CAPITULO CCI

_Como o Principe cercou a villa d'Alegrete e a tomou, e d'outras

cousas que no reino se seguiram andando El-Rei D. Affonso em

França_

E tornando ás cousas do reino de Portugal, tanto que El-Rei D. Affonso

partiu de Lisboa para França, o Principe D. João seu filho na entrada de

Janeiro se foi logo entre Tejo e Odiana, d'onde mandou continuar a

guerra contra Castella, em que se faziam grandes e danosas entradas. E

porque a villa d'Alegrete estando o Principe em Touro foi manhosamente

tomada por D. Affonso de Monroy, Mestre que se disse d'Alcantara, que a

esse tempo seguia o partido d'El-Rei D. Fernando, o Principe em que

havia reaes bondades e virtudes, e o esforço do coração não falecia, no

mez de Fevereiro de mil quatrocentos setenta e sete, lhe pôs tal cerco e

a mandou combater assi rijamente, que por partido se rendeo, e lhe foi

entregue com muita sua honra e louvor, e porém não sem dano e mortes dos

cercadores e cercados.

E durando o dito cerco d'Alegrete foi tambem posto estreito cerco em

Castella a Touro, e a Crasto Nunho, e a Cantallapedra, que ainda estavam

por El-Rei D. Affonso. E o Principe determinando de lhes soccorrer, fez

muita gente prestes que mandou com o almirante Lopo Vaz d'Azevedo, e com

Fernão Martins Mascarenhas capitão dos ginetes, e da villa de Pinhel

onde chegaram, se tornaram por serem certificados que o soccorro com que

iam, pela muita maior força dos cercos postos, se não podia por elles

dar sem seu manifesto perigo. E em fim os capitães cercados, Pero de

Mendanha, Alcaide de Crasto Nunho e Affonso Peres de Biveiro, capitão de

Cantallapedra como nobres fidalgos e leaes servidores, por partidos que

lhe fizessem nunca se deram, nem leixaram de ter as fortallezas até que

lhe foi mandado por El-Rei D. Affonso, andando em França, visto como os

não podia soccorrer que o fizessem, pelo qual a salvamento de suas

honras e pessoas entregaram as fortalezas. E com as bandeiras reaes de

Portugal tendidas, por Castella se vieram a estes reinos; porque assim

tomaram por partido.

E n'este anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, houve o Principe

de Pedro Pantoja, cavalleiro castelhano, as fortalezas de Zagalla e

Pedra Bôa, que são do Mestrado d'Alcantara, junto com Albuquerque, em

que pôs seus alcaides e capitães, e por ellas lhe deu em Portugal a

villa de Santiago de Cacem, que é do Mestrado de Santiago. As quaes

fortalezas com outras rendas n'este reino, depois deu o Principe ao dito

D. Affonso de Monroy, porque seguisse e servisse a El-Rei D. Affonso seu

padre, como na guerra sempre serviu bem e fielmente até ás pazes. Outro

si porque no anno em que El-Rei D. Affonso entrou em Castella a

fortaleza de Noudal que é Mestrado d'Avis, por engano e astucia de

guerra se tomou, e a este tempo era em poder de Martim de Sepulveda,

fidalgo castelhano, o Principe por concerto o trouxe a seu serviço com

promesssas que lhe fez. As quaes depois com elle cumpriu, a

contentamento do dito Martim de Sepulveda segundo era obrigado. E sendo

El-Rei D. Affonso em França, o Principe fez côrtes geraes em

Mantemór-o-Novo, onde para estas necessidades da guerra lhe foi pelo

reino outorgado dinheiro, para que lançaram pedidos.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 75 / 127 题