_De como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere_
E depois d'El-Rei declarar sua tenção de tornar a Tangere, por cuja fim
alli viera, se partio para Alcacere d'onde enviou logo doze navios de
remo com gente escolhida para irem escalar a cidade, cujo capitão foi
Luiz Mendes de Vasconcellos, homem fidalgo, e nas cousas do mar bem
entendido, com fundamento de El-Rei com seu poder os socorrer á hora do
escalamento por terra, e porém o conde D. Duarte contradisse muito o
cometimento por mar, pelas incertidões e perigos que tem, mas não foi
crido, e Luiz Mendes todavia partio bem avisado do que á sahida do mar e
á entrada da cidade havia de fazer.
El-Rei e o Infante e o senhor D. Pedro seu primo, e o duque e condes e
toda a outra gente partiram por terra, e uma hora ante manhã chegaram
acerca de Tangere, e os que foram nos navios á hora do desembarcar
acharam o mar tão bravo, que não ousaram por aquella vez sahir em terra,
e ao recolher dos navios havendo os mouros da cidade vista d'elles pelo
aviso que já sobre si tinham, fizeram almenaras na cidade, e mandaram
poer fogo ás bombardas que pelo muro tinham. E porque aquelle era o
signal que se havia de fazer quando a cidade se entrasse, foi El-Rei e
todos os que com elle eram mui alegres, e assi abalaram logo rijamente e
não sem devida ordenança, mas não tardou muito que foram em conhecimento
da verdade, que todo seu prazer converteu em tristeza, e toda esperança
do feito em desesperação, e com tudo El Rei com a cara mui segura como
seu real coração era sempre nos perigos, foi com sua gente á vista da
cidade, que esteve olhando um pouco, e em se recolhendo disse contra
muitos, _não me leixastes crêr ao conde D. Duarte, por ventura se o
fizera esta vinda se empregara melhor_, e então se tornou logo a
Alcacere, e d'ahi para Ceuta, e com elle o Infante seu irmão.