_De como se ordenou a ida d'El-Rei em França, e se veio a Portugal
com a Rainha D. Joana_
E n'este tempo porque El-Rei sentia já bem que seu poder nem ajuda dos
grandes de Castella, não lhe davam para sua demanda tão firme esperança
como cumpria, forçado de um vivo desejo de sua honra, enviou por seus
messegeiros requerer ajuda a El-Rei de França, que com El Rei D.
Fernando como só Rei d'Aragão então não estava d'accordo, e tinha por
meio de D. Alvaro d'Atayde feitas suas lianças com El-Rei D. Affonso,
como só e verdadeiro Rei de Castella. E a certidão d'isto trouxe o dito
D. Alvaro a El-Rei, estando em Touro. Pelo qual vencido principalmente
de seu apetite, sem muita certidão do poder tão estranho e tão duvidoso
como era o de França, desconfiado em todo do seu, determinou vir-se a
Portugal e de hi passar logo em França, crendo que o remedio e ajuda
para seu recurso, que tanto desejava, com sua ida e em sua pessoa se
faria mais facil, e ainda se lhe daria maior. E que os inconvenientes
que por ventura El-Rei de França pela guerra do duque de Brogonha
poderia para isso ter, elle na confiança de seu mui chegado sangue os
temperaria, com paz e assesego que entre ambos procuraria.
E como El Rei o determinou, assi o cumprio, e deixou nas outras
fortalezas gente e capitães de recado, e em Touro gente de guarnição, e
com ella por capitão o conde de Marialva D. Francisco Coutinho; porque a
este tempo João d'Ulhoa a quem pertencia era fallecido, e os filhos que
d'elle ficaram eram muito moços para tal encargo, a El-Rei casou o conde
com D. Maria d'Ulhoa sua filha, a que deu em casamento a villa de
Castel-Rodrigo, por morte de Vasco Fernandes de Gouveia que a tinha;
porque sem filho barão ligitimo tambem falleceu em Castella estando em
Touro.
E depois d'El-Rei prover as cousas de Castella como melhor pôde, se
partiu com a Rainha na entrada do mez de Junho, e seguramente veio a
Miranda do Doiro onde teve a festa do Corpo de Deus, na qual com a
cerimonia devida fez primeiro conde d'Abrantes Lopo d'Almeida, que era
Vedor da Fazenda, e lh'o tinha bem merecido. E de Miranda se foi a
Rainha á cidade da Guarda, e com ella o conde de Villa Real, que era
fronteiro mór d'aquella comarca, e o Bispo de Vizeu D. João d'Abreu. E
da Guarda se foi a Coimbra, onde o Principe se veio com ella ajuntar, e
a acompanhou até á villa d'Abrantes, onde depois esteve muito tempo,
como ao diante se dirá.
E El Rei se foi de Miranda á cidade do Porto, onde com elle se ajuntou
logo o Principe seu filho, e a Senhora Infante D. Beatriz com todolos
grandes e senhores principaes do reino. E d'alli foi enviado Pero de
Sousa notificar a El-Rei de França a ida d'El-Rei D. Affonso, que de
todo hi foi determinada. E sendo já concordado que por mór brevidade da
viagem fosse pelo mar do Ponente e saisse em Bretanha, mudou-se o acordo
para o mar de Levante; porque pelo outro mar Occeano poderia d'El-Rei D.
Fernando receber maior contradição, por rasão da frota de Galliza e
Biscaya, com que seria mais poderoso.