XVII

Ao outro dia Amaro, vendo no relogio que tinha á cabeceira que ia

chegando a hora da missa, saltou alegremente da cama. E, enfiando o

velho paletot que lhe servia de robe-de-chambre, pensava n'essa outra

manhã em Feirão em que acordára aterrado por ter na vespera, pela

primeira vez depois de padre, peccado brutalmente sobre a palha da

estrebaria da residencia com a Joanna Vaqueira. E não se atrevera a

dizer missa com aquelle crime na alma, que o abafava com um peso de

penedo. Considerára-se contaminado, immundo, maduro para o inferno,

segundo todos os santos padres e o seraphico concilio de Trento. Tres

vezes chegára á porta da igreja, tres vezes recuára assombrado. Tinha a

certeza de que, se ousasse tocar na Eucharistia com aquellas mãos com

que repanhára os saiotes da Vaqueira, a capella se aluiría sobre elle,

ou ficaria paralysado vendo erguer-se diante do sacrario, d'espada alta,

a figura rutilante de S. Miguel Vingador! Montára a cavallo e trotára

duas horas, pelos barreiros de D. João, para ir á Gralheira confessar-se

ao bom abbade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos de innocencia, de

exagerações piedosas e de terrores noviços! Agora tinha aberto os olhos

em redor á realidade humana. Abbades, conegos, cardeaes e monsenhores

não peccavam sobre a palha da estrebaria, não--era em alcovas commodas,

com a ceia ao lado. E as igrejas não se aluiam, e S. Miguel Vingador não

abandonava por tão pouco os confortos do céo!

Não era isso o que o inquietava--o que o inquietava era a Dionysia, que

elle ouvia na cozinha, arrumando e tossicando, sem se atrever a

pedir-lhe agua para a barba. Desagradava-lhe sentir aquella matrona

introduzida, installada no seu segredo. Não duvidava decerto da sua

discrição, era o seu _officio_; e algumas meias libras manteriam a sua

fidelidade. Mas repugnava ao seu pudor de padre saber que aquella velha

concubina de auctoridades civis e militares, que rolára a sua massa de

gordura por todas as torpezas seculares da cidade, conhecia as suas

fragilidades, as concupiscencias que lhe ardiam sob a batina de parocho.

Preferiria que fosse o Silverio ou Natario que o tivesse visto na

vespera, todo inflammado: era entre sacerdotes, ao menos!... E o que o

incommodava era a idéa de ser observado por aquelles olhinhos cynicos,

que não se impressionavam nem com a austeridade das batinas nem com a

respeitabilidade dos uniformes, porque sabiam que por baixo estava

igualmente a mesma miseria bestial da carne...

--Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a.

Nós de dedos bateram discretamente à porta do quarto.

--Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a

mesa, como absorvido, abysmado nos seus papeis.

A Dionysia entrou, pousou o pucaro da agua sobre o lavatorio, tossiu, e

fallando sobre as costas d'Amaro:

--Ó senhor parocho, olhe que isto assim não tem geito. Hontem iam vendo

sahir daqui a pequena. É muito sério, menino... Para bem de todos é

necessario segredo!

Não, não a podia impôr! A mulher estabelecia-se, à força, na sua

confidencia. Aquellas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes,

revelando uma prudencia de officio, mostravam-lhe a vantagem d'uma

cumplicidade tão experiente.

Voltou-se na cadeira, muito vermelho.

--Iam vendo, hein?

--Iam vendo. Eram dois bebedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.

--É verdade.

--E na sua posição, senhor parocho, na posição da pequena!... Tudo se

deve fazer pelo calado... Nem os moveis do quarto devem saber! Em coisas

que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse de morte!

Amaro então decidiu-se bruscamente a aceitar a _protecção_ da Dionysia.

Rebuscou n'um canto da gaveta, metteu-lhe meia libra na mão.

--Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ella.

--Bem; e agora, Dionysia, que lhe parece? perguntou elle recostado na

cadeira, esperando os conselhos da matrona.

Ella disse muito naturalmente, sem affectação de mysterio ou de malicia:

--A mim parece-me que para vêr a pequena não ha como a casa do sineiro!

--A casa do sineiro!?

Ella recordou-lhe, muito tranquillamente, a excellente disposição do

sitio. Um dos quartos ao pé da sacristia, como elle sabia, dava para um

pateo onde se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois bem,

justamente do outro lado eram as trazeiras da casa do sineiro... A porta

da cozinha do tio Esguelhas abria para o pateo: era sahir da sacristia,

atravessal-o, e o senhor parocho estava no ninho!

--E ella?

--Ella entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que dá para o

adro. Não passa viva alma, é um ermo. E se alguem visse, nada mais

natural, era a menina Amelia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, já

se vê, é ainda pelo alto, que o plano póde-se aperfeiçoar...

--Sim, comprehendo, é um esboço, disse Amaro que passeava pelo quarto

reflectindo.

--Eu conheço bem o sitio, senhor parocho, e creia o que lhe digo: para

um senhor ecclesiastico que tem o seu arranjinho, não ha melhor que a

casa do sineiro!

Amaro parou diante d'ella, rindo, familiarisando-se:

--Ó tia Dionysia, diga lá com franqueza: não é a primeira vez que vossê

aconselha a casa do sineiro, hein?

Ella então negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio

Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquella idéa de noite, a malucar na cama.

Pela manhã cedo fôra examinar o sitio, e reconhecera que estava a

calhar.

Tossicou, foi-se aproximando sem ruido da porta; e voltando-se ainda,

com um ultimo conselho:

--Tudo está em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.

Era isso agora o que preoccupava o padre Amaro.

O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes e os sacristães, por

um _macambusio_. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns

sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos,

sustentavam mesmo que aquelle defeito o tornava, segundo a Regra,

improprio para o serviço da Igreja. Mas o antigo parocho José Migueis,

em obediencia ao senhor bispo, conservára-o na Sé, argumentando que o

trambolhão desastroso que motivára a amputação fôra na torre, n'uma

occasião de festa, collaborando no culto: _ergo_ estava claramente

indicada a intenção de Nosso Senhor em não prescindir do tio Esguelhas.

E quando Amaro tomára conta da parochia, o côxo valera-se da influencia

da S. Joanneira e d'Amelia para conservar, como elle dizia, a _corda do

sino_. Era além d'isso (e fôra a opinião da rua da Misericordia) uma

obra de caridade. O tio Esguelhas, viuvo, tinha uma filha de quinze

annos paralytica, desde pequena, das pernas. «O diabo embirrou com as

pernas da familia», costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta

desgraça que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga

(cujo nome era Antonia, e que o pai chamava Tótó) o torturava com

perrices, phrenesis, caprichos abominaveis. O doutor Gouvêa declarára-a

_hysterica_: mas era uma certeza, para as pessoas de bons principios,

que a Tótó estava _possuida do Demonio_. Houvera mesmo o plano de a

exorcismar: o senhor vigario geral, porém, sempre assustado com a

imprensa, hesitára em conceder a permissão ritual, e tinham-lhe feito

apenas, sem resultado, as aspersões simples de agua benta. De resto não

se sabia a natureza do _endemoninhamento_ da paralytica: a snr.^a D.

Maria da Assumpção ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a

Gansosinho, em outra versão, assegurava que a desgraçada se dilacerava

com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela

rapariga, respondia sêccamente:

--Lá está.

Os intervallos do seu serviço da igreja passava-os todos com a filha no

casebre. Só atravessava o largo para ir á botica por algum remedio, ou

comprar bolos á confeitaria da Thereza. Todo o dia aquelle recanto da

Sé, o pateo, o barracão, o alto muro ao lado coberto de parietarias, a

casa ao fundo com a sua janella de portada negra n'uma parede

lazeirenta, permaneciam n'um silencio, n'uma sombra humida: e os meninos

do côro, que ás vezes se arriscavam a ir pé-ante-pé, pelo pateo,

espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado á lareira,

com o cachimbo na mão, cuspilhando tristemente para as cinzas.

Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor parocho.

E Amaro, n'essa manhã, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lageas do pateo

a muleta, ia já ruminando a sua historia--porque não podia pedir ao tio

Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, d'algum modo, que o

desejava para um serviço religioso... E que serviço, a não ser preparar,

em segredo e longe das opposições mundanas, alguma alma terna para o

convento e para a santidade?

Ao vêl-o entrar na sacristia, deu-lhe logo uns «bons dias» amaveis.

Achou-lhe uma bella cara de saude! Tambem não admirava--porque, segundo

todos os santos padres, a frequentação dos sinos, pela virtude

particular que lhes communica a consagração, dão uma alegria e um

bem-estar especiaes. Contou então com bonhomia ao tio Esguelhas e aos

dois sacristães que, quando era pequeno, em casa da senhora marqueza

d'Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...

Riram muito, extasiando-se com a pilheria de sua senhoria.

--Não se riam, é verdade. E não me ficava mal... N'outros tempos eram

clerigos d'ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos santos padres

consideram-n'os um dos meios mais efficazes da piedade. Lá disse a glosa

pondo o verso na bôca do sino:

_Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.

Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro..._

O que quer dizer, como sabem: _Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o

clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas_.

Citava a glosa com respeito, já revestido d'amicto e alva, no meio da

sacristia; e o tio Esguelhas impertigava-se sobre a sua muleta áquellas

palavras que lhe davam uma auctoridade e uma importancia imprevista.

O sacristão tinha-se aproximado com a casula rôxa. Mas Amaro não

terminára a glorificação dos sinos;--explicou ainda a sua grande virtude

em dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns sabios

presumpçosos), não só porque communicam ao ar a unção que recebem da

benção, mas porque dispersam os demonios que erram entre os vendavaes e

os trovões. O santo concilio de Milão recommenda que se toquem os sinos

sempre que haja tormenta...

--Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude

pelo sineiro, aconselho-lhe que n'esses casos é melhor não se arriscar.

Sempre é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio

Mathias.

E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando com muita compostura:

-_Domine, quis dixisti jugum meum_... Aperte mais os cordões por traz,

tio Mathias. _Suave est, et onus meum leve_...

Fez uma cortezia á imagem e entrou na igreja, na attitude da rubrica,

d'olhos baixos e corpo direito; emquanto o Mathias, depois de ter tambem

saudado com um raspão de pé o Christo da sacristia, se apressava com as

galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.

Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, no _Offertorio_ e ao

_Orate fratres_, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolencia

que o ritual permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse por

sua intenção particular;--e o tio Esguelhas, com a sua muleta pousada ao

lado, abysmava-se então n'uma devoção mais respeitosa. Mesmo ao

_Benedicat_, depois de ter começado a benção voltado para o altar para

recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia, terminou-a, virando-se

devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle só

as Graças e Dons de Nosso Senhor!

--E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, vá-me

esperar ao pateo que temos que conversar.

Não tardou a vir ter com elle, com uma face grave que impressionou o

sineiro.

--Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho fallar-lhe d'um caso

sério... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...

--Oh, senhor parocho!

Não, não era um favor... Porque, quando se tratava do serviço de Deus,

todos tinham o dever de concorrer na proporção das suas forças...

Tratava-se d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim, para lhe

provar a confiança que tinha n'elle, ia-lhe dizer o nome...

--É a Ameliasinha da S. Joanneira!

--Que me diz, senhor parocho?!

--Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o dedo de Deus! É extraordinario...

Contou-lhe então uma historia diffusa que ia forjando laboriosamente,

segundo as sensações que imaginava vêr na face pasmada do sineiro. A

rapariga desgostára-se da vida, com as desavenças que tivera com o

noivo. Mas a mãi, que estava velha, que a necessitava para o governo da

casa, não queria consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas não,

era vocação... Elle sabia-o... Infelizmente, quando havia opposição, a

conducta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornaes

impios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influencias do

clero... As auctoridades, mais impias que os jornaes, punham

obstaculos... Havia leis terriveis... Se soubessem que elle andava a

instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o

tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do tempo! Ora, elle necessitava

ter com a pequena muitas e muitas conferencias: para a experimentar,

para conhecer as suas disposições, vêr bem se é para a Solidão que ella

tem geito, ou para a Penitencia, ou para o serviço dos enfermos, ou para

a Adoração Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a por dentro e

por fóra.

--Mas onde? exclamou, abrindo os braços como na desolação d'um santo

dever contrariado. Onde? Em casa da mãi não póde ser, já andam

desconfiados. Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua. Em minha

casa, já vê, menina nova...

--Está claro.

--De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que vossê m'o ha de

agradecer... pensei na sua casa...

--Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, está

tudo ás ordens!

--Bem vê, é no interesse d'aquella alma, é um regosijo para Nosso

Senhor...

--E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim!

O que o tio Esguelhas receava é que a casa não fosse decente e não

tivesse as commodidades...

--Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento de todos os confortos

humanos. Comtanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da

oração...

De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como sitio retirado e casa

socegada estava a preceito. Ficavam alli, elle e a menina, como os

monges no deserto. Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle sahia a

dar o seu giro. Na cozinha não poderiam accommodar-se, porque o quartito

da pobre Tótó era ao pé... Mas tinham o quarto d'elle, em cima.

O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não se lembrára da paralytica!

--Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.

Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava agora todo interessado

n'aquella conquista d'uma noiva para Nosso Senhor; queria por força que

o seu telhado abrigasse a santa preparação da alma da menina... Talvez

lhe attrahisse a elle a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens,

as facilidades da casa. A Tótó não embaraçava. Não se mexia da cama. O

senhor parocho entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha

pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...

--E ella que faz, a Tótó? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.

Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e

apaixonava-se por ellas a ponto de ter febre; outros dias passava-os

n'um silencio medonho com os olhos cravados na parede. Mas ás vezes

estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!

--Devia-se entreter, devia lêr, disse o padre Amaro para mostrar

interesse.

O sineiro suspirou. Não sabia lêr, a pequena, nunca quizera aprender.

Era o que elle lhe dizia--se pudesses lêr já te não pesava tanto a vida!

Mas então? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre Amaro devia ter

a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...

Mas o parocho não o escutava, todo abysmado n'uma idéa que lhe alumiára

a face d'um sorriso. Achára subitamente a explicação natural a dar á S.

Joanneira e ás amigas das visitas d'Amelia a casa do sineiro: era a

ensinar a lêr a paralytica! A educal-a! A abrir-lhe a alma ás bellezas

dos livros santos, da historia dos martyres e da oração!...

--Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mãos de jubilo.

É em sua casa que se ha de fazer da rapariga uma santa. E d'isto--e a

sua voz deu um grave profundo--um segredo inviolavel!

--Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido.

--Conto comsigo! disse Amaro.

Veio logo á sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a

Amelia, em que lhe explicava detalhadamente «o arranjinho que fizera

para gozarem novas e divinas felicidades». Prevenia-a que o pretexto

para ella vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educação da

paralytica: elle mesmo o proporia á noite em casa da mamã. «Que n'isto,

dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com

uma boa instrucção religiosa as trevas d'aquella alma. E matamos assim,

querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!»

Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente á mesa do almoço, com

um contentamento pleno de si, da vida e das dôces facilidades que n'ella

encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo, solidão da carne, tudo

o que o consumira mezes e mezes, além na rua da Misericordia e alli na

rua das Sousas, passára. Estava emfim installado á larga na felicidade!

E recordava, abysmado n'um gozo mudo, com o garfo esquecido na mão, toda

aquella meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os

mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse--como o

lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos

invejaram muitos annos. Ah, não tornaria a olhar de lado, com azedume,

os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo braço!

Tambem elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne, linda, que o

adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho

d'agua de colonia! Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o seu

grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê

escandalo entre os fieis, em nada prejudica a efficacia, a utilidade, a

grandeza da religião. Todos os theologos ensinam que a ordem dos

sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos; o essencial é

que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural que os

sacramentos contêm; e comtanto que elles sejam dispensados segundo as

formulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou

peccador? O sacramento communica a mesma virtude. Não é pelos meritos do

sacerdote que elles operam, mas pelos meritos de Jesus Christo. O que é

baptisado ou ungido, ou seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica

igualmente bem lavado da macula original, ou bem preparado para a vida

eterna. Isto lê-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico

concilio de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma e na sua salvação,

com a indignidade do parocho. E se o parocho se arrepende á hora

extrema, tambem se lhe não fecham as portas do céo. Logo em definitiva

tudo acaba bem, e em paz geral...--E o padre Amaro, raciocinando assim,

sorvia com prazer o seu café.

A Dionysia, ao fim do almoço, veio saber, muito risonha, se o senhor

parocho fallára ao tio Esguelhas...

--Fallei por alto, disse elle ambiguamente. Não ha nada decidido... Roma

não se construiu n'um dia.

--Ah! fez ella.

E recolheu-se á cozinha, pensando que o senhor parocho mentia como um

hereje. Tambem, não se importava... Nunca gostára de arranjos com os

senhores ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam sempre...

E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu á escada a dizer-lhe--que emfim,

ella tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor parocho tivesse

arranjado criada...

--A snr.^a D. Josepha Dias anda-me a tratar d'isso, Dionysia. Espero ter

alguem ámanhã. Mas vossê appareça... Agora que somos amigos...

--Quando o senhor parocho quizer é chamar-me da janella para o quintal,

disse ella do alto da escada. Para tudo que precisar. De tudo sei um

bocadinho, até de desarranjos e de partos... E n'este ponto posso até

dizer...

Mas o padre não a escutava: atirára com a porta de repellão, fugindo,

indignado d'aquella utilidade torpe assim brutalmente offerecida.

Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S. Joanneira da filha do

sineiro.

Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa noite, emquanto na sala se

galrava alto, aproximára-se do piano, onde Amelia, com os dedos

preguiçosos, corria escalas, e abaixando-se para accender o cigarro á

vela, murmurára:

--Leu?

--Optimo!

Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava

contando uma catastrophe que lêra n'um jornal, succedida em Inglaterra:

uma mina de carvão que desabára, sepultando cento e vinte trabalhadores.

As velhas arripiavam-se horrorisadas. A Gansoso então, gozando o

effeito, accumulou loquazmente os detalhes: a gente que estava fóra

esforçára-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes em baixo os

gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...

--Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se na sua poltrona,

gozando o calor da sala e a segurança dos tectos.

A snr.^a D. Maria da Assumpção declarou que todas essas minas, essas

machinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fabrica ao pé

d'Alcobaça, e parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso

Senhor não as via com bons olhos...

--É como os caminhos de ferro, disse D. Josepha. Tenho a certeza que

foram inspirados pelo demonio! Não o digo a rir. Mas vejam aquelles

uivos, aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia!

O padre Amaro galhofou,--assegurando á snr.^a D. Josepha que eram

ricamente commodos para andar depressa! Mas, tornando-se logo sério,

acrescentou:

--Em todo o caso é incontestavel, que ha n'essas invenções da sciencia

moderna muito do demonio. E é por isso que a nossa santa Igreja as

abençôa, primeiro com orações e depois com agua benta. Hão de saber que

é o costume. Com agua benta para lhes fazer o exorcismo, expulsar o

espirito inimigo: e com orações para as resgatar do peccado original que

não só existe no homem, mas nas coisas que elle construe. É por isso que

se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demonio não se

possa servir d'ellas para seu uso.

D. Maria da Assumpção quiz immediatamente uma explicação. Como era a

maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?

O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas

maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que

morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas pela

Extrema-Unção, o demonio alli mesmo, zás, apoderava-se d'ellas!

--É de velhaco! rosnou o conego, com uma admiração secreta por aquella

manha tão habil do Inimigo.

Mas D. Maria da Assumpção abanou-se langorosamente, com o rosto banhado

n'um sorriso de beatitude:

--Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a nós é que não nos

succedia isso... Que não nos pilhava desprevenidas!

Era verdade; e todas gozaram um momento aquella certeza deliciosa de

estarem preparadas, de poderem lograr a malicia do Tentador!

O padre Amaro então tossiu como para preparar as vias, e apoiando as

duas mãos sobre a mesa, n'um tom de pratica:

--É necessario muita vigilancia para conservar de longe o demonio. Ainda

hoje eu estava a pensar n'isso (foi mesmo a minha meditação) a respeito

de um caso bem triste que tenho lá ao pé da Sé... É a filhita do

sineiro.

As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, n'uma

curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a historia picante

d'alguma façanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma voz a que o

silencio em redor dava solemnidade:

--Alli está aquella rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! Não

sabe lêr, não tem devoções habituaes, não tem o costume da meditação; é

por consequencia, para empregar a expressão de S. Clemente--_uma alma

sem defeza_. O que succede? Que o demonio, que ronda constantemente e

não perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa! Por isso, como

me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, são phrenesis, desesperos, furores

sem razão... Emfim o pobre homem tem a vida estragada.

--E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assumpção,

indignada d'aquella impudencia de Satanaz, **installando-se** n'um

corpo, n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava dos

contrafortes da Sé.

Amaro acudiu:

--Tem a D. Maria razão. O escandalo é enorme. Mas então? Se a rapariga

não sabe lêr! Se não sabe uma oração, se não tem quem a instrua, quem

lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo

de frustrar o Inimigo!...

Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de hombros vergados,

n'uma mágoa de pastor a quem uma força desproporcional arrebata uma

ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com effeito, uma

piedade que o invadia, uma compaixão verdadeira por aquella pobre

creatura, a quem a falta de consolações devia tornar mais intensa a

agonia da immobilidade...

As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle caso triste d'abandono

d'alma,--sobretudo pela dôr que elle parecia trazer ao senhor parocho.

A snr.^a D. Maria da Assumpção, que percorria em imaginação o abundante

arsenal da devoção, lembrára logo que se lhe puzessem alguns santos á

cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o

silencio das amigas exprimiu bem a insufficiencia d'aquella galeria

devota.

--As senhoras dir-me-hão talvez, disse o padre Amaro sentando-se de

novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma

alma como as nossas!

--Todos têm direito á graça do Senhor, disse o conego gravemente, n'um

sentimento d'imparcialidade, admittindo a igualdade das classes logo que

não se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos do céo.

--P'ra Deus não ha pobre nem rico, suspirou a S. Joanneira. Antes pobre,

que dos pobres é o reino do céo!

--Não, antes rico, acudiu o conego, estendendo a mão para deter aquella

falsa interpretação da lei divina. Que o céo tambem é para os ricos. A

senhora não comprehende o preceito. _Beati pauperes_, bemditos os

pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não

desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que

têm; não aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de não

serem bemditos. É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que préga

que os trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor do que vivem,

vai d'encontro á expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não

merece senão chicote, como excommungados que são! Ouf!

E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O padre Amaro, esse,

permanecia calado, com o cotovêlo sobre a mesa, esfregando devagar a

testa. Ia lançar a sua idéa, como vinda d'uma inspiração divina, propôr

que fosse Amelia levar uma educação devota á triste paralytica... E

hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de

concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora, exageradamente,

abysmada n'uma treva d'agonia. Sentia toda a caridade que haveria em

consolal-a, entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta acção

redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita n'um

puro espirito de fraternidade christã! Vinha-lhe uma compaixão

sentimental de bom rapaz por aquelle miseravel corpo pregado n'uma cama,

sem nunca vêr o sol nem a rua... E alli estava embaraçado, n'aquella

piedade que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido quasi

de ter fallado ás senhoras da Tótó...

Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéa:

--Ó senhor padre Amaro, se se lhe mandasse aquelle livro com pinturas de

vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me alma...

Não és tu que o tens, Amelia?

--Não, disse ella, sem erguer os olhos da costura.

Amaro então olhou-a. Tinha-a quasi esquecido. Estava agora do outro lado

da mesa, abainhando um esfregão: a risca muita fina desapparecia na

abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro ao lado punha um

traço lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a

pelle da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada aquecia; o

vestido justo, que se franzia n'uma prega sobre o hombro, elevava-se

amplamente sobre a fórma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo da

respiração igual... Era aquella a belleza que mais appetecia n'ella;

imaginava-os d'uma côr de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços,

sim, mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham **encontrado** só a

sêda fria... Mas na casa do sineiro seriam d'elle, sem obstaculo, sem

vestidos, á disposição dos seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao

mesmo tempo consolassem a alma da Tótó! Não hesitou mais. E erguendo a

voz, no meio do palratorio das velhas que discutiam agora a desapparição

da _Vida dos Santos_:

--Não, minhas senhoras, não é com livros que se vale á rapariga... Sabem

a idéa que me veio? Era um de nós, o que estiver menos occupado,

levar-lhe a palavra de Deus e educar aquella alma!--E acrescentou,

sorrindo:--E a fallar a verdade, a pessoa mais desoccupada aqui de todos

nós é a menina Amelia...

Então foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda

n'uma revelação. Os olhos de todas accenderam-se n'uma excitação devota,

á idéa d'aquella missão de caridade, que partia alli d'ellas, da rua da

Misericordia... Extasiavam-se, no ante-gosto guloso dos elogios do

senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, n'uma

assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas

que o céo certamente prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com

calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.

--Imaginas que não o faria com a mesma devoção? Já estás com o orgulho

da boa acção... Olha que assim não t'aproveita!

Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso, deitada para as costas

da cadeira, suffocando-se para se conter.

Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam.

--É indecente, é indecente! gritava.

Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fôra

uma idéa extravagante que tivera, que era nervoso...

--Ai, disse D. Maria da Assumpção, ella tem razão em s'orgulhar. Que é

uma honra p'r'á casa! Em se sabendo...

O parocho interrompeu com severidade:

--Mas não se deve saber, snr.^a D. Maria da Assumpção! De que serve, aos

olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vangloria?

D. Maria vergou os hombros, humilhando-se á reprehensão. E Amaro, com

gravidade:

--Isto não deve sahir d'aqui. É entre Deus e nós. Queremos salvar uma

alma, consolar uma enferma, e não ter elogios nos periodicos. Pois não é

assim, padre-mestre?

O conego ergueu-se pesadamente:

--Vossê esta noite tem fallado com a lingua de ouro de S. Chrysostomo.

Eu estou edificado; e não se me dava agora de vêr apparecer as torradas.

Foi então, emquanto a _Ruça_ não trazia o chá, que se decidiu que

Amelia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoção,

**iria em** segredo, para que a acção fosse mais valiosa aos olhos de

Deus, passar uma hora à cabeceira da paralytica, lêr-lhe a _Vida dos

Santos_, ensinar-lhe rezas e insufflar-lhe a virtude.

--Emfim, resumiu a snr.^a D. Maria da Assumpção voltando-se para Amelia,

não te digo senão uma coisa: abichaste!

A _Ruça_ entrou com o taboleiro, no meio dos risos que provocára a

«tolice de D. Maria», como disse Amelia, que se fizera escarlate.--E foi

assim que ella e o padre Amaro se puderam vêr livremente, para gloria do

Senhor e humilhação do Inimigo.

Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as

suas visitas caridosas á paralytica perfizessem ao fim do mez o numero

symbolico de sete, que devia corresponder, na idéa das devotas, ás _Sete

lições de Maria_. Na vespera o padre Amaro tinha prevenido o tio

Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter

varrido toda a casa e preparado o quarto para a pratica do senhor

parocho. Amelia n'esses dias erguia-se cedo: tinha sempre alguma saia

branca a engommar, algum laçarote a compôr; a mãi estranhava-lhe

aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua de colonia de que ella se

inundava; mas Amelia explicava que «era para inspirar á Tótó idéas de

aceio e de frescura». E depois de vestida sentava-se, esperando as onze

horas, muito séria, respondendo distrahidamente ás conversas da mãi, com

uma côr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relogio: emfim a

velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ella, depois d'uma

olhadella ao espelho, sahia, dando uma beijoca á mamã.

Ia sempre receosa, n'uma inquietação de ser espreitada. Todas as manhãs

pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e

se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os

gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a

assustava era o largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando

por traz da janella, exercia uma vigilancia incessante. Fazia-se então

pequenina no seu mantelete, e abaixando o guardasol sobre o rosto,

entrava emfim na Sé, sempre com o pé direito.

Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida n'uma luz fusca,

amedrontava-a: parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das

cruzes, uma reprehensão ao seu peccado; imaginava que os olhos de vidro

das imagens, as pupillas pintadas dos paineis se fixavam n'ella, com uma

insistencia cruel, e percebiam o arfar que ao seu seio dava a esperança

do prazer. Ás vezes mesmo, atravessada d'uma superstição, para dissipar

o descontentamento dos santos, promettia dar-se n'essa manhã toda á

Tótó, occupar-se caridosamente só d'ella, e não se deixar tocar sequer

no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro

o não encontrava, ia logo, sem se deter ao pé da cama da Tótó, postar-se

à janella da cozinha, vigiando a porta massiça da sacristia de que ella

conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.

Elle apparecia, emfim. Era então nos começos de março; já tinham chegado

as andorinhas; ouviam-n'as chilrear, n'aquelle silencio melancolico,

esvoaçando entre os contrafortes da Sé. Aqui e além, plantas dos logares

humidos cobriam os cantos d'uma verdura escura. Amaro, ás vezes muito

galante, ia procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava na

vidraça da cozinha. Elle apressava-se; ficavam um momento á porta,

apertando-se as mãos, com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim

vêr a Tótó--e dar-lhe os bolos que o parocho lhe trazia no bolso da

batina.

A cama da Tótó era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de

tisica quasi não fazia saliencia enterrado na cova da enxerga, sob os

cobertores enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses dias

tinha vestido um chambre branco, os cabellos reluziam-lhe d'oleo; porque

ultimamente, desde as visitas d'Amaro, viera-lhe «uma birra de parecer

alguem», como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se não querer

separar d'um espelho e d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e

obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que

agora desprezava.

Amelia sentava-se um instante aos pés do catre, perguntando-lhe se

estudára o A B C, obrigando-a a dizer aqui e além o nome d'uma letra.

Depois queria que ella repetisse sem a errar a oração que lhe andava

ensinando;--emquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mãos

nos bolsos, enfastiado, embaraçado com os olhos reluzentes da paralytica

que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e

com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto

trigueiro tão chupado que se lhe via a saliencia das maxillas. Não

sentia agora nem compaixão nem caridade pela Tótó; detestava aquella

demora; achava a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem pesavam

aquelles momentos em que, para não escandalisar muito Nosso Senhor, se

resignava a fallar à paralytica. A Tótó parecia odial-a; respondia-lhe

muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio rancoroso,

voltada para a parede; um dia despedaçára o alphabeto; e encolhia-se

toda encruada se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros ou

conchegar-lhe a roupa...

Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a Amelia; ella punha logo

diante da Tótó o livro com estampas da _Vida dos Santos_.

--Vá, ficas agora a vêr as figuras... Olha, este é S. Matheus, esta

Santa Virginia... Adeus, eu vou lá a cima com o senhor parocho rezarmos

para que Deus te dê saude e te deixe ir passear... Não estragues o

livro, que é peccado.

E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo o pescoço

sôfregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com olhos

chammejantes que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto, em cima, era

muito baixo, sem forro, com um tecto de vigas negras sobre que

assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que puzera sobre

a parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos

que fizera o tio Esguelhas--a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma

caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado...

--É p'r'á nossa conferencia, para te ensinar os deveres de freira, dizia

elle, galhofando.

--Ensina, então! murmurava ella de braços abertos, pondo-se diante do

padre, com um sorriso calido onde brilhava um branquinho dos dentes,

n'um abandono que se offerecia.

Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos cabellos; às vezes

mordia-lhe a orelha; ella dava um gritinho; e ficavam então muito

quedos, escutando, com medo da paralytica em baixo. O parocho depois

fechava as portadas da janella e a porta muito perra que tinha

d'empurrar com o joelho. Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias

cahidas aos pés ficava um momento immovel, como uma fórma branca na

escuridão do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte.

Ella então persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava

um suspirosinho triste.

Amelia só podia demorar-se até ao meio dia. O padre Amaro por isso

pendurava o seu _cebolão_ no prego da candeia. Mas quando não ouviam as

badaladas da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar d'um gallo

visinho.

--Devo ir, filho, murmurava toda cansada.

--Deixa lá... Estás sempre com a pressa...

Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassidão dôce, muito chegados um

ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e além

fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas,

vadiar, fazendo bolir alguma telha solta; ou um passaro, pousando,

chilreava e ouviam-lhe o fremito das azas.

--Ai, são horas, dizia Amelia.

O padre queria detel-a; não se fartava de lhe beijar a orelhinha.

--Lambão! murmurava ella. Deixa-me!

Vestia-se á pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janella, vinha

ainda abraçar o pescoço de Amaro, que ficára estatelado sobre o leito; e

ia emfim arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica sentir em

baixo, saber que tinha acabado a conferencia.

Amaro não findava ainda de a beijocar: ella então, para acabar,

fugia-lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava

em duas passadas a cozinha sem olhar para a Tótó, e entrava na

sacristia.

Amelia, essa, antes de sahir, vinha vêr a paralytica, saber se gostára

das estampas. Encontrava-a ás vezes com a cabeça debaixo dos cobertores,

que entalava e prendia com as mãos para se **esconder**; outras vezes,

sentada na cama, examinava Amelia com olhos em que se accendia uma

curiosidade viciosa; chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas

que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta, córando tambem;

queixava-se então de ser tarde, recolhia a _Vida dos Santos_,--e sahia,

amaldiçoando aquella creatura tão maliciosa na sua mudez.

Ao passar no largo, áquella hora, via sempre a Amparo á janella.

Ultimamente mesmo julgára prudente contar-lhe em segredo a sua caridade

com a Tótó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e debruçando-se toda na

varanda:

--Então como vai a Tótó?

--Lá vai.

--Já lê?

--Já soletra.

--E a oração a Nossa Senhora?

--Já a diz.

--Ai, que devoção a tua, filha!

Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava tambem no

segredo, deixava o balcão para vir á porta admirar Amelia.

--Vem da sua grande missão de caridade, hein? dizia, d'olho arregalado,

balanceando-se na ponta das chinelas.

--Estive um bocado com a pequena, a entretel-a...

--Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois vá, minha santa

menina, recados á mamã.

Voltava-se então para dentro, para o praticante:

--Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de passar o seu tempo, como as

outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flôr dos annos com

uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o materialismo, e essas

porcarias são capazes d'inspirar acções d'este jaez... Só a religião,

meu caro senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada de philosophos

vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a philosophia, mas

quando ella, por assim dizer, vai de mãos dadas com a religião... Sou

homem de sciencia e admiro um Newton, um Guizot... Mas (e grave o senhor

estas palavras) se a philosophia se afasta da religião... (grave bem

estas palavras) dentro de dez annos, snr. Augusto, está a philosophia

enterrada!

E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos lentos, de mãos atraz

das costas, ruminando o fim da philosophia.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 35 / 45 题