_De como os ossos do Infante D. Fernando foram a estes reinos
trazidos de Fez_
N'este anno sendo ainda em Fez os ossos do Infante D. Fernando, que lá
falleceu em um santo captiveiro como atrás fica, como quer que a El-Rei
D. Affonso por resgate e redenção das mulheres e filho de Mollexeque,
que foram captivas em Arzilla lhe fosse prometida uma grande somma
d'ouro, elle como Rei bom e piedoso denegou sempre todo outro partido e
interesse, salvo que por ellas lhe dessem os ossos do dito Infante, que
a este tempo eram em poder de Molley Belfagege.
E leixando muitas embaixadas e recados que sobre este concerto de uma
parte e da outra se passaram. Finalmente o dito Molley Belfagege enviou
a El-Rei a propria ossada do dito Infante, bem reconhecida por tal por
Molley Belfaca seu filho moço, e por Diogo de Bairros Adail Mór, que a
elle por este caso fôra algumas vezes embaixador. Os quaes por mar
chegaram com ella a Restello, e do navio foi tirada e trazida com grande
manificencia á cidade de Lisboa, e entrou pela porta de Santa Catherina,
onde com solemne procissão foi recebida, e alli pelo priol de S.
Domingos Mestre Affonso se fez um sermão para o caso mui conveniente e
devoto, em que houve palavras de tanta piedade e compaixão, que
commoveram as gentes a muitas lagrimas como se foram Endoenças.
E d'alli foram os ossos postos no mosteiro do Salvador, e de hi levados
ao mosteiro da Batalha, e postos com devidas exequias em sua ordenada
sepultura, na capella d'El-Rei D. João seu padre, onde segundo alguma
clara evidencia, Deos por merecimentos do dito Infante, e em signal de
sua bemaventurança fez alguns milagres. E certamente com a restituição
da ossada d'este bemaventurado Infante, por justas causas e mui claras
razões recebeu todo o reino prazer e alegria sem conto, e El-Rei dos
seus naturaes e estranhos não menos honra, gloria e louvor que das
prosperas expunações de Arzila e Tangere.