_Como D. Duarte foi feito conde de Vianna, e El-Rei quisera outra
vez passar em Africa para que se percebeu_
No mez d'Abril do anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta, por
prazer e consentimento d'El-Rei leixou D. Duarte por capitão d'Alcacere
Affonso Tellez, seu sobrinho, e se veiu a Lisboa onde achou El-Rei, que
d'elle e de toda sua côrte foi grandemente e com muita honra recebido, e
d'ali se foi El-Rei a Santarem, onde com solemne arenga de seus serviços
e merecimentos, e com devida cerimonia o fez conde de Vianna de Caminha.
N'este anno no mez d'Agosto falleceu de febre em Thomar D. Affonso,
marquez de Valença, filho maior do duque de Bragança, sem casar, de que
ficou um filho natural, D. Affonso, que depois foi bispo d'Evora. E
n'este tempo pelas praticas que El-Rei sempre tinha com o conde de
Vianna sobre a guerra d'Africa, a que El-Rei sobre todalas cousas do
mundo naturalmente era mais inclinado, desejando de a proseguir
determinou passar a Ceuta com dois mil cavallos e gente de pé a elles
conveniente, para d'alli como capitão, mais que como Rei fazer guerra
aos mouros.
E tendo sobr'isso conselho foi de todolos principaes muito em contrairo
aconselhado, em especial do Infante D. Fernando seu irmão, e do senhor
D. Pedro, que sobre isso lhe enviaram conselhos para o caso mui
excellentes, a que El-Rei não quiz dar credito, guiado já de seu
apetito, inclinando-se á só opinião do marquez de Villa Viçosa, que
sendo em tudo mui prudente, n'isto pareceu que desacordava. E tendo para
isso feita muita custa, com fundamento de todavia passar, desistio da
ida por causa de uma grande e perigosa doença de febre em que cahiu e
esteve á morte.
E n'este anno de mil quatrocentas e sessenta, lastimado o reino todo das
grandes e apetitosas despezas que El-Rei fazia, de que sua fazenda e as
de seus vassallos sem causa necessaria se destruiam, em umas côrtes que
em Lisboa sobr'isso se fizeram, lhe pediram que as temperasse e quizesse
ter mão mais firme nas cousas da corôa; com que sostevesse seu estado
como seus antecessores faziam, e não as dar com tanta soltura e sem
necessidade como dava, que se contentasse arrecadar dos vassalos os
antigos e velhos direitos, e não agravar seu povo com novos pedidos e
imposições. E para o melhor poder fazer, lhe outorgaram cento e
cincoenta mil dobras d'ouro, com que desempenhasse e pagasse as rendas
da corôa, que por tenças e por casamentos, ou por outras dividas e
obrigações tivesse dadas, com juramento que fez de nunca as mais dar,
mas isto nem sómente aquelle anno em que se prometeu se manteve; porque
na passagem em Africa que logo fez se desordenou tudo, e com muita mais
soltura por mal da corôa real.