III

Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marqueza d'Alegros.

Seu pai era criado do marquez; a mãi era criada de quarto, quasi uma

amiga da senhora marqueza. Amaro conservava ainda um livro, o _Menino

das selvas_, com barbaras imagens coloridas, que tinha escripto na

primeira pagina branca: _Á minha muito estimada criada Joanna Vieira e

verdadeira amiga que sempre tem sido,--Marqueza d'Alegros_. Possuia

tambem um daguerreotypo de sua mãi: era uma mulher forte, de

sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma côr

ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãi, que fôra

sempre tão sã, succumbiu, d'ahi a um anno, a uma tisica de larynge.

Amaro completára então seis annos. Tinha uma irmã mais velha que desde

pequena vivia com a avó em Coimbra, e um tio, mercieiro abastado do

bairro da Estrella. Mas a senhora marqueza ganhára amizade a Amaro;

conservou-o em sua casa, por uma adopção tacita; e começou, com grandes

escrupulos, a vigiar a sua educação.

A marqueza d'Alegros ficára viuva aos quarenta e tres annos e passava a

maior parte do anno retirada na sua quinta de Carcavellos. Era uma

pessoa passiva, de bondade indolente, com capella em casa, um respeito

devoto pelos padres de S. Luiz, sempre preoccupada dos interesses da

Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do Céo e nas

preoccupações da Moda, eram beatas e faziam o _chic_ fallando com igual

fervor da humildade christã e do ultimo figurino de Bruxellas. Um

jornalista de então dissera d'ellas:--Pensam todos os dias na _toilette_

com que hão de entrar no paraiso.

No isolamento de Carcavellos, n'aquella quinta de alamedas

aristocraticas onde os pavões gritavam, as duas meninas enfastiavam-se.

A Religião, a Caridade eram então occupações avidamente aproveitadas:

cosiam vestidos para os pobres da freguezia, bordavam frontaes para os

altares da igreja. De maio a outubro estavam inteiramente absorvidas

pelo trabalho de _salvar a sua alma_; liam os livros beatos e dôces;

como não tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e

cochichavam sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de verão.

A senhora marqueza resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida

ecclesiastica. A sua figura amarellada e magrita pedia aquelle destino

recolhido: era já affeiçoado ás coisas de capella, e o seu encanto era

estar aninhado ao pé de mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo

fallar de santas. A senhora marqueza não o quiz mandar ao collegio

porque receava a impiedade dos tempos e as camaradagens immoraes. O

capellão da casa ensinava-lhe o latim, e a filha mais velha, a snr.^a D.

Luiza, que tinha um nariz de cavallete e lia Chateaubriand, dava-lhe

lições de francez e de geographia.

Amaro era, como diziam os criados, _um mosquinha morta_. Nunca brincava,

nunca pulava ao sol. Se á tarde acompanhava a senhora marqueza ás

alamedas da quinta quando ella descia pelo braço do padre Liset ou do

respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, môno, muito encolhido,

torcendo com as mãos humidas o forro das algibeiras--vagamente assustado

das espessuras d'arvoredos e do vigor das relvas altas.

Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé d'uma ama velha. As

criadas de resto feminisavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio

d'ellas, beijocavam-no, faziam-lhe cocegas, e elle rolava por entre as

saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. Ás

vezes, quando a senhora marqueza sahia, vestiam-no de mulher, entre

grandes risadas: elle abandonava-se, meio nú, com os seus modos

languidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As

criadas, além d'isso, utilisavam-no nas suas intrigas umas com as

outras: era Amaro o que _fazia as queixas_. Tornou-se enredador, muito

mentiroso.

Aos onze annos, ajudava á missa, e aos sabbados limpava a capella. Era o

seu melhor dia; fechava-se por dentro, collocava os santos em plena luz

em cima d'uma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfações

gulosas; e toda a manhã, muito atarefado, cantarolando o Santissimo, ia

tirando a traça dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e cré as

auréolas dos Martyres.

No emtanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miudo e amarellado; nunca

dava uma boa risada, trazia sempre as mãos dos bolsos. Estava

constantemente mettido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas;

bolia nas saias sujas, cheirava os algodões postiços. Era extremamente

preguiçoso, e custava de manhã arrancal-o a uma somnolencia doentia em

que ficava amollecido, todo embrulhado nos cobertores e abraçado ao

travesseiro. Já corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca.

N'um domingo gordo, uma manhã, depois da missa, ao chegar-se ao terraço,

a senhora marqueza de repente cahiu morta com uma apoplexia. Deixava no

seu testamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joanna,

entrasse aos quinze annos no seminario e se ordenasse. O padre Liset

ficava encarregado de realisar esta disposição piedosa. Amaro tinha

então treze annos.

As filhas da senhora marqueza deixaram logo Carcavellos e foram para

Lisboa, para casa da snr.^a D. Barbara de Noronha, sua tia paterna.

Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrella. O mercieiro era um

homem obeso, casado com a filha d'um pobre empregado publico, que o

aceitára para sahir da casa do pai, onde a mesa era escassa, ella devia

fazer as camas e nunca ia ao theatro. Mas odiava o marido, as suas mãos

cabelludas, a loja, o bairro e o seu apellido de snr.^a Gonçalves. O

marido esse adorava-a como a delicia da sua vida, o seu luxo;

carregava-a de joias e chamava-lhe _a sua duqueza_.

Amaro não encontrou alli o elemento feminino e carinhoso em que estivera

tepidamente envolvido em Carcavellos. A tia quasi não reparava n'elle;

passava os seus dias lendo romances, as analyses dos theatros nos

jornaes, vestida de sêda, coberta de pó d'arroz, o cabello em cachos,

esperando a hora em que passava debaixo das janellas, puxando os punhos,

o Cardoso, galan da Trindade. O mercieiro apropriou-se então de Amaro

como d'uma utilidade imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer

logo ás cinco horas da manhã; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano

azul, molhando á pressa o pão na chavena de café, ao canto da mesa da

cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o _cebola_ e o tio

chamava-lhe o _burro_. Pesava-lhes até o magro pedaço de vacca que elle

comia ao jantar. Amaro emmagrecia e todas as noites chorava.

Sabia já que aos quinze annos devia entrar no seminario. O tio todos os

dias lh'o lembrava:

--Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro! Em tendo

quinze annos é para o seminario. Não tenho obrigação de carregar

comtigo! Besta na argola, não está nos meus principios!

E o rapaz desejava o seminario, como um libertamento.

Nunca ninguem consultára as suas tendencias ou a sua vocação.

Impunham-lhe uma sobrepelliz; a sua natureza passiva, facilmente

dominavel, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto não lhe

desagradava _ser padre_. Desde que sahira das rezas perpetuas de

Carcavellos conservára o seu medo do inferno, mas perdera o fervor dos

santos; lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora

marqueza, pessoas brancas e bem tratadas que comiam ao lado das fidalgas

e tomavam rapé em caixas d'ouro; e convinha-lhe aquella profissão em que

se falla baixo com as mulheres,--vivendo entre ellas, cochichando,

sentindo-lhes o calor penetrante,--e se recebem presentes em bandejas de

prata. Recordava o padre Liset com um annel de rubi no dedo minimo;

monsenhor Sávedra com os seus bellos oculos d'ouro, bebendo aos goles o

seu copo de _madeira_. As filhas da senhora marqueza bordavam-lhes

chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fôra padre na Bahia, viajára,

estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas

que cheiravam a agua de colonia apoiadas ao castão d'ouro da bengala,

todo rodeado de senhoras em extase e cheias d'um riso beato, cantava,

para as entreter, com a sua bella voz:

Mulatinha da Bahia,

Nascida no Capujá...

Um anno antes de entrar para o seminario o tio fel-o ir a um mestre para

se affirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balcão. Pela

primeira vez na sua existencia Amaro possuiu liberdade. Ia só á escóla,

passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exercicio de infanteria, espreitou

ás portas dos cafés, leu os cartazes dos theatros. Sobretudo começára a

reparar muito nas mulheres--e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes

melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da

escóla, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao

jardim da Estrella. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma

janellinha n'um vão sobre os telhados. Encostava-se alli olhando, e via

parte da cidade baixa que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gaz:

parecia-lhe perceber, vindo de lá, um rumor indefinido: era a vida que

não conhecia e que julgava maravilhosa, com cafés abrazados de luz e

mulheres que arrastam ruge-ruges de sêdas pelos perystillos dos

theatros; perdia-se em imaginações vagas, e de repente appareciam-lhe no

fundo negro da noite fórmas femininas, por fragmentos, uma perna com

botinas de duraque e a meia muito branca, ou um braço roliço arregaçado

até ao hombro... Mas em baixo, na cozinha, a criada começava a lavar a

louça, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe

então desejos de descer, ir roçar-se por ella, ou estar a um canto a

vêl-a escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas

viellas, de saias engommadas e ruidosas, passeando em cabello, com

botinas cambadas: e, da profundidade do seu sêr, subia-lhe uma preguiça,

como que a vontade de abraçar alguem, de não se sentir só. Julgava-se

infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:

--Então tu não estudas, mariola?

E d'ahi a pouco, sobre o _Tito-Livio_, cabeceando de somno, sentindo-se

desgraçado, roçando os joelhos um contra o outro, torturava o

diccionario.

Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de

padre, _porque não poderia casar_. Já as convivencias da escóla tinham

introduzido na sua natureza effeminada curiosidades, corrupções. Ás

escondidas fumava cigarros: emmagrecia e andava mais amarello.

Entrou no seminario. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um

pouco humidos, as lampadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as

batinas negras, o silencio regulamentado, o toque das sinetas--deram-lhe

uma tristeza lugubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto

bonito agradou. Começaram a tratal-o por _tu_, a admittil-o, durante as

horas de recreio ou nos passeios do domingo, ás conversas em que se

contavam anecdotas dos mestres, se calumniava o reitor, e perpetuamente

se lamentavam as melancolias da clausura: porque quasi todos fallavam

com saudade das existencias livres que tinham deixado: os da aldeia não

podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de

cantigas e de abraços, as filas da boiada que recolhe, emquanto um vapor

se exhala dos prados; os que vinham das pequenas villas lamentavam as

ruas tortuosas e tranquillas d'onde se namoram as visinhas, os alegres

dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim.

Não lhes bastava o pateo do recreio lageado, com as suas arvores

definhadas, os altos muros somnolentos, o monotono jogo da bola:

abafavam na estreiteza dos corredores, na sala de Santo Ignacio, onde se

faziam as meditações da manhã e se estudavam á noite as lições; e

invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes--o almocreve

que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia

cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes,

apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro.

Da janella d'um corredor via-se uma volta de estrada; á tardinha uma

diligencia costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do

chicote, ao trote das tres eguas, carregada de bagagens; passageiros

alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos

charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com

elles para as alegres villas e para as cidades, pela frescura das

madrugadas ou sob a claridade das estrellas!

E no refeitorio, diante do escasso caldo de hortaliça, quando o regente

de voz grossa começava a lêr monotonamente as cartas d'algum missionario

da China ou as Pastoraes do senhor Bispo, quantas saudades dos jantares

de familia! As boas postas de peixe! o tempo da matança! os rojões

quentes que chiam no prato! os sarrabulhos cheirosos!

Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto

enfastiado da tia coberto de pó d'arroz; mas insensivelmente poz-se

tambem a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do

gaz e das voltas da escóla com os livros n'uma correia, quando parava

encostado á vitrina das lojas a contemplar a nudez das bonecas!

Lentamente, porém, com a sua natureza incaracteristica, foi entrando

como uma ovelha indolente na regra do seminario. Decorava com

regularidade os seus compendios; tinha uma exactidão prudente nos

serviços ecclesiasticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo

diante dos lentes--chegou a ter boas notas.

Nunca pudera comprehender os que pareciam gozar o seminario com

beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabeça baixa, textos

da _Imitação_ ou de Santo Ignacio; na capella, com os olhos em alvo,

empallideciam d'extase; mesmo no recréio, ou nos passeios, iam lendo

algum volumesinho de _Louvores a Maria_; e cumpriam com delicia as

regras mais miudas--até subir só um degrau de cada vez, como recommenda

S. Boaventura. A esses o seminario dava um ante-gosto do céo: a elle só

lhe offerecia as humilhações d'uma prisão, com os tedios d'uma escóla.

Não comprehendia tambem os ambiciosos: os que queriam ser caudatarios

d'um bispo, e nas altas salas dos paços episcopaes erguer os reposteiros

de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de

ordenados, servir uma igreja aristocratica, e, diante das devotas ricas

que se accumulam no _frou-frou_ das sêdas sobre o tapete do altar-mór,

cantar com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fóra da Igreja:

ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lageadas o _tlim-tlim_

d'um sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um

chapéo desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas

largas eiras cheias de medas, apear á porta das adegas. E, a não ser

alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdocio ou aos destinos

seculares, queriam deixar a estreiteza do seminario para comer bem,

ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.

Amaro não desejava nada:

--Eu nem sei..., dizia elle melancolicamente.

No entretanto, escutando por sympathia aquelles para quem o seminario

era o «tempo das galés», sahia muito perturbado d'aquellas conversas

cheias de impaciente ambição da vida livre. Ás vezes fallavam de fugir.

Faziam planos, calculando a altura das janellas, as peripecias da noite

negra pelos negros caminhos: anteviam balcões de tabernas onde se bebe,

salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo nervoso:

sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir e, no fundo das

suas imaginações e dos seus sonhos, ardia, como uma braza silenciosa, o

desejo da Mulher.

Na sua cella havia uma imagem da Virgem coroada de estrellas, pousada

sobre a esphera, com o olhar errante pela luz immortal, calcando aos pés

a serpente. Amaro voltava-se para ella como para um refugio, rezava-lhe

a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a lithographia, esquecia a

santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura;

amava-a; suspirava; despindo-se olhava-a de revez lubricamente; e mesmo

a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da tunica azul da

imagem e suppôr fórmas, redondezas, uma carne branca... Julgava então

vêr os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama

d'agua benta; mas não se atrevia a revelar estes delirios, no

confessionario, ao domingo.

Quantas vezes ouvira, nas prédicas, o mestre de Moral fallar, com a sua

voz roufenha, do Peccado, comparal-o á serpente e, com palavras

unctuosas e gestos arqueados, deixando cahir vagarosamente a pompa

mellíflua dos seus periodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando

a Virgem, calcassem aos pés a _serpente ominosa_! E depois era o mestre

de Theologia mystica que fallava, sorvendo o seu rapé, no dever de

_vencer a Natureza_! E citando S. João de Damasco e S. Chrysologo, S.

Cypriano e S. Jeronymo, explicava os anathemas dos santos contra a

Mulher, a quem chamava, segundo as expressões da Igreja, Serpente,

Dardo, Filha da mentira, Porta do inferno, Cabeça do crime, Escorpião...

--E como disse o nosso padre S. Jeronymo,--e assoava-se

estrondosamente--Caminho de iniquidades, _iniquitas via_!

Até nos compendios encontrava a preoccupação da Mulher! Que sêr era

esse, pois, que através de toda a theologia ora era collocada sobre o

altar como a Rainha da Graça, ora amaldiçoada com apostrophes barbaras?

Que poder era o seu, que a legião dos santos ora se arremessa ao seu

encontro, n'uma paixão extatica, dando-lhe por acclamação o profundo

reino dos céos,--ora vai fugindo diante d'ella como do Universal

Inimigo, com soluços de terror e gritos d'odio, e escondendo-se, para a

não vêr, nas thebaidas e nos claustros, vai alli morrendo do mal de a

ter amado? Sentia, sem as definir, estas perturbações! ellas renasciam,

desmoralisavam-no perpetuamente: e já antes de fazer os seus votos

desfallecia no desejo de os quebrar.

E em redor d'elle sentia iguaes rebelliões da natureza: os estudos, os

jejuns, as penitencias podiam domar o corpo, dar-lhe habitos machinaes,

mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como n'um ninho

serpentes imperturbadas. Os que mais soffriam eram os sanguineos, tão

doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus nos

punhos das camisas. Assim, quando estavam sós, o temperamento irrompia:

luctavam, faziam forças, provocavam desordens. Nos lymphaticos a

natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os silencios molles:

desforravam-se então no amor dos pequenos vícios: jogar com um velho

baralho, lêr um romance, obter de intrigas demoradas um maço de

cigarros--quantos encantos do peccado!

Amaro por fim quasi invejava os estudiosos; ao menos esses estavam

contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no silencio da

alta livraria, eram respeitados, usavam oculos, tomavam rapé. Elle mesmo

tinha ás vezes ambições repentinas da sciencia; mas diante dos vastos

_in-folios_ vinha-lhe um tedio insuperavel. Era no emtanto devoto:

rezava, tinha fé illimitada em certos santos, um terror angustioso de

Deus. Mas odiava a clausura do seminario! A capella, os chorões do

pateo, as comidas monotonas do longo refeitorio lageado, os cheiros dos

corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria

bom, puro, crente, se estivesse na liberdade d'uma rua ou na paz d'um

quintal, fóra d'aquellas negras paredes. Emmagrecia, tinha suores

eticos: e mesmo no ultimo anno, depois do serviço pesado da Semana

Santa, como começavam os calores, entrou na enfermaria com uma febre

nervosa.

Ordenou-se emfim pelas temporas de S. Matheus; e pouco tempo depois

recebeu, ainda no seminario, esta carta do snr. padre Liset:

«Meu querido filho e novo collega.--Agora que está ordenado, entendo em

minha consciencia que devo dar-lhe conta do estado dos seus negocios,

pois quero cumprir até ao fim o encargo com que carregou os meus hombros

debeis a nossa chorada marqueza, attribuindo-me a honra de administrar o

legado que lhe deixou. Porque, ainda que os bens mundanos pouco deviam

importar a uma alma votada ao sacerdocio, são sempre as boas contas que

fazem os bons amigos. Saberá, pois, meu querido filho, que o legado da

querida marqueza--para quem deve erguer em sua alma uma gratidão

eterna--está inteiramente exhausto. Aproveito esta occasião para lhe

dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o

estabelecimento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de

qualificar: cahiu sob o imperio das paixões, e tendo-se ligado

illegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza,

e hoje estabeleceu uma casa de hospedes na rua dos Calafates n.^o 53. Se

toco n'estas impurezas, tão improprias de que um tenro levita como o meu

querido filho tenha d'ellas conhecimento, é porque lhe quero dar cabal

relação da sua respeitavel familia. Sua irmã, como decerto sabe, casou

rica em Coimbra, e ainda que no casamento não é o ouro que devemos

apreciar, é todavia importante, para futuras circumstancias, que o meu

querido filho esteja de posse d'este facto. Do que me escreveu o nosso

querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguezia de Feirão, na

Gralheira, vou fallar com algumas pessoas importantes que têm a extrema

bondade de attender um pobre padre que só pede a Deus misericordia.

Espero, todavia, conseguir. Persevere, meu querido filho, nos caminhos

da virtude, de que sei que a sua boa alma está repleta, e creia que se

encontra a felicidade n'este nosso santo ministerio quando sabemos

comprehender quantos são os balsamos que derrama no peito e quantos os

refrigerios que dá--o serviço de Deus! Adeus, meu querido filho e novo

collega. Creia que sempre o meu pensamento estará com o pupillo da nossa

chorada marqueza, que decerto do céo, onde a elevaram as suas virtudes,

supplica á Virgem, que ella tanto serviu e amou, a felicidade do seu

caro pupillo.» _Liset_.

«P. S.--O appellido do marido de sua irmã é Trigoso.» _Liset_.

Dois mezes depois Amaro foi nomeado parocho de Feirão, na Gralheira,

serra da Beira-Alta. Esteve alli desde outubro até ao fim das neves.

Feirão é uma parochia pobre de pastores e n'aquella época quasi

deshabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tedio á

lareira, ouvindo fóra o inverno bramir na serra. Pela primavera vagaram

nos districtos de Santarem e de Leiria parochias populosas, com boas

congruas. Amaro escreveu logo á irmã contando a sua pobreza em Feirão;

ella mandou-lhe, com recommendações de economia, doze moedas para ir a

Lisboa requerer. Amaro partiu immediatamente. Os ares lavados e vivos da

serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito,

sympathico, com uma boa côr na pelle trigueira.

Logo que chegou a Lisboa foi á rua dos Calafates n.^o 53, a casa da tia:

achou-a velha, com laços vermelhos n'uma cuia enorme, toda coberta de pó

d'arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria piedosa que abriu

os seus magros braços a Amaro.

-Como estás bonito! Ora não ha! Quem te viu! Ih, Jesus! que mudança!

Admirava-lhe a batina, a corôa: e contando-lhe as suas desgraças, com

exclamações sobre a salvação da sua alma e sobre a carestia dos generos,

foi-o levando para o terceiro andar, a um quarto que dava para o saguão.

--Ficas aqui como um abbade, disse-lhe ella. E baratinho!... Ai! ter-te

de graça queria eu, mas... Tenho sido muito infeliz, Joãosinho!... Ai!

desculpa, Amaro! Estou sempre com o Joãosinho na cabeça...

Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Luiz. Tinha ido

para França. Lembrou-se então da filha mais nova da senhora marqueza

d'Alegros, a snr.^a D. Luiza, que estava casada com o conde de Ribamar,

conselheiro d'Estado, com influencia, regenerador fiel desde cincoenta e

um e duas vezes ministro do reino.

E, por conselho da tia, Amaro, logo que metteu o seu requerimento, foi

uma manhã a casa da snr.^a condessa de Ribamar, a Buenos-Ayres. Á porta

um _coupé_ esperava.

--A senhora condessa vai sahir, disse um criado de gravata branca e

quinzena de alpaca, encostado á hombreira do pateo, de cigarro na boca.

N'esse momento, d'uma porta de batentes de baena verde, sobre um degrau

de pedra, ao fundo do pateo lageado, uma senhora sahia, vestida de

claro. Era alta, magra, loura, com pequeninos cabellos frisados sobre a

testa, lunetas d'ouro n'um nariz comprido e agudo, e no queixo um

signalzinho de cabellos claros.

--A senhora condessa já me não conhece..., disse Amaro com o chapéo na

mão, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.

--O Amaro!? disse ella como estranha ao nome. Ah! bom Jesus, quem elle

é! Ora não ha! Está um homem! Quem diria!

Amaro sorria-se.

--Eu podia lá esperar! continuou ella admirada. E está agora em Lisboa?

Amaro contou a sua nomeação para Feirão, a pobreza da parochia...

--De maneira que vim requerer, senhora condessa.

Ella escutava-o com as mãos apoiadas n'uma alta sombrinha de sêda clara,

e Amaro sentia vir d'ella um perfume de pó d'arroz e uma frescura de

cambraias.

--Pois deixe estar, disse ella, fique descansado. Meu marido ha de

fallar. Eu me encarrego d'isso. Olhe, venha por cá.--E com o dedo sobre

o canto da boca:--Espere, ámanhã vou para Cintra. Domingo, não. O melhor

é d'aqui a quinze dias. D'aqui a quinze dias pela manhã, sou certa.--E

rindo com os seus largos dentes frescos:--Parece que o estou a vêr

traduzir Chateaubriand com a mana Luiza! Como o tempo passa!

--Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.

--Sim, bem. Está n'uma quinta em Santarem.

Deu-lhe a mão, calçada de _peau de suède_, n'um aperto sacudido que fez

tilintar os seus braceletes d'ouro, e saltou para o _coupé_, magra e

ligeira, com um movimento que levantou brancuras de saias.

Amaro começou então a esperar. Era em julho, no pleno calor. Dizia missa

pela manhã em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos e casaco de

ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. Ás vezes ia conversar com a

tia para a sala de jantar; as janellas estavam cerradas, na penumbra

zumbia a monotona susurração das moscas; a tia a um canto do velho

canapé de palhinha fazia _crochet_, com a luneta encavallada na ponta do

nariz; Amaro, bocejando, folheava um antigo volume do _Panorama_.

Á noitinha sahia, a dar duas voltas no Rocio. Abafava-se, no ar pesado e

immovel: a todos os cantos se apregoava monotonamente _agua fresca!_

Pelos bancos, debaixo das arvores, vadios remendados dormitavam; em

redor da praça, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam

vagarosamente; as claridades dos cafés reluziam; e gente encalmada, sem

destino, movia, bocejando, a sua preguiça pelos passeios das ruas.

Amaro então recolhia, e no seu quarto, com a janella aberta ao calor da

noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava

cigarros, ruminava as suas esperanças. A cada momento lhe acudiam, com

rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: _fique descansado,

meu marido ha de fallar!_ E via-se já parocho n'uma bonita villa, n'uma

casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranquillo e

importante, recebendo bandejas de dôce das devotas ricas.

Vivia então n'um estado de espirito muito repousado. As exaltações, que

no seminario lhe causava a continencia, tinham-se acalmado com as

satisfações que lhe dera em Feirão uma grossa pastora, que elle gostava

de vêr ao domingo tocar á missa, dependurada da corda do sino, rolando

nas saias de saragoça, e a face a estourar de sangue. Agora, sereno,

pagava pontualmente ao céo as orações que manda o ritual, trazia a carne

contente e calada, e procurava estabelecer-se regaladamente.

No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.

--Não está, disse-lhe um criado da cavallariça.

Ao outro dia voltou, já inquieto. Os batentes verdes estavam abertos; e

Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete vermelho

fixado com varões de metal. Da alta claraboia cahia uma luz suave; ao

cimo da escada, no patamar, sentado n'uma banqueta de marroquim

escarlate, um criado encostado á parede branca envernizada, com a cabeça

pendente e o beiço cahido, dormia. Fazia um grande calor; aquelle alto

silencio aristocratico aterrava Amaro; esteve um momento com o seu

guardasol pendente do dedo minimo, hesitando; tossiu devagarinho, para

acordar o criado que lhe pareceia terrivel com a sua bella suiça preta,

o seu rico grilhão d'ouro; e ia descer quando ouviu por detraz d'um

reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o lenço o pó

esbranquiçado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho

n'uma larga sala com estofos de damasco amarello; uma grande luz entrava

das varandas abertas, e viam-se arvoredos de jardim. No meio da sala

tres homens de pé conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:

--Não sei se incommódo...

Um homem alto, de bigode grisalho e oculos de ouro, voltou-se

surprehendido, com o charuto ao canto da boca e as mãos nos bolsos. Era

o senhor conde.

--Sou Amaro...

--Ah, disse o conde, o senhor padre Amaro! Conheço muito bem! Tem a

bondade... Minha mulher fallou-me. Tem a bondade...

E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quasi calvo, de calças

brancas muito curtas:

--É a pessoa de quem lhe fallei.--Voltou-se para Amaro:--É o senhor

ministro.

Amaro curvou-se, servilmente.

--O senhor padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi creado de pequeno

em casa de minha sogra. Nasceu lá, creio eu...

--Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro que se conservava afastado,

com o guardasol na mão.

--Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora,--já não ha

d'isso!--fel-o padre. Houve até um legado, creio eu... Emfim, aqui o

temos parocho... Onde, senhor padre Amaro?

--Feirão, excellentissimo senhor.

--Feirão!?... disse o ministro estranhando o nome.

--Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado. Era um

homem magro, entalado n'uma sobrecasaca azul, muito branco de pelle, com

soberbas suiças d'um negro de tinta e um admiravel cabello lustroso de

pomada, apartado até ao cachaço n'uma risca perfeita.

--Emfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguezia pobre, sem

distracções, com um clima horrivel...

--Eu metti já requerimento, excellentissimo senhor, arriscou Amaro

timidamente.

--Bem, bem, affirmou o ministro. Ha de arranjar-se.--E mascava o seu

charuto.

--É uma justiça, disse o conde. Mais, é uma necessidade! Os homens novos

e activos devem estar nas parochias difficeis, nas cidades... É claro!

Mas não: olhe, lá ao pé da minha quinta, em Alcobaça, ha um velho, um

gottoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a fé.

--É verdade, disse o ministro, mas essas collocações nas boas parochias

devem naturalmente ser recompensas dos bons serviços. É necessario o

estimulo...

--Perfeitamente, replicou o conde; mas serviços religiosos,

profissionaes, serviços á Igreja, não serviços aos governos.

O homem das soberbas suiças negras teve um gesto d'objecção.

--Não acha? perguntou-lhe o conde.

--Respeito muito a opinião de vossa excellencia, mas se me permitte...

Sim, digo eu, os parochos na cidade são-nos d'um grande serviço nas

crises eleitoraes. D'um grande serviço!

--Pois sim. Mas...

--Olhe vossa excellencia, continuou elle, sôfrego da palavra. Olhe vossa

excellencia em Thomar. Porque perdemos? Pela attitude dos parochos. Nada

mais.

O conde acudiu:

--Mas perdão, não deve ser assim; a religião, o clero não são agentes

eleitoraes.

--Perdão... queria interromper o outro.

O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras

pausadas, cheias da auctoridade d'um vasto entendimento:

--A religião, disse elle, póde, deve mesmo auxiliar os governos no seu

estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...

--Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo pelliculas

mascadas de charuto.

--Mas descer ás intrigas, continuou o conde devagar, aos _imbroglios_...

Perdôe-me, meu caro amigo, mas não é d'um christão.

--Pois sou-o, senhor conde! exclamou o homem das suiças soberbas. Sou-o

a valer! Mas tambem sou liberal. E entendo que no governo

representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais solidas...

--Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero e

desacredita a politica.

--Mas são ou não as maiorias um principio _sagrado_? gritava rubro o das

suiças, accentuando o adjectivo.

--São um principio _respeitavel_.

--Upa! upa, excellentissimo senhor! upa!

O padre Amaro escutava, immovel.

--Minha mulher ha de querer vêl-o, disse-lhe então o conde. E

dirigindo-se a um reposteiro que levantou:--Entre. É o senhor padre

Amaro, Joanna!

Era uma sala forrada de papel branco assetinado, com moveis estofados de

casimira clara. Nos vãos das janellas, entre as cortinas de pregas

largas d'uma fazenda adamascada côr de leite, apanhadas quasi junto do

chão por faxas de sêda, arbustos delgados, sem flôr, erguiam em vasos

brancos a sua folhagem fina. Uma meia luz fresca dava a todas aquellas

alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas d'uma cadeira uma arara

empoleirada, firme n'um só pé negro, coçava vagarosamente, com

contracções aduncas, a sua cabeça verde. Amaro, embaraçado, curvou-se

logo para um canto do sofá, onde viu os cabellinhos louros e frisados da

senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de

ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda,

sentado diante d'ella n'uma cadeira baixa, com os cotovêlos sobre os

joelhos abertos, occupava-se em balançar, como um pendulo, um

_pince-nez_ de tartaruga. A condessa tinha no regaço uma cadellinha, e

com a sua mão sêcca e fina, cheia de veias, acamava-lhe o pêllo branco

como algodão.

--Como está, snr. Amaro?--A cadella rosnou.--Quieta, _Joia_... Sabe que

já fallei no seu negocio? Quieta, _Joia_... O ministro está alli.

--Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé.

--Sente-se aqui, senhor padre Amaro.

Amaro pousou-se á beira d'um _fauteil_, com o seu guardasol na mão--e

reparou então n'uma senhora alta que estava de pé, junto do piano,

fallando com um rapaz louro.

--Que tem feito estes dias, snr. Amaro? disse a condessa. Diga-me uma

coisa: sua irmã?

--Está em Coimbra, casou.

--Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anneis.

Houve um silencio. Amaro, d'olhos baixos, passava, com um gesto

embaraçado e errante, os dedos pelos beiços.

--O senhor padre Liset está para fóra? perguntou.

--Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, disse a condessa. Está o

mesmo sempre; muito amavel, muito dôce. É a alma mais virtuosa!...

--Eu prefiro o padre Felix, disse o rapaz gordo estirando as pernas.

--Não diga isso, primo! Jesus, brada aos céos! Pois então o padre Liset,

tão respeitavel!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma

bondade... Vê-se que é um coração delicado...

--Pois sim, mas o padre Felix...

--Ai, nem diga isso! Que o padre Felix é uma pessoa de muita virtude,

decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais...--E com um gesto

delicado procurava a palavra:--mais fina, mais distincta... Emfim, vive

com outra gente.--E sorrindo para Amaro:--Pois não acha?

Amaro não conhecia o padre Felix, não se recordava do padre Liset.

--Já é velho o senhor padre Liset, observou ao acaso.

--Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que

enthusiasmo!... Ai, é outra coisa!--E voltando-se para a senhora que

estava junto do piano:--Pois não achas, Thereza?

--Já vou, respondeu Thereza, toda absorvida.

Amaro afirmou-se então n'ella. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com

a sua alta e forte estatura, uma linha de hombros e de seio magnifica;

os cabellos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a pallidez do

rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Marie Antoinette; o seu

vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as

pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom

monotono das alvuras da sala; o collo, os braços estavam cobertos por

uma gaze preta, que fazia apparecer através a brancura da carne; e

sentia-se nas suas fórmas a firmeza dos marmores antigos, com o calor

d'um sangue rico.

Fallava baixo, sorrindo, n'uma lingua aspera que Amaro não comprehendia,

cerrando e abrindo o seu leque preto--e o rapaz louro, bonito,

escutava-a retorcendo a ponta d'um bigode fino, com um quadrado de vidro

entalado no olho.

--Havia muita devoção na sua parochia, snr. Amaro? perguntava no emtanto

a condessa.

--Muita, muito boa gente.

--É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou ella com

um tom piedoso.--Queixou-se da obrigação de viver na cidade, nos

captiveiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de

Carcavellos, rezar na pequena capella antiga, conversar com as boas

almas da aldeia!--e a sua voz tornára-se terna.

O rapaz rechonchudo ria-se:

--Ora, prima! dizia; ora, prima!--Não, elle, se o obrigassem a ouvir

missa n'uma capellinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!...

Não comprehendia, por exemplo, a religião sem musica... Era lá possivel

uma festa religiosa sem uma boa voz de contralto!?

--Sempre é mais bonito, disse Amaro.

--Está claro que é. É outra coisa! Tem _cachet_! Ó prima, lembra-se

d'aquelle tenor... como se chamava elle? O Vidalti. Lembra-se do

Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglezinhos? O _tantum ergo_?

--Eu preferia-o no _Baile de mascaras_, disse a condessa.

--Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!

No emtanto o rapaz louro viera apertar a mão á senhora condessa,

fallando-lhe baixo, muito risonho. Amaro admirava a nobreza da sua

estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe cahira uma luva, e

apanhou-lh'a servilmente. Quando elle sahiu Thereza, depois de se ter

aproximado vagarosamente da janella e olhado para a rua--foi sentar-se

n'uma _causeuse_ com um abandono que punha em relêvo a magnifica

esculptura do seu corpo; e voltando-se preguiçosamente para o rapaz

rechonchudo:

--Vamo-nos, João?

A condessa disse-lhe então:

--Sabes que o senhor padre Amaro foi creado commigo em Bemfica?

Amaro fez-se vermelho: sentia que Thereza pousava sobre elle os seus

bellos olhos d'um negro humido como o setim preto coberto de agua.

--Está na provincia agora? perguntou ella, bocejando um pouco.

--Sim, minha senhora, vim ha dias.

--Na aldeia? continuou ella, abrindo e cerrando vagarosamente o seu

leque.

Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse,

acariciando o cabo do guardasol:

--Na serra, minha senhora.

--Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Ha sempre neve, diz que a

igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao

ministro a vêr se o mudavamos. Pede-lhe tu tambem...

--O quê? disse Thereza.

A condessa contou que Amaro requerera para uma parochia melhor. Fallou

de sua mãi, da amizade que ella tinha a Amaro...

--Morria-se por elle. Ora um nome que ella lhe dava... Não se lembra?

--Não sei, minha senhora.

--Frei _Maleitas_!... Tem graça! Como o snr. Amaro era amarellito,

sempre mettido na capella...

Mas Thereza, dirigindo-se á condessa:

--Sabes com que se parece este senhor?

A condessa affirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.

--Não se parece com aquelle pianista do anno passado? continuou Thereza.

Não me lembra agora o nome...

--Bem sei, o Jalette, disse a condessa. Bastante. No cabello, não.

--Está visto, o outro não tinha corôa!

Amaro fez-se escarlate. Thereza ergueu-se arrastando a sua soberba

cauda, sentou-se ao piano.

--Sabe musica? perguntou, voltando-se para Amaro.

--A gente aprende no seminario, minha senhora.

Ella correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas,

e tocou a phrase do _Rigoleto,_ parecida com o _Minuete de Mozart_, que

diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da senhora de

Crécy--e cujo rhythmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que

findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.

Amaro estava enlevado. Aquella sala rica com as suas alvuras de nuvem, o

piano apaixonado, o collo de Thereza que elle via sob a negra

transparencia da gaze, as suas tranças de deusa, os tranquillos

arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéa d'uma existencia

superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em _coupés_

acolchoados, com arias de operas, melancolias de bom gosto e amores d'um

gozo raro. Enterrado na elasticidade da _causeuse_, sentindo a musica

chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu

cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e,

assustado, demora o seu prazer--pensando que vai voltar á dureza das

côdeas sêccas e á poeira dos caminhos.

No emtanto Thereza, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga aria

inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:

_The village seems dead and asleep

When Lubin is away!..._

--Bravo! bravo! exclamou o ministro da justiça apparecendo á porta,

batendo dôcemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!

--Tenho um pedido a fazer-lhe, snr. Correia, disse Thereza erguendo-se

logo.

O ministro veio, com uma pressa galante:

--Que é, minha senhora? que é?

O conde e o sujeito de magnificas suiças tinham entrado discutindo

ainda.

--A Joanna e eu temos que lhe pedir, disse Thereza ao ministro.

--Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.

--Mas, minhas senhoras, disse o ministro sentando-se confortavelmente,

com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata? É uma

coisa grave? meu Deus! prometto, prometto solemnemente...

--Bem, disse Thereza batendo-lhe com o leque no braço. Então qual é a

melhor parochia vaga?

--Ah! disse o ministro comprehendendo e olhando para Amaro, que vergou

os hombros, córado.

O homem das suiças, que estava de pé fazendo saltar circumspectamente os

berloques, adiantou-se, cheio de informações:

--Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital do districto e séde do

bispado.

--Leiria? disse Thereza. Bem sei, é onde ha umas ruinas?

--Um castello, minha senhora, edificado por D. Diniz.

--Leiria é excellente!

--Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, séde do bispado, uma

cidade... O senhor padre Amaro é um ecclesiastico novo...

--Ora, snr. Correia! exclamou Thereza, e o senhor não é novo?

O ministro sorriu, curvando-se.

--Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coçava

ternamente a cabeça da arara.

--Parece-me inutil, o pobre Correia está vencido! A prima Thereza

chamou-lhe novo!

--Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece que seja uma lisonja

excepcional; eu não sou tambem tão antigo...

--Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te que já conspiravas em 1820!

--Era meu pai, calumniador, era meu pai!

Todos riram.

--Snr. Correia, disse Thereza, está entendido. O senhor padre Amaro vai

para Leiria!

--Bem, bem, succumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas é uma

tyrannia!

--_Thank you_, fez Thereza, estendendo-lhe a mão.

--Mas, minha senhora, estou a estranhal-a, disse o ministro fixando-a.

--Estou contente hoje, disse ella. Olhou um momento para o chão,

distrahida, dando pequeninas pancadas no vestido de sêda, levantou-se,

foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeçou a dôce aria ingleza:

_The village seems dead and asleep

When Lubin is away!..._

Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.

--É negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se com o bispo.

D'aqui a uma semana está nomeado. Póde ir descansado.

Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto

do piano:

--Senhor ministro, eu agradeço...

--Á senhora condessa, á senhora condessa, disse o ministro sorrindo.

--Minha senhora, eu agradeço, veio elle dizer á condessa, todo curvado.

--Ai, agradeça a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias, parece.

--Minha senhora... foi elle dizer a Thereza.

--Lembre-me nas suas orações, senhor padre Amaro, disse ella. E

continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano--as tristezas da

aldeia quando Lubin esta ausente!

Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho. Mas não tornára a

esquecer aquella manhã em casa da senhora condessa de Ribamar,--o

ministro de calças muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo o

seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e

louro que dizia _yes_...Cantava-lhe sempre no cerebro aquella aria

triste do _Rigoleto_; e perseguia-o a brancura dos braços de Thereza sob

a gaze negra! Instinctivamente via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em

torno do pescoço airoso do rapaz louro:--detestava-o então, e a língua

barbara que fallava, e a terra heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as

fontes á idéa de que um dia poderia confessar aquella mulher divina e

sentir o seu vestido de sêda preta roçar pela sua batina de lustrina

velha, na escura intimidade do confessionario.

Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços da tia, partiu para

Santa Apolonia, com um gallego que lhe levava o bahú. A madrugada

rompia. A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se. Ás vezes

uma carroça passava rolando, abalando a calçada; as ruas pareciam-lhe

interminaveis; saloios começavam a chegar montados nos seus burros, com

as pernas balouçadas, cobertas de altas botas enlameadas; n'uma ou

n'outra rua uma voz aguda já apregoava os jornaes; e os moços dos

theatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.

Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do sol alaranjava o ar por

detraz dos montes da Outra-Banda: o rio estendia-se, immovel, riscado de

correntes de côr de aço sem lustre; e já alguma vela de falua passava,

vagarosa e branca.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 21 / 45 题