CAPITULO CXLII

_De como a villa d'Alcacere foi de segunda vez cercada por El-Rei

de Fez, e do que se passou n'este segundo cerco até que se

alevantou_

Era D. Duarte de muitas partes avisado como El-Rei de Fez se aparelhava

grandemente para no começo do mez de Julho vir sobre a villa, e sendo

logo sobr'isso certificado que era já em Tangere, começou de concertar e

perceber suas cousas como para taes hospedes convinha.

E a uma segunda feira, dois dias de Julho do dito anno de mil e

quatrocentos e cincoenta e nove, apareceu El-Rei de Fez sobre a villa

com infindo poder de gente, e nações mui desvairadas, e com carriagens

d'alimarias espantosas, que cobriam toda a terra.

E nos dias passados tinha D. Duarte enviado pedir a El-Rei que lhe

mandasse trazer sua mulher D. Isabel de Castro, e seus filhos que eram

em Portugal, e como quer que segundo os recados que tinha havia muito

tempo que esperava por ella, acertou-se que em El-Rei de Fez e os outros

Marins e senhores começando de cercar Alcacere, a náo em que ella vinha

surgiu sobre o porto. E como D. Duarte houve d'ella conhecimento,

determinou com gente e fustas e bateis que para isso pôs em mui segura

ordenança, de a recolher, e elle a cavallo com outros, andaram na praia

resistindo aos mouros, até que muitos fidalgos a pé segura e

honradamente a meteram pelas portas da coiraça.

E certo não foi sem causa acertar ella tal dia em que chegasse; porque

segundo era de nobre sangue e de muitas bondades e virtudes, bem merecia

que em sua chegada a recebessem tamanhos reis e senhores dos mouros como

alli eram.

Desceu-se D. Duarte e levou sua mulher á egreja, onde em vigilia e por

devoção dormio aquella noite, e ao outro dia a meteu em um cubello do

castello, de que podia vêr os combates e afrontas da villa.

E com a ida de D. Isabel a Alcacere foi a gente toda mui leda, e

receberam muito esforço e ousadia, assi pelo repairo que os feridos e

doentes em suas curas d'ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas

com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de

pelejar; porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas d'homens

honrados, que guardada em todo sua honra e honestidade, sabiam bem

fallar e tratar os homens como mereciam.

D. Duarte como aquelle a que em seus feitos não fallecia grande devoção

e esforço, depois de se encommendar a Deos com muitas lagrimas e

palavras de bom christão e singular capitão de sua fé, fallou logo com

muita prudencia e segurança a todolos fidalgos e pessoas principaes da

villa, repartindo-lhe logo com muita alegria e despejo as estancias e

guardas que cada um havia de ter, e avisando-os em todo como para a

necessidade presente cumpria, em que prometia honra e victoria.

El-Rei de Fez e seu Marim e alcaides ordenaram seus combates á villa em

torno, providos de muitas e grossas artelharias, e d'espingardeiros e

besteiros sem conto, e d'escalas e mantas, e todo em grande cumprimento;

porque em tanto cargo e estima tomou o cobrar d'aquella villa d'este

segundo cerco, como todo o reino de cuja privação foi dos mouros

ameaçado, se d'esta vez a não tomasse. E d'alguns combates que os mouros

deram á villa e á coiraça juntamente, elles foram dos christãos com

tanto seu estrago e damno escramentados, que d'hi em diante já refusavam

e não se queriam chegar como sohiam. Dizendo a El Rei pela continua e

grande mortindade dos seus que os não mandasse assi chegar ao combate;

porque elle bem poderia fazer com seu grande poder, quando quizesse,

outra villa dez vezes maior que aquella, mas que fazer elle e renovar

outros tantos vassallos mouros quantos alli perdia não podia, cá era

officio que sómente pertencia a Deus. E com isto punham todos seu

esforço e esperança nas bombardas, que de dia e de noite nunca cessavam

de lançar pedras.

Era El-Rei de Portugal em Lisboa ao tempo que d'este cerco foi avisado,

para que com grande trigança mandou fazer prestes navios com gente,

mantimentos e armas, em que foram muitos fidalgos e pessoas principaes

do reino, alguns d'elles por especial percebimento, e os mais de suas

livres e louvadas vontades, em que entravam pessoas de todas edades, cá

os moços por ganhar e acrescentar honra, fugiam para este cerco, e dos

velhos por conservação da ganhada algum não queria ficar.

No meio tempo do cerco chegaram ao arraial dos mouros as suas bombardas

grossas, que por seu peso e grandeza e pela aspereza da terra faziam

suas jornadas vagarosas, e em sua chegada não fizeram os mouros menos

festa e alegrias que na sua Pascoa que então celebraram. Foram logo com

grande presteza e alegria assentadas, e dos tiros primeiros que fizeram

começaram nos muros e cubellos de fazer com sua furia tanto dano, que a

muitos de dentro com receio de maior mal já se mudavam as côres; porque

alguns cubellos foram em breve arrasados com os muros, que em todalas

partes tremiam, e faziam conta que se elles sendo derribados não os

defendessem, que a peleja de pessoas com pessoas tanto seria perigosa,

quanto a gente e poder dos mouros era desegual. Mas D. Duarte, cujo

coração, esforço e segurança, d'estes medos e d'outros maiores andava

sempre priviligiado, a tudo soccorria e repairava logo com tão

engenhosos remedios, que aos mouros enfraqueciam os corações, havendo

que tão prestes e diligente repairo eram obras de Deus mais que dos

homens. Especialmente porque claramente viam que a diligencia, trabalho

e resistencia dos christãos lhes parecia sobre forças humanas. Pelas

quaes cousas, e assi porque os mantimentos falleciam já aos mouros,

houve no arraial dos mouros grande rumor de alevantarem o cerco, de que

D. Duarte por mouros que na villa se lançavam foi certificado.

E D. Duarte e esses senhores e fidalgos que com elle eram, não fartos de

muita honra e louvor que tinham ganhado, escreveram ao Marim

apresentando-lhe com palavras assaz cortezes quão covardamente elle e

seu Rei se tinham havido n'aquelle cerco, do qual não se deviam assi

partir com tanto seu abatimento e deshonra, pedindo-lhe que avergonhados

disto tornassem renovar os combates, para que ficavam alimpando as

armas, que no sangue dos seus tinham já todas sujas.

El-Rei e o Marim mostrando ser d'esta carta mui anojados, responderam a

D. Duarte com palavras de grande descortesia e muita villeza,

reportando-se ao mal do palanque de Tangere, e que já fizeram ao Infante

tio do seu Rei cavar e alimpar os cavallos, e que assi faria a elles, a

quem D. Duarte largamente replicou, reprendendo como devia suas villezas

e cobardia.

E finalmente El-Rei de Fez com todo seu arraial se alevantou de sobre a

villa, dia de S. Bertholameu, XXIV dias d'Agosto de mil quatrocentos e

cincoenta e nove.

Durou este segundo cerco d'Alcacere outros LIII dias como o primeiro.

Foram lançadas na villa duas mil e quatrocentas e cincoenta e seis

pedras grossas, foram mortos dos christãos até XXV, e dos mouros muitos,

de que se não houve o numero certo. O que todo notificou logo D. Duarte

a El-Rei, estando em Santarem, que por o caso deu a Deus muitas graças,

e a elle muitos agardecimentos e louvores, e D. Duarte mandou logo para

o reino a gente que não era em Alcacere necessaria.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 16 / 127 题