_De como falleceu o Infante D. Anrique, e de seus feitos, bondades,
e virtudes_
E no mez de Novembro d'este anno falleceu em Sagres o Infante D. Anrique
com sinaes e cumprimento de fiel christão, em edade de cincoenta e sete
annos, cujo corpo foi logo soterrado na egreja da villa de Lagos.
E de hi no anno que vinha de mil e quatrocentos e sessenta e um, foram
seus ossos levados ao mosteiro da Batalha por o Infante D. Fernando, que
tinha adotado por filho, que foi por elles e os trouxe com grande honra
e muita cerimonia ao dito mosteiro, onde El-Rei acompanhado de toda a
nobre gente de Portugal e muitos prelados sahiu aos receber com solemne
procissão, e lhe fizeram honradas exequias.
O Infante D. Anrique foi em tudo Principe tão perfeito, que não é razão
que alguma de suas muitas e louvadas virtudes se especifiquem; porque
seria mingoar nas outras todas, que d'elle como de uma fonte clara e
perenal todas nasceram. Porém a que pareceu que em seus dias sobre todas
abraçou, foi inteira obediencia e firme lealdade a El-Rei, e em seu
coração houve sempre fervente amor e continua devoção para Deus, e uma
singular humanidade e nobreza para os homens, e um vivo esforço nunca
vencido com que em sua vida como magnanimo Principe e esforçado
cavalleiro sempre emprehendeu arduas e mui excellentes empresas,
especialmente contra inimigos da fé, por seu marivilhoso engenho e muita
prudencia e grandeza de coração, e com innumeraveis gastos de suas
rendas e fazenda, não receando infindos trabalhos, mortes, e perigos de
seus criados e servidores, que muitas vezes via morrer e padecer, depois
da tomada e descercos de Ceuta em que foi, mandou primeiramente navegar
e descobrir pelo mar Occeano, onde se acharam logo e povoraram as ricas
e fertiles ilhas da Madeira, que foram as primeiras que no mar Occeano
estes reinos tiveram, e assi d'hi em diante outras muitas de que elles e
a christandade toda muito bem e proveito recebem.
E assi o dito Infante como aconselhado e esforçado, já por divina
inspiração movido a isso, com respeitos de magnanimo Principe e mui
catolico christão, e como mui leal vassallo dos Reis e da corôa de
Portugal, desejoso do acrescentamento, gloria, e louvor d'elles,
suspirando pela santa, honrada e proveitosa conquista de Guiné, mandou
logo pedir e suplicar ao Papa Martinho quinto, na Egreja de Roma
presidente, que em nome de Deus cujo poder tinha, concedesse e fizesse á
dita corôa e herdeiros d'ella para sempre, como com acordo e approvação
do Sagrado Collegio dos Cardeaes fez e concedeu solemne e perpetua
doação, e lhe deu o senhorio proprio de todo o que na costa do dito mar
Occeano, nos mares a ella ajacentes dos marcos e cabos de Nam e do
Bojador contra o meio dia e oriente por elles e por seus sobcessores, e
por suas gentes pelos tempos em diante se achasse e descobrisse até os
Indios inclusivamente. A qual doação e concessão do dito Papa Martinho
depois o Papa Eugenio, e o Papa Nicoláo, e o Papa Sixto á suplicação
d'El-Rei D. Affonso, e d'El-Rei D. João seu filho confirmaram e
aprovaram com sua graça e poder, com muitas graças e benções e
liberdades aos Reis de Portugal presentes e futuros que a proseguissem,
e com grandes excumunhões, graves censuras e maldições a todolos
christãos que em qualquer maneira, sem prazer e consentimento dos ditos
Reis de Portugal contra ellas fossem, como nas Bulas Apostollicas que se
d'isso concederam mais perfeita e cumpridamente se contém, as quaes
sendo um divino favor e verdadeiro e ligitimo titulo para se a dita
navegação, descobrimento e conquista navegar e proseguir o dito Infante
logo primeiramente com o santo e virtuoso principio de tão aventurado
fim a emprendeu e proseguiu.
E com espantosos principios e meios de que era prasmado e nunca foi
vencido em sua vida, mandou adiante descobrir e tratar até a Serra Liôa
com muito proveito do reino. E depois de sua morte em tempo d'El-Rei D.
Affonso o quinto seu sobrinho, além do descobrimento do Infante se
descobriu a mina do ouro, em que agora é a cidade de S. Jorge, que
El-Rei D. João o segundo mandou novamente edificar, e assi se descobriu
mais por El-Rei D. Affonso até o Cabo de Santa Caterina, e depois de seu
fallecimento, como El-Rei D. João o segundo seu filho o sobcedeu, d'alli
mandou por annos descobrir até dobrarem o Cabo de Boa Esperança, e seus
descobridores chegaram até o Rio do Infante, e d'alli sendo seu
proposito não cessar até descobrir a India, por sua doença e morte, que
se logo seguiu, cessou seu descobrimento.
E como depois o sobcedeu e reinou após elle El-Rei D. Manuel o primeiro,
nosso Senhor, como Principe que em tudo quiz herdar a benção, reaes
costumes e claras façanhas de Reis e Principes tão gloriosos seus
antecessores, por seu mandado e com seus capitães, navios e gentes por
este caminho se desccobriram, trataram e navegaram, com grandes perigos
e muitas difficuldades, e innumeraveis despezas outras novas ilhas e
terras, e sobre tudo a Arabia e a Persia, e a India com todalas
especiarias, pedrarias, minas, riquezas, e thesouros orientaes que hoje
possue e tem com muita segurança e prosperidade, fazendo-se pacifico
Senhor de muitos Reis e senhores que sua paz e senhorio compraram com
ricos e cotedianos tributos, como em sua chronica fará menção, de que a
elle e á real corôa d'estes seus reinos de Portugal e aos herdeiros
d'ella, e a seus vassalos e naturaes se acrescentou, e com a graça de
Deus cada vez acrescentará mais bem, maior honra, gloria, e louvor, e
ricos, honestos e mui grandes proveitos, com os quaes pois seu principal
fim e intento é servir a Deus e divulgar e exalçar sua santa Fé sempre,
por isso seu grande poder será muito mais poderoso, e não sómente a
elles este bem e proveito será reservado, mas ainda de suas mãos e por
seu meio a christandade toda será participante, com que a fé de nosso
senhor será por isso mais conhecida, louvada, e exalçada, e as seitas,
idolatrias e forças dos imigos d'ella de todo minguadas e mui
quebrantadas, e esta esperança não está de todo em a esperarmos; porque
com prosperos e desejados effeitos tem ácerca d'isto muitas vezes
respondido, como em seus proprios tempos e lugares melhor se dirá, que
sempre se atribuiram á honra, memoria, louvor e merecimentos d'este
virtuoso Principe e Infante D. Anrique, como a causa e primeiro inventor
de tanto bem.
Foi mais o Infante nas roupas de seu corpo mui honesto e muito mais nas
palavras de sua bocca, e por maior sua perfeição foi em sua vida sempre
casto, e segundo o que se creu, virgem o comeu a terra, que dá piedosa
esperança de salvação de sua alma.