_De como El-Rei D. Affonso e o Principe cercaram Çamora da parte da
ponte_
E o Principe em sua chegada a Touro foi d'El-Rei seu padre, e de toda a
sua côrte altamente e com muito prazer e alegria recebido; porque n'elle
estava toda sua e só esperança. E logo sem delação acordaram e quizeram
poer em obra dar nas estancias, e ir descercar o castello de Çamora, mas
porque da fortaleza e repairo das ditas estancias foram assim
certificados que sem perda de toda sua gente ou a mór parte d'ella se
não podiam combater, e em fim que o castello se não descercaria, El-Rei
acordou por melhor ir poer cerco á ponte da outra banda do rio, onde sem
algum seu risco o podiam ter, com affronta e necessidade d'El-Rei D.
Fernando e dos da cidade.
E assim supitamente se cumprio; porque depois de leixar o duque e o
conde de Villa Real em Touro em guarda da Rainha e da cidade, partiu
El-Rei com sua gente, e foi assentar seu arraial nas hortas de junto com
a dita ponte. E El-Rei e o Principe se alojaram no moesteiro de S.
Francisco, e a ponte com baluartes e cavas foi de todas partes cercada,
e assi continuamente combatida com pouco dano dos que eram dentro. E os
do castello que eram por El-Rei D. Affonso, tambem á sua vista assi
estavam, sem algum poder sair, nem d'elle receber falla, ajuda nem
soccorro.
Em durando este cerco, em uma ilha que se faz no Doiro, foram da parte
de Castella juntos por concerto de paz, o duque d'Alva, e o almirante, e
da parte de Portugal o sr. D. Alvaro, e Ruy de Sousa, e o licenceado de
Cidá Rodrigo, para todos praticarem e consultarem, se entre os Reis se
poderia tomar algum meio de paz e concordia, e em fim depois de muitos
debates e praticas, cada um teve em tamanho preço seu partido, que se
não pôde achar meio que parecesse bom para todos ficarem concordes.