CAPITULO CXCVIII

_De como El-Rei D. Affonso se foi vêr com o duque de Borgonha, e

como logo se seguio a morte do dito duque_

N'esta confiança que El-Rei D. Affonso tomou de tudo assi acabar, partiu

no Novembro mui alegre, e com muita aspereza de neves e frios

incomportaveis chegou a Camansam e Almansa, lugares mais acerca do

arraial do duque, d'onde El-Rei por terra regellada e toda cuberta de

neve se foi vêr com o duque, e viram-se e abraçaram-se ambos a pé sobre

o meio de um grande rio todo tão regellado, que por elle seguramente

passavam bestas e carretas como por uma forte ponte, e d'alli se

tornaram ao arrayal do duque, que hi perto estava, onde o duque sobre as

cousas com que logo soube que El-Rei a elle ia, lhe disse que elle Rei

de Portugal era entrado com um homem, em que não havia virtude nem

verdade, dizendo-o por El-Rei de França, e que para o crêr não quizesse

logo outra prova, se não que tendo enviado a elle que no mundo era tal e

tão excellente Rei, e com requerimentos e mostranças de tanta paz, amor,

e liança, logo após elle mandara muita gente d'armas em ajuda do duque

de Lorreina seu inimigo e para contra elle. Porém que elle tinha ao

mesmo Rei de França em tão pouca estima, que com um só page, que

mostrou, ousaria dar-lhe batalha e esperar victoria. Mas pois que elle

Rei D. Affonso por assi lhe cumprir queria sua concordia, que por lhe

comprazer era d'ella contente, e lhe prometia leal e verdadeiramente,

não sómente de estar em toda paz e amizade que se entre elles podesse,

mas que elle faria cumprir a El-Rei de França todo o que em sua demanda

lhe tinha prometido e prometesse.

E com esta conclusão finalmente se partiram, para nesta sustancia do

lugar a que tornavam concordarem e firmarem suas capitullações.

E d'hi a poucos dias praticando El-Rei D. Affonso como isto se bem

faria, veio sobre o cerco do duque de Borgonha, e contra elle a mesma

gente d'armas d'El-Rei de França com outra muita do duque de Lorreina. E

o duque com quanto tinha muito menos gente e era de fome e de frios mui

trabalhada, não aguardou ser em seu arrayal combatido, mas sahio fóra a

esperal-os, e no campo lhes deu a batalha, em que foi desbaratado e

vencido com mortes e grande perda de sua gente, e querendo salvar-se por

uma ponte já um pedaço da peleja, achou contrairos que a guardavam. Dos

quaes pelejando sem ser então conhecido, a um domingo, bespora dos Reis

Magos do anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, foi morto, e

depois se conheceo no campo por os sinaes de seu corpo que um seu fisico

d'elle deu, e tambem por uma cellada rica que um seu page trazia, junto

da qual pareceu que jazia, como jazia o corpo do dito duque. Cuja morte

que logo a El-Rei D. Affonso foi notificada, pôs a elle e a todolos

portugueses em publico nojo e muita tristeza, com que deu suspeita aos

franceses de o haverem por contrairo, e esteve em condição para d'elles

receber por isso mais dano e perigo, que bom trato nem serviço.

E na morte e perda do duque de Borgonha acabou El-Rei D. Affonso de

verdadeira e sustancialmente perder toda esperança de seu desejo e

proposito; porque em sua vida do duque estava toda a obrigação para

El-Rei de França ajudar a El-Rei. E em sua morte foi o contrairo; porque

como por ella El-Rei de França se vio livre e desocupado dos receios que

do duque tinha, logo sem medo nem vergonha do que tinha prometido,

desamparou o negocio de Castella, e entendeo do seu proprio, que foi

haver e cobrar muitas terras da alta Borgonha e Picardia, que o duque

lhe tinha tomadas, e por seu fallecimento ficaram sem resistencia. E

porém El-Rei de França mandou logo recado a El-Rei D. Affonso,

pedindo-lhe com palavras de grande esperança, que em tanto se fosse,

como logo foi, aposentar-se em Paris, onde esteve até o Maio, que El-Rei

de França andou sempre em sua guerra, fazendo e acabando o que lhe

cumpria.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 72 / 127 题