_De como se fizeram as entregas do Infante D. Affonso e da Infante
D. Isabel nas terçarias de Moura_
E feita a dita profissão, o Principe se partiu de Coimbra, e mui
aforrado chegou a Beja onde era a Princesa sua mulher e o Infante D.
Affonso seu filho, que ainda não era de cinco annos.
E porque no mesmo dia se cumpria o tempo em que o dito Infante havia de
ser entregue em Moura em poder da Infante D. Briatiz como era sob
grandes penas capitulado, na mesma hora que o Principe chegou, logo por
prazer da Princesa o inviara mui honradamente a Moura. E não partiu
d'ante elles com menos dôr e saudade que se lhes levara os corações
d'ambos, e o arrancaram de sua propria carne, e não era sem causa;
porque alem de ser só filho ainda, n'elle havia em tudo tantas e tão
angelicas perfeições, que o privar de sua vista e conversação assi o
merecia. Mas por cumprirem o que como bons e verdadeiros Principes
deviam, posta a natural dôr que o contradizia, despensando com a
privação do filho pela piedade do reino, permitiram que o primeiro
caminho que seus mui tenros pés fizessem, fossem com risco de sua vida
ir tirar a guerra e a morte dos reinos, porque então já esperavam.
E com tanta aflição do corpo e d'alma, não havia quem a estes Principes
mais confortasse que a fé e verdade que a Deus e ao mundo sem cautella
sempre mantiveram com grande cuidado; porque n'estas que eram suas
proprias virtudes, para sua consolação e descanso ora buscavam ante
elles rasões e confortos, com que lhe alimpavam as reaes lagrimas, que
sua humanidade não podia escusar.
E como o Infante D. Affonso foi assi entregue, logo o Principe e a
Infante D. Briatiz, por Rodrigo Affonso e por Ruy de Pina notificaram
sua entrega, e a profissão da Senhora D. Joana á Infante D. Isabel e aos
Senhores de Castella que a traziam e com ella estavam na villa da Fonte
do Mestre, para ella vir e ser tambem entregue na dita terçaria, como
era capitulado. E feita a dita notificação, logo D. Affonso de Cardenas,
Mestre de Santiago, e D. Diogo Furtado de Mendonça, Bispo de Pallença, e
D. Affonso d'Afonseca, Bispo de Avyla, e outros senhores que com ella
eram se vieram a Freixinal.
E d'hi se emaderam mais e juntamente por embaixadores d'El-Rei e da
Rainha de Castella, aos outros que foram a Coimbra, o Bispo de Coria D.
João de Ortiga, e o licenceado d'Ilhescas, os quaes todos quatro sem a
Infante se vieram diante a Moura, onde com o Infante D. Affonso e com a
Infante D. Briatiz, eram já o duque de Vizeu D. Diogo, e o duque de
Bragança D. Fernando, e o conde de Faram D. Affonso, e o senhor D.
Alvaro, com outros senhores e fidalgos do reino, e por procuradores
d'El-Rei e do Principe D. João de Mello, Bispo de Silves, e D. João da
Silveira, barão d'Alvito, para todos concordarem e praticarem as
menagens, seguridades e desnaturamentos, e cousas que para entrega e
vinda da dita Infante D. Isabel cumpriam. Nas quaes por parte dos dois
derradeiros embaixadores de Castella, contra a opinião e voto dos outros
primeiros se moveram e apontaram de novo tantas duvidas e condições para
dilatarem a entrega da dita Infante, com que foi necessario ir algumas
vezes consulta ao Principe, que era em Beja; porque todo este negocio
sobre elle pendia, o qual anojado de suas importunações e injustas
delongas, finalmente enviou aos ditos embaixadores dois escriptos, com
duas palavras feitas de sua mão, e em um dizia _Paz_, e no outro
_Guerra_, e mandou que no Conselho onde os de um reino e do outro cada
dia se juntavam fossem os ditos escriptos apresentados aos ditos
embaixadores, e que logo em nome dos Reis seus Senhores escolhessem um
d'elles, qual quizessem, e que se tomassem o da guerra, que mais seria
d'ella contente por ser uma guerra, que de paz, que tantas guerras lhe
dava. E que se quizessem o da paz, que d'elle tambem lhe prazia sem mais
negociações das que já eram concordadas, e que para isso logo trouxessem
e entregassem a Infante.
Os quaes dois escriptos do Principe, com sua determinação tão perantoria
tiveram no Conselho tanta força, que os embaixadores todos sem mais
altercações se conformaram e acordaram a entrega da dita Infante, que
foi a onze dias do mez de Janeiro de mil e quatrocentos e oitenta e um,
a que a Infante D. Briatiz com toda a frol e gentileza de Portugal que
alli foi junta sahio, e a uma legoa de Moura junto com a quintã que
dizem da Coroada, e no meio de um ribeiro que alli corre, das mãos dos
ditos senhores e embaixadores de Castella recebeu a dita Infante D.
Isabel. E entregou a elles o Senhor D. Manuel seu filho, que com a gente
que á sua honra e estado cumpria, levaram á côrte dos Reis de Castella
em lugar do duque D. Diogo seu irmão, que por contrato das terçarias
houvera primeiro de ser entregue, mas por a este tempo o duque ser
doente, ficou por então até ser são, mas verdadeiramente assi foi muita
razão, e ainda pareceu quere-lo assi Deos, que o Senhor D. Manuel
primeiro fosse arrefens e segurança da paz e assessego dos reinos de
Portugal, pois elle por graça Divina primeiro os havia de sobceder com a
mesma paz e assessego como sobcedeu, e ao diante se dirá.
E porém o duque foi depois a Castella, e o Senhor D. Manuel tornou a
Portugal, como em seus tempos e lugares será declarado.
E porque a villa e fortaleza de Moura em que terçarias foram logo
ordenadas, e em que o Principe á sua custa para os Infantes mandou fazer
honrados aposentamentos, era nos verãos naturalmente muito doentia e
perigosa, requereu o Principe a El-Rei e á Rainha de Castella e á
Infante D. Briatiz, que para segurança das vidas e pessoas dos ditos
Infantes, houvessem por bem as ditas terçarias pelas mesmas condições se
mudarem á villa de Beja, que de seu sitio era sã e de bons ares.
E por algum consentimento, que com razão os ditos Senhores Reis e
Infantes logo para isso deram, o Principe mandou fazer grandes
percebimentos de pedraria e madeiras e officiaes, para no castello de
Beja se fazerem outros aposentamentos. E elle e a Princesa se foram de
Beja ter a Pascoa da Resurreição a Torres Novas, onde era El-Rei D.
Affonso. Mas porque a Infante D. Briatiz por conselhos e induzimentos
não verdadeiros, com que pareceu que foi enganada, mudou este proposito,
e com todo o grande perigo de Moura quiz ficar no primeiro de se não
mudar da dita villa, o Principe começou tomar d'ella alguns
descontentamentos, pelos quaes logo desejou desfazer ou mudar as ditas
terçarias em outra maneira.