_De como El-Rei partio de Lisboa para França, e da maneira em que
foi até se vêr com El-Rei de França_
E com esta determinação se partiram, e ajuntaram todos a Lisboa, onde
XVI navios para a embarcação d'El-Rei foram logo prestes, dos quaes se
aparelhou uma urca para sua pessoa, em que embarcou no mez de Agosto com
dois mil e dozentos homens, em que iam quatrocentas e oitenta pessoas a
que em terra eram ordenadas encavalgaduras, álem d'outra gente de pé, e
com vento de viagem arribou em Lagos, onde Cullam, famoso cossairo
francês certificado já das amizades e lianças d'estes reinos com França,
andando poderoso no mar, veio alli fazer reverença a El-Rei, que o
recebeu com grande honra e mui graciosamente, e além do assinado serviço
que o dito Cullam lhe tinha já feito, em ser em sua ajuda no descerco de
Ceuta, quando então dos castelhanos e dos mouros, fôra juntamente
cercada como se dirá, ainda ficou de concerto andar d'armada em seu
favor contra Castella, para que se ajuntou com Pedro de Tayde, fidalgo
português, que com a náo grande que se dizia a Lopiana, e com outros
navios, de mandado d'El-Rei andaram tambem d'armada. Os quaes todos logo
de hi a poucos dias sendo El-Rei D. Affonso em França, ao Cabo de S.
Vicente aferraram quatro carracas de Genoa, e sendo já por força
entradas, em uma se acendeo fogo em um barril de polvora, em que deu um
tiro de fogo, de que todas as náos e carracas que eram encadeadas
arderam, com mortes e perda de muita gente, em que o dito Pedro de Tayde
tambem morreu.
E de Lagos passou El-Rei logo a Ceuta, que poucos dias havia que sendo
n'ella capitão Ruy Mendes Ribeiro, como nobre fidalgo e d'esforçado
coração a livrara de duas grandes afrontas e perigos em que foi posta;
porque juntamente foi cercado e combatido de castelhanos pela Almina, e
dos mouros pela Aljazira, e de todos com sua honra e grande louvor o
dito Ruy Mendes se livrou, com quanto o dito Ruy Mendez do cerco dos
castelhanos era muito mais afrontado, sendo dos mouros comettido que com
segurança sua para que lhe dariam seguras arrefens, lhes désse entrada
por dentro de Ceuta para darem nos ditos castelhanos e os matarem e
captivarem, e elle seria livre do cerco, elle dito Ruy Mendes, como
esforçado cavalleiro e bom christão, por não minguar em sua fé e esforço
o não consentio. O que El-Rei em pessoa lh'o agradeceo e estimou como
era razão.
E de Ceuta partio El-Rei, e sendo no mar através de Colybre, que era de
França, com proposito d'aportar em Marselha ou aguas mortas; porque o
vento não terçou bem sahio todavia e desembarcou em Colybre, d'onde
despedio os navios em que fôra de Portugal, e ali estava um capitão
d'El-Rei de França, de que El-Rei foi logo bem recebido, e depois
provido de bestas e cousas que cumpriam para ir, como foi por terra a
Perpinham. Onde El-Rei foi com grande honra e estado recebido, e elle e
todolos seus bem aposentados de graça, e por reverença e acatamento de
sua pessoa real, o capitão e governadores da villa mandaram soltar e
abrir os carceres a todolos presos que na cidade havia. E assi se fez
depois nos outros lugares de França por que El-Rei passou.
De Perpinham enviou El-Rei D. Francisco d'Almeida a El-Rei de França
notificar-lhe sua chegada, e assi de sua ida logo a elle, para que hi
tambem se proveo para El-Rei e para os de sua companhia de bestas para
encavalgaduras de suas pessoas, e carretas para fardagem, com que seguio
seu caminho á côrte d'El-Rei de França por Narbona e Mompiler e Befers e
Nimis, todas grandes cidades e villas de França em Languidoque.
E na cidade de Nimis deixou El-Rei a estrada romam, que vae a Avinhão, e
tomou outra da ponte de Santisprito, caminho da cidade de Lião. Na qual
por razão de corrução d'ares morbosos e pestenciaes de que estava
perigosa não entrou, e passou com sua gente adiante. E ante que a ella
chegasse, no caminho lhe veio fazer reverença o duque de Borbom,
acompanhado de grandes homens. E assi foi festejado e agasalhado em gram
perfeição em casa de Monseor de Sam Valher, que fôra casado com uma
filha bastarda d'El-Rei de França.
E passando El-Rei D. Affonso por Lião, e chegado a um lugar que dizem
Ruana, recebeo o primeiro recado d'El-Rei de França, fazendo-lhe saber
que com sua boa ida era mui alegre. E assi chegou á nobre cidade de
Burges em Berrí, que é na doce França, onde repousou alguns dias, nos
quaes de mandado d'El-Rei de França vieram a El-Rei D. Affonso para lhe
fazer companhia um senhor e um Bispo de Una, com que para prazer foi vêr
algumas cousas, em especial Moris Sagevia, fortaleza que o duque de
Berrí fez no canto de duas ribeiras, a mais gentil que ha em toda
França.
E ao outro dia foi á villa, que na historia antiga dizem se chamava
Ageosa Guarda, onde agora está uma grande e devota Abadia de S. Bento,
cujo Abade mostrou a El-Rei um mui rico e antigo livro da Historia de
Lançarote e Tristão, por ventura mais verdadeira do que cá se magina.