_De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de
Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão_
E porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o
Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade
acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que para isso houve
foi n'esta maneira.
Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, não ficou
filho algum legitimo que o herdasse, e sómente lhe ficou um filho
bastardo, D. Fernando, que depois da morte d'El-Rei seu padre, por
favores e grandes riquezas que lhe leixou, herdou e teve o reino de
Napoles; era irmão d'El-Rei D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que
herdara este reino por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou,
de que houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de
Castella, de que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D.
Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se
chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por
haver liança para suas contendas, que em Castella e Aragão tinha, casou
com uma filha do almirante de Castella, de que tendo já filhos sobcedeu
por morte do dito Rei D. Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de
Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da
madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger,
pois a elle _in solidum_ por contracto pertencia, e porque o pae não
disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos, até que o dito
Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a
Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que foi
julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á Rainha sua
madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal que os
reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D. Fernando
filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e d'Aragão, de que os povos
foram mui tristes e anojados; porque D. Carlos era Principe de muitas
virtudes, e lhes dava esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de
Barcellona, com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a
El-Rei D. João, e a deram a El-Rei de França, que os deffendeu um tempo,
até que se concertou com El-Rei D. João, que pelo não guerrear lhe
leixou o condado de Roselhão pacifico, em que entrou Perpinhão, e
anojados d'isso os de Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D. Anrique de
Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se concertaram.
E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em sua
defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e famosas
vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor João Fernandez da
Silveira, que depois foi barão d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D.
Anrique enviados por El-Rei D. Affonso.
E porém os regedores de Barcellona buscando já por caminhos desesperados
alguma esperança de sua salvação, trataram secretamente com o dito
Senhor D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa
d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos d'Aragão quizesse
intitular-se d'elles, e assi receber logo em seu senhorio e poder o
principado de Catelonha com a cidade de Barcellona com cujo poder e
forças, se o coração e saber lhe não fallecesse, cobraria o mais que El
Rei D. João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo se
aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe
fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns
fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi
aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que não
sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e tão honrada que assi
livremente lh'offereciam, mas ainda que a devia trabalhar e requerer, e
com ella antes morrer, que viver nos desfavores e desprezos e mingoas em
que vivia. Com as quaes cousas movido o dito D. Pedro, determinou
aceitar a dita empresa, e por seus assinados e sellos assi o certificou
e segurou á dita cidade.
E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a Ceuta, onde
sobre concerto vieram armadas duas gallés de Barcellona, com mostrança
que vinham a seu trafego d'armada.
D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e quando tornou a
Ceuta achou hi as galés, de cujos patrões e regedores que n'ellas
vinham, foi de sua tenção certificado, que era logo o levarem, e depois
de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu irmão, e o conde
de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador Mór de Lisboa o quizesse
ouvir, elle com palavras de muita obediencia e autoridade disse a El-Rei
todo o movimento passado, e que a este fim eram vindas aquellas galés,
pedindo-lhe para isso licença, allegando-lhe muitas razões porque o
devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua
feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.
E leixadas muitas alterações que sobre isso houveram, El-Rei por então
não se pôde escusar, e lhe outorgou a dita licença; e porque o conde de
Villa Real tinha grande afeição pela muita honra mercê, que o Infante D.
Pedro em regendo sempre lhe fizera, offereceu e deu logo ao dito Senhor
D. Pedro, prata e bons corregimentos de casa, e depois lhe enviou
cavallos e gente d'armas, o que outro algum do reino não fez. E porém
começou El-Rei de dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com
fundamento de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera
de gentes e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande
paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava vêr-se com El-Rei D.
Anrique, de que receava que sua ida em Aragão sendo revellada receberia
total embargo, e com elle manifesta queda de tamanha honra como parecia
que se lhe aparelhava.
E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida,
presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir
remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite,
porque os patrões já mais não queriam esperar, se metteu nas galés e se
foi com elles, e a El-Rei leixou por escripto a causa porque assi se
partira, e a leal tenção que levava para sempre o servir. Mas n'esta
prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com peçonha
sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior jaz sepultado.