Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie

das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com

hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis

e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,

em Lisboa é prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.

Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradição portugueza caem em

desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a acção do nosso

clima.

O tão commodo, tão modico e tão gracioso typo da nossa antiga casa de

campo é substituido nas construcções modernas pelas fórmas de um

exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais

chinfrins, hybrida confusão allucinada do châlet suisso, do cottage

inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita

moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.

Em presença de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta ou de

revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicações, anedocticas e

chorographicas, será capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre

que casta de gente se está passando a peça. Tal é a delirante epidemia

de que estão combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter

um indicio nacional da nossa tradição, entre as casas de campo ou de

praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de

ir a Cascaes vêr o typo, unico, da habitação dos condes de Arnozo, tão

saudosamente semelhante á casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado

sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de

escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da

familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de

pedra, destinados ás varas do estendal, e servindo de misula aos vasos

de craveiros e de mangericos, em frente do poço de roldana, no mais doce

e tranquillo sorriso d'outr'ora.

Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominações que

esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade

esthetica dos habitantes.

No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas tão sympathicamente

suggeria a lembrança bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os

jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a

do _Moinho de Vento_, a do _Poço_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da

_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,

como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta

falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para

dar ás ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas

moram ou se diz que por lá passaram. E com egual afouteza se dissolvem,

n'um borrão de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente

vinculados á historia do povo e á historia da cidade, como o da Rainha

Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.

Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão suggestivos e tão

bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de

Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e

da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e

abastardam-se ridiculamente, porque não ha entre a gente culta quem

preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.

Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel

extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias

populares.

Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de côr e mais graça de risco

esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com

estopa, com linho, com lã ou com algodão, de que se fazem os panos

liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,

e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes

chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro

com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a

pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,

de Loulé.

Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,

arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão

pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.

Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve á iniciativa

e á propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï

considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o

_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeão da esthetica e da arte em todas

as suas mais complexas e mais variadas manifestações não pode deixar de

ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus

numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a

pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus

profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a

sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das

industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são um

verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere

constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome

consagrado de _ruskineana_. Grande homem de acção, gloria dos da sua

raça, tomando por divisa _To day_, Ruskin não se emparedou, como a

maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das

contemplações expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de

réis da legitima paterna em subvenções das mais generosas empresas

sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundações de

escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a

trinta contos a edição) um rendimento de riquissimo proprietario, elle

fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.

Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,

fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos

Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de

Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de

Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National

Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de

Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu á arte

todo um novo ideal e uma religião nova, creando uma pleiade

brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre

os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,

Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo

Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle

emfim que deu a mais alta expressão á auctoridade esthetica em nossos

tempos, impedindo, em nome da arte, que um traçado de caminho de ferro

deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma

commissão da Camara dos Lords a consultar uma commissão de artistas

sobre se a passagem de uma linha ferrea não affectaria ruinosamente a

parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de

certo valle.

É porém com um intuito especial,--a proposito das nossas tão resistentes

industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de

Ruskin.

O trabalho rural da fiação á mão e da tecelagem no estreito e primitivo

tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin,

considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de

satisfação, de educação esthetica e de intima poesia, destruidos pela

suppressão d'essa antiga actividade artistica da familia no campo

inglez, dedicou-se com um esforço portentoso a fazer reviver em Langdale

e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos

de lã em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da

força individual uma vela de moinho nos cabeços das collinas ou a

corrente da agua á beira dos riachos. Elle mesmo dá o exemplo da nova

organisação do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de

Laxey. Recompõe-se uma antiga roda de fiar com as peças desarticuladas e

esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de

uma velha tecedeira. É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo

florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo

movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais

eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,

encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo

linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,

espadelado, assedado, fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, á

porta ou á janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das

faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como

n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,

substituida á banal perfeição estupida e antipathica do apparelho

mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiação a vapor, cae em moda

entre as pessoas de gosto aperfeiçoado, recebe a alta protecção da

princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e

faz-se pagar mui remuneradoramente por preços consideravelmente

superiores ao dos productos da grande industria mechanica.

Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na

ilha de Man. É conhecida não só em toda a Inglaterra mas em toda a

Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados á mão, de

desenhos combinados na urdidura e na trama com as côres naturaes da lã,

sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a

mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça,

de viagem, de equitação, é o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do

nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É

a esta evolução das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor

remunerativo com as grandes industrias, e não a destructiva absorpção do

trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu

chamo _transformação de industrias caseiras em industrias de

concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso

d'aquelle que eu lhe ligo.

Em Portugal é certo que definham de dia para dia, e que successivamente

se vão extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece

calamitosamente, por culpa da administração economica dos nossos

governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de

prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos

districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragança a industria da

sericultura e a da fabricação do veludo. Acabou em Guimarães, entre

outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas

e dos brocados. No Algarve talvez que já hoje se não faça um unico

trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares

caseiros na Covilhã, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas

margens do Lima, porém, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha

ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas

as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a lã, o algodão,

e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais

consistentes e mais bellos, de sua fabricação exclusiva em todas as

phases por que passa a materia prima, desde que é cegada no campo ou

tosquiada no carneiro até se converter em vestido. Á feira semanal de

Vianna as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, além dos

ovos e dos frangos que criam, além da manteiga que fabricam, as teias de

pano de linho, os cortes de saias de lã e de algodão, as peças de

sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou á agulha. As

de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de

Thomar vende-se em graciosos novellos da fórma de casulos a melhor

linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se

ainda a antiga tradição das _mantas do Alemtejo_, citadas já por Gil

Vicente na _Farça dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,

a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de

Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de lã, que são o

_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,

estamenhas, briches, saragoças, jardos, sorrubecos.

Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,

que á primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em

germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as

industrias, desde que os aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o

eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um

tenue fio de arame o quinhão de força que tem para distribuir por cada

operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforço propulsôr do

sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos rios,

dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presença da

revolução das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de

tradição desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde

a tradição sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a

todas as oppressões que a esmagam!

É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, que distingue o nosso

marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,

pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho

torcido ou entrançado. Ninguem como elle manusêa os ferros e as

amarrações, o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou o pano. Ninguem

como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a

linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha mais

dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha e em dar o nó de escota,

de fateixa ou de botija, o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de

borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho

até o Guadiana, a enorme variedade de fórmas nas embarcações da pesca

maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a

persistencia da tradição no grande genio maritimo de tão pequeno povo.

Os que ainda vão á pesca do bacalhau, á Terra Nova, equipam de uma

maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porém o typo latino

do hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, á pescada e ao sarrajão, no

mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de toda

a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de prôa redonda,

apparelhando com dois bastardos. Á pesca do alto vae a lancha de

Caminha, construida no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, de

bocca aberta, apparelhando com um só mastro e a verga munida de uma

grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e

duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da

Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro

escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da

Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canôas de Belem, de

Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou

_canôas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira

empregam-se embarcações numerosas e variadissimas. Na arte de galeão

agrupam-se: o _galeão_, coberto, de prôa direita e arrufada,

apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de prôa e caça á

pôpa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na

roda de prôa e sem coberta; a canôa do galeão, e o _acostado_, que se

emprega no transporte do peixe. Na armação fixa do atum e da sardinha,

nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,

do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calão_, grande

lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por

banda, tendo na prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma

saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,

pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da

testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _laúde_.

Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os

mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calão_ é, como alguns

barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria para atracar a margens

escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao

das embarcações portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.

_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os

_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa

Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do

Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e

da Galé, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as

_muletas_ e os _bateis do Seixal_.

O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das

pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de

embarcações empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de

Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,

a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do

Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a

_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de

Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcação

portugueza da nossa costa meridional, a _caçadeira_ e a _focinheira de

porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,

o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do

Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueirão da ria de Aveiro_, a _lancha

de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do

Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os

typos da Africa, dos Açores, da ilha da Madeira, não descriptos,

infelizmente. São ainda de notar, entre as jangadas mais

caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fão e da

Apulia, para a apanha do sargaço; as de Neiva e as de Sedovem.

Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos

os outros povos, é verdadeiramente inacreditavel que em Portugal não

haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.

Não ha tal museu.

Em terra é tão variada a collecção popular das vasilhas, dos fogareiros

e dos cestos caseiros, como é variada na agua a fórma das embarcações. A

simples nomenclatura do vasilhame portuguez dá, só de per si, uma idéa,

ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas fórmas, porque ha

typos que variam de região para região, de dez em dez leguas de

perimetro. Esses typos principaes são a talha, o pote, o cantaro, o

caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a

infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a

sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e

o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, o cantil, a

almofia, o alcatruz, o porrão, o côcho, o picho, o pichel, a almotolia,

a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeirão, a caldeira e a

caldeirinha, o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a

pichorra, a botija, a cabaça, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam

com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se

estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha

correspondente á velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastião,

sobreviveu porém na tradição e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com

quatro decilitros de capacidade, tão maneira, tão graciosa, tão bem

proporcionada a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria de Coimbra o

pucaro consagrado, que no pote da região, de uma elegancia tão fina e

tão attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.

As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do

Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de

typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do

bombylio, etc., são por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as

mais bellas, as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais

irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda mechanica do operario

as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a peça por peça, o

sorriso acariciante de um artista.

De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de

Molellos, deduziram em França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o

bule de um serviço de almoço, que ficou tradicional na fabricação de

Sèvres.

A industria popular da cestaria acompanha na evolução das fórmas a

industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do

nosso paiz notariam que cada região tem a sua canastra, o seu cabaz e o

seu gigo, differentes na fórma ou no ornato. Ha-os de todas as

configurações, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,

oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a

fórma e a construcção americana dos samburás, dos tipitis e dos côfos

tupis, feitos de taquara e de cipó, que introduzimos talvez no Brazil

ou, mais provavelmente, lá aprendemos a fabricar, deixando o typo do

balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de

ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configuração,

semelhante á de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o

canistel, a cesta, a condeça, o ceirão e a ceira, a alcofa e a

alcofinha. A materia prima do cesto é o vime, o junco, a fasquia de

castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa é o

esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a tabúa, a juta e a

pita. Em algumas regiões, como nas Caldas e Vizeu, os cestos são obras

primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha

burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, é

um simples prodigio de fabricação minudente e delicada. No Algarve a

alcofa, de filiação arabe, é por vezes ornada de apparatosas flores

bordadas a seda ou a lã.

Sem embargo, continuando a affirmar-se que não temos sentimento

artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de

transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias

domesticas, e não negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,

tão originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados

d'esses tecidos, nem a louça, nem a cestaria, nem a filigrana,

immobilisada em typos decrepitos, e da qual tão lindos effeitos se

tirariam, applicando-a em ouro a serviços de toucador, a frascos de

cristal, a molduras de retratos, a encadernações de devocionarios, etc,

etc.

Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa

civilisação artistica.

A arte que menos estudamos é a arte hispanhola, á qual todavia

indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de

temperamento, de tradição e de ideal. Juntamente com os hispanhoes

recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a producção

artistica da Peninsula imprimiram a feição differencial mais

caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de

mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos

o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso

stylo romanico, ogival e da renascença. E da mesma procedencia, mosarabe

ou mudejar, são algumas das nossas mais interessantes industrias, como a

da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da

encadernação, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordovões_ por

nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de

esparto, de palma, de pita. Até o fim do seculo XVI artistas

portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catalães,

asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na

esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,

celebrando identicos feitos de guerra, de religião e de amor, servindo

reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da

mesma invocação popular.

O culto da arte em Portugal · 第 5 / 7 段