_De como se fez em Alcacere a coiraça para defensão e segurança da
villa, e como D. Duarte, capitão, se houvera de perder_
El-rei entendeu logo no fazimento da coiraça d'Alcacere, por cuja mingua
quando tornou sobr'ella de Ceuta a não pôde soccorrer nem bastecer como
quizera; porque era mais afastada do mar, do que cumpria para navios sem
empedimento e contradição dos de fóra a poderem prover. E tanta ordem e
diligencia se poz n'isso ácerca da pedra cantaria e cal, e madeira, e
officiaes, e cousas a ella necessarias, e assi a gente de guarnição que
tudo defendesse, que com tudo prestes e enviado a Alcacere, a dita
coiraça se começou logo á segunda-feira de Ramos XXII dias de Março do
anno de mil e quatrocentos cincoenta e nove. Na qual obra D. Duarte, de
noite e de dia, para bom exemplo de todos assi servia e melhor que
qualquer outro pobre serviçal que hi andasse.
E em fim por fallecimento de cal; porque a obra se fundou maior e mais
forte do que primeiro cuidaram, a dita coiraça não se acabou senão
depois do S. João do dito anno, e foi ao tempo que D. Duarte era já bem
certificado dos ajuntamentos e apurações e convocações que El Rei de Fez
em suas terras e nas alheias fazia para vir outra vez sobr'elle como
ficara.
E porque para execução do proposito dos mouros era grande impedimento a
coiraça que se fazia de que eram já bem avisados, por deterem e
impedirem a obra com dano e mortes dos officiaes que a lavravam,
acordaram de enviar para isso secretamente certos alcaides, com mil e
quinhentos de cavallo, e outra muita gente de pé, para que dessem
n'elles e trabalhassem por desfazer a dita obra.
E com isto, porque D. Duarte com sua gente não leixava d'entrar e fazer
grandes cavalgadas e estragos nas terras dos mouros, acertou-se que um
dia desavisado do ardil dos alcaides, determinou entrar com a mais gente
que nunca entrara. E estando á noite dois veladores praticando sobre o
muro, aconteceu que por máo avisamento e pouco resguardo d'elles, com
vozes altas um descobriu ao outro a entrada de D. Duarte, declarando
logo por onde havia d'entrar, e os lugares a que havia d'ir, e tudo assi
apontado como que estivera á determinação do caso. E acertou-se que um
mouro almograve, que da lingoa dos christãos tinha bom conhecimento e
era mui ousado, vindo-se de noite lançar ao pé da barreira por escuta,
ouvio toda a pratica d'estes, com que apressadamente logo partio, e foi
logo avisar umas aldeias, de que tomaram um mouro mais despachado, que
indo com grande trigança dar aviso a Tanger, topou de recontro com os
mesmos alcaides que vinham sobre a coiraça, aos quaes o messageiro
contou o caso sobre que ia, havendo que era remedio que lhes Deus a tal
tempo enviava, e elles mui alegres com tal nova lhe prometeram grandes
honras e acrescentamentos; porque lhes pareceu que leixariam entrar D.
Duarte, e sem alguma fadiga o atalhariam e tomariam como quizessem, e
assi sem os trabalhos, mortes e despezas que se lhe aparelhavam, não
sómente impediriam a coiraça, mas cobrariam a villa em que não podia
ficar gente que a defendesse.
E vieram-se os alcaides ao logar d'Anexanuz onde estava um christão
captivo, natural da Villa de Lagos, a que chamavam o Talheiro, o qual
tinha muita amizade e pratica com um mouro, cujo nome era Azmede, que já
fôra em Tavila captivo, e sabendo bem o Talheiro o ardil e determinação
dos alcaides, pela qual a perdição de D. Duarte e da villa d'Alcacere
com toda a gente se não podia escusar, doendo-se d'isso como bom
christão e leal portuguez, tanto aperfiou com Azmede e tantas esperanças
lhe pôs na bondade e verdade dos christãos para sua honra e proveito,
que o houve de commover que de todo o que era concertado logo aquella
noite fosse como foi avisar D. Duarte. O qual estando para partir e
vendo tal aviso e sendo certificado por Antão Vaz, alfaqueque, que o
mouro era homem de credito e amigo dos christãos, pôs os giolhos em
terra, e as mãos alevantadas ao ceo deu muitas graças a Deus, e ao mouro
deu logo e prometteu e fez ao diante muito bem.
E ao outro dia mandou desaperceber os fidalgos e toda a gente que para a
entrada estavam já todos prestes, que por isso ficaram tristes e muito
mais descontentes de D. Duarte, e mostrando não ser menos irados contra
o mouro, assacando-lhe que por evitar o dano que a seus parentes estava
aparelhado, mais que por fazer bem a D. Duarte, se movera a tal aviso, e
uns o ameaçavam com a forca, e outros com o lume para o queimarem, mas o
mouro confiado no que certo sabia, tudo soffria rindo, dizendo que cedo
lhe dariam o contrario.
E sendo o capitão por elle avisado dos lugares em que as cilladas haviam
de jazer, mandou logo pela manhã descubrir a primeira, estando com toda
a outra gente a recado e percebido; os mouros como viram os
descobridores entenderam a verdade, e que tal descobrimento procedera
d'algum aviso que os christãos d'elles houveram, e que por isso não
sairam da villa, nem ousaram entrar em sua terra como tinham ordenado, e
sairam logo d'elles quatrocentos de cavallo em cavallos armados e
arreios, gente especial e mui concertada. Sahiu D. Duarte com até cento
e vinte de cavallo a lhes resistir, em especial a recolher os
descobridores que tinha enviados que vinham mui perseguidos, e n'isto se
travou de uma parte e da outra mui crua peleja, em que D. Duarte tanto
apertou com os mouros que os fez fugir, em que morreram alguns d'elles,
todos homens entr'elles de boa estima, e ao seguimento d'estes sahiu a
outra cillada maior em socorro dos primeiros que maliciosamente
mostravam ir fogindo por tirarem os christãos fóra, e fizeram todos uma
volta sobre os christãos, que por não poderem resistir a tamanha força
lhe deram as costas, e no encalço que foi curto, mataram dois e feriram
muitos.
E quiz Deus que na primeira esporada que D. Duarte n'elles deu lhe
quebraram as cabeçadas do cavallo, e em lh'as corregerem se deteve e
mandou deter a gente sua algum espaço, que deu causa que o encalço da
volta que os mouros sobre os christãos fizeram fosse assi curta, que
quasi os acharam á sombra dos muros a que com sua segurança se
acolheram; porque d'outra maneira segundo os mouros vinham azedos, e com
tanta sua avantagem, fôra sem duvida para os christãos grande perigo.
E n'este dia se lançou um moço christão com os mouros, a que descobrio o
aviso d'Azmede que deu causa a se elle vir de todo para Alcacere, onde
sendo mouro deu aviamento a muita guerra e damno de sua propria terra, e
este se chamou depois Mafamede de Alcacere, a que El-Rei D. Affonso e
depois El-Rei D. João seu filho por seus serviços fizeram muita mercê.