_Do fundamento que El-Rei D. Affonso teve para entrar em Castella
por morte d' El-Rei D. Anrique_
E no fim do anno de mil e quatrocentos setenta e quatro, El-Rei D.
Anrique de Castella falleceu na villa de Madrid; foi seu corpo levado ao
mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella maior á mão
direita jaz em sua real sepultura como parece, e da outra parte jaz a
Rainha D. Maria sua madre.
Fez El-Rei D. Anrique seu solemne e acordado testamento, em que declarou
a Princeza D. Joana por sua filha, e por Rainha herdeira dos reinos de
Castella. E a El-Rei D. Affonso por governador d'elles, pedindo lhe
finalmente que aceitasse a dita governança, e casasse com ella, o qual
testamento foi logo trazido a El-Rei D. Affonso, que estava em Extremoz,
no mez de Dezembro do dito anno de mil e quatrocentos e setenta e
quatro, sobre o qual El-Rei logo teve grande e geral conselho, para que
foram alli juntos com El-Rei e com o Principe todolos grandes e
principaes do reino.
E o Principe desejando que El-Rei seu padre com esperança de acrecentar
seus reinos de Portugal, aceitasse, e não se escusasse do casamento e
empresa de Castela, tinha suas fallas e maneiras com esses principaes, a
que revellava seu desejo, com que os commovia para que conselhassem
El-Rei seu padre e o esforçassem para isso. Porque depois de sua morte,
muitas vezes o Principe D. João seu filho sendo Rei, com aquella
onestidade e reverença que devia, acusava a negligencia ou não bom
conselho d'El-Rei seu padre; porque não censentira e aceitara os
primeiros cometimentos dos casamentos de Castella, El-Rei D. Affonso com
a Infante D. Isabel, e elle com a Princesa D. Joana, com que de uma
maneira ou d'outra foram d'Espanha pacificos Reis e Senhores.
E porém o conselho do Arcebispo de Lisboa, que depois foi Cardeal, e do
duque marquez de Villa Viçosa por causas muitas que allegaram, foi que
El-Rei em tempos de tanta devisão, e com tamanho pendor contrairo como
tinha, não devia entrar em Castella nem aceitar a empresa d'ella, e
leixala aos naturaes que a quizessem favorecer e soster. Pelo qual ante
de se tomar final assento, acordou El-Rei de enviar primeiro como enviou
a Castella Lopo d'Albuquerque, Camareiro-Mór, que depois foi conde de
Penamacor, a saber quantos e quaes eram os cavalleiros da valia da
Rainha D. Joana, e concertar-se com elles, e tomar d'elles certidão
d'obediencia para em sua segurança, se parecesse razão, El-Rei entrar em
Castella. E o dito Lopo d'Albuquerque, foi principalmente aderençado a
D. Affonso Carrilho, Arcebispo de Toledo, e ao marquez de Vilhena, e ao
duque do Infantado, que então era marquez de Santilhana, e ao duque e
duquesa d'Arevallo, e a outros muitos de sua parentella e valia. Os
quaes a este tempo eram todos declarados por a dita Rainha D. Joana, de
que trouxe a El-Rei autenticas certidões, e promessas de casando com
ella o servirem e obedecerem como a proprio Rei de Castella.