CAPITULO CCVII

_Da publicação das pazes e das mais cousas que para cumprimento

d'ellas se fizeram, principalmente ácerca da Excellente Senhora D.

Joana_

E no fim do mez de Setembro d'este anno do nascimento de Nosso Senhor

Jesus Christo de mil quatrocentos e setenta e nove, as ditas pazes se

publicaram logo no dito lugar das Alcaçovas, e des hi por todolos reinos

de Portugal e Castela, onde de hi em diante se guardaram e cumpriram

inteiramente. E porém o titulo de Rainha e estado que a Senhora D. Joana

tinha, não lhe foi logo tirado até os seis dias d'Outubro logo seguinte;

porque então se cumpriam seis mezes que a dita Senhora D. Joana teve de

liberdade, para sem quebrantamento d'estas pazes se poder sair dos

reinos de Portugal, mas em tal caso não podia d'elles, nem d'El-Rei e do

Principe por alguma maneira receber ajuda nem soccorro, nem menos ser

por elles intitulada Rainha, Princesa nem Infante, e porque isto não

sobcedeo á dita Senhora em Castella como á sua honra, estado e desejo

cumpria, sendo forçado escolher um de dois meios que para ella eram

estremos de mortal sentimento, ou poer-se em terçaria ou entrar em

religião, ella escolheu por melhor entrar em religião. Pelo qual estando

ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dorosas

lamentações suas e de todolos seus, leixou o titulo de Rainha e tomou

nome de D. Joana, e despio seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e

vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a

corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe

d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu agravo e

magoa não lhe leixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos

cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assi

entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.

E na execução d'estas cousas porque a necessidade d'outras muitas assi o

requeria, o só e principal ministro era o Principe; porque El-Rei D.

Affonso seu padre de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se

escusou, e as leixou inteiramente á disposição e ordenança do filho, a

cuja vontade El-Rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e

sobjeito.

Mas se o Principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a

Senhora D. Joana, porventura mais do que por razão, piedade, e

temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do

casamento do Infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma

esperança da sobcessão de Castella, a desaventurada fortuna como crú

algoz do rigoroso e severo juizo Divino, pela culpa do Principe se a

tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos

innocentes Principe e Princesa, depois de novamente casados, sobre que

tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de

Santarem, que contra a Senhora D. Joana foi o talho d'esta primeira sua

crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o

Principe D. João depois de ser Rei á vista da mesma Excellente Senhora

vio a supita e desastrada morte do Principe D. Affonso seu filho, e a

quem á primeira pareceo, que sendo vivo os reinos de Portugal sem os de

Castella lhe não abastariam, elle o vio logo morto, e de uma pouca de

terra para sempre sobjeito e contente, e a triste e innocente Princesa

sua mulher ante de bem casada se vio logo ser viuva, privada do

verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos, e ollandas

delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo

vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental

proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua

conversação, e servida por servidores alheios, comendo no chão e em

vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos

esposada cuberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e

trotões á vista de todos. E saindo logo d'elles viuva, cuberta de vaso e

almafega, em cima d'azemolas, escondida de todos.

Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes, soffrei-vos

um pouco, cá para outro mais proprio lugar estaes reservadas.

Nem a culpa do solemne, mas simulado e cautelozo juramento que El-Rei e

a Rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta Senhora com o

Principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e

sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceo que se fez, não

padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não

madura morte do Principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais

tempo d'aquelle em que com esta Senhora prometeram e juraram de o casar;

porque elle já então era casado com Madama Margarida, filha do Rei dos

romãos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes Principes de

que os Reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento

faziam, ficar algum ligitimo herdeiro descendente que os subcedesse e

herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 81 / 127 题