_Da primeira vez que El-Rei D. Affonso se vio com El-Rei de França
em Tors em Toraina_
El-Rei de França era na cidade de Tors em Toraina, onde quiz que El-Rei
D. Affonso o visse e fosse bem aposentado. E depois de ter certo seu
aposentamento, El-Rei de França com uma fingida romaria, só se partio de
seu aposentamento que é junto da cidade, e leixou n'ella toda sua côrte
com o seu Minham Monseor d'Argentam, para elle com os Regedores da
cidade fazerem como fizeram a El-Rei um mui solemne recebimento,
entregando-lhe ás portas com palavras de grande veneração e muito
acatamento as chaves d'ella.
E El-Rei de França passados cinco dias veiu-se ao dito seu
aposentamento, que dizem Plesirdubues, e d'ali como de caminho
determinou vir vêr El-Rei D. Affonso á sua pousada. O qual sabendo já
isto, com os senhores de seu conselho praticou a maneira de cortesia que
em seu recebimento teria. E accordou-se em todas razões, e
principalmente consirado o tempo e necessidade d'elle, que fosse a maior
que guardado o seu estado se podesse fazer, e fosse a que lhe ensinasse
a hora e tempo em que se vissem ; porque entre os Reis não se podia dar
certa fórma de palavras nem cerimonias, que entre si dissessem e
fizessem em semelhantes autos.
E avisado El Rei D. Affonso do dia em que El-Rei de França o quereria ir
vêr, vistio-se em vestiduras onestas e reaes com proposito de a pé sahir
e o tomar na rua, ou ao menos nas escadas dos paços, mas El-Rei de
França de reavisado, pelo n'isso impedir mandou a El-Rei diante dois
seus parentes grandes senhores e mui gentis homens, os quaes em El-Rei
abalando para sair, cortezmente o detiveram, dizendo que repousasse;
porque El-Rei seu Senhor não viria tão asinha, e sendo El-Rei avisado
que El-Rei de França era já na rua, em cometendo para sair, tambem o
detiveram. E finalmente em querendo El-Rei forçar seus detimentos, elles
com muito acatamento lhe pediram, que d'onde estava em sua camara se não
movesse; porque a elles não cumpria elle o fazer d'outra maneira.
E El-Rei porque entendeu que seria ordenança praticada, folgou de lhes
comprazer, e porém como elles entenderam que El-Rei de França era
entrado na salla, deram logar que El-Rei D. Affonso saisse, e ambos os
reis se ajuntaram no meio da salla.
E El-Rei de França vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella
tirado um chapeo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto
de máo pano, e cinta uma espada d'armas muito comprida, com a guarnição
de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo
jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de
cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas
de muitas côres. E ambos os Reis com os barretes nas mãos se abraçaram
inclinados os giolos mui baixos. E tendo El-Rei de França assi abraçado
El-Rei, com os olhos no Ceo disse que dava muitas graças a Nossa Senhora
e a Monseor Sam Martim, porque a um tão prove homem como elle era
fizeram tanta mercê. Que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um
tamanho Rei, que elle sempre desejara tanto de vêr e ter por irmão e
amigo, e que porém elle não cresse que era vindo em reino estranho, mas
no proprio seu; porque assi se faria n'elle todo seu prazer e serviço,
como nos de Portugal.
E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual sobre quem
se cobriria e entraria primeiro houve entre ambos grandes e louvados
debates. E emfim El-Rei D. Affonso se deu por vencido, dizendo que havia
por melhor ser-lhe bem mandado, que cortês.