inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés
desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão,
abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de
manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa,
ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as
primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a
Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
civilisação moderna.
E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo
desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões
despejados.
Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais
preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
genealogicas.
Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de
Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a
collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus
e do marquez de Borba em Santa Martha.
O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos
barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle
incomparavel monumento.
Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas--almafres, capellinas,
bacinetes, barbudas e morriões--, couraças, escarcellas, grevas,
manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos
nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as
sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha
pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á
mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma
armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas
da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--«Aquella é a
armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos,
morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em
frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da
padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual pá
uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.
Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.
Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo
hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das
conquistas, mas de simples prata dourada.
Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a
investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e
a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
ainda por fazer.
A restauração dos antigos quadros está constituindo na historia da nossa
arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restauração da
nossa architectura.
Alguns annos mais sobre o systema devastador que se está seguindo, e
ninguem poderá reconhecer nas taboas da nossa grande época uma só
pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
Massys ou os Dierik Bouts.
N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
portugueza desde o meiado do seculo XV até o fim do seculo XVI, isto é,
durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
apogeu da nossa gloria. São raras as puras composições historicas e
raros os retratos d'esta época. Os grandes feitos da navegação e da
guerra celebravam-se de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, e
constituiam o principal adorno d'arte dos paços dos reis e dos palacios
dos nobres. Na pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos,
conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
misturam-se em brilhante anachronismo ás figuras sagradas, e muitas
authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos está ahi, por
nós mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
devocionarios portuguezes. Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes,
os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascença. São
essas as caracteristicas figuras dos nossos avós: as faces cheias, a
pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
essas nobres e delicadas cabeças femininas serviram de modelo as mais
lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulação leve, sinuosa e
ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
utensilios da casa e os estados do espirito.
O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
bella obra da nossa historiographia.
_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
que collaborariam todas as aptidões intellectuaes de que dispõe o paiz,
por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
quadro:
1.º _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
portugueza, que nós tão opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
jardim de acclimatação, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
da Europa, pela introducção do chá, do café, do assucar, do algodão, da
pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylão, do cravo das
Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
do pau de Solor, do anil de Cambaya, da onça, do elephante, do
rhinoceronte, do cavallo arabe.
2.º _O mobiliario_, cuja fabricação tão fecundamente desenvolvemos por
meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administração de
Affonso de Albuquerque.
3.º _A indumentaria_, comprehendendo, além da historia do _traje_, a dos
_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
China, da Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas pelo
nosso contacto nas suas origens, tão especialmente desenvolvidas no
Reino, pelo lavôr do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha as
mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas á rainha pelos capitães
da India.
4.º _As armas_, de guerra, de torneio e de côrte.
5.º A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
tão curiosa evolução em Portugal da fórma e do ornato dos calices, das
custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peças
em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascença,
como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
taxos de perfumar luvas, copas, taças, gomis, bacias d'agua ás mãos,
maças, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
guarnições de coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabeça,
tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.
6.º _As embarcações_--galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas,
toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão
variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestões do
mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego
do tempo de Herodoto.
7.º _A olaria e a cestaria popular_, em que tão atticamente se affirma o
hereditario engenho artistico da nossa raça, e cujos productos tanto se
compraziam em reproduzir os nossos pintores.
8.º Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
etc.
Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
artistica da nação, não ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa ás fontes
da tradição e da nacionalidade, em que cada um de nós tem a mais
restricta e a mais instante obrigação de ir retemperar e fortalecer de
portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educação a que se
pode condemnar um paiz.
Não ha collecção publica, chronologicamente completa, dos nossos
incomparaveis azulejos. Esta industria artistica é no emtanto d'aquellas
de que mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o seculo XVII o
azulejador portuguez acompanhou a evolução peninsular, de influencia
mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
azul e branco, em vastas composições historicas e de genero, paizagens,
merendas, caçadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
talento de composição historica e decorativa.
Raro será o anno em que de Portugal não tenha desapparecido um quadro
inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de coherção,
sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das côrtes ou da
imprensa. Á hora a que escrevo estas linhas me dizem que está á venda ou
vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindára um
fidalgo da sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
era uma gloria da nação.
Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
É bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
suavemente, a pouco e pouco, até chegar a não existir do deposito
primitivo senão unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
sido collocado.
O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
por Estacio da Veiga, ainda hoje se não acha instalado.
Da inestimavel collecção das antigas peças de louça e de obras de barro,
que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
tudo.
Tão vasta é a nossa riqueza artistica e tão profundo o desleixo de a
escripturar, que são quasi tão frequentes as surpresas no que se
encontra como no que se perde.
Como exemplo direi que era assentado não haver em Portugal vestigio
algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e não
existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
propriedade da _Bibliothèque Nationale_, em Paris. É entretanto nosso, e
existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
personagens, é da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
quatro paineis, de dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia
de data e de assumpto. Está bem conservado, e acha-se, com os tres da
serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
Vicente de Fóra, no vão de uma janella, junto dos aposentos habitados
n'essa occasião por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.
O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
reproducção photographica, destinada a illustrar a nova edição ingleza
da _Chronica da Guiné_.
Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
Nepomuceno comprou por 300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro
fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
mão d'obra e pelo estado de conservação em que se acha, uma das obras
capitaes da esculptura da Renascença em Portugal. Compõe-se de dezesete
figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
está prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
Soledade, as tres Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João
Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
trage do seculo XVI. Enquadra a composição um bello portico, de columnas
e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos Valles. Só outro
Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
á esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.
Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthéon dos
Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
cinco sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente regio dos
Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mór da egreja constituem
uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
contos de réis.
Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior aos dos quadros de
mesma época recolhidos pelo estado depois da abolição das ordens
religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, só á sua
parte, noticia de não menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da Academia das
Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, não ha uma só photographia
registrada pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos os museus do
mundo.
Por occasião da ultima exposição, tão interessante, realisada nas salas
devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
Antonio, a direcção das Bellas Artes não respondeu ao pedido da modesta
quantia de 50$000 réis que a commissão executiva da mesma exposição lhe
dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
manuscripto na mão do redactor.
Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos photographos
portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes tão valiosos e
desinteressados serviços devem as artes portuguezas, dirigiram ao
governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.
Inutil me parece alludir ainda á dispersão das mais ricas peças do
mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascença artistica
e industrial do nosso seculo XVIII.
Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias da Persia, bordados e
rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
antigas da India, do Japão e da China, credencias, leitos torcidos ou
empennachados, canapés e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
Real Fabrica das sedas, louças artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em
cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade que bem melancholicamente
lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não quiz. Ainda ha Verres,
como no tempo do velho mestre romano, mas já não ha verrinas.
D'esta desorganisação geral de toda a policia da arte resulta mais ou
menos lentamente, a quebra da tradição esthetica nacional, que é a seiva
de toda a producção artistica.
Á infecundação do individuo pelo espirito da raça corresponde o
desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
esterilidade do estudo, a degeneração da phantasia, o abandalhamento do
gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
decadencia geral, a desnacionalisação pelintra de todo um povo.
Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo é producto
da arte tudo o que não é unicamente obra da natureza.
O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
fatalmente a configuração das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
lhe enformam a personalidade.
Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja
que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
Portugal faltam corações portuguezes.
Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
intellectual.
Em resultado de não termos uma historia geral da arte portugueza,
devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
seus capitulos, vemos grassar, não só entre o vulgo mas entre pessoas de
saber, incumbidas de guiar e de reger a opinião, o erro criminoso,
profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
de concepções artisticas originaes.
A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e
de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
seitas.
Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada
tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da
raça, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
paixões mais profundas, todo de improvisação e de repentismo, capaz das
coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.
Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola
portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos
artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimento.
Por egual razão não teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
mercantil, todas as nossas industrias.
A decapitação official da nossa educação artistica manifesta-se ainda de
mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
apparencia dos predios, na decoração das praças, das avenidas, dos
cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das repartições do estado e
das habitações particulares.
Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma sala de concertos populares, nem
vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
Maria se não representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
Carlos se não canta Marcos Portugal, onde não ha um museu de arte
decorativa, nem um simples mostruario da nossa producção industrial, nem
um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
a lição que um museu contém, ha pelo contrario escaparates de
apparatosos armazens, que são para quem anda pelas ruas o contagioso
exemplo da mais corrompida perversão, do mais provocante e pomposo
relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
construcção. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
média era um accessorio movel, e só no seculo XVI se principiou a fixar
com pregos ao banco ou á cadeira, invade boçalmente todo o movel, armado
em ripes de pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em pelucia, que
nos esburaca os olhos pela insolente má creação da côr. E horripilantes
lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulação do contorno até o
material empregado, porque todas as linhas são aleijadas, a prata é
zinco, o marfim é gesso, o charão é de papel e o marmore esculpido é de
sabão. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
de canalhismo de casta para a vida toda.
Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
transito do publico, em vez da ornamentação da flora regional, em vez
dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
fosquinhas para trambulhões do viandante.