_De como houve embaixadas e vistas entre El-Rei de Castella e de
Portugal, e sobre que_
No qual anno, e assi no passado entre os Reis de Castella e de Portugal
houve de uma parte e da outra muitas embaixadas, ainda sobre lianças e
mudança de casamento d'El-Rei D. Affonso com a Princeza D. Joanna sua
sobrinha; porque como El-Rei D. Anrique de Castella soube que o Principe
D. João de Portugal era casado com a Princesa D. Lianor, e não podia já
casar com a Princesa sua filha, e viu que a Infante D. Isabel sua irmã
fôra contra seu prazer e auctoridade casada com El-Rei de Cecilia filho
d'El-Rei D. João d'Aragão, mandou fazer d'isso autos solenes, em que com
quanto pôde, por sua desobediencia a desherdou da herança de Castella. E
procurou de casar a dita Princesa D. Joana sua filha com El-Rei D.
Affonso, sobre o qual como disse, se passaram mui continuas embaixadas,
e por meio de D. João Pacheco, Mestre de Santiago, se concertaram
vistas, em que os Reis acompanhados de mui nobre gente se viram entre
Elvas e Badalhoce. Ás quaes vieram outrosi embaixadores do dito D.
Fernando Rei de Cecilia, e da Rainha D. Isabel sua mulher, para com
evidentes causas impedir o effeito do dito casamento. E finalmente no
caso e negocio intrevieram tantas duvidas, e com esperança de tantos
males e divisões de reino a reino, que El-Rei de Portugal tendo
sobr'isso muitas vezes conselho, nunca em vida d'El-Rei D. Anrique se
acharam taes meios, com que parecesse razão elle aceitar e concordar o
dito casamento. E tudo principalmente causava, ser a Rainha de Cecilia
intitulada por Princesa de Castella, de que tinha a mór parte dos
grandes e Senhores d'ella, em que o mal da guerra era tão certo como o
bem da victoria duvidoso. E porém depois da morte d'El-Rei D. Anrique,
El-Rei D. Affonso consentio no dito casamento, e entrou em Castella
intitulado Rei d'ella, como ao diante se dirá.