_De como a villa d'Alcacere foi de segunda vez cercada por El-Rei
de Fez, e do que se passou n'este segundo cerco até que se
alevantou_
Era D. Duarte de muitas partes avisado como El-Rei de Fez se aparelhava
grandemente para no começo do mez de Julho vir sobre a villa, e sendo
logo sobr'isso certificado que era já em Tangere, começou de concertar e
perceber suas cousas como para taes hospedes convinha.
E a uma segunda feira, dois dias de Julho do dito anno de mil e
quatrocentos e cincoenta e nove, apareceu El-Rei de Fez sobre a villa
com infindo poder de gente, e nações mui desvairadas, e com carriagens
d'alimarias espantosas, que cobriam toda a terra.
E nos dias passados tinha D. Duarte enviado pedir a El-Rei que lhe
mandasse trazer sua mulher D. Isabel de Castro, e seus filhos que eram
em Portugal, e como quer que segundo os recados que tinha havia muito
tempo que esperava por ella, acertou-se que em El-Rei de Fez e os outros
Marins e senhores começando de cercar Alcacere, a náo em que ella vinha
surgiu sobre o porto. E como D. Duarte houve d'ella conhecimento,
determinou com gente e fustas e bateis que para isso pôs em mui segura
ordenança, de a recolher, e elle a cavallo com outros, andaram na praia
resistindo aos mouros, até que muitos fidalgos a pé segura e
honradamente a meteram pelas portas da coiraça.
E certo não foi sem causa acertar ella tal dia em que chegasse; porque
segundo era de nobre sangue e de muitas bondades e virtudes, bem merecia
que em sua chegada a recebessem tamanhos reis e senhores dos mouros como
alli eram.
Desceu-se D. Duarte e levou sua mulher á egreja, onde em vigilia e por
devoção dormio aquella noite, e ao outro dia a meteu em um cubello do
castello, de que podia vêr os combates e afrontas da villa.
E com a ida de D. Isabel a Alcacere foi a gente toda mui leda, e
receberam muito esforço e ousadia, assi pelo repairo que os feridos e
doentes em suas curas d'ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas
com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de
pelejar; porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas d'homens
honrados, que guardada em todo sua honra e honestidade, sabiam bem
fallar e tratar os homens como mereciam.
D. Duarte como aquelle a que em seus feitos não fallecia grande devoção
e esforço, depois de se encommendar a Deos com muitas lagrimas e
palavras de bom christão e singular capitão de sua fé, fallou logo com
muita prudencia e segurança a todolos fidalgos e pessoas principaes da
villa, repartindo-lhe logo com muita alegria e despejo as estancias e
guardas que cada um havia de ter, e avisando-os em todo como para a
necessidade presente cumpria, em que prometia honra e victoria.
El-Rei de Fez e seu Marim e alcaides ordenaram seus combates á villa em
torno, providos de muitas e grossas artelharias, e d'espingardeiros e
besteiros sem conto, e d'escalas e mantas, e todo em grande cumprimento;
porque em tanto cargo e estima tomou o cobrar d'aquella villa d'este
segundo cerco, como todo o reino de cuja privação foi dos mouros
ameaçado, se d'esta vez a não tomasse. E d'alguns combates que os mouros
deram á villa e á coiraça juntamente, elles foram dos christãos com
tanto seu estrago e damno escramentados, que d'hi em diante já refusavam
e não se queriam chegar como sohiam. Dizendo a El Rei pela continua e
grande mortindade dos seus que os não mandasse assi chegar ao combate;
porque elle bem poderia fazer com seu grande poder, quando quizesse,
outra villa dez vezes maior que aquella, mas que fazer elle e renovar
outros tantos vassallos mouros quantos alli perdia não podia, cá era
officio que sómente pertencia a Deus. E com isto punham todos seu
esforço e esperança nas bombardas, que de dia e de noite nunca cessavam
de lançar pedras.
Era El-Rei de Portugal em Lisboa ao tempo que d'este cerco foi avisado,
para que com grande trigança mandou fazer prestes navios com gente,
mantimentos e armas, em que foram muitos fidalgos e pessoas principaes
do reino, alguns d'elles por especial percebimento, e os mais de suas
livres e louvadas vontades, em que entravam pessoas de todas edades, cá
os moços por ganhar e acrescentar honra, fugiam para este cerco, e dos
velhos por conservação da ganhada algum não queria ficar.
No meio tempo do cerco chegaram ao arraial dos mouros as suas bombardas
grossas, que por seu peso e grandeza e pela aspereza da terra faziam
suas jornadas vagarosas, e em sua chegada não fizeram os mouros menos
festa e alegrias que na sua Pascoa que então celebraram. Foram logo com
grande presteza e alegria assentadas, e dos tiros primeiros que fizeram
começaram nos muros e cubellos de fazer com sua furia tanto dano, que a
muitos de dentro com receio de maior mal já se mudavam as côres; porque
alguns cubellos foram em breve arrasados com os muros, que em todalas
partes tremiam, e faziam conta que se elles sendo derribados não os
defendessem, que a peleja de pessoas com pessoas tanto seria perigosa,
quanto a gente e poder dos mouros era desegual. Mas D. Duarte, cujo
coração, esforço e segurança, d'estes medos e d'outros maiores andava
sempre priviligiado, a tudo soccorria e repairava logo com tão
engenhosos remedios, que aos mouros enfraqueciam os corações, havendo
que tão prestes e diligente repairo eram obras de Deus mais que dos
homens. Especialmente porque claramente viam que a diligencia, trabalho
e resistencia dos christãos lhes parecia sobre forças humanas. Pelas
quaes cousas, e assi porque os mantimentos falleciam já aos mouros,
houve no arraial dos mouros grande rumor de alevantarem o cerco, de que
D. Duarte por mouros que na villa se lançavam foi certificado.
E D. Duarte e esses senhores e fidalgos que com elle eram, não fartos de
muita honra e louvor que tinham ganhado, escreveram ao Marim
apresentando-lhe com palavras assaz cortezes quão covardamente elle e
seu Rei se tinham havido n'aquelle cerco, do qual não se deviam assi
partir com tanto seu abatimento e deshonra, pedindo-lhe que avergonhados
disto tornassem renovar os combates, para que ficavam alimpando as
armas, que no sangue dos seus tinham já todas sujas.
El-Rei e o Marim mostrando ser d'esta carta mui anojados, responderam a
D. Duarte com palavras de grande descortesia e muita villeza,
reportando-se ao mal do palanque de Tangere, e que já fizeram ao Infante
tio do seu Rei cavar e alimpar os cavallos, e que assi faria a elles, a
quem D. Duarte largamente replicou, reprendendo como devia suas villezas
e cobardia.
E finalmente El-Rei de Fez com todo seu arraial se alevantou de sobre a
villa, dia de S. Bertholameu, XXIV dias d'Agosto de mil quatrocentos e
cincoenta e nove.
Durou este segundo cerco d'Alcacere outros LIII dias como o primeiro.
Foram lançadas na villa duas mil e quatrocentas e cincoenta e seis
pedras grossas, foram mortos dos christãos até XXV, e dos mouros muitos,
de que se não houve o numero certo. O que todo notificou logo D. Duarte
a El-Rei, estando em Santarem, que por o caso deu a Deus muitas graças,
e a elle muitos agardecimentos e louvores, e D. Duarte mandou logo para
o reino a gente que não era em Alcacere necessaria.