Ao outro dia, na cidade, fallava-se da chegada do parocho novo, e todos
sabiam já que tinha trazido um bahú de lata, que era magro e alto, e que
chamava _Padre-Mestre_ ao conego Dias.
As amigas da S. Joanneira,--as intimas--a D. Maria da Assumpção, as
Gansosos, tinham ido logo pela manhã a casa d'ella _para se pôrem ao
facto_... Eram nove horas; Amaro sahira com o conego. A S. Joanneira,
radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas
arregaçadas, nos arranjos da manhã; e immediatamente, com animação,
contou a chegada do parocho, as suas boas maneiras, o que tinha dito...
--Mas venham vossês cá abaixo, sempre quero que vejam.
Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o bahú de lata, uma prateleira que
lhe arranjára para os livros.
--Está muito bem, está tudo muito bem, diziam as velhas andando pelo
quarto, devagar, com respeito, como n'uma igreja.
--Rico capote! observou D. Joaquina Gansoso apalpando o panno das largas
bandas que pendiam ao comprido do cabide.--É obra para um par de moedas!
--E a boa roupa branca! disse a S. Joanneira erguendo a tampa do bahú.
O grupo das velhas curvou-se com admiração.
--A mim o que me consola é que elle seja um rapaz novo, disse D. Maria
da Assumpção, piedosamente.
--Tambem a mim, disse com auctoridade a D. Joaquina Gansoso. Estar a
gente a confessar-se e a vêr o pingo do rapé, como era com o Raposo,
credo! até se perde a devoção! E o bruto do José Migueis! Não, lá isso
Deus me mate com gente nova!
A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do parocho,--um
crucifixo que estava ainda embrulhado n'um jornal velho, o album de
retratos, onde o primeiro cartão era uma photographia do Papa abençoando
a christandade. Todas se extasiaram.
--É o mais que se póde, diziam, é o mais que se póde!
Ao sahir, beijando muito a S. Joanneira, felicitaram-na porque
adquirira, hospedando o parocho, uma auctoridade quasi ecclesiastica.
--Vossês apparecem á noite, disse ella do alto da escada.
--Pudera!... gritou D. Maria da Assumpção, já á porta da rua, traçando o
seu mantelete.--Pudera!... Para o vermos á vontade!
Ao meio dia veio o Libaninho, o beato mais activo de Leiria; e subindo a
correr os degraus, já gritava com a sua voz fina:
--Ó S. Joanneira!
--Sobe, Libaninho, sobe, disse ella, que costurava á janella.
--Então o senhor parocho veio, hein? perguntou o Libaninho, mostrando á
porta da sala de jantar o seu rosto gordinho côr de limão, a calva
luzidia; e vindo para ella com o passinho miudo, um gingar de quadris:
--Então que tal, que tal? tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu
ar piedoso, a brancura dos seus dentes...
--Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura
devota.--Mas não se podia demorar, ia para a repartição!--Adeus,
filhinha, adeus!--E batia com a sua mão papuda no hombro da S.
Joanneira.--Estás cada vez mais gordinha! Olha que rezei hontem a
Salve-Rainha que tu me pediste, ingrata!
A criada tinha entrado.
--Adeus, _Ruça_! Estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãi dos
Homens.--E avistando Amelia pela porta do quarto entreaberta:--Ai, que
estás mesmo uma flôr, Mélinha! Quem se salvava na tua graça bem eu sei!
E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada
rapidamente, ganindo:
--Adeusinho! adeusinho, pequenas!
--Ó Libaninho, vens á noite?
--Ai, não posso, filha, não posso!--E a sua vozinha era quasi
chorosa.--Olha que ámanhã é Santa Barbara: tem seis Padre-Nossos de
direito!
Amaro fôra visitar o chantre com o conego Dias, e tinha-lhe entregado
uma carta de recommendação do senhor conde de Ribamar.
--Conheci muito o senhor conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta
e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso:
ha que annos isso vai!
E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, fallou com satisfação do
seu tempo: contou anecdotas da Junta, apreciou os homens de então,
imitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excellencia), os _tics_,
as caturrices--sobretudo Manoel Passos, que elle descrevia passeando na
Praça Nova, com o comprido casaco pardo e o chapéo de grandes abas,
dizendo:
--_Animo, patriotas! o Xavier aguenta-se!_
Os senhores ecclesiasticos da camara riram com gozo. Houve uma grande
cordialidade. Amaro sahiu muito lisonjeado.
Depois jantou em casa do conego Dias, e foram passear ambos pela estrada
de Marrazes. Uma luz dôce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia
nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga
tranquilidade; fumos esbranquiçados sahiam dos casaes, e sentiam-se os
chocalhos melancolicos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da
ponte, e disse, olhando em redor a paizagem suave:
--Pois senhores, parece-me que me hei de dar bem aqui!
--Ha de se dar regaladamente, affirmou o conego, sorvendo o seu rapé.
Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joanneira.
As velhas amigas estavam já na sala de jantar. Ao pé do candieiro de
petroleo, Amelia costurava.
A snr.^a D. Maria da Assumpção vestira-se, como nos domingos, de sêda
preta: o seu _chinó_, d'um louro avermelhado, estava coberto com as
rendas d'um _enfeite_ negro; as mãos descarnadas, calçadas de mitenes,
solemnemente pousadas no regaço, reluziam de anneis; do broche sobre o
pescoço até ao cinto, um grosso grilhão d'ouro cahia com passadores
lavrados. Conservava-se direita e ceremoniosa, com a cabeça um pouco de
lado, os oculos d'ouro assentes sobre o nariz acavallado: tinha no
queixo um grande signal cabelludo; e quando se fallava de devoções ou de
milagres dava um geito ao pescoço, e abria um sorriso mudo que descobria
os seus enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas.
Era viuva e rica, e soffria d'um catarrho chronico.
--Aqui tem o senhor parocho novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joanneira.
Ella ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, commovida.
--Estas são as senhoras Gansosos, ha de ter ouvido..., disse a S.
Joanneira ao parocho.
Amaro comprimentou timidamente. Eram duas irmãs. Passavam por ter algum
dinheiro, mas costumavam receber hospedes. A mais velha, a snr.^a D.
Joaquina Gansoso, era uma pessoa sêcca, com uma testa enorme e larga,
dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida.
Embrulhada no seu chale, direita, com os braços cruzados, fallava
perpetuamente, n'uma voz dominante e aguda, cheia de opiniões. Dizia mal
dos homens e dava-se toda á Igreja.
A irmã, a snr.^a D. Anna, era extremamente surda. Nunca fallava, e com
os dedos cruzados sobre o regaço, os olhos baixos, fazia girar
tranquillamente os dois pollegares. Nutrida, com o seu perpetuo vestido
preto de riscas amarellas, um rolo de arminho ao pescoço, dormitava toda
a noite, e só accentuava a sua presença de vez em quando por suspiros
agudos: dizia-se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor do correio.
Todos a lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papeis
para caixas de dôce.
Estava tambem a snr.^a D. Josepha, a irmã do conego Dias. Tinha a
alcunha de _castanha pilada_. Era uma creaturinha mirrada, de linhas
aduncas, pelle engelhada e côr de cidra, voz sibilante; vivia n'um
perpetuo estado de irritação, os olhinhos sempre assanhados, contracções
nervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor
Godinho chamava-lhe a _estação central_ das intrigas de Leiria.
--Então passeou muito, senhor parocho? perguntou ella logo
impertigando-se.
--Fomos quasi até lá ao fim da estrada de Marrazes, disse o conego,
sentando-se pesadamente por detraz da S. Joanneira.
--Não achou bonito, senhor parocho? acudiu snr.^a D. Joaquina Gansoso.
--Muito bonito.
Fallaram das lindas paizagens de Leiria, das boas vistas: a snr.^a D.
Josepha gostava muito do passeio ao pé do rio; até já ouvira dizer que
nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja
da Encarnação, no alto.
--Desfruta-se muito d'alli.
Amelia disse sorrindo:
--Eu por mim gósto d'aquelle bocado ao pé da ponte, debaixo dos
chorões.--E partindo com os dentes o fio da costura:--É tão triste!
Amaro olhou para ella, então, pela primeira vez. Tinha um vestido azul
muito justo ao seio bonito; pescoço branco e cheio sahia d'um collarinho
voltado; entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes
brilhava; e pareceu ao parocho que um buçosinho lhe punha aos cantos da
boca uma sombra subtil e dôce.
Houve um pequeno silencio--o conego Dias com o beiço descahido ia já
cerrando as palpebras.
--Que será feito do senhor padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.
--Está talvez com a enxaqueca, pobre de Christo! lembrou piedosamente a
snr.^a D. Maria da Assumpção.
Um rapaz que estava junto do aparador disse então:
--Eu vi-o hoje a cavallo, ia para os lados da Barrosa.
--Homem! disse logo com azedume a irmã do conego, a snr.^a D. Josepha
Dias, é milagre ter o senhor reparado!
--Porquê, minha senhora? disse elle erguendo-se e chegando-se ao grupo
das velhas.
Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pelle branca, regular,
um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, cahido
aos cantos, que elle costumava mordicar com os dentes.
--Ainda elle o pergunta! exclamou a snr.^a D. Josepha Dias. O senhor,
que nem lhe tira o chapéo!
--Eu!?
--Disse-m'o elle, affirmou ella com uma voz cortante. E acrescentou: Ai,
senhor parocho, bem póde chamar o snr. João Eduardo para o bom
caminho!--E teve um risinho maligno.
--Mas eu parece-me que não ando no mau caminho, disse elle rindo, com as
mãos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para Amelia.
--É uma graça! exclamou a snr.^a D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o que o
senhor disse hoje lá em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não ha de
ganhar o céo!
--Ora essa! gritou a irmã do conego voltando-se bruscamente para João
Eduardo. Então o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que é
uma impostora?
--Credo, Jesus! disse a snr.^a D. Maria da Assumpção apertando as mãos e
fitando João Eduardo com um terror piedoso. Pois elle havia de dizer
isso? Cruzes!
--Não, o snr. João Eduardo, affirmou gravemente o conego, que espertára,
desdobrando o seu lenço vermelho--não era capaz de dizer uma d'essas.
Amaro perguntou então:
--Quem é a Santa da Arregassa?
--Credo! Pois não tem ouvido fallar, senhor parocho? exclamou n'uma
admiração a snr.^a D. Maria da Assumpção.
--Ha de ter ouvido, affirmava a snr.^a D. Josepha Dias com auctoridade.
Diz que os jornaes de Lisboa vem cheios d'isso!
--É com effeito uma coisa bem extraordinaria, ponderou com um tom
profundo o conego.
A S. Joanneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:
--Ai, não imagina, senhor parocho, é o milagre dos milagres!
--Se é! se é! disseram.
Houve um recolhimento devoto.
--Mas então...? perguntou Amaro, todo curioso.
--Olhe, senhor parocho, começou a snr.^a D. Joaquina Gansoso
endireitando-se no chale, fallando com solemnidade: a Santa é uma mulher
que aqui ha n'uma freguezia perto, que está ha vinte annos na cama...
--Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assumpção, tocando-lhe
com o leque no braço.
--Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.
--Vinte e cinco, vinte e cinco, affirmou a S. Joanneira. E o conego
apoiou-a, oscillando gravemente a cabeça.
--Está entrevadinha de todo, senhor parocho! rompeu a irmã do conego,
avida de fallar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos são isto!--E
mostrava o dedo minimo.--Para a gente a ouvir é necessario pôr-lhe a
orelha ao pé da boca!
--Pois se ella se sustenta da graça de Deus! disse lamentosamente a
snr.^a D. Maria da Assumpção. Coitadinha! que até a gente lembrar-se...
Houve entre as velhas um silencio commovido. João Eduardo, que por traz
das velhas, de pé, com as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode,
disse então:
--Olhe, senhor parocho, a coisa é o que os medicos dizem: é que aquillo
é uma doença nervosa.
Aquella irreverencia fez, entre as velhas devotas, um escandalo; a
snr.^a D. Maria da Assumpção persignou-se logo «á cautela».
--Pelo amor de Deus! gritou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor diga isso
diante de quem quizer, menos de mim! É uma affronta!
--É que até póde cahir um raio, dizia para os lados, baixo, a snr.^a D.
Maria da Assumpção, muito aterrada.
--Olhe, tambem lh'o digo, exclamou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor é
um homem sem religião e sem respeito pelas coisas santas.--E voltando-se
para o lado de Amelia, muito azeda:--Olhe, filha minha é que eu lhe não
dava!
Amelia córou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho tambem, curvou-se
sarcasticamente:
--Eu digo o que dizem os medicos. E de resto, acredite que não tenho
prentenções a casar com pessoa da sua familia! Nem mesmo comsigo, snr.^a
D. Josepha!
O conego deu uma risada muito pesada.
--Arreda! Cruzes! gritou ella, furiosa.
--Mas que faz então a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.
--Tudo, senhor parocho, disse a snr.^a D. Joaquina Gansoso: está sempre
de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ella peça tem a graça do
Senhor; é a gente apegar-se com ella e cura-se de toda a molestia. E
depois, quando communga, começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no
ar, com os olhos erguidos para o céo, que até chega a fazer terror.
Mas n'este momento uma voz disse á porta da sala:
--Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz!
Era um rapaz extremamente alto, amarello, com as faces cavadas, uma
grenha riçada, um bigode á D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na
boca, porque lhe faltavam quasi todos os dentes de diante; e nos seus
olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas.
Trazia uma guitarra na mão.
--Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.
--Mal, respondeu elle com voz triste, sentando-se. Sempre as dôres no
peito, a tossesita ...
Então não se dava bem com o oleo de figados de bacalhau?
--Qual! fez elle desconsoladamente.
--Uma viagem á Madeira, isso é que era, isso é que era! disse a snr.^a
D. Joaquina Gansoso com auctoridade.
Elle riu, com uma jovialidade subita:
--Uma viagem á Madeira! Não está má! A D. Joaquina Gansoso tem-nas boas!
Um pobre amanuense de administração com dezoito vintens por dia, mulher
e quatro filhos... Para a Madeira!
--E como vai ella, a Joannita?
--Coitadita, lá vai! Tem saude, graças a Deus! Gorda, sempre com bom
appetite. Os pequenos, os dois mais velhos é que estão doentes; de mais
a mais agora a criada tambem cahiu de cama! É o diacho! Paciencia!
paciencia!--E encolhia os hombros.
Mas voltando-se para a S. Joanneira, dando-lhe uma palmada no joelho:
--E como vai a nossa Madre-Abbadessa?
Todos riram: e a snr.^a D. Joaquina Gansoso informou o parocho que
aquelle rapaz, o Arthur Couceiro, era muito engraçado e tinha uma bella
voz. Era a melhor da cidade para modinhas.
A _Ruça_ tinha então entrado com o chá; a S. Joanneira, enchendo as
chavenas d'alto, dizia:
--Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este é do bom! É da loja do
Sousa...
E Arthur offerecia assucar com o seu antigo gracejo:
--Se está azedinho é carregar-lhe no sal!
As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente
as torradas, sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos
pingos da manteiga e das nodoas do chá estendiam prudentemente os lenços
sobre o regaço.
--Vai um docinho, senhor parocho? disse Amelia, apresentando-lhe o
prato. São da Encarnação, muito fresquinhos.
--Obrigado.
--Aquelle alli. É toucinho do céo.
--Ah! se é do céo... disse elle todo risonho. E olhou para ella, tomando
o bolo com a ponta dos dedos.
O snr. Arthur costumava cantar depois do chá. Sobre o piano uma vela
alumiava o caderno de musica; e Amelia, logo que a _Ruça_ levou a
bandeja, accommodou-se, correu os dedos sobre o teclado amarello.
--Então hoje que ha de ser? perguntou Arthur.
Os pedidos cruzaram-se:
--_O guerrilheiro! O noivado do sepulchro! O descrido! o Nunca mais!_
O conego Dias disse do seu canto, pesadamente:
--Ó Couceiro, vá lá aquella do _Tio Cosme, meu bréjeiro!_
As mulheres reprovaram:
--Credo! por quem é, senhor conego! Que lembrança!
E a snr.^a D. Joaquina Gansoso resumiu:
--Nada: uma coisa de sentimento para o senhor parocho fazer idéa.
--Isso, isso! disseram: uma coisa de sentimento, ó Arthur, uma coisa de
sentimento!
Arthur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente á face uma expressão
dolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:
Adeus, meu anjo! eu vou partir sem ti!
Era uma canção dos tempos romanticos de 51, o _Adeus!_ Dizia uma suprema
despedida, n'um bosque, por uma tarde pallida d'outono; depois, o homem
solitario e precito, que inspirára um amor funesto, ia errar desgrenhado
á beira do mar; havia uma sepultura esquecida n'um valle distante,
brancas virgens vinham chorar á claridade do luar!
--Muito bonito, muito bonito! murmuravam.
Arthur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervallos, durante o
acompanhamento, sorria em redor--e na sua boca cheia de sombra viam-se
os restos de dentes pôdres. O padre Amaro, ao pé da janella, fumando,
contemplava Amelia, enlevado n'aquella melodia sentimental e morbida: o
seu perfil fino, de encontro á luz, tinha uma linha luminosa; destacava
harmoniosamente a curva do seu peito; e elle seguia as suas palpebras de
grandes pestanas, que do teclado para a musica se erguiam e se abaixavam
com um movimento dôce. João Eduardo, junto d'ella, voltava-lhe as folhas
da musica.
Mas Arthur, com a mão sobre o peito, a outra erguida no ar, n'um gesto
desolado e vehemente, soltou a ultima estrophe:
E um dia, emfim, d'este viver fatal,
Repousarei na escuridão da campa!
--Bravo! bravo! exclamaram.
E o conego Dias commentou baixo ao parocho:
--Ah! para coisas de sentimento não ha outro.--E bocejando enormemente:
Pois menino, tenho tido toda a noite as lulas a conversar cá por dentro.
Mas chegára a hora do loto. Cada um escolhia os seus cartões habituaes;
e a snr.^a D. Josepha Dias, com o seu olho d'avara a luzir, chocalhava
já vivamente o grosso sacco dos numeros.
--Aqui tem um logar, senhor parocho, disse Amelia.
Era junto d'ella. Elle hesitou; mas tinham aberto espaço, e veio
sentar-se um pouco córado, ageitando timidamente a _volta_.
Fez-se logo um grande silencio; e, com a voz dormente, o conego começou
a tirar os numeros. A snr.^a D. Anna Gansoso dormitava ao seu canto,
resonando ligeiramente.
Com o _abat-jour_ as cabeças estavam na penumbra; e a luz crua, cahindo
sobre o chale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cartões
ennegrecidos do uso e as mãos sêccas das velhas, pousadas em attitudes
aduncas, remexendo as marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela
derretia-se com uma chamma alta e direita.
O conego rosnava os numeros com as pilherias veneraveis da tradição: 1,
cabeça de porco!--3, figura de entremez!
--Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.
--Ternei, murmurava outra com gozo.
E a irmã do conego, sôfrega:
--Chocalhe esses numeros, mano Placido! Vá!
--E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia o
Arthur Couceiro, com a cabeça entre os punhos.
Emfim o conego _quinou_. E Amelia olhando em redor pela sala:
--Então não joga, snr. João Eduardo? disse ella. Onde está?
João Eduardo sahiu da sombra da janella, por traz da cortina.
--Tome lá este cartão, ande, jogue.
--E receba as entradas, já que está de pé, disse a S. Joanneira. Seja o
senhor recebedor!
João Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam dez
reis.
--Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos, excitados.
Fôra a irmã do conego que não tocára no seu cobre acastellado. João
Eduardo disse, curvando-se:
--Parece-me que a snr.^a D. Josepha não entrou.
--Eu!? gritou ella, furiosa. Olha uma d'estas! Até fui a primeira!
Credo! Duas moedas de cinco reis, por signal! Que tal está o homem!
--Ah! bem, disse elle então, fui eu que me esqueci! Cá ponho.--E rosnou:
Beata e ladra!
E a irmã do conego dizia no emtanto baixo á snr.^a D. Maria da
Assumpção:
--Queria vêr se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!
--Só quem não está feliz é o senhor parocho, observaram.
Amaro sorriu. Estava distrahido, e fatigado; ás vezes mesmo esquecia-se
de marcar, e Amelia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovêlo:
--Olhe que não marcou, senhor parocho!
Tinham já apostado dois ternos: ella ganhára; depois faltou a ambos para
_quinarem_ o numero trinta e seis.
Em roda repararam.
--Ora vamos a vêr se _quinam_ ambos, disse a snr.^a D. Maria da
Assumpção, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.
Mas o trinta e seis não sahía; havia outras quadras nos cartões alheios;
Amelia receava que _quinasse_ a snr.^a D. Joaquina Gansoso, que se mexia
muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria,
involuntariamente interessado.
O conego tirava os numeros com uma pachorra maliciosa.
--Vá! vá! ande com isso, senhor conego! diziam-lhe.
Amelia, debruçada, os olhos vivos, murmurou:
--Dava tudo para que sahisse o trinta e seis!
--Sim? Ahi o tem... Trinta e seis! disse o conego.
--_Quinamos!_ gritou ella, triumphante; e tomando o cartão do parocho e
o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito córada.
--Ora Deus os abençôe, disse o conego, jovial, entornando-lhes diante o
pires cheio de moedas de dez reis.
--Parece milagre! considerou a snr.^a D. Maria da Assumpção,
piedosamente.
Mas tinham dado onze horas; e depois da _tumba_ final as velhas
começaram a agasalhar-se. Amelia sentou-se ao piano, tocando ao de leve
uma polka. João Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz:
--Muitos parabens por ter _quinado_ com o senhor parocho. Que
enthusiasmo!--E como ella ia responder:--Boa noite! disse elle
sêccamente, embrulhando-se no seu chale-manta com despeito.
A _Ruça_ alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam
ganindo _adeusinhos_. O snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o
_Descrido_.
Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviario; mas
distrahia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes pôdres de
Arthur, sobretudo o perfil de Amelia. Sentado á beira da cama, com o
Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos
pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu
buçosinho gracioso...
Sentia a cabeça pesada do jantar do conego e da monotonia do _quino_,
com uma grande sêde além d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz
beber, mas não tinha agua no quarto. Lembrou-se então que na sala de
jantar havia uma bilha d'Extremoz com agua fresca, muito boa, da
nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu
devagarinho. Havia **luz** na sala, estava o reposteiro corrido:
ergueu-o e recuou com um _ah!_ Vira n'um relance Amelia, em saia branca,
a desfazer o atacador do collete: estava junto do candieiro e as mangas
curtas, o decote da camisa deixavam vêr os seus braços brancos, o seio
delicioso. Ella deu um pequeno grito, correu para o quarto.
Amaro ficou immovel, com um suor á raiz dos cabellos. Poderiam suspeitar
uma offensa! Palavras indignadas iam sahir decerto através do reposteiro
do quarto, que ainda se balouçava agitado!
Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro:
--Que queria, senhor parocho?
--Vinha buscar agua... balbuciou elle.
--Aquella _Ruça_! aquella desleixada! Desculpe, senhor parocho,
desculpe. Olhe ahi ao pé da mesa, a bilha. Achou?
--Achei! achei!
Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a agua escorria-lhe
pelos dedos.
Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por baixo passos nervosos
pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos hombros e em chinelas,
fumava, excitado, pelo quarto.
V
Ella, em cima, não dormia tambem. Sobre a commoda, dentro de uma bacia,
a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de murrão de azeite;
brancuras de saias cahidas no chão destacavam; e os olhos do gato, que
não socegava, reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade
phosphorica verde.
Na casa visinha uma criança chorava sem cessar, Amelia sentia a mãi
embalar-lhe o berço, cantar-lhe baixo:
Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãi foi á fonte!
Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente Sousa deixára com um
filho no berço, e gravida d'outro--para ir casar a Extremoz! Tão bonita
era, tão loura--e mirrada agora, tão chupada!
Dorme, dorme, meu menino.
Que a tua mãi foi á fonte!
Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha sete annos sua mãi
dizia-a, nas longas noites de inverno, ao irmãosinho que morrera!
Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa, ao pé da estrada de Lisboa;
á janella do seu quarto havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem
luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao sol. Não conhecera o
papá. Fôra militar, morrera novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da
sua bella figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos ella foi
para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita roliça e
branca, que fôra tacho das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os seus
oculos redondos, junto á janella, empurrando a agulha, morria-se por
contar historias do convento: as perrices da escrivã, sempre a
escabichar os dentes furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, com
uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão, admiradora de Bocage e que
se dizia descendente dos Tavoras; e a legenda de uma freira que morrera
de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores,
soltando gemidos dolorosos e clamando:--Augusto! Augusto!
Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava então tanto de
festas d'igreja e da convivencia dos santos, que desejava ser uma
«freirinha, muito bonita, com um véosinho muito branco.» A mamã era
muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e
robusto, que soprava de asthma ao subir a escada e tinha uma voz
fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia chamava-lhe
_padrinho_. Quando ella voltava da mestra, á tarde, encontrava-o sempre
a palestrar com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando vêr o
longo collete de velludo preto com raminhos bordados a amarello. O
senhor chantre perguntava-lhe pelas lições e fazia-a dizer a taboada.
Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente; o conego Cruz; e um
velhito calvo, de perfil de passaro, com oculos azues, que fôra frade
franciscano e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas da mãi, com
as suas _meias_; e um capitão Couceiro, de caçadores, que tinha os dedos
negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas
mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ella via a luz, ouvia as
vozes; depois fazia-se um silencio, e o capitão, repenicando a guitarra,
cantava o _lundum da Figueira_.
Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipathicos:
sobretudo o padre Valente, tão gordo, tão suado, com umas mãos papudas e
molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe
devagarinho a orelha, e ella sentia o seu halito impregnado de cebola e
de cigarro. O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o cabello todo
branco, a volta sempre aceada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho,
comprimentando com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia de ss. Já
então sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer
«bagatella» fallavam-lhe sempre dos castigos do céo; de tal sorte que
Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe dar o soffrimento e a morte e
que é necessario abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando
os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma
Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia, porque temia que Deus lhe
mandasse sezões ou a fizesse cahir na escada.
Mas o seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições de musica. A
mãi tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um
pano verde, tão desafinado, que servia de aparador! Amelia costumava
cantarolar pela casa; a sua voz fina e fresca agradava ao senhor
chantre, e as amigas da mãi diziam-lhe:
--Tu tens ahi um piano, porque não mandas ensinar a rapariga? Sempre é
uma prenda! olha que lhe póde servir de muito!
O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da Sé d'Evora,
extremamente infeliz: a filha unica, muito linda, fugira-lhe com um
alferes para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da Praça, que
ia muito á capital, vira-a descer a rua do Norte, de _garibaldi_
escarlate e alvaiade n'um olho, com um marinheiro inglez. O velho cahira
em grande melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe dado um
emprego no cartorio da camara ecclesiastica. Era uma figura triste de
romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer
até aos hombros os seus cabellos brancos e finos; os olhos, cansados,
lagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e
parecia muito transido, no seu capote côr de vinho que só lhe chegava á
cintura e que tinha uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o _Tio Cegonha_
pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia um dia tinha-lhe
chamado _Tio Cegonha_; mas mordeu logo o beiço, toda envergonhada.
O velho poz-se a sorrir:
--Ai, chame, minha rica menina, chame! _Tio Cegonha_?... ora, que tem?
Cegonha sou eu, e bem cegonha!
Era então no inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não cessavam; a
aspera estação opprimia os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias
esfomeadas indo á camara pedir pão. O _Tio Cegonha_ vinha sempre ao
meio-dia dar a lição; o seu guardachuva azul deixava um ribeiro na
escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de
velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do
frio das mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado e não o
deixava escrever no cartorio.
--Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.
Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro mez das lições, o velho
appareceu muito contente, com umas grossas luvas de lã.
--Ah, _Tio Cegonha_, como vem quentinho! disse-lhe Amelia.
--Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas
meias de lã. Deus a abençôe, minha menina, Deus a abençôe!
E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Amelia tornára-se a «sua
rica amiguinha». Já lhe fazia confidencias: contava-lhe as suas
necessidades, as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora,
quando diante do senhor **arcebispo**, vistoso na sua sobrepelliz
escarlate, acompanhava o _Lausperenne_.
Amelia não se esqueceu das meias de lã do _Tio Cegonha_. Pediu ao
chantre que lhe désse umas meias de lã.
--Ora essa! para quê? para ti? disse elle com o seu riso grosso.
--Para mim, sim senhor.
--Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. Olha a idéa!
--Não deixe fallar, não! dê, sim?
Lançou-lhe os braços ao pescoço, fez-lhe olhinhos dôces.
--Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! ha de ser o
diabo!... Pois sim, ahi tens.--E deu-lhe dois pintos para umas meias de
lã.
No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um papel, que dizia por fóra
em letras garrafaes: _Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula_.
Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais chupado:
--Ó _Tio Cegonha_, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartorio?
O velho sorriu-se:
--Ora, minha rica menina, quanto me hão de dar? uma bagatella. Quatro
vintens por dia. Mas o snr. Netto faz-me algum bem...
--E chegam-lhe, quatro vintens?
--Ora! como hão de chegar!
Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando gravemente a attitude
de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.
E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãi a dar de
almoçar e de jantar ao _Tio Cegonha_ nos dias de lição. Assim se
estabeleceu entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre _Tio
Cegonha_, sahindo do seu frio isolamento, acolhia-se áquella amizade
inesperada, como a um conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento
feminino que amam os velhos, com as caricias, as suavidades de voz, as
delicadezas de enfermeira; achava n'ella a unica admiradora da sua
musica; e via-a sempre attenta ás historias do seu tempo, ás recordações
da velha Sé d'Evora que elle amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando
se fallava de procissões ou de festas de igreja:
--Para isso Evora! em Evora é que é!
Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua
vida: já tocava contradansas e antigas arias de velhos compositores; a
snr.^a D. Maria da Assumpção estranhava que o mestre lhe não ensinasse o
_Trovador_.
--Coisa mais linda! dizia.
Mas o _Tio Cegonha_ só conhecia a musica classica, arias ingenuas e
dôces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos
dôces tempos freiraticos.
Uma manhã o _Tio Cegonha_ encontrou Amelia muito amarella e triste.
Desde a vespera queixava-se de «mal-estar». Era um dia nublado, muito
frio. O velho queria ir-se embora.
--Não, não, _Tio Cegonha_, disse ella, toque alguma coisa para eu me
entreter.
Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas
extremamente melancolica.
--Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé junto ao piano.
E quando o velho deu as ultimas notas:
--O que é? perguntou ella.
O _Tio Cegonha_ contou-lhe que era o começo de uma _Meditação_ feita por
um frade seu amigo.
--Coitado, disse, teve bem o seu tormento!
Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se no mocho do piano,
embrulhando-se no seu chale:
--Diga, _Tio Cegonha_, diga!
Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ella
morrera no convento d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade,
fizera-se frade franciscano...
--Parece que o estou a vêr...
--Era bonito?
--Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um dia veio ter commigo ao
orgão: «Olha o que eu fiz», disse-me elle. Era um papel de musica. Abria
em ré menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que
musica! Mas não me lembra o resto!
E o velho, commovido, repetiu no piano as notas plangentes da
_Meditação_ em ré menor.
Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De noite veio-lhe uma
grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade
frasciscano, na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus olhos
profundos reluzirem n'uma face encovada: e, longe, a freira pallida, nos
seus habitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida
pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades
franciscanos caminhava para o côro: elle ia no fim de todos, curvado,
com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande
sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava:
era um vasto céo negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos
de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, giravam, levadas
por um vento mystico; mas desvaneciam-se como nevoas, e na vasta
escuridão ella via apparecer um grande coração em carne viva, todo
trespassado de espadas--e as gotas de sangue que cahiam d'elle enchiam o
céo d'uma chuva escarlate.
Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa tranquillisou a S.
Joanneira com uma simples palavra:
--Nada de sustos, minha rica senhora, são os quinze annos da rapariga.
Hão de lhe vir ámanhã as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se.
Temol-a mulher.
A S. Joanneira comprehendeu.
--Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter as paixões fortes!
acrescentou o velho pratico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.
Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço
d'açorda, cahiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternação
inesperada para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, em
saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assumpção, as
snr.^{as} Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.^a D.
Josepha Dias resumiu as consolações de todas, dizendo:
--Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te ampare!
Era então no começo de setembro; a snr.^a D. Maria da Assumpção, que
tinha uma casa na praia da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia
para a estação dos banhos, para ella espalhar, nos bons ares saudaveis,
em logar differente, aquella dôr.
--É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joanneira. Sempre me lembra
que era alli que elle punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a
vêr-me costurar!
--Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come e bebe, toma os teus banhos,
e o que lá vai lá vai. Olha que elle tinha bem os seus sessenta.
--Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha!
Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta e de bonitas fórmas.
Foi uma alegria para ella a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não
se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta agua azul,
muito mansa, cheia de sol; ás vezes no horisonte passava um fumo delgado
de paquete; a monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; e em
redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céo azul-ferrete.
Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé. Era a hora do banho:
as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras,
sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar,
palrando; os homens, de sapatos brancos, estendidos em esteiras,
chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos
Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da
vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ella sahia então da barraca com o seu
vestido de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de
frio: tinha-se persignado ás escondidas e toda tremula, agarrada á mão
do banheiro, escorregando na areia, entrava na agua, rompendo a custo a
maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ella
mergulhava, e ficava aos saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua
salgada. Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a
toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso
do vestido encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor vozes
amigas perguntavam:
--Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?
Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o
recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros,
luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de occasos
ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme!
D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz,
filho do snr. Brito de Alcobaça, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia
frequentar o quinto anno de direito na Universidade. Era um moço
delgado, de bigode castanho, pera, cabello comprido deitado para traz, e
luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de
caloiros, fazia _partidas_, e era famoso na Vieira, entre os homens,
«por saber conversar com senhoras».
--O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, chalaça áquella. Lá
para sociedade não ha outro!
Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que os olhos do snr.
Agostinho Brito se fitavam constantemente n'ella, «p'ra namoro». Amelia
córava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e
admirava-o, achava-o muito «dengueiro».
Um dia em casa da snr.^a D. Maria da Assumpção pediram a Agostinho para
recitar.
--Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de ferreiro! exclamou elle,
jovial.
--Ora vá! não se faça rogado, disseram, insistindo.
--Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.
--A _Judia_, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaça.
--Qual _Judia_! disse elle, ha de ser mas ha do ser a _Morena_!--E olhou
para Amelia.--Foi uma poesia que fiz hontem.
--Valeu, valeu!
--E cá o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de caçadores, tomando
logo a guitarra.
Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o cabello para traz, fincou
a luneta, apoiou as duas mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:
--Á _Morena_ de Leiria! disse.
Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria é famosa,
Tens a frescura da rosa,
E o teu nome sabe a mel...
--Perdão! exclamou o recebedor, a snr.^a D. Juliana não está boa...
Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça; tinha-se feito muito
pallida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com os **braços**
pendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a
para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram
vinagre a respirar, ergueu-se sobre o cotovêlo, olhou em redor,
começaram a tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os homens em
grupo, commentavam:
--Foi o calor, diziam.
--O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento de caçadores.
O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a
casa acompanhar a snr.^a D. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S.
Joanneira, atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia vento, um
criado levava um lampeão, e todos caminhavam na areia, calados.
--Tudo isto é teu proveito, disse a snr.^a D. Maria da Assumpção baixo á
S. Joanneira, demorando-se um pouco atraz.
--Meu!?
--Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em Alcobaça, era namoro do
Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana
percebeu, viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás!
--Ora essa!... disse a S. Joanneira.
--Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as
tias. É um partidão!
Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira vestia-se na sua barraca,
e Amelia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.
--Olá! sósinha! disse uma voz por detraz.
Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar a areia com a sombrinha.
O snr. Agostinho suspirou, alisou outro pedaço d'areia com o pé,
escreveu--Amelia. Ella, muito vermelha, quiz apagar com a mão.
--Então! disse elle. E debruçando-se, baixo:--É o nome da _Morena_, bem
vê. _O seu nome sabe a mel!_...
Ella sorriu:
--Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre Juliana, disse.
--Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou farto d'aquelle estafermo!
Então que quer? Eu cá sou assim. Tanto digo que me não importo com ella,
como digo que ha uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...
--Quem é? É a snr.^a D. Bernarda?
Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.
--É, disse elle rindo. É justamente por quem eu ando apaixonado, é pela
D. Bernarda.
--Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, com os olhos baixos,
riscando a areia.
--Diga-me uma coisa, está a mangar commigo? exclamou Agostinho puxando
uma cadeirinha, sentando-se junto d'ella.
Amelia pôz-se de pé.
--Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou elle offendido.
--Eu é que estava cansada de estar sentada.
Calaram-se um momento.
--Já tomou banho? disse ella.
--Já.
--Estava frio hoje?
--Estava.
As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas.
--Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe de leve a mão no hombro.
Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo
risonho, exclamou com vehemencia:
--Estou mesmo doido por si!
--Chut!... disse ella.
A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca, sahia, muito abafada, de
lenço amarrado na cabeça.
--Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, tirando o chapéo de
palha.
--Estava por aqui?
--Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao almocinho, hein?
--Se é servido... disse a S. Joanneira.
Agostinho, muito galante, offereceu o braço á mamã.
E desde então seguia sempre Amelia, de manhã no banho, de tarde á
beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos--o
_Sonho_. Uma estrophe era violenta:
Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...
Ella murmurava-os com grande commoção, de noite, suspirando, abraçando o
travesseiro.
Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da
snr.^a D. Maria da Assumpção e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á
volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o céo, cahíram
gotas d'agua. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras,
aos gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia pelo braço,
rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e então, sob o
monotono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:
--Estou doido por ti, filha!
--Creio lá n'isso! murmurou ella.
Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:
--Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora.
--Vai-se?
--Talvez; não sei ainda. Além d'ámanhã é a matricula.
--Vai-se... suspirou Amelia.
Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com furor:
--Escreve-me! disse.
--E a mim escreve-me? disse ella.
Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe a boca de beijos
vorazes.
--Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.
De repente teve um gemido dôce como um arrulho de ave, e
abandonava-se--quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:
--Ha uma aberta. É andar! é andar!
E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o
guardachuva da mamã.
Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras
chuvas, e dentro em pouco tambem Amelia, a mãi, a snr.^a D. Maria da
Assumpção voltaram para Leiria.
Passou o inverno.
E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da Assumpção deu parte que o
Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento
justo com a menina do Vimeiro.
--Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus
trinta contos! Olha o méco!
E diante de todos Amelia rompeu a chorar.
Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles beijos de noite no
pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria!
Ainda lembrada d'aquelle moço da historia do _Tio Cegonha_, que por amor
se escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira:
deu-se a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendencias que
desde pequenina as convivencias de padres tinham lentamente creado na
sua natureza sensivel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes
do quarto de lithographias coloridas de santos; passava longas horas na
igreja, accumulando Salve-Rainhas á Senhora da Encarnação. Ouvia todos
os dias missa, quiz commungar todas as semanas--e as amigas da mãi
achavam-na «um modêlo, de dar virtude a incredulos»!
Foi por esse tempo que o conego Dias e sua irmã, a snr.^a D. Josepha
Dias, começaram a frequentar a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o
conego tornou-se o «amigo da familia». Depois do almoço era certo com a
sua cadellinha, como outr'ora o chantre com o seu guardachuva.
--Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joanneira. Mas o
senhor chantre não ha dia nenhum que me não lembre d'elle!
A irmã do conego tinha então organisado com a S. Joanneira a _Associação
das Servas da Senhora da Piedade_. A snr.^a D. Maria da Assumpção, as
Gansosos «filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se um centro
ecclesiastico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joanneira; «a Sé,
como dizia com tedio o Carlos da botica, era agora na rua da
Misericordia». Parte dos conegos, o novo chantre vinham todas as
sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha.
As criadas, por escrupulo, eram examinadas em doutrina antes de serem
aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um
homem--_não é temente a Deus_, havia o dever de o desacreditar
santamente. As nomeações de sineiros, coveiros, serventes de sacristia
arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras piedosas. Tinham
tomado um certo vestuario entre o preto e o rôxo: toda a casa cheirava a
cera e a incenso; e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o commercio das
hostias.
Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto dispersou-se:
a ligação do conego Dias e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os
padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tambem--como era
de tradição n'aquella diocese, fatal aos chantres; e já não eram
divertidos os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito; crescera:
fizera-se uma bella moça de vinte e dois annos, d'olhar avelludado,
beiços muito frescos--e achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice
de criança». A sua devoção subsistia, mas alterada: o que amava agora na
religião e na igreja era o apparato, a festa--as bellas missas cantadas
ao orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o
altar-mór na gloria das flôres cheirosas, o roçar das correntes dos
incensadores de prata, os unisonos que rompem briosamente no côro das
alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era o seu luxo. Nos
domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com agua de
colonia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre
Brito ou ao conego Saldanha.--Mas em certos dias, como dizia a mãi,
«murchava»: voltavam então os abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam,
lhe punham duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha n'essas
occasiões horas d'uma vaga saudade parva e morbida, em que só a
consolava cantar pela casa o Santissimo ou as notas lugubres do toque da
Agonia. Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre--e lamentava
então que a Sé fosse uma ampla estructura de pedra d'um estylo frio e
jesuitico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada,
forrada de papel, illuminada a gaz; e padres bonitos officiando a um
altar ornado como uma _étagère_.
Fizera vinte e tres annos quando conheceu João Eduardo, no dia da
procissão de _Corpus-Christi_, em casa do tabellião Nunes Ferral, onde
elle era escrevente. Amelia, a mãi, a snr.^a D. Josepha Dias tinham ido
vêr a procissão da bella varanda do tabellião, guarnecida de colchas de
damasco amarello. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido
de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; mas n'aquella tarde,
reparando na brancura da sua pelle e na gravidade com que ajoelhava,
pareceu-lhe «muito bom rapaz».
Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de collete branco, foi pela
sala exclamando, enthusiasmado, com a sua voz de grillo:--É tirar pares,
é tirar pares!--emquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio
estridente uma mazurka franceza. João Eduardo aproximou-se de Amelia:
--Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar sêcco.
João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se a uma hombreira com a
mão na abertura do collete, os olhos fitos em Amelia. Ella percebia,
desviava o rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo, vendo uma
cadeira vazia, veio sentar-se ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar
accommodando os folhos de sêda, agradada. O escrevente, embaraçado,
torcia o bigode com a mão tremula. Por fim Amelia voltando-se para elle:
--Então o senhor não dansa tambem?
--E a snr.^a D. Amelia? disse elle baixo.
Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas do vestido:
--Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.
--Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz uma intenção fina.
--Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella olhando-o de lado.
--De mim, por exemplo.
--De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque me hei de eu rir do
senhor? Boa!... Então o senhor que tem que faça rir?--E agitava o seu
leque de sêda preta.
Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas.
--Então sério, sério, não dansa?
--Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!
--É porque me interesso por si.
--Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente gesto de negativa.
--Palavra!
Mas a snr.^a D. Josepha Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa
muito franzida--e João Eduardo levantou-se, intimidado.
Á sahida, quando Amelia no corredor punha os seus agasalhos, João
Eduardo veio dizer-lhe, de chapéo na mão:
--Cubra-se bem, não apanhe frio!
--Então continúa a interessar-se por mim? disse ella apertando em redor
do pescoço as pontas da sua manta de lã.
--O mais possivel, creia.
Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de _zarzuela_.
Fallava-se muito da contralto, a _Gamacho_. A snr.^a D. Maria da
Assumpção tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia--que duas
noites antes estivera costurando, com uma pressa commovida, um vestido
de cassa todo florido de laços de sêda azul. João Eduardo na
platéa--emquanto a Gamacho, empastada de pó de arroz sob a sua mantilha
valenciana, vibrando com uma graça decrepita o leque de lentejoulas,
garganteava malaguenhas agudas--não se fartou de contemplar, de desejar
Amelia. Á sahida veio comprimental-a, offerecer-lhe o braço até á rua da
Misericordia: a S. Joanneira, a snr.^a D. Maria da Assumpção seguiam
atraz com o tabellião Nunes.
--Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo?
--A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei n'ella.
--Então que fez?
--Olhei para si, respondeu elle resolutamente.
Ella parou immediatamente, disse com a voz um pouco alterada:
--Onde vem a mamã?
--Deixe lá a mamã!
E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do rosto, disse-lhe «a sua
grande paixão». Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:
--Gósto tanto de si! Gósto tanto de si!
Amelia estava nervosa da musica do theatro; a noite quente de verão, com
a sua vasta scintillação de estrellas, tornava-a toda languida.
Abandonou a mão, suspirou baixinho.
--Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle.
--Sim, respondeu ella--e apertou os dedos de João Eduardo, com paixão.
Mas, como ella pensou, «fôra decerto um fogacho»--porque, dias depois,
quando conheceu mais João Eduardo, quando pôde fallar livremente com
elle, reconheceu que «não tinha nenhuma inclinação pelo rapaz».
Estimava-o, achava-o sympathico, bom moço; poderia ser um bom marido;
mas sentia dentro em si o coração adormecido.
O escrevente porém começou a ir á rua da Misericordia quasi todas as
noites. A S. Joanneira estimava-o pelo seu «proposito» e pela sua
honradez. Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o á janella pela
manhã quando elle passava para o cartorio, fazia-lhe olhos dôces á
noite,--mas só para o não descontentar, para ter na sua existencia
desoccupada um interessesinho amoroso.
João Eduardo um dia fallou à mãi em casamento:
--Como a Amelia quizer, eu por mim... disse a S. Joanneira.
E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:
--Mais tarde, por ora não me parece, veremos.
Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até que elle obtivesse o lugar
de amanuense do governo civil, rasgadamente promettido pelo doutor
Godinho--o temido doutor Godinho!
Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e, durante a noite, estas
recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de nuvens que o
vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou já o sol ia
alto: e espreguiçava-se, quando ouviu dizer a _Ruça_ na sala de jantar:
--É o senhor parocho que vai sahir com o senhor conego; vão á Sé.
Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa, ergueu uma pontinha
da cortina de cassa, olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo
meio da rua conversando com o conego, assoava-se ao seu lenço branco,
muito airoso na sua batina de pano fino.