_De como o Infante D. Fernando sem El-Rei entrou d'Alcacere e
correu a terra aos mouros_
E porque veiu nova que o conde de Vianna e o conde de Guimarães queriam
fazer d'Alcacere uma entrada em terra de mouros, quiz o Infante ser
n'ella, e pediu licença a El-Rei, que para isso e para repartir e
affrouxar o apousentamento em Ceuta lh'a deu, e a El-Rei foi commettido
que fosse em pessoa, mas elle por algumas justas causas que apontou o
não houve por bem, e estimou por mais sua honra e serviço, antes em seu
nome ir um seu capitão tão poderoso, e tal pessoa como era o Infante.
E aos quatro dias do mez de Dezembro o Infante partiu d'Alcacere com
todolos senhores da hoste, salvo o duque e o conde de Villa Real, que
ficaram em Ceuta, e foi correr umas aldêas, que são na faldra da serra
de Benaminir, terra muito fragosa e muito povorada, onde segundo fama
vive a melhor gente de peleja d'aquella frontaria, de que mataram até
duzentos mouros, e trouxeram captivos duzentas e vinte almas com muito
gado e outro grande despojo, e se tornou a Alcacere, e dos christãos por
máo resguardo morreram até quinze.
Quiz o Infante haver, e houve para si o quinto d'esta cavalgada, com
muito aggravo do conde de Vianna, e não sem algum prasmo e geral
reprensão do mesmo Infante, que por seu alto sangue e real condição,
saindo d'Alcacere devia em caso que lhe pertencera fazer d'elle mercê ao
dito conde, quanto mais que os quintos da villa de direito e por doação
pertenciam ao dito conde, a quem El-Rei o compoz e satisfez depois com
dinheiro de sua fazenda.