_Do que El-Rei de França e El-Rei D. Affonso entre si acordaram
para execução de sua ida_
E como entraram, depois de El-Rei de França perguntar a El-Rei por sua
disposição, e tocar em muitas cousas de prazer, em conclusão disse, que
por quanto as cousas da guerra sobre que era seu principal motivo
requeriam muita pressa e não padeciam dillação, que logo ambos com o
conde de Penamacôr seu camareiro-mór se apartassem, como apartaram todos
tres.
E entre as cousas sustanciaes em que falaram e em que tomaram conclusão,
foi ser necessario El-Rei D. Affonso ir em pessoa ao duque de Brogonha
pedir-lhe gente e ajuda contra Castella, e que em caso que pelas
differenças em que então andava com o duque de Loreina lh'a não podesse
dar, ao menos tomaria d'elle duque de Brogonha tal segurança para elle
Rei de França, sem receio de sua guerra mais livre e poderosamente o
poder ajudar. E para o fazerem todos em sua ajuda com menos cargo, a
todos cumpria justo titulo, que era dispensação Apostollica para El-Rei
D. Affonso poder casar com a Rainha D. Joana sua sobrinha, pois dos
reinos que a ella pertenciam, como seu marido se intitulara. E que logo
alli se apartassem quatro pessoas de cada parte, para em breve
consultarem e praticarem sobre a gente, dinheiro e cousas que para sua
empresa cumpriam, e porem tudo em boa ordem. E disse mais que por quanto
havia por certo que os castelhanos ás vezes folgavam vender fortalezas,
que elle sempre houvera por melhor e mais barato compra-las por
dinheiro, que por guerra, e que o dinheiro e sua pessoa com toda a gente
de seu reino, elle lh'a offerecia para isso e para todo o mais que a sua
honra e estado cumprisse.
E depois d'El-Rei D. Affonso lh'o remercear tanto quando tamanha
esperança para suas necessidades requeria, se sairam já de noite, e do
meio da salla onde se primeiro viram já com tochas se despedio d'elle
El-Rei de França. O qual enviou dizer depois a El-Rei D. Affonso, que
para elle convidar alguma gentil dama, como era usança e cortezia do seu
reino, lhe pedia que quizesse d'elle tomar em tanto cincoenta mil
escudos d'ouro. Mas El-Rei D. Affonso com palavras publicas de singular
agardecimento, e com respeitos secretos que a seu estado real cumpriam
se enviou por então escusar.
Aqui fez El-Rei de França conde d'Abranches D. Fernando d'Almada, filho
do outro conde Alvaro Vaz d'Almada, que morreu na batalha com o Infante
D. Pedro, como atraz fica.