CAPITULO CCVIII

_Da grande pestelença que sobreveio a estes reinos, e como se fez a

profissão á Excellente Senhora D. Joana_

El-Rei D. Affonso e o Principe com toda a côrte se foram logo a Lisboa,

d'onde no Janeiro do anno que vinha de mil e quatrocentos e oitenta se

partiram, por causa da grande e mui crua pestenença que na cidade

sobreveio, a qual em todo este reino durou bem dezasete annos, que se

acabaram nos primeiros dias em que El-Rei D. Manuel nosso Senhor depois

começou de reinar, que foi no tempo em que como catholico Principe de

todo tirou e arrancou de seus reinos a velha lei de Moysés, e a errada

seita de Mafamede, lançando fóra d'elles os judeus que não quizeram ser

christãos, e assi os mouros, como infernaes ministros e discipulos

d'ellas.

El-Rei D. Affonso se foi a Viana d'Alvito, e o Principe e Princesa a

Beja, e a Excellente Senhora porque Santarem da mesma pestenença foi

logo contaminado, com gente d'armas que a sempre guardou, foi levada ao

mosteiro de Santa Clara d'Evora.

E porque o Principe no anno passado ante das pazes soube que certa

armada era ida de Castella resgatar contra sua defesa á Mina, armou

contra ella outra de que por uma vez foi capitão mór Jorge Corrêa,

comendador do Pinheiro, e da outra Mem Palha, homens honrados e bons

cavalleiros. Os quaes toparam na Mina os castelhanos, e assi os

cometeram que muito a seu salvo lhes tomaram sua frota, com muito ouro e

mercadorias, e trouxeram suas pessoas presos e captivos a Lisboa, que

por condição das pazes foram soltos, e o ouro que foi muita soma assi

como vinha em joias e arrieis foi levado a Beja, de muita parte do qual

o Principe fez mercê aos embaixadores de Castella, que depois a Moura

vieram sobre o concerto das terçarias.

E porque Evora no verão d'este anno começou corromper-se de pestenença,

foi logo d'ella tirada a Excelente Senhora, e levada com sua guarda ao

Vimieiro, onde o Principe veio, e d'alli a levaram ao mosteiro de Santa

Clara de Coimbra. E El-Rei D. Affonso se foi a Villa Viçosa, e de hi na

entrada do inverno a Coimbra, e o Principe após elle.

E porque n'aquelle mesmo tempo se cumpria o anno de aprovação, que á

Senhora D. Joana fôra dado para no cabo d'elle escolher, ou entrar em

terçaria em poder da dita Infante D. Briatiz, ou fazer profissão,

chegaram alli por embaixadores e procuradores d'El-Rei e da Rainha de

Castella o Prior de Prado, que depois foi o primeiro Arcebispo de Grada,

e o doutor Affonso Manuel, para serem no auto e execução de qualquer

d'estas cousas que a dita Senhora escolhesse.

E n'este tempo e na mesma cidade de Coimbra adoeceu El-Rei D. Affonso de

grande infermidade, de que esteve á morte, e a causa d'ella segundo seus

acidentes era sómente reportada a nojo e padecimentos que recebia por a

mudança e cousas da Excellente Senhora, para que era constrangido. A

qual forçada para dois estremos á sua alma tão amargosos e tristes, não

fiando nem segurando sua vida na entrada das terçarias, não por duvidar

da bondade, conciencia e virtudes da Infante D. Briatiz, mas receando-se

da continua conversação e familiaridade de castelhanos contrairos, que

não podia escusar, e assi movida por outros respeitos, escolheu por

melhor fazer de todo profissão no mesmo habito de Santa Clara que

trazia, e n'elle servir a Deos antes que tomar partido tão incerto, e

para sua vida e sua honra tão duvidoso. E na bespora do dia em que foi

ordenado a dita Senhora fazer profissão, foi no mosteiro tamanho pranto

de seus criados e criadas que alli ocorreram, como se a houveram de

soterrar. E com isto em alguma maneira foi de seu proposito revolta para

não fazer profissão, a que o Principe acudio, e assi a soube temperar

com esperanças de futuro bem, e com palavras assi brandas e prudentes,

que de todo a confirmou em despejadamente fazer a dita profissão, a qual

fez dentro no dito mosteiro, a quinze dias do mez de Novembro do dito

anno de mil e quatrocentos e oitenta.

E ao auto da dita profissão esteve o Principe sem El-Rei, e com elle

foram a ella presentes os ditos embaixadores de Castella, e todolos

grandes senhores, Prelados e fidalgos da côrte de Portugal, perante os

quaes depois de ser reconhecida por a mesma Senhora D. Joana, ella com

uma paciencia e segurança com que a muitos commovia a muitas lagrimas,

das mãos de Frei Diogo d'Abrantes recebeu o veo preto, na fórma, e com a

solenidade e cerimonias que a dita ordem manda. Do qual todos os ditos

embaixadores logo pediram publicos estromentos, que depois lhe foram

dados á sua vontade.

N'este tempo foi a cidade de Rodes cercada de turcos, e posta em grande

afronta, sendo Gram Mestre D. Frei Pedro d'Ahábusam, a cujo socorro foi

d'estes reinos D. Diogo Fernandes d'Almeida que trazia o habito da dita

Ordem, e era eleito para ser como foi Prior do Crato, e foi bem armado e

aparelhado, e no caminho e em Rodes ganhou muita honra, sendo ferido

pelejando com gallés, e fazendo ricas presas como homem de nobre sangue,

a que em todas suas cousas d'antes e depois nunca falleceu discressão,

bondades, e grande esforço de coração.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 82 / 127 题