_De como foram a Roma embaixadores d'El-Rei de França e d'El-Rei D.
Affonso requerer a despensação para poder casar com a Rainha D.
Joana sua sobrinha_
E para cumprimento das conclusões em que ficaram, ordenou-se logo
embaixada ao Papa sobre o requerimento da despensação, em que d'El-Rei
D. Affonso foram embaixadores o conde de Penamacôr, e o doutor João
Teixeira, que depois foi Chanceller Mór, e Diogo de Saldanha, homem
prudente e de grande autoridade, que seguiu a parte da Rainha D. Joana,
e d'El-Rei de França foram o monseor de Sam Valher, e um grande letrado
governador do parlamento de Granobra, cabeça do Delfinado.
E juntos estes embaixadores acompanhados de muita e nobre gente, fizeram
seu caminho a Roma por terra, onde como pessoas que representavam
tamanhos dois Reis como era o de França e o de Castella e Portugal,
foram logo com grande honra recebidos.
E El-Rei D. Affonso aparelhou sua ida ao duque de Borgonha, que era em
campo sobre a cidade de Namsy em baixa Allemanha, contra o duque de
Lorreina com que tinha guerra. E ante de sua partida El-Rei de França
lhe disse, que por a pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha,
por ser muito orgulhoso, duvidava que tomando a cidade de Namsy sobre
que estava, e destruindo o duque de Lorreina, por seguir novidades
quereria entrar por França, e que com receios d'isto pelos segurar tinha
sua gente na frontaria, que daria causa elle lhe não poder dar tanta
ajuda, como sem isso faria. Porém que se por seu meio d'El-Rei D.
Affonso elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por
casamentos dos filhos, como o duque por todalas razões devia querer,
elle em sua ajuda poeria a corôa de França com todo seu poder, e que
El-Rei D. Affonso devia requerer o duque que fosse com elle em pessoa;
porque era bom capitão, e tinha muita gente e singular artilharia, e que
sendo El-Rei D. Affonso d'estas amizades meio segurador, cada um d'elles
teria receio de as per si quebrar, pelo não ter por contrairo, com as
quaes muito cedo se faria pacifico Rei de Castella.