_Da grande pestelença que sobreveio a estes reinos, e como se fez a
profissão á Excellente Senhora D. Joana_
El-Rei D. Affonso e o Principe com toda a côrte se foram logo a Lisboa,
d'onde no Janeiro do anno que vinha de mil e quatrocentos e oitenta se
partiram, por causa da grande e mui crua pestenença que na cidade
sobreveio, a qual em todo este reino durou bem dezasete annos, que se
acabaram nos primeiros dias em que El-Rei D. Manuel nosso Senhor depois
começou de reinar, que foi no tempo em que como catholico Principe de
todo tirou e arrancou de seus reinos a velha lei de Moysés, e a errada
seita de Mafamede, lançando fóra d'elles os judeus que não quizeram ser
christãos, e assi os mouros, como infernaes ministros e discipulos
d'ellas.
El-Rei D. Affonso se foi a Viana d'Alvito, e o Principe e Princesa a
Beja, e a Excellente Senhora porque Santarem da mesma pestenença foi
logo contaminado, com gente d'armas que a sempre guardou, foi levada ao
mosteiro de Santa Clara d'Evora.
E porque o Principe no anno passado ante das pazes soube que certa
armada era ida de Castella resgatar contra sua defesa á Mina, armou
contra ella outra de que por uma vez foi capitão mór Jorge Corrêa,
comendador do Pinheiro, e da outra Mem Palha, homens honrados e bons
cavalleiros. Os quaes toparam na Mina os castelhanos, e assi os
cometeram que muito a seu salvo lhes tomaram sua frota, com muito ouro e
mercadorias, e trouxeram suas pessoas presos e captivos a Lisboa, que
por condição das pazes foram soltos, e o ouro que foi muita soma assi
como vinha em joias e arrieis foi levado a Beja, de muita parte do qual
o Principe fez mercê aos embaixadores de Castella, que depois a Moura
vieram sobre o concerto das terçarias.
E porque Evora no verão d'este anno começou corromper-se de pestenença,
foi logo d'ella tirada a Excelente Senhora, e levada com sua guarda ao
Vimieiro, onde o Principe veio, e d'alli a levaram ao mosteiro de Santa
Clara de Coimbra. E El-Rei D. Affonso se foi a Villa Viçosa, e de hi na
entrada do inverno a Coimbra, e o Principe após elle.
E porque n'aquelle mesmo tempo se cumpria o anno de aprovação, que á
Senhora D. Joana fôra dado para no cabo d'elle escolher, ou entrar em
terçaria em poder da dita Infante D. Briatiz, ou fazer profissão,
chegaram alli por embaixadores e procuradores d'El-Rei e da Rainha de
Castella o Prior de Prado, que depois foi o primeiro Arcebispo de Grada,
e o doutor Affonso Manuel, para serem no auto e execução de qualquer
d'estas cousas que a dita Senhora escolhesse.
E n'este tempo e na mesma cidade de Coimbra adoeceu El-Rei D. Affonso de
grande infermidade, de que esteve á morte, e a causa d'ella segundo seus
acidentes era sómente reportada a nojo e padecimentos que recebia por a
mudança e cousas da Excellente Senhora, para que era constrangido. A
qual forçada para dois estremos á sua alma tão amargosos e tristes, não
fiando nem segurando sua vida na entrada das terçarias, não por duvidar
da bondade, conciencia e virtudes da Infante D. Briatiz, mas receando-se
da continua conversação e familiaridade de castelhanos contrairos, que
não podia escusar, e assi movida por outros respeitos, escolheu por
melhor fazer de todo profissão no mesmo habito de Santa Clara que
trazia, e n'elle servir a Deos antes que tomar partido tão incerto, e
para sua vida e sua honra tão duvidoso. E na bespora do dia em que foi
ordenado a dita Senhora fazer profissão, foi no mosteiro tamanho pranto
de seus criados e criadas que alli ocorreram, como se a houveram de
soterrar. E com isto em alguma maneira foi de seu proposito revolta para
não fazer profissão, a que o Principe acudio, e assi a soube temperar
com esperanças de futuro bem, e com palavras assi brandas e prudentes,
que de todo a confirmou em despejadamente fazer a dita profissão, a qual
fez dentro no dito mosteiro, a quinze dias do mez de Novembro do dito
anno de mil e quatrocentos e oitenta.
E ao auto da dita profissão esteve o Principe sem El-Rei, e com elle
foram a ella presentes os ditos embaixadores de Castella, e todolos
grandes senhores, Prelados e fidalgos da côrte de Portugal, perante os
quaes depois de ser reconhecida por a mesma Senhora D. Joana, ella com
uma paciencia e segurança com que a muitos commovia a muitas lagrimas,
das mãos de Frei Diogo d'Abrantes recebeu o veo preto, na fórma, e com a
solenidade e cerimonias que a dita ordem manda. Do qual todos os ditos
embaixadores logo pediram publicos estromentos, que depois lhe foram
dados á sua vontade.
N'este tempo foi a cidade de Rodes cercada de turcos, e posta em grande
afronta, sendo Gram Mestre D. Frei Pedro d'Ahábusam, a cujo socorro foi
d'estes reinos D. Diogo Fernandes d'Almeida que trazia o habito da dita
Ordem, e era eleito para ser como foi Prior do Crato, e foi bem armado e
aparelhado, e no caminho e em Rodes ganhou muita honra, sendo ferido
pelejando com gallés, e fazendo ricas presas como homem de nobre sangue,
a que em todas suas cousas d'antes e depois nunca falleceu discressão,
bondades, e grande esforço de coração.