór deveria sempre ter, por obrigação do

seu cargo, promovido a conservação e segurança dos monumentos que não

podem ou não devem transportar-se.»

Em seguido propõe o bibliothecario que se torne effectiva a

responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de

agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com

o bibliothecario, etc.

Ficou porém tão morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella

se refere.

Por decreto de 10 de novembro de 1875 é nomeada uma commissão para

propôr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o

plano de um museu, «as providencias que julgar mais adquadas á

conservação, guarda e reparação dos monumentos historicos e dos objectos

archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino.» A

commissão alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo

marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fôra

confiado.

A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real

Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim

de lançar em 1880 as bases de uma inventariação systematica dos

monumentos nacionaes, não foi, assim como o zeloso trabalho da commissão

de 1875, seguida de resultados praticos.

Independentemente da preceituação official, teem sido modernamente do

mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores

artisticos a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em

Lisboa em 1882, a exposição de Coimbra, a exposição de Aveiro, a

exposição de Guimarães, a recente exposição do centenario antonino, e as

exposições de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no

Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de

Instrucção.

De algumas das exposições alludidas ficaram documentos de alto valor.

Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos

expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa

collecção photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos

Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos

museus e das exposições celebradas, se poderia extrahir desde já um

esboço de inventario, que não seria difficil aperfeiçoar e prehencher,

emprehendendo novas exposições e systematisando completamente as

investigações e os estudos correlativos.

A commissão de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo

das pesquisas que, convém continuar, para recolher ou arrolar os valores

artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporações ou

de particulares, a commissão incumbida do inventario geral e definitivo

desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as

peças de que ha conhecimento, já pelo exame de que foram objecto nos

museus onde existem, ou nas exposições até hoje feitas, já pelos

catalogos e relatorios que d'essas exposições existem, já pela

consideravel collecção de photographias que reproduzem os objectos

expostos.

O culto da arte em Portugal · 第 6 / 7 段