XVI

No domingo seguinte havia missa cantada na Sé, e a S. Joanneira e Amelia

atravessaram a Praça para ir buscar D. Maria da Assumpção, que em dias

de mercado e de «populacho» nunca sahia só, receosa que lhe roubassem as

joias ou lhe insultassem a castidade.

N'essa manhã, com effeito, a affluencia das freguezias enchia a Praça:

os homens em grupo, atravancando a rua, muito sérios, muito barbeados,

de jaqueta ao hombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhões

e de corações d'ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros

azafamavam-se por traz dos balcões alastrados de lençaria e de chitas;

nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os saccos

de farinha, os montões de louça, os cestos de brôa, ia um regatear sem

fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos

redondos e transbordam os mólhos de rosarios; velhas faziam pregão por

traz dos seus taboleiros de cavacas; e os pobres, afreguezados á cidade,

choramingavam Padre-nossos pelas esquinas.

Já senhoras passavam para a missa, todas em sêdas, de rostinho sisudo; e

a Arcada estava cheia de cavalheiros, têsos nos seus fatos de casimira

nova, fumando caro, gozando o domingo.

Amelia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido, disse mesmo

alto d'um grupo: _Ai, que me leva o coração!_ E as duas senhoras,

apressando-se, dobravam para a rua do Correio, quando lhes appareceu o

Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. Não as tinha visto desde «o

desacato do largo da Sé», e rompeu logo em exclamações. Ai, filhas, que

desgosto aquelle! O malvado do escrevente! Elle tinha tido tanto que

fazer, que só n'essa manhã é que pudera ir ao senhor parocho dar-lhe os

sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; elle

quiz-lhe vêr o braço e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura...

E se ellas vissem, que carnadura tão delicada, que pelle tão branca...

Uma pellinha d'archanjo!

--Mas querem vossês saber, filhas? Encontrei-o n'uma grande afflicção!

As duas senhoras assustaram-se. Porquê, Libaninho?

A criada, a Vicencia, que havia dias se queixava, tinha ido n'essa

madrugada para o hospital com um febrão...

--E alli está o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vossês! Para

hoje bem, que vai jantar com o nosso conego (tambem lá estive, ai, que

santo!), mas ámanhã, mas depois? Que elle já tem em casa a irmã da

Vicencia, a Dionysia... Mas, oh, filhas, a Dionysia! Foi o que eu lhe

disse: a Dionysia póde ser uma santa, mas que reputação!... É que não ha

peor em Leiria... Uma perdida que não põe os pés na igreja... Tenho a

certeza que o senhor chantre até havia de reprovar!

As duas senhoras concordaram logo que a Dionysia (mulher que não cumpria

os preceitos, que representára em theatros de curiosos) não convinha ao

senhor parocho...

--Olha, S. Joanneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu lá

lh'o disse, lá lhe fiz a proposta. É ferrar-se outra vez em tua casa.

Que é onde está bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa,

que lhe sabe os gostos, e onde tudo é virtude! Elle não disse que _não_

nem que _sim_. Mas olha que se lhe podia lêr na cara que está a morrer

por isso... Tu é que lhe devias fallar, S. Joanneirinha!

Amelia fizera-se tão escarlate como a sua gravata de sêda da India. E a

S. Joanneira disse ambiguamente:

--Fallar-lhe não... Eu n'essas coisas sou muito delicada... Bem

comprehendes...

--Era como teres um santo de portas a dentro, filha! disse com calor o

Libaninho. Lembra-te d'isso! E era um gosto para todos... Tenho a

certeza que até Nosso Senhor se havia d'alegrar... E agora adeus,

pequenas, que vou de fugida. Não vos demoreis, que está a missinha a

cahir.

As duas senhoras continuaram caladas até casa de D. Maria da Assumpção.

Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre aquella possibilidade

tão inesperada, tão grave, do senhor parocho voltar para a rua da

Misericordia! Foi só quando pararam que a S. Joanneira disse, ao puxar à

campainha:

--Ai, o senhor parocho realmente não póde ter a Dionysia de portas a

dentro...

--Credo, até causa horror!

Foi tambem a expressão da snr.^a D. Maria da Assumpção quando lhe

contaram, em cima, a doença da Vicencia e a installação da Dionysia:

causava horror!

--Que eu não a conheço, disse a excellente senhora. E tenho até vontade

de a conhecer. Que me dizem que é dos pés à cabeça uma crosta de

peccado!

A S. Joanneira então fallou da «proposta do Libaninho». D. Maria da

Assumpção declarou logo com ardor que era uma inspiração de Nosso

Senhor. Que nunca o senhor parocho devia ter sahido da rua da

Misericordia! Até parece que mal elle se fôra embora, Deus retirára a

sua graça da casa... Não houvera senão desgostos--o _Communicado_, a dôr

de estomago do conego, a morte da entrevadinha, aquelle desgraçado

casamento (que estivera por um _triz_, que horror!), o escandalo do

largo da Sé... A casa tinha parecido enguiçada!... E era até peccado

deixar viver o santinho n'aquelle desarranjo, com a suja da Vicencia,

que nem lhe sabia dar uma passagem nas meias!

--Em parte nenhuma póde estar melhor que em tua casa... Tem tudo o que

necessita, de portas a dentro... E para ti é uma honra, é estar em

graça. Olha, filha, se eu não fosse só, sempre o digo, quem o hospedava

era eu! Que aqui é que elle estava bem... Que salinha para elle, hein?

Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.

A sala com effeito era toda ella uma immensa armazenagem de santaria e

de _bric-à-brac_ devoto: sobre as duas commodas de pau preto com

fechaduras de cobre apinhavam-se, sob redomas, em peanhas, as Nossas

Senhoras vestidas de sêda azul, os Meninos Jesus frizados com o

ventresinho gordo e a mão abençoadora, os Santo Antonios no seu burel,

os S. Sebastiões bem fréchados, os S. Josés barbudos. Havia santos

exoticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaça--S.

Paschoal Baylão, S. Didacio, S. Chrisolo, S. Gorislano... Depois eram os

bentinhos, os rosarios de metal e de caroços d'azeitonas, contas de

côres, rendas amarellas d'antigas alvas, corações de vidro escarlate,

almofadinhas com J. M. entrelaçados a missanga, ramos bentos, palmas de

martyres, cartuchinhos d'incenso. As paredes desappareciam forradas de

estampas de Virgens de todas as devoções,--equilibradas sobre o orbe,

enrodilhadas aos pés da cruz, trespassadas d'espadas. Corações d'onde

gotejava sangue, corações d'onde sahia uma fogueira, corações d'onde

dardejavam raios: orações encaixilhadas para as festas particularmente

amadas--o _Casamento de Nossa Senhora_, a _Invenção da Santa Cruz_, os

_Estigmas de S. Francisco_, sobretudo o _Parto da Santa Virgem_, a mais

devota, que vem pelas quatro temporas. Sobre as mesas lamparinas

accêsas, para serem collocadas sem demora aos santos especiaes, quando a

boa senhora tivesse a sua sciatica, ou que o catarrho se assanhasse, ou

lhe viessem as caimbras. Ella mesma, só ella, arrumava, espanejava,

lustrava toda aquella santa população celeste, aquelle arsenal beato,

que era apenas sufficiente para a salvação da sua alma e o allivio dos

seus achaques. O seu grande cuidado era a collocação dos santos;

alterava-a constantemente, porque ás vezes, por exemplo, sentia que

Santo Eleuterio não gostava d'estar ao pé de S. Justino, e ia então

pendural-o a distancia, n'uma companhia mais sympathica ao santo. E

distinguia-os (segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe

explicava), dando-lhes uma devoção graduada, e não tendo por S. José de

segunda classe o respeito que sentia por S. José de primeira classe.

Aquella riqueza era a inveja das amigas, a edificação dos curiosos, e

fazia sempre dizer ao Libaninho, quando a vinha visitar, abrangendo a

sala n'um olhar langoroso:--Ai, filha, é o reininho dos céos!

--Não é verdade, continuava a excellente senhora radiante, que elle aqui

é que estava bem, o santinho do parocho? É como ter o céo debaixo da

mão!

As duas senhoras concordaram. Ella podia ter a sua casa arranjada com

devoção, ella que era rica...

--Não o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de mil reis. Sem

contar o que está no relicario...

Ah, o famoso relicario de sandalo forrado de setim! Tinha lá uma

lascasinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Corôa,

um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume,

entre as devotas, que coisas tão preciosas, d'origem divina, deviam

estar no sacrario da Sé. D. Maria da Assumpção, temendo que o senhor

chantre soubesse d'aquelle thesouro seraphico, só o mostrava ás intimas,

mysteriosamente. E o santo sacerdote, que lh'o obtivera, fizera-a jurar

sobre o Evangelho de não revelar a procedencia «para evitar

fallatorios».

A S. Joanneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho do cueiro.

--Que reliquia, que reliquia! murmurava.

E D. Maria da Assumpção muito baixo:

--Não ha melhor. Trinta mil reis me custou... Mas dava sessenta, mas

dava cem! mas dava tudo!--E babando-se toda, diante do trapinho

precioso:--O cueirinho! dizia quasi a chorar. Meu rico Menino, o seu

cueirinho...

Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicario no gavetão.

Mas o meio dia ia bater--e as tres senhoras apressaram-se para a Sé,

para pilhar logar no altar-mór.

Já no largo encontraram D. Josepha Dias, que se precipitava para a

igreja, sôfrega da missa, com o mantelete descahido sobre o hombro e uma

pluma do chapéo a despregar-se. Tinha estado toda a manhã n'um phrenesi

com a criada! Fôra necessario fazer ella todos os preparos para o

jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha lhe dêsse virtude, de

nervosa que estava...

--Que temos lá o senhor parocho hoje... Vossês sabem que adoeceu a

criada... Ah, já me esquecia, o mano quer que tu lá vás jantar tambem,

Amelia. Diz que é para haverem duas damas e dois cavalheiros...

Amelia riu d'alegria.

--E tu vai depois buscal-a, S. Joanneira, á noitinha... Credo, vesti-me

tanto á pressa, que até parece que me está a cahir o saiote!

Quando as quatro senhoras entraram, a igreja estava já cheia. Era uma

missa cantada ao Santissimo. E apesar de contrario ao rigor do ritual,

por um costume diocesano (que o bom Silverio, muito estricto na

liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a

Eucharistia, musica de rebeca, violoncello e flauta. O altar, muito

ornado, com as reliquias expostas, destacava n'uma alvura festiva;

docel, frontal, paramentos dos missaes eram brancos, com relevos d'ouro

desmaiado; nos vasos erguiam-se ramos pyramidaes de flôres e folhagens

brancas; os velludilhos decorativos, dispostos como velarios, punham dos

dois lados do tabernaculo a brancura de duas vastas azas desdobradas,

lembrando a Pomba Espiritual; e os vinte castiçaes erguiam as suas

chammas amarellas em throno até ao sacrario aberto, que mostrava d'alto,

engastada n'um rebrilhar d'ouros vivos, a hostia redonda e baça. Por

toda a igreja apinhada corria uma susurração lenta; aqui e além um

catarrho expectorava, uma criança choramigava; o ar adensava-se já dos

halitos juntos e d'um cheiro d'incenso; e do côro, onde as figuras dos

musicos se moviam por traz dos braços dos rebecões e das estantes, vinha

a cada momento um afinar gemido de rebeca, ou um pio de flautim. As

quatro amigas tinham-se apenas accommodado junto do altar-mór, quando os

dois acolythos, um têso como um pinheiro, o outro gordalhufo e

enxovalhado, entraram do lado da sacristia, sustentando alto e direito

nas mãos os dois castiçaes consagrados; atraz o Pimenta vesgo, com uma

sobrepelliz muito vasta para elle, lançando os seus sapatões em passadas

pomposas, trazia o incensador de prata; depois successivamente, durante

o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear dos livrinhos, appareceram os

dois diaconos; e emfim, paramentado de branco, d'olhos baixos e mãos

postas, com aquelle recolhimento humilde que pede o ritual e que exprime

a mansidão de Jesus marchando ao Calvario, entrou o padre Amaro--ainda

vermelho da questão furiosa que tivera na sacristia, antes de se

revestir, por causa da lavagem das alvas.

E o côro immediatamente atacou o _Introito_.

Amelia passou a sua missa embebecida, pasmada para o parocho--que era,

como dizia o conego, «um grande artista para missas cantadas»; todo o

cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que

cavalheirismo nas saudações ceremoniosas aos diaconos! Como se prostrava

bem diante do altar, aniquilado e escravisado, sentindo-se cinza,

sentindo-se pó diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua

côrte e da sua familia celeste! Mas era sobretudo admiravel nas bençãos;

passava devagar as mãos sobre o altar como para apanhar, recolher a

graça que alli cahia do Christo presente, e atirava-a depois com um

gesto largo de caridade por toda a nave, por sobre o estendal de lenços

brancos de cabeça, até ao fundo onde os homens do campo muito apertados,

de varapau na mão, pasmavam para a scintillação do sacrario! Era então

que Amelia o amava mais, pensando que aquellas mãos abençoadoras lh'as

apertava ella com paixão por baixo da mesa do quino: aquella voz, com

que elle lhe chamava _filhinha_, recitava agora as orações ineffaveis, e

parecia-lhe melhor que o gemer das rebecas, revolvia-a mais que os

graves do orgão! Imaginava com orgulho que todas as senhoras decerto o

admiravam tambem; mas só tinha ciumes, um ciume de devota que sente os

encantos do céo, quando elle ficava diante do altar, na posição extatica

que manda o ritual, tão immovel como se a sua alma se tivesse remontado

longe, para as alturas, para o Eterno e para o Insensivel. Preferia-o,

por o sentir mais humano e mais accessivel, quando, durante o _Kirie_ ou

a leitura da Epistola, elle se sentava com os diaconos no banco de

damasco vermelho; ella queria então attrahir-lhe um olhar; mas o senhor

parocho permanecia de olhos baixos n'uma compostura modesta.

Amelia, sentada sobre os calcanhares, com a face banhada n'um sorriso,

admirava-lhe o perfil, a cabeça bem feita, os paramentos dourados--e

lembrava-se quando o vira a primeira vez descendo a escada da rua da

Misericordia, com o seu cigarro na mão. Que romance se passára desde

essa noite! Recordava o Morenal, o salto do vallado, a scena da morte da

titi, aquelle beijo ao pé da lareira... Ai, como acabaria tudo aquillo?

Queria então rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe á idéa o que o

Libaninho n'essa manhã dissera: «o senhor parocho tinha uma pellesinha

tão branca como um archanjo...» Devia-a ter decerto muito delicada,

muito tenra... Um desejo intenso queimava-a: imaginava que era uma

tentadora visitação do demonio,--e para a repellir arregalava os olhos

para o sacrario e para o throno que o padre Amaro, cercado dos diaconos,

incensava em semi-circulos significando a Eternidade dos Louvores,

emquanto o côro berrava o _Offertorio_... Depois elle mesmo, de pé, no

segundo degrau do altar, de mãos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo

fazia ranger galhardamente as correntes de prata do thurifero; um

perfume d'incenso derramava-se, como uma annunciação celeste;

ennevoava-se o sacrario sob os rolos alvos de fumo; e o parocho

apparecia a Amelia transfigurado, quasi divinisado!... Oh, adorava-o

então!

A igreja tremia ao clamor do orgão em pleno; de bocas abertas, os

coristas solfejavam a toda a força; em cima, alçando-se entre os braços

dos rebecões, o mestre da capella, no fogo da execução, brandia

desesperadamente a sua batuta feita d'um rolo de canto-chão.

Amelia sahiu da igreja muito fatigada, muito pallida.

Ao jantar, em casa do conego, a snr.^a D. Josepha censurou-a

repetidamente de «não dar palavra».

Não fallava, mas debaixo da mesa o seu pésinho não cessava de roçar,

pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham accendido as velas;

o conego abrira uma garrafa, não do seu famoso _duque_ de 1815, mas do

«1847», para acompanhar a travessa d'aletria, que enchia o centro da

mesa, com as iniciaes do parocho desenhadas a canella; era, como

explicára o conego, «uma galanteria da mana ao convidado». Amaro fizera

logo uma saude com o 1847 «á digna dona da casa». Ella resplandecia,

medonha no seu vestido de bareje verde. O que sentia é que o jantar

fosse tão mau... Que aquella Gertrudes estáva-se a fazer uma

desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato com macarrão!

--Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o parocho.

--São favores do senhor parocho. É porque eu lhe acudi a tempo... Mais

uma colhérzinha d'aletria, senhor parocho.

--Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.

--Então para desgastar, vá mais esse copito do 47, disse o conego.

Elle mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um _ah_ de satisfação, e

repoltreando-se:

--Boa gota! Assim póde-se viver!

Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaquetão de

flanella e o guardanapo atado ao pescoço.

--Boa gota! repetiu, d'este não provou hoje vossê nas galhetas...

--Credo, mano! exclamou D. Josepha com a boca cheia de fios d'aletria,

muito escandalisada da irreverencia.

O conego encolheu os hombros com desprezo.

--O credo é p'r'á missa! Esta pretenção de se metter sempre em questões

que não percebe! Pois fique sabendo que é d'uma grande importancia a

questão da qualidade do vinho, na missa. É que é necessario que o vinho

seja bom...

--Concorre para a dignidade do santo sacrificio, disse o parocho muito

sério, fazendo uma caricia de joelho a Amelia.

--E não é só isso, disse o conego tomando logo o tom pedagogo. É que o

vinho, quando não é bom e tem ingredientes, deixa um deposito nas

galhetas; e, se o sacristão não é cuidadoso e não as limpa, as galhetas

ganham um cheiro pessimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que

o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo,

não está prevenido e faz-lhe uma careta. Ora ahi tem a senhora!

E deu um forte chupão ao calix. Mas estava fallador n'essa noite, e

depois d'arrotar devagar, interpellou de novo D. Josepha, assombrada de

tanta sciencia.

--E diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora: o vinho, no divino

sacrificio, deve ser branco ou tinto?

D. Josepha parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o

sangue de Nosso Senhor.

--Emende a menina, mugiu o conego de dedo em riste para Amelia.

Ella recusou-se, com um risinho. Como não era sacristão, não sabia...

--Emende o senhor parocho!

Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia ser branco...

--E porquê?

Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.

--E porque? continuava o conego, pedante e roncão.

Não sabia.

--Porque Nosso Senhor Jesus Christo, quando pela primeira vez consagrou,

fel-o com vinho branco. E a razão é muito simples: é porque na Judéa

n'esse tempo, como é notorio, não se fabricava vinho tinto... Repita-me

a senhora a aletria, faça favor.

Então, a proposito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro

queixou-se do Bento sacristão. N'essa manhã antes de se

paramentar--justamente quando entrára o senhor conego na

sacristia--acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em

primeiro logar dava-as a lavar a uma Antonia que vivia amancebada com um

carpinteiro, em grande escandalo, e que era indigna de tocar os

paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as tão

enxovalhadas que era um desacato usal-as no divino sacrificio...

--Ai, mande-m'as a mim, senhor parocho, mande-m'as a mim, acudiu D.

Josepha. Dou-as á minha lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz

a roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! Eu mesmo as passava

a ferro, e até se podia benzer o ferro...

Mas o conego (que positivamente estava n'aquella noite d'uma loquacidade

copiosa) interrompeu-a, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o

profundamente:

--Ora a proposito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer,

amigo e collega, que commetteu hoje um erro de palmatoria.

Amaro pareceu inquieto.

--Que erro, padre-mestre?

--Depois de se revestir, continuou o conego pausadamente, já com os

diaconos ao lado, quando fez a cortezia á imagem da sacristia, em logar

de fazer a cortezia profunda, fez só a meia cortezia.

--Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. É o texto da rubrica.

_Facta reverentia cruci_, feita a reverencia á cruz: isto é, a

reverencia simples, abaixar ligeiramente a cabeça...

E, para **exemplificar**, fez uma cortezia a D. Josepha que lhe sorriu

toda, torcendo-se.

--Nego! exclamou formidavelmente o conego que em sua casa, á sua mesa,

punha d'alto as suas opiniões. E nego com os meus auctores. Elles ahi

vão!--E deixou-lhe cahir em cima, como penedos d'autoridade, os nomes

venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavonio.

Amaro afastára a cadeira, puzera-se em attitude de controversia,

contente de poder, diante d'Amelia, «enterrar» o conego, mestre de

theologia moral e um colosso de liturgia pratica.

--Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...

--Alto, ladrão, bramiu o conego, Castaldus é meu!

--Castaldus é meu, padre-mestre!

E encarniçaram-se, puxando cada um para si o veneravel Castaldus e a

auctoridade da sua facundia. D. Josepha pulava de gozo na cadeira,

murmurando para Amelia com a cara franzida de riso:

--Ai, que gostinho vêl-os! Ai, que santos!

Amaro continuava, com o gesto alto:

--E além d'isso tenho por mim o bom-senso, padre-mestre. _Primò_, a

rubrica, como expuz. _Secundò_, o sacerdote, tendo na sacristia o

barrete na **cabeça**, não deve fazer cortezia inteira, porque lhe póde

cahir o barrete e temos desacato maior. _Tertiò_, seguir-se-hia um

absurdo, porque então a cortezia antes da missa á cruz da sacristia

seria maior que a que se faz depois da missa á cruz do altar!

--Mas a cortezia á cruz do altar... bradou o conego.

--É meia cortezia. Leia a rubrica: _Caput inclinat_. Leia Gavantus, leia

Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe porquê? Porque depois

da missa o sacerdote está no auge da dignidade, uma vez que tem dentro

em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Logo, o ponto é

meu!

E de pé, esfregou vivamente as mãos, triumphando.

O conego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi

atordoado. E depois d'um momento:

--Vossê não deixa de ter razão... Eu foi para o ouvir... Faz-me honra cá

o discipulo, acrescentou piscando o olho a Amelia. Pois é beber, é

beber! E depois salta o cafésinho bem quente, mana Josepha!

Mas um forte repique á campainha sobresaltou-os.

--É a S. Joanneira, disse D. Josepha.

A Gertrudes entrou com um chale e uma manta de lã:

--Aqui está isto que vem de casa da menina Amelia. A senhora manda

muitos recados, que não póde vir, que se achou incommodada.

--Então com quem hei de eu ir? disse logo Amelia, inquieta.

O conego estendeu o braço sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na

mão:

--Em ultimo caso com este seu criado. E essa virtudesinha podia ir

socegada...

--Tem coisas, mano! gritou a velha.

--Deixe lá, mana. O que passa pela boca d'um santo, santo fica.

O parocho approvou ruidosamente:

--Tem muita razão o senhor conego Dias! O que passa pela pela boca d'um

santo, santo fica! Para que viva!

--Á sua!

E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controversia.

Mas Amelia ficára assustada.

--Jesus, que terá a mamã! Que será?

--Ora o que ha de ser! preguiça! disse-lhe o parocho, rindo.

--Não te agonies, filha, disse D. Josepha. Vou-te eu levar, vamos todos

levar-te...

--Vai a menina em charola, rosnou o conego descascando a sua pêra.

Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a

mão pelo estomago:

--Pois olhem, disse, não me estou tambem a sentir bem...

--Que é? que é?

--Um ameaçosito da dôr. Passou, não vale nada.

D. Josepha, já assustada, não queria que elle comesse a pêra. Que a

ultima vez que lhe dera fôra por causa da fructa...

Mas elle, obstinado, cravou os dentes na pêra.

--Passou, passou, rosnava.

--Foi sympathia com a mamã, disse o parocho baixo a Amelia.

De repente o conego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:

--Não estou bem, não estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai!

morro!

Alvoroçaram-se em volta d'elle. D. Josepha amparou-o pelo braço até ao

quarto, gritando á criada que fosse buscar o doutor. Amelia correu á

cozinha a aquecer uma flanella para lhe pôr no estomago. Mas não

apparecia flanella. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida, á

procura do seu chale para sahir.

--Vá sem chale, sua estupida! gritou-lhe Amaro.

A rapariga abalou. Dentro o conego dava urros.

Amaro então, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josepha de

joelhos diante da commoda gemia orações a uma grande lithographia de

Nossa Senhora das Dôres; e o pobre padre-mestre, estirado de barriga

sobre a cama, rilhava o travesseiro.

--Mas, minha senhora, disse o parocho severamente, não se trata agora de

rezar. É necessario fazer-lhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?

--Ai, senhor parocho, não ha nada, não ha nada, choramingou a velha. É

uma dôr que vem e vai n'um momento. Não dá tempo p'ra nada! Um chá de

tilia allivia-o ás vezes... Mas por desgraça hoje nem tilia tenho! Ai,

Jesus!

Amaro correu a casa a buscar tilia. E d'ahi a pouco voltava esbaforido

com a Dionysia, que vinha offerecer a sua actividade e a sua

experiencia.

Mas o senhor conego, felizmente, sentira-se de repente alliviado!

--Muito agradecida, senhor parocho, dizia D. Josepha. Rica tilia! É de

muita caridade. Elle agora naturalmente cae em somnolencia. Vem-lhe

sempre depois da dôr... Eu vou para ao pé d'elle, desculpem-me... Esta

foi peor que as outras... São estas fructas mald...--Reteve a

blasphemia, aterrada.--São as fructas de Nosso Senhor. É a sua divina

vontade... Desculpem-me, sim?

Amelia e o parocho ficaram sós na sala. Os seus olhares reluziram logo

do desejo de se tocar, de se beijar, mas as portas estavam abertas; e

sentiam no quarto, ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse

então alto:

--Pobre padre-mestre! É uma dôr terrivel.

--Dá-lhe todos os tres mezes, disse Amelia. A mamã já andava com o

presentimento. Ainda me tinha dito antes d'hontem: é o tempo da dôr do

senhor conego, estou com mais cuidado...

O parocho suspirou, e baixinho:

--Eu é que não tenho quem pense nas minhas dôres...

Amelia pousou n'elle longamente os seus bellos olhos humedecidos de

ternura:

--Não diga isso...

As suas mãos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D.

Josepha appareceu, encolhida no seu chale. O mano tinha adormecido. E

ella estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aquelles abalos

arrazavam-lhe a saude! Accendera duas velas a S. Joaquim e fizera uma

promessa a Nossa Senhora da Saude. Era a segunda aquelle anno, por causa

da dôr do mano. E Nossa Senhora não lhe tinha faltado...

--Nunca falta a quem a implora com fé, minha senhora, disse com unção o

padre Amaro.

O alto relogio d'armario bateu então cavamente oito horas. Amelia fallou

outra vez no cuidado em que estava pela mamã... Demais a mais ia-se a

fazer tão tarde...

--E é que quando eu sahi estava a choviscar, disse Amaro.

Amelia correu á janella, inquieta. O lagedo defronte, debaixo do

candieiro, reluzia muito molhado. O céo estava tenebroso.

--Jesus, vamos ter uma noite d'agua!

D. Josepha estava afflicta com o contratempo; mas a Amelia bem via, ella

agora não podia despegar de casa; a Gertrudes fôra ao doutor;

naturalmente não o encontrára, andava a procural-o de casa em casa, quem

sabe quando viria...

O parocho então lembrou que a Dionysia (que viera com elle e esperava na

cozinha) podia ir acompanhar a snr.^a D. Amelia. Eram dois passos, não

havia ninguem pelas ruas. Elle mesmo iria com ellas até á esquina da

Praça... Mas deviam apressar-se, que ia cahir agua!

D. Josepha foi logo buscar um guardachuva para Amelia. Recommendou-lhe

muito que contasse á mamã o que tinha succedido. Mas que não se

affligisse ella, que o mano estava melhor...

--E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada, dize-lhe que se fez tudo o

que se pôde, mas que a dôr não deu tempo para nada!

--Sim, lá direi. Boa noite.

Ao abrirem a porta a chuva cahia grossa. Amelia então quiz esperar. Mas

o parocho, apressado, puxou-a pelo braço:

--Não vale nada, não vale nada!

Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guardachuva, com a

Dionysia ao lado, muito calada, de chale pela cabeça. Todas as janellas

estavam apagadas; no silencio as goteiras cantavam d'enxurrão.

--Jesus, que noite! disse Amelia. Vai-se-me a perder o vestido.

Estavam então na rua das Sousas.

--É que agora cae a cantaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o

melhor é entrar no pateo de minha casa e esperar um bocado...

--Não, não! acudiu Amelia.

--Tolices! exclamou elle impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... É

um instante, é um aguaceiro. Para aquelle lado, vê, está a alliviar. Vai

passar... É uma tolice... A mamã, se a visse apparecer debaixo d'uma

carga d'agua, zangava-se, e com razão!

--Não, não!

Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, e empurrando Amelia de leve:

--É um instante, vai passar, entre...

E alli ficaram, calados, no pateo escuro, olhando as cordas d'agua que

reluziam á luz do candieiro defronte. Amelia estava toda atarantada. A

negrura do pateo e o silencio assustavam-n'a; mas parecia-lhe delicioso

estar assim n'aquella escuridão, ao pé d'elle, ignorada de todos...

Insensivelmente attrahida, roçava-se-lhe pelo hombro; e recuava logo,

inquieta de ouvir a sua respiração tão agitada, de o sentir tão junto

das saias. Percebia por traz, sem a vêr, a escada que levava ao quarto

d'elle; e tinha um desejo immenso de lhe ir vêr acima os seus moveis, os

seus arranjos... A presença da Dionysia, encolhida contra a porta e

muito calada, embaraçava-a; todavia a cada momento voltava os olhos para

ella, receando que desapparecesse, se sumisse na negrura do pateo ou da

noite...

Amaro então começou a bater com os pés no chão, a esfregar as mãos,

arripiado.

--Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lages estão regeladas...

Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...

--Não, não! disse ella.

--Pieguices! Até a mamã se havia de zangar... Vá, Dionysia, accenda luz

em cima.

A matrona immediatamente galgou os degraus.

Elle então, muito baixo, tomando o braço d'Amelia:

--Porque não? Que pensas tu? É uma pieguice. É emquanto não passa o

aguaceiro. Dize...

Ella não respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mão sobre

o hombro, sobre o peito, apertando-lh'o, acariciando a sêda. Toda ella

estremeceu. E foi-o emfim seguindo pela escada, como tonta, com as

orelhas a arder, tropeçando a cada degrau na roda do vestido.

--Entra p'r'áhi, é o quarto, disse-lhe elle ao ouvido.

Correu á cozinha. Dionysia accendia a vela.

--Minha Dionysia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina

Amelia. É um caso muito sério... Volta d'aqui a meia hora.

Toma.--Metteu-lhe tres placas na mão.

A Dionysia descalçou os sapatos, desceu em pontas de pés e fechou-se na

loja do carvão.

Elle voltou ao quarto com a luz. Amelia lá estava, immovel, toda

pallida. O parocho fechou a porta--e foi para ella, calado, com os

dentes cerrados, soprando como um touro.

Meia hora depois Dionysia tossiu na escada. Amelia desceu logo, muito

embrulhada na manta: ao abrirem a porta do pateo passavam na rua dois

borrachos galrando: Amelia recuou rapidamente para o escuro. Mas

Dionysia d'ahi a pouco espreitou; e vendo a rua deserta:

--Está a barra livre, minha rica menina...

Amelia embrulhou mais o rosto e apressaram o passo para a rua da

Misericordia. Já não chovia; havia estrellas; e uma frialdade sêcca

annunciava o norte e o bom tempo.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 34 / 45 题