CAPITULO CXCIII

_De como se ordenou a ida d'El-Rei em França, e se veio a Portugal

com a Rainha D. Joana_

E n'este tempo porque El-Rei sentia já bem que seu poder nem ajuda dos

grandes de Castella, não lhe davam para sua demanda tão firme esperança

como cumpria, forçado de um vivo desejo de sua honra, enviou por seus

messegeiros requerer ajuda a El-Rei de França, que com El Rei D.

Fernando como só Rei d'Aragão então não estava d'accordo, e tinha por

meio de D. Alvaro d'Atayde feitas suas lianças com El-Rei D. Affonso,

como só e verdadeiro Rei de Castella. E a certidão d'isto trouxe o dito

D. Alvaro a El-Rei, estando em Touro. Pelo qual vencido principalmente

de seu apetite, sem muita certidão do poder tão estranho e tão duvidoso

como era o de França, desconfiado em todo do seu, determinou vir-se a

Portugal e de hi passar logo em França, crendo que o remedio e ajuda

para seu recurso, que tanto desejava, com sua ida e em sua pessoa se

faria mais facil, e ainda se lhe daria maior. E que os inconvenientes

que por ventura El-Rei de França pela guerra do duque de Brogonha

poderia para isso ter, elle na confiança de seu mui chegado sangue os

temperaria, com paz e assesego que entre ambos procuraria.

E como El Rei o determinou, assi o cumprio, e deixou nas outras

fortalezas gente e capitães de recado, e em Touro gente de guarnição, e

com ella por capitão o conde de Marialva D. Francisco Coutinho; porque a

este tempo João d'Ulhoa a quem pertencia era fallecido, e os filhos que

d'elle ficaram eram muito moços para tal encargo, a El-Rei casou o conde

com D. Maria d'Ulhoa sua filha, a que deu em casamento a villa de

Castel-Rodrigo, por morte de Vasco Fernandes de Gouveia que a tinha;

porque sem filho barão ligitimo tambem falleceu em Castella estando em

Touro.

E depois d'El-Rei prover as cousas de Castella como melhor pôde, se

partiu com a Rainha na entrada do mez de Junho, e seguramente veio a

Miranda do Doiro onde teve a festa do Corpo de Deus, na qual com a

cerimonia devida fez primeiro conde d'Abrantes Lopo d'Almeida, que era

Vedor da Fazenda, e lh'o tinha bem merecido. E de Miranda se foi a

Rainha á cidade da Guarda, e com ella o conde de Villa Real, que era

fronteiro mór d'aquella comarca, e o Bispo de Vizeu D. João d'Abreu. E

da Guarda se foi a Coimbra, onde o Principe se veio com ella ajuntar, e

a acompanhou até á villa d'Abrantes, onde depois esteve muito tempo,

como ao diante se dirá.

E El Rei se foi de Miranda á cidade do Porto, onde com elle se ajuntou

logo o Principe seu filho, e a Senhora Infante D. Beatriz com todolos

grandes e senhores principaes do reino. E d'alli foi enviado Pero de

Sousa notificar a El-Rei de França a ida d'El-Rei D. Affonso, que de

todo hi foi determinada. E sendo já concordado que por mór brevidade da

viagem fosse pelo mar do Ponente e saisse em Bretanha, mudou-se o acordo

para o mar de Levante; porque pelo outro mar Occeano poderia d'El-Rei D.

Fernando receber maior contradição, por rasão da frota de Galliza e

Biscaya, com que seria mais poderoso.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 67 / 127 题