_Da resposta que os embaixadores houveram em Roma ácerca da
despensação que requereram_
Os embaixadores dos Reis que eram em Roma, com muita instancia e
efficacia requereram ao Papa Sixto quarto a despensação sobre que
principalmente foram enviados, em que por parte de El-Rei D. Fernando de
Napoles, por ser casado com uma irmã d'El-Rei D. Fernando de Castella, e
por outros senhores que favoreciam sua parcialidade, por causas de
eminentes e oferecidos danos que alegaram, houve para a despensação se
não conceder grande e total contrariedade. Porque o Papa por ventura
aconselhado n'isso catholicamente, consirando como El-Rei D. Fernando
com a Rainha D. Izabel sua mulher eram pacificos Reis de Castella, e
El-Rei D. Affonso era n'elles em forças e poder mui desigual, houve por
grande mal e perjuizo da christandade conceder a dita despensação, em
caso que parecesse razão por ser direito conceder-se, por não dar com
ella causa e titulo de uns e outros se guerrearem com mortes de
christãos, e guerras continuas que se não escusavam, o que o Papa devia
evitar especialmente; que ajuda d'El-Rei de França para El-Rei D.
Affonso sempre em Roma se houve por mui duvidosa.
E estando n'estas duvidas e debates chegou a Roma nova da morte do duque
de Borgonha, com que o Papa fazendo por ella o poder d'El-Rei de França
mui mais livre e despejado para sem contradição se quizesse poder dar
uma grande ajuda, houve o direito e justiça d'El-Rei D. Affonso para a
sobcessão de Castella por de mór efficacia, com fundamento do qual o
Papa tomou um meio, que mais verdadeiramente foi clara denegação, o qual
foi, que por quanto pelas razões alegadas, a El-Rei D. Affonso por si,
sem França, a dita despensação não se devia conceder, e que com a
inteira ajuda d'El-Rei de França era razão que se desse, que por tanto a
elle mesmo Rei de França se devia de dar tomando-a elle com seu cargo.