_Da conclusão que El-Rei D. Affonso tomou com El-Rei de França,
quando com elle se vio a segunda vez_
Com esta resposta se vieram os embaixadores, que acharam El-Rei D.
Affonso já em Paris. D'onde enviou logo o conde de Penamacôr a El-Rei de
França, que era na cidade de Raz dar-lhe conta da embaixada. O qual
volveo logo, com determinação que os Reis ambos no mesmo Raz logo se
vissem, para onde El-Rei D. Affonso logo partio, e El-Rei de França a
cavallo e vestido casi na maneira da primeira vista o veio receber, e
foi com elle a seu aposentamento, que foi em uma mui grande e honrada
Abadia de Conegos Regrantes, em que El-Rei e toda sua gente se alojou.
Alli esteve El-Rei D. Affonso alguns dias, esperando a cautelosa e
inutil determinação, ou mais certo desesperação d'El-Rei de França, que
lh'a deu com certos apontamentos, que para discretos era clara escusa do
que se pedia, com que El-Rei D. Affonso se despedio para Portugal. E tão
mal despachado como a desaventura do tempo ordenou; porque assi como
vivendo o duque de Borgonha, El-Rei de França por ganhar sua paz,
ajudara de necessidade a El-Rei D. Affonso, assi por sua morte achando
muita da sua terra desocupada para a poder cobrar, não curou d'isso, nem
foi muito de culpar El-Rei de França por maiores promessas que fizera;
porque para dar gente e dinheiro a Rei estranho, com que para isso
ganhasse reino de empresa tão duvidosa, e leixar perder e não cobrar sua
propria terra, o direito e rasão que o a isso obrigasse seria escuro e
máo d'achar.