_Da publicação das pazes e das mais cousas que para cumprimento
d'ellas se fizeram, principalmente ácerca da Excellente Senhora D.
Joana_
E no fim do mez de Setembro d'este anno do nascimento de Nosso Senhor
Jesus Christo de mil quatrocentos e setenta e nove, as ditas pazes se
publicaram logo no dito lugar das Alcaçovas, e des hi por todolos reinos
de Portugal e Castela, onde de hi em diante se guardaram e cumpriram
inteiramente. E porém o titulo de Rainha e estado que a Senhora D. Joana
tinha, não lhe foi logo tirado até os seis dias d'Outubro logo seguinte;
porque então se cumpriam seis mezes que a dita Senhora D. Joana teve de
liberdade, para sem quebrantamento d'estas pazes se poder sair dos
reinos de Portugal, mas em tal caso não podia d'elles, nem d'El-Rei e do
Principe por alguma maneira receber ajuda nem soccorro, nem menos ser
por elles intitulada Rainha, Princesa nem Infante, e porque isto não
sobcedeo á dita Senhora em Castella como á sua honra, estado e desejo
cumpria, sendo forçado escolher um de dois meios que para ella eram
estremos de mortal sentimento, ou poer-se em terçaria ou entrar em
religião, ella escolheu por melhor entrar em religião. Pelo qual estando
ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dorosas
lamentações suas e de todolos seus, leixou o titulo de Rainha e tomou
nome de D. Joana, e despio seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e
vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a
corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe
d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu agravo e
magoa não lhe leixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos
cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assi
entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.
E na execução d'estas cousas porque a necessidade d'outras muitas assi o
requeria, o só e principal ministro era o Principe; porque El-Rei D.
Affonso seu padre de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se
escusou, e as leixou inteiramente á disposição e ordenança do filho, a
cuja vontade El-Rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e
sobjeito.
Mas se o Principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a
Senhora D. Joana, porventura mais do que por razão, piedade, e
temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do
casamento do Infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma
esperança da sobcessão de Castella, a desaventurada fortuna como crú
algoz do rigoroso e severo juizo Divino, pela culpa do Principe se a
tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos
innocentes Principe e Princesa, depois de novamente casados, sobre que
tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
Santarem, que contra a Senhora D. Joana foi o talho d'esta primeira sua
crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o
Principe D. João depois de ser Rei á vista da mesma Excellente Senhora
vio a supita e desastrada morte do Principe D. Affonso seu filho, e a
quem á primeira pareceo, que sendo vivo os reinos de Portugal sem os de
Castella lhe não abastariam, elle o vio logo morto, e de uma pouca de
terra para sempre sobjeito e contente, e a triste e innocente Princesa
sua mulher ante de bem casada se vio logo ser viuva, privada do
verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos, e ollandas
delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo
vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental
proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua
conversação, e servida por servidores alheios, comendo no chão e em
vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos
esposada cuberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e
trotões á vista de todos. E saindo logo d'elles viuva, cuberta de vaso e
almafega, em cima d'azemolas, escondida de todos.
Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes, soffrei-vos
um pouco, cá para outro mais proprio lugar estaes reservadas.
Nem a culpa do solemne, mas simulado e cautelozo juramento que El-Rei e
a Rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta Senhora com o
Principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e
sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceo que se fez, não
padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não
madura morte do Principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais
tempo d'aquelle em que com esta Senhora prometeram e juraram de o casar;
porque elle já então era casado com Madama Margarida, filha do Rei dos
romãos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes Principes de
que os Reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento
faziam, ficar algum ligitimo herdeiro descendente que os subcedesse e
herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados.