_De como romperam as batalhas, e as do Principe venceram as
d'El-Rei D. Fernando, e a d'El-Rei D. Fernando venceu a d'El-Rei D.
Affonso, que se recolheu a Crasto Nunho, e do mais que se seguiu
até fim da batalha_
E postas e ordenadas com espantosa vista as azes de uma parte e da outra
para encontrar, sendo já casi sol posto, El-Rei mandou dizer ao Principe
que com sua benção rompesse logo, o qual por lhe obedecer e cumprir o
que tanto desejava, depois de em ambas as batalhas se fazer pelas
trombetas sinal de batalha, elle e assi seus capitães com singular
destreza e maravilhoso esforço, deram assi rijamente nas batalhas
contrairas, que nem podendo ellas soffrer nem resistir tanta força, logo
uma após outra foram desbaratadas e postas em fugida.
E para aquella hora ante da peleja deu o Principe á sua gente por
apellido S. Jorge e S. Christovão, S. Jorge por padroeiro de Portugal, e
S. Christovão por devoção de Jorge Corrêa, commendador do Pinheiro, que
na mesma hora lh'o lembrou; era alferes do Principe que levava sua
bandeira Lourenço de Faria, homem fidalgo, que n'este dia e em todolos
outros por sua obediencia e esforço o fez como bom cavalleiro, e o
Principe por tal o reconheceu sempre.
E assi como as batalhas do Principe no desbarato fizeram a estas
d'El-Rei D. Fernando, assi a batalha grande d'El-Rei D. Fernando fez na
d'El-Rei D. Affonso, que sem alguma força nem resistencia a rompeu logo,
e destroçou com damno e mortes de muitos, e não foi sem causa ser assi,
porque na batalha do Principe era a frol dos fidalgos e nobre gente de
Portugal, que falleceram n'esta d'El-Rei D. Affonso, e mais na batalha
d'El-Rei D. Fernando vinha muita e mui grossa gente d'armas
encubertados, além dos ginetes, e mais lançaram diante de si uma gram
soma d'espingardeiros, que ao romper fizeram com seus tiros fronteiros
duvidar e enfiar os cavallos e a gente da batalha d'El-Rei D. Affonso.
Na qual sendo elle com sua bandeira dos dianteiros, acharam-se com elle
ao tempo do encontrar mui poucos, entre os quaes eram D. Gomez de
Miranda, Prior de S. Marco em Castella, e Bispo que depois foi de Lamego
em Portugal. E por tanto vendo-se em alguma maneira da victoria
desesperado, conveio-lhe volver e procurar por sua salvação,
parecendo-lhe que pois a sua batalha onde a mais força estava fôra
desbaratada, que a do Principe seu filho em que havia menos gente e de
que não havia vista nem recado, tambem seria perdida. Pelo qual havendo
já suas cousas por chegadas ao derradeiro estremo de desaventura, vendo
já diante entre si e a ponte de Touro muita gente contraira, crendo que
sem ser morto ou preso se não podia já á dita ponte recolher, foi
aconselhado por Pedralvares de Souto-Maior, conde de Caminha, e por João
de Porras, e por outros poucos que o sempre acompanharam, que por
aquella noite se acolhesse á fortaleza de Crasto Nunho, que estava por
elle, e assi o fez.
O Principe aquelle dia e hora não menos avisado que bem afortunado
capitão, como se viu com sua gente em segura e perfeita victoria, por se
lhe não seguir do longo encalço algum perigoso revés, logo a mais que
pôde recolheu para a sua bandeira. E porém alguns seus e pessoas
principaes esquentados e favorecidos do prospero vencimento que seguiam,
por não terem no seguimento o resguardo que deviam, no cabo do encalço
tornaram a ser mortos e presos, porque os castelhanos das batalhas
destroçados que fugiam, refizeram-se com uma batalha de El-Rei D.
Fernando, que acerca de uma legoa na reçaga estava, com que achando-se
muito mais fizeram sobre os portuguezes volta, os quaes sendo já
atalhados e cingidos da outra batalha grande, que desbaratara a El-Rei
D. Affonso, não se poderam salvar.
E porém o Principe depois do desbarato que fez, alli onde acabou de
recolher sua gente, esteve no campo em um corpo çarrado sem nunca mover
atrás sua bandeira, a que muitos da batalha vencida d'El-Rei D. Affonso
por seu bem e salvação se recolheram, com os quaes, e com outros que
fóra do tempo necessario sobrevieram de Touro, refez uma grossa batalha,
com que aquella noite ficou pacifico senhor do campo. No qual algum dos
Reis, cuja era a querela e esperança de vencer, não aturou nem esteve;
porque como disse tambem El-Rei D. Fernando não foi em pessoa propria na
sua batalha, que venceu a El-Rei D. Affonso, mas como era pratico
guerreiro, por vêr como as cousas de tamanha ventura sobcediam,
apartou-se fóra em uma batalha, e quando logo vio vencidas e
desbaratadas suas tamanhas e primeiras batalhas, pelas batalhas do
Principe que eram menos em gente, crendo que assi o seriam as outras
suas pelas d'El-Rei D. Affonso, foi aconselhado que se recolhesse como
recolheo, e se foi a Çamora. Pelo qual sua gente achando-se no campo sem
Rei, nem certo capitão que a regesse, com temor da batalha do Principe
que viam refeita, não sendo bem certificados do destroço d'El-Rei D.
Affonso, se refizeram tambem junto com ella em uma outra batalha de que
uns e outros não se viam tanto como ouviam; porque a este tempo a noite
era já casi çarrada, e todo o mal que de uma parte e da outra se fazia
era sómente de gritas e tocar de trombetas e atabales que nunca
cessavam.
Alli D. Vasco Coutinho, que depois foi conde de Borba, prendeu D.
Anrique, conde d'Alva de Liste, que vinha de contra Touro reconhecer a
batalha do Principe, não sabendo pela noite cuja era.
E alli um escudeiro que se dizia Gonçallo Pires, criado de Gonçalo Vaz
Pinto, trouxe ao Principe a bandeira real d'El-Rei D. Affonso, que por
força e como homem de bom coração a tomou a um Souto-Mayor, castelhano,
que a levava, e o prendeu sobre sua menagem, a qual não foi aquelle dia
tomada das mãos de Duarte d'Almeida, alferes pequeno, até que lh'as
primeiro não deceparam com outras infindas feridas, que no rosto e em
todo o corpo houve, de que escapou. E a tanto mal se estende o máo
sobcedimento das cousas, que este alferes, a que tanta honra e riqueza
após isto se devia, viveu depois aleijado e pobre, e não com galardão
dino de tal serviço. Nem ao escudeiro da bandeira carregou muito a
balança de sua satisfação; porque com a venturosa fidalguia e armas
honradas, que por isso lhe deram, houve sómente cinco mil reis de tença,
com que lhe foi forçado tomar a fouce e a enxada, por mais seguras e
proveitosas armas do sustentamento de sua vida, com que sem mais bem nem
favor, e com muita pobreza viveu e acabou.
E estando assi no campo juntas estas batalhas e ambas contrairas, a dos
castelhanos por estar sem Rei e duvidosos de sua ventura, e por terem o
recolhimento de Çamora mui longe, começaram entre si de ferver e se
afiar mostrando claros sinaes de destroço se foram cometidos. E porém
tomaram por conselho retraer-se e acolherem-se, sem cometer batalha nem
peleja se lh'a não desse, e assi o fizeram, e sem algum recado e com
muito desmando se acolheram a Çamora. Pelo qual achando-se o Principe só
no campo, e sem receber em sua pessoa nem sua gente rota nem destroço,
antes o tinha feito nos contrairos, houve-se por herdeiro e senhor da
propria victoria.
E porque os Reis esperavam para mais claro conseguimento, sua
determinação foi sobreser no campo, e não se partir d'elle tres dias.
Mas o Arcebispo de Toledo que no mesmo campo era com elle, publicamente
lhe disse que depois dos imigos partidos bem cumpria por os tres dias
estar no campo tres horas continuas, a razão de hora por dia, por
comparação que trouxe da Resurreição de nosso Senhor, que foi depois da
morte tres dias não todos inteiros, mas porque tomou de tres dias
tomando a parte por todo. E com este conselho que o Principe tomou do
Arcebispo, como de pessoa tão principal, e no semelhante auto e
cerimonias tão pratico e sabedor, depois d'estar no campo as tres horas
e mais, sem parecer n'elle gente contraira, elle com repoiso e regrada
ordenança abalou contra Touro. E ao entrar da ponte houve muita pressa;
porque até sua chegada a entrada se çarrou a todos, e por sua ordenança
entraram na cidade todos mui tristes e desconfortados, uns pelos filhos,
parentes e amigos que não viam, nem sabiam se na batalha foram mortos ou
feridos e presos, e todos pela dorosa privação d'El-Rei D. Affonso, que
ali não viam, nem por então saberem d'elle novas.
O Principe pela incertidão de seu padre, crendo pois alli não parecia,
que seria morto ou preso, foi sobre todos mais triste e anojado, e posto
aquella noite em grande pensamento, e não menos o foi El-Rei onde
estava, duvidando da vida e salvação do filho, de que a mór parte da
desaventura não falleceu á Rainha que estava no castello, até o outro
dia que o pae foi certificado da saude e prospera victoria do filho, e o
filho da salvação e saude do pae acolhido em Crasto Nunho. Na qual
fortaleza indo El-Rei tão só e desacorrido, o alcaide d'ella Pero de
Mendanha, por nação fidalgo castelhano, e no amor e lealdade bom e
verdadeiro português, o recolheu e lhe obedeceo com muita lealdade e
firmeza, e em caso tão triste e tão averso para El-Rei, elle e sua
mulher o agasalharam honradamente e confortaram com muito despejo,
dando-lhe em suas fortunas por emxemplos d'outros mui grandes
esperanças, até o outro dia, que com muita gente que o Principe mandou
de Touro El-Rei tornou a elle seguramente.