CAPITULO CXC

_De como se ordenou a batalha dos Reis entre Touro e Çamora_

E passados alguns dias vendo El-Rei D. Affonso o pouco que no cerco

aproveitava, e o muito trabalho e dano que sua gente recebia,

especialmente não se podendo prover a grande mingoa de mantimentos, que

dava causa sua gente mingoar, e a dos contrairos acresentar-se cada vez

mais, a uma sexta feira primeira de Março de mil quatrocentos e setenta

e seis annos, mui cedo pela manhã, El-Rei de Portugal alevantou

secretamente e de supeto seu arraial para a cidade de Touro, e porque

sabia que El-Rei D. Fernando havia de sahir como sahia após elle,

teve-se n'isso para segurança de tudo mui bom recado.

E porém a gente contraira assi como sahiu pela porta da ponte fóra, assi

sobreseve e não seguio El-Rei D. Affonso, e fez corpo até juntamente ser

toda recolhida fóra da ponte, receando que em outra maneira indo afiada,

fazendo El-Rei D. Affonso volta sobr'ella se despunham a grande perigo e

destroço, o que deu causa ser El-Rei D. Affonso com sua gente já mui

alongado, quando seus contrairos começaram de mover contra elle, o qual

sendo a duas leguas de Çamora, adiantou-se pelo fio a reter sua gente,

que a Touro se recolhia com tenção secreta de aquella noite dar de salto

em seiscentas lanças d'El-Rei D. Fernando, que sob a capitania do duque

de Villa Fremosa, seu irmão bastardo, estavam em Fonte Sabugo, mas o

Principe que por sua vontade e sem necessario constrangimento quiz

esperar e dar a El-Rei D. Fernando a batalha, avisou logo d'isso a

El-Rei seu padre, que não descontente d'isso chegou já ao campo junto

com Touro, onde a batalha se deu, e foi a tempo que as batalhas d'El-Rei

D. Fernando passavam já um porto de uma pequena serra que hi a cerca

estava, onde o conde de Loulé em voltas que fez foi ferido, e se foi a

Touro.

E El-Rei D. Affonso mui contente e alegre de não negar a batalha, para

que por um trombeta e arauto d'El-Rei D. Fernando era já desafiado, com

quanto tinham muito menos gente, porém elle e o Principe seu filho

fizeram rostro para lh'a dar com sua gente, de que muita era a Touro já

recolhida, e outra muita mais ficara na dita cidade com a Rainha e com o

duque e conde de Villa Real como se disse.

E sendo já o tempo mui curto para El Rei e o Principe concertarem e

repartirem sua gente em batalhas, como para tão chegada necessidade

cumpria, vendo as d'El-Rei D. Fernando já mui acerca e chegar-se com

muita pressa, fizeram logo de toda a gente não mais de duas batalhas.

A primeira e de maior numero foi a d'El-Rei D. Affonso, que com sua

bandeira real se pôs acerca do rio ao encontro da batalha em que era a

bandeira real, mas não a pessoa d'El-Rei D. Fernando, o qual por se

segurar como prudente dos revezes da fortuna em taes tempos, depois de

leixar sua batalha em ordenança, e encomendada sua bandeira a bons

cavalleiros e capitães, tornou-se atraz onde na reçaga ao tempo do

encontrar esteve em uma batalha pequena.

E a segunda batalha de menos gente, e porém cortezã e mui limpa foi a do

Principe, que com sua bandeira se pôs affastado á mão esquerda d'El-Rei

seu padre, um grande pedaço ao encontro de duas grandes batalhas que

contra a sua vinham ordenadas, e porque o Principe foi aconselhado que

tambem mandasse repartir a sua em outras duas batalhas, mandou logo

apartar de si contra o pé da serra com gente da sua guarda, Fernão

Martins Mascarenhas, seu capitão dos ginetes, com o qual porque em sua

batalha não havia tanta gente como se requeria, o Principe encomendou a

Gonçallo Vaz de Castello-Branco e a Ruy de Sousa, que com sua gente que

era muita e mui boa se ajuntassem, como logo ajuntaram com Fernão

Martins, e após elles porque cria que havia entr'elles algum desconcerto

e competencia sobre a capitania da gente, enviou logo a D. Pedro de

Menezes, que depois foi conde de Cantanhede, com que se refez uma boa

batalha.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 64 / 127 题