Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marqueza d'Alegros.
Seu pai era criado do marquez; a mãi era criada de quarto, quasi uma
amiga da senhora marqueza. Amaro conservava ainda um livro, o _Menino
das selvas_, com barbaras imagens coloridas, que tinha escripto na
primeira pagina branca: _Á minha muito estimada criada Joanna Vieira e
verdadeira amiga que sempre tem sido,--Marqueza d'Alegros_. Possuia
tambem um daguerreotypo de sua mãi: era uma mulher forte, de
sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma côr
ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãi, que fôra
sempre tão sã, succumbiu, d'ahi a um anno, a uma tisica de larynge.
Amaro completára então seis annos. Tinha uma irmã mais velha que desde
pequena vivia com a avó em Coimbra, e um tio, mercieiro abastado do
bairro da Estrella. Mas a senhora marqueza ganhára amizade a Amaro;
conservou-o em sua casa, por uma adopção tacita; e começou, com grandes
escrupulos, a vigiar a sua educação.
A marqueza d'Alegros ficára viuva aos quarenta e tres annos e passava a
maior parte do anno retirada na sua quinta de Carcavellos. Era uma
pessoa passiva, de bondade indolente, com capella em casa, um respeito
devoto pelos padres de S. Luiz, sempre preoccupada dos interesses da
Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do Céo e nas
preoccupações da Moda, eram beatas e faziam o _chic_ fallando com igual
fervor da humildade christã e do ultimo figurino de Bruxellas. Um
jornalista de então dissera d'ellas:--Pensam todos os dias na _toilette_
com que hão de entrar no paraiso.
No isolamento de Carcavellos, n'aquella quinta de alamedas
aristocraticas onde os pavões gritavam, as duas meninas enfastiavam-se.
A Religião, a Caridade eram então occupações avidamente aproveitadas:
cosiam vestidos para os pobres da freguezia, bordavam frontaes para os
altares da igreja. De maio a outubro estavam inteiramente absorvidas
pelo trabalho de _salvar a sua alma_; liam os livros beatos e dôces;
como não tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e
cochichavam sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de verão.
A senhora marqueza resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida
ecclesiastica. A sua figura amarellada e magrita pedia aquelle destino
recolhido: era já affeiçoado ás coisas de capella, e o seu encanto era
estar aninhado ao pé de mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo
fallar de santas. A senhora marqueza não o quiz mandar ao collegio
porque receava a impiedade dos tempos e as camaradagens immoraes. O
capellão da casa ensinava-lhe o latim, e a filha mais velha, a snr.^a D.
Luiza, que tinha um nariz de cavallete e lia Chateaubriand, dava-lhe
lições de francez e de geographia.
Amaro era, como diziam os criados, _um mosquinha morta_. Nunca brincava,
nunca pulava ao sol. Se á tarde acompanhava a senhora marqueza ás
alamedas da quinta quando ella descia pelo braço do padre Liset ou do
respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, môno, muito encolhido,
torcendo com as mãos humidas o forro das algibeiras--vagamente assustado
das espessuras d'arvoredos e do vigor das relvas altas.
Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé d'uma ama velha. As
criadas de resto feminisavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio
d'ellas, beijocavam-no, faziam-lhe cocegas, e elle rolava por entre as
saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. Ás
vezes, quando a senhora marqueza sahia, vestiam-no de mulher, entre
grandes risadas: elle abandonava-se, meio nú, com os seus modos
languidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As
criadas, além d'isso, utilisavam-no nas suas intrigas umas com as
outras: era Amaro o que _fazia as queixas_. Tornou-se enredador, muito
mentiroso.
Aos onze annos, ajudava á missa, e aos sabbados limpava a capella. Era o
seu melhor dia; fechava-se por dentro, collocava os santos em plena luz
em cima d'uma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfações
gulosas; e toda a manhã, muito atarefado, cantarolando o Santissimo, ia
tirando a traça dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e cré as
auréolas dos Martyres.
No emtanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miudo e amarellado; nunca
dava uma boa risada, trazia sempre as mãos dos bolsos. Estava
constantemente mettido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas;
bolia nas saias sujas, cheirava os algodões postiços. Era extremamente
preguiçoso, e custava de manhã arrancal-o a uma somnolencia doentia em
que ficava amollecido, todo embrulhado nos cobertores e abraçado ao
travesseiro. Já corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca.
N'um domingo gordo, uma manhã, depois da missa, ao chegar-se ao terraço,
a senhora marqueza de repente cahiu morta com uma apoplexia. Deixava no
seu testamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joanna,
entrasse aos quinze annos no seminario e se ordenasse. O padre Liset
ficava encarregado de realisar esta disposição piedosa. Amaro tinha
então treze annos.
As filhas da senhora marqueza deixaram logo Carcavellos e foram para
Lisboa, para casa da snr.^a D. Barbara de Noronha, sua tia paterna.
Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrella. O mercieiro era um
homem obeso, casado com a filha d'um pobre empregado publico, que o
aceitára para sahir da casa do pai, onde a mesa era escassa, ella devia
fazer as camas e nunca ia ao theatro. Mas odiava o marido, as suas mãos
cabelludas, a loja, o bairro e o seu apellido de snr.^a Gonçalves. O
marido esse adorava-a como a delicia da sua vida, o seu luxo;
carregava-a de joias e chamava-lhe _a sua duqueza_.
Amaro não encontrou alli o elemento feminino e carinhoso em que estivera
tepidamente envolvido em Carcavellos. A tia quasi não reparava n'elle;
passava os seus dias lendo romances, as analyses dos theatros nos
jornaes, vestida de sêda, coberta de pó d'arroz, o cabello em cachos,
esperando a hora em que passava debaixo das janellas, puxando os punhos,
o Cardoso, galan da Trindade. O mercieiro apropriou-se então de Amaro
como d'uma utilidade imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer
logo ás cinco horas da manhã; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano
azul, molhando á pressa o pão na chavena de café, ao canto da mesa da
cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o _cebola_ e o tio
chamava-lhe o _burro_. Pesava-lhes até o magro pedaço de vacca que elle
comia ao jantar. Amaro emmagrecia e todas as noites chorava.
Sabia já que aos quinze annos devia entrar no seminario. O tio todos os
dias lh'o lembrava:
--Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro! Em tendo
quinze annos é para o seminario. Não tenho obrigação de carregar
comtigo! Besta na argola, não está nos meus principios!
E o rapaz desejava o seminario, como um libertamento.
Nunca ninguem consultára as suas tendencias ou a sua vocação.
Impunham-lhe uma sobrepelliz; a sua natureza passiva, facilmente
dominavel, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto não lhe
desagradava _ser padre_. Desde que sahira das rezas perpetuas de
Carcavellos conservára o seu medo do inferno, mas perdera o fervor dos
santos; lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora
marqueza, pessoas brancas e bem tratadas que comiam ao lado das fidalgas
e tomavam rapé em caixas d'ouro; e convinha-lhe aquella profissão em que
se falla baixo com as mulheres,--vivendo entre ellas, cochichando,
sentindo-lhes o calor penetrante,--e se recebem presentes em bandejas de
prata. Recordava o padre Liset com um annel de rubi no dedo minimo;
monsenhor Sávedra com os seus bellos oculos d'ouro, bebendo aos goles o
seu copo de _madeira_. As filhas da senhora marqueza bordavam-lhes
chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fôra padre na Bahia, viajára,
estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas
que cheiravam a agua de colonia apoiadas ao castão d'ouro da bengala,
todo rodeado de senhoras em extase e cheias d'um riso beato, cantava,
para as entreter, com a sua bella voz:
Mulatinha da Bahia,
Nascida no Capujá...
Um anno antes de entrar para o seminario o tio fel-o ir a um mestre para
se affirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balcão. Pela
primeira vez na sua existencia Amaro possuiu liberdade. Ia só á escóla,
passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exercicio de infanteria, espreitou
ás portas dos cafés, leu os cartazes dos theatros. Sobretudo começára a
reparar muito nas mulheres--e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes
melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da
escóla, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao
jardim da Estrella. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma
janellinha n'um vão sobre os telhados. Encostava-se alli olhando, e via
parte da cidade baixa que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gaz:
parecia-lhe perceber, vindo de lá, um rumor indefinido: era a vida que
não conhecia e que julgava maravilhosa, com cafés abrazados de luz e
mulheres que arrastam ruge-ruges de sêdas pelos perystillos dos
theatros; perdia-se em imaginações vagas, e de repente appareciam-lhe no
fundo negro da noite fórmas femininas, por fragmentos, uma perna com
botinas de duraque e a meia muito branca, ou um braço roliço arregaçado
até ao hombro... Mas em baixo, na cozinha, a criada começava a lavar a
louça, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe
então desejos de descer, ir roçar-se por ella, ou estar a um canto a
vêl-a escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas
viellas, de saias engommadas e ruidosas, passeando em cabello, com
botinas cambadas: e, da profundidade do seu sêr, subia-lhe uma preguiça,
como que a vontade de abraçar alguem, de não se sentir só. Julgava-se
infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:
--Então tu não estudas, mariola?
E d'ahi a pouco, sobre o _Tito-Livio_, cabeceando de somno, sentindo-se
desgraçado, roçando os joelhos um contra o outro, torturava o
diccionario.
Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de
padre, _porque não poderia casar_. Já as convivencias da escóla tinham
introduzido na sua natureza effeminada curiosidades, corrupções. Ás
escondidas fumava cigarros: emmagrecia e andava mais amarello.
Entrou no seminario. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um
pouco humidos, as lampadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as
batinas negras, o silencio regulamentado, o toque das sinetas--deram-lhe
uma tristeza lugubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto
bonito agradou. Começaram a tratal-o por _tu_, a admittil-o, durante as
horas de recreio ou nos passeios do domingo, ás conversas em que se
contavam anecdotas dos mestres, se calumniava o reitor, e perpetuamente
se lamentavam as melancolias da clausura: porque quasi todos fallavam
com saudade das existencias livres que tinham deixado: os da aldeia não
podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de
cantigas e de abraços, as filas da boiada que recolhe, emquanto um vapor
se exhala dos prados; os que vinham das pequenas villas lamentavam as
ruas tortuosas e tranquillas d'onde se namoram as visinhas, os alegres
dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim.
Não lhes bastava o pateo do recreio lageado, com as suas arvores
definhadas, os altos muros somnolentos, o monotono jogo da bola:
abafavam na estreiteza dos corredores, na sala de Santo Ignacio, onde se
faziam as meditações da manhã e se estudavam á noite as lições; e
invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes--o almocreve
que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia
cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes,
apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro.
Da janella d'um corredor via-se uma volta de estrada; á tardinha uma
diligencia costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do
chicote, ao trote das tres eguas, carregada de bagagens; passageiros
alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos
charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com
elles para as alegres villas e para as cidades, pela frescura das
madrugadas ou sob a claridade das estrellas!
E no refeitorio, diante do escasso caldo de hortaliça, quando o regente
de voz grossa começava a lêr monotonamente as cartas d'algum missionario
da China ou as Pastoraes do senhor Bispo, quantas saudades dos jantares
de familia! As boas postas de peixe! o tempo da matança! os rojões
quentes que chiam no prato! os sarrabulhos cheirosos!
Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto
enfastiado da tia coberto de pó d'arroz; mas insensivelmente poz-se
tambem a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do
gaz e das voltas da escóla com os livros n'uma correia, quando parava
encostado á vitrina das lojas a contemplar a nudez das bonecas!
Lentamente, porém, com a sua natureza incaracteristica, foi entrando
como uma ovelha indolente na regra do seminario. Decorava com
regularidade os seus compendios; tinha uma exactidão prudente nos
serviços ecclesiasticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo
diante dos lentes--chegou a ter boas notas.
Nunca pudera comprehender os que pareciam gozar o seminario com
beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabeça baixa, textos
da _Imitação_ ou de Santo Ignacio; na capella, com os olhos em alvo,
empallideciam d'extase; mesmo no recréio, ou nos passeios, iam lendo
algum volumesinho de _Louvores a Maria_; e cumpriam com delicia as
regras mais miudas--até subir só um degrau de cada vez, como recommenda
S. Boaventura. A esses o seminario dava um ante-gosto do céo: a elle só
lhe offerecia as humilhações d'uma prisão, com os tedios d'uma escóla.
Não comprehendia tambem os ambiciosos: os que queriam ser caudatarios
d'um bispo, e nas altas salas dos paços episcopaes erguer os reposteiros
de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de
ordenados, servir uma igreja aristocratica, e, diante das devotas ricas
que se accumulam no _frou-frou_ das sêdas sobre o tapete do altar-mór,
cantar com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fóra da Igreja:
ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lageadas o _tlim-tlim_
d'um sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um
chapéo desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas
largas eiras cheias de medas, apear á porta das adegas. E, a não ser
alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdocio ou aos destinos
seculares, queriam deixar a estreiteza do seminario para comer bem,
ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.
Amaro não desejava nada:
--Eu nem sei..., dizia elle melancolicamente.
No entretanto, escutando por sympathia aquelles para quem o seminario
era o «tempo das galés», sahia muito perturbado d'aquellas conversas
cheias de impaciente ambição da vida livre. Ás vezes fallavam de fugir.
Faziam planos, calculando a altura das janellas, as peripecias da noite
negra pelos negros caminhos: anteviam balcões de tabernas onde se bebe,
salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo nervoso:
sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir e, no fundo das
suas imaginações e dos seus sonhos, ardia, como uma braza silenciosa, o
desejo da Mulher.
Na sua cella havia uma imagem da Virgem coroada de estrellas, pousada
sobre a esphera, com o olhar errante pela luz immortal, calcando aos pés
a serpente. Amaro voltava-se para ella como para um refugio, rezava-lhe
a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a lithographia, esquecia a
santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura;
amava-a; suspirava; despindo-se olhava-a de revez lubricamente; e mesmo
a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da tunica azul da
imagem e suppôr fórmas, redondezas, uma carne branca... Julgava então
vêr os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama
d'agua benta; mas não se atrevia a revelar estes delirios, no
confessionario, ao domingo.
Quantas vezes ouvira, nas prédicas, o mestre de Moral fallar, com a sua
voz roufenha, do Peccado, comparal-o á serpente e, com palavras
unctuosas e gestos arqueados, deixando cahir vagarosamente a pompa
mellíflua dos seus periodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando
a Virgem, calcassem aos pés a _serpente ominosa_! E depois era o mestre
de Theologia mystica que fallava, sorvendo o seu rapé, no dever de
_vencer a Natureza_! E citando S. João de Damasco e S. Chrysologo, S.
Cypriano e S. Jeronymo, explicava os anathemas dos santos contra a
Mulher, a quem chamava, segundo as expressões da Igreja, Serpente,
Dardo, Filha da mentira, Porta do inferno, Cabeça do crime, Escorpião...
--E como disse o nosso padre S. Jeronymo,--e assoava-se
estrondosamente--Caminho de iniquidades, _iniquitas via_!
Até nos compendios encontrava a preoccupação da Mulher! Que sêr era
esse, pois, que através de toda a theologia ora era collocada sobre o
altar como a Rainha da Graça, ora amaldiçoada com apostrophes barbaras?
Que poder era o seu, que a legião dos santos ora se arremessa ao seu
encontro, n'uma paixão extatica, dando-lhe por acclamação o profundo
reino dos céos,--ora vai fugindo diante d'ella como do Universal
Inimigo, com soluços de terror e gritos d'odio, e escondendo-se, para a
não vêr, nas thebaidas e nos claustros, vai alli morrendo do mal de a
ter amado? Sentia, sem as definir, estas perturbações! ellas renasciam,
desmoralisavam-no perpetuamente: e já antes de fazer os seus votos
desfallecia no desejo de os quebrar.
E em redor d'elle sentia iguaes rebelliões da natureza: os estudos, os
jejuns, as penitencias podiam domar o corpo, dar-lhe habitos machinaes,
mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como n'um ninho
serpentes imperturbadas. Os que mais soffriam eram os sanguineos, tão
doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus nos
punhos das camisas. Assim, quando estavam sós, o temperamento irrompia:
luctavam, faziam forças, provocavam desordens. Nos lymphaticos a
natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os silencios molles:
desforravam-se então no amor dos pequenos vícios: jogar com um velho
baralho, lêr um romance, obter de intrigas demoradas um maço de
cigarros--quantos encantos do peccado!
Amaro por fim quasi invejava os estudiosos; ao menos esses estavam
contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no silencio da
alta livraria, eram respeitados, usavam oculos, tomavam rapé. Elle mesmo
tinha ás vezes ambições repentinas da sciencia; mas diante dos vastos
_in-folios_ vinha-lhe um tedio insuperavel. Era no emtanto devoto:
rezava, tinha fé illimitada em certos santos, um terror angustioso de
Deus. Mas odiava a clausura do seminario! A capella, os chorões do
pateo, as comidas monotonas do longo refeitorio lageado, os cheiros dos
corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria
bom, puro, crente, se estivesse na liberdade d'uma rua ou na paz d'um
quintal, fóra d'aquellas negras paredes. Emmagrecia, tinha suores
eticos: e mesmo no ultimo anno, depois do serviço pesado da Semana
Santa, como começavam os calores, entrou na enfermaria com uma febre
nervosa.
Ordenou-se emfim pelas temporas de S. Matheus; e pouco tempo depois
recebeu, ainda no seminario, esta carta do snr. padre Liset:
«Meu querido filho e novo collega.--Agora que está ordenado, entendo em
minha consciencia que devo dar-lhe conta do estado dos seus negocios,
pois quero cumprir até ao fim o encargo com que carregou os meus hombros
debeis a nossa chorada marqueza, attribuindo-me a honra de administrar o
legado que lhe deixou. Porque, ainda que os bens mundanos pouco deviam
importar a uma alma votada ao sacerdocio, são sempre as boas contas que
fazem os bons amigos. Saberá, pois, meu querido filho, que o legado da
querida marqueza--para quem deve erguer em sua alma uma gratidão
eterna--está inteiramente exhausto. Aproveito esta occasião para lhe
dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o
estabelecimento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de
qualificar: cahiu sob o imperio das paixões, e tendo-se ligado
illegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza,
e hoje estabeleceu uma casa de hospedes na rua dos Calafates n.^o 53. Se
toco n'estas impurezas, tão improprias de que um tenro levita como o meu
querido filho tenha d'ellas conhecimento, é porque lhe quero dar cabal
relação da sua respeitavel familia. Sua irmã, como decerto sabe, casou
rica em Coimbra, e ainda que no casamento não é o ouro que devemos
apreciar, é todavia importante, para futuras circumstancias, que o meu
querido filho esteja de posse d'este facto. Do que me escreveu o nosso
querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguezia de Feirão, na
Gralheira, vou fallar com algumas pessoas importantes que têm a extrema
bondade de attender um pobre padre que só pede a Deus misericordia.
Espero, todavia, conseguir. Persevere, meu querido filho, nos caminhos
da virtude, de que sei que a sua boa alma está repleta, e creia que se
encontra a felicidade n'este nosso santo ministerio quando sabemos
comprehender quantos são os balsamos que derrama no peito e quantos os
refrigerios que dá--o serviço de Deus! Adeus, meu querido filho e novo
collega. Creia que sempre o meu pensamento estará com o pupillo da nossa
chorada marqueza, que decerto do céo, onde a elevaram as suas virtudes,
supplica á Virgem, que ella tanto serviu e amou, a felicidade do seu
caro pupillo.» _Liset_.
«P. S.--O appellido do marido de sua irmã é Trigoso.» _Liset_.
Dois mezes depois Amaro foi nomeado parocho de Feirão, na Gralheira,
serra da Beira-Alta. Esteve alli desde outubro até ao fim das neves.
Feirão é uma parochia pobre de pastores e n'aquella época quasi
deshabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tedio á
lareira, ouvindo fóra o inverno bramir na serra. Pela primavera vagaram
nos districtos de Santarem e de Leiria parochias populosas, com boas
congruas. Amaro escreveu logo á irmã contando a sua pobreza em Feirão;
ella mandou-lhe, com recommendações de economia, doze moedas para ir a
Lisboa requerer. Amaro partiu immediatamente. Os ares lavados e vivos da
serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito,
sympathico, com uma boa côr na pelle trigueira.
Logo que chegou a Lisboa foi á rua dos Calafates n.^o 53, a casa da tia:
achou-a velha, com laços vermelhos n'uma cuia enorme, toda coberta de pó
d'arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria piedosa que abriu
os seus magros braços a Amaro.
-Como estás bonito! Ora não ha! Quem te viu! Ih, Jesus! que mudança!
Admirava-lhe a batina, a corôa: e contando-lhe as suas desgraças, com
exclamações sobre a salvação da sua alma e sobre a carestia dos generos,
foi-o levando para o terceiro andar, a um quarto que dava para o saguão.
--Ficas aqui como um abbade, disse-lhe ella. E baratinho!... Ai! ter-te
de graça queria eu, mas... Tenho sido muito infeliz, Joãosinho!... Ai!
desculpa, Amaro! Estou sempre com o Joãosinho na cabeça...
Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Luiz. Tinha ido
para França. Lembrou-se então da filha mais nova da senhora marqueza
d'Alegros, a snr.^a D. Luiza, que estava casada com o conde de Ribamar,
conselheiro d'Estado, com influencia, regenerador fiel desde cincoenta e
um e duas vezes ministro do reino.
E, por conselho da tia, Amaro, logo que metteu o seu requerimento, foi
uma manhã a casa da snr.^a condessa de Ribamar, a Buenos-Ayres. Á porta
um _coupé_ esperava.
--A senhora condessa vai sahir, disse um criado de gravata branca e
quinzena de alpaca, encostado á hombreira do pateo, de cigarro na boca.
N'esse momento, d'uma porta de batentes de baena verde, sobre um degrau
de pedra, ao fundo do pateo lageado, uma senhora sahia, vestida de
claro. Era alta, magra, loura, com pequeninos cabellos frisados sobre a
testa, lunetas d'ouro n'um nariz comprido e agudo, e no queixo um
signalzinho de cabellos claros.
--A senhora condessa já me não conhece..., disse Amaro com o chapéo na
mão, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.
--O Amaro!? disse ella como estranha ao nome. Ah! bom Jesus, quem elle
é! Ora não ha! Está um homem! Quem diria!
Amaro sorria-se.
--Eu podia lá esperar! continuou ella admirada. E está agora em Lisboa?
Amaro contou a sua nomeação para Feirão, a pobreza da parochia...
--De maneira que vim requerer, senhora condessa.
Ella escutava-o com as mãos apoiadas n'uma alta sombrinha de sêda clara,
e Amaro sentia vir d'ella um perfume de pó d'arroz e uma frescura de
cambraias.
--Pois deixe estar, disse ella, fique descansado. Meu marido ha de
fallar. Eu me encarrego d'isso. Olhe, venha por cá.--E com o dedo sobre
o canto da boca:--Espere, ámanhã vou para Cintra. Domingo, não. O melhor
é d'aqui a quinze dias. D'aqui a quinze dias pela manhã, sou certa.--E
rindo com os seus largos dentes frescos:--Parece que o estou a vêr
traduzir Chateaubriand com a mana Luiza! Como o tempo passa!
--Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.
--Sim, bem. Está n'uma quinta em Santarem.
Deu-lhe a mão, calçada de _peau de suède_, n'um aperto sacudido que fez
tilintar os seus braceletes d'ouro, e saltou para o _coupé_, magra e
ligeira, com um movimento que levantou brancuras de saias.
Amaro começou então a esperar. Era em julho, no pleno calor. Dizia missa
pela manhã em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos e casaco de
ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. Ás vezes ia conversar com a
tia para a sala de jantar; as janellas estavam cerradas, na penumbra
zumbia a monotona susurração das moscas; a tia a um canto do velho
canapé de palhinha fazia _crochet_, com a luneta encavallada na ponta do
nariz; Amaro, bocejando, folheava um antigo volume do _Panorama_.
Á noitinha sahia, a dar duas voltas no Rocio. Abafava-se, no ar pesado e
immovel: a todos os cantos se apregoava monotonamente _agua fresca!_
Pelos bancos, debaixo das arvores, vadios remendados dormitavam; em
redor da praça, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam
vagarosamente; as claridades dos cafés reluziam; e gente encalmada, sem
destino, movia, bocejando, a sua preguiça pelos passeios das ruas.
Amaro então recolhia, e no seu quarto, com a janella aberta ao calor da
noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava
cigarros, ruminava as suas esperanças. A cada momento lhe acudiam, com
rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: _fique descansado,
meu marido ha de fallar!_ E via-se já parocho n'uma bonita villa, n'uma
casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranquillo e
importante, recebendo bandejas de dôce das devotas ricas.
Vivia então n'um estado de espirito muito repousado. As exaltações, que
no seminario lhe causava a continencia, tinham-se acalmado com as
satisfações que lhe dera em Feirão uma grossa pastora, que elle gostava
de vêr ao domingo tocar á missa, dependurada da corda do sino, rolando
nas saias de saragoça, e a face a estourar de sangue. Agora, sereno,
pagava pontualmente ao céo as orações que manda o ritual, trazia a carne
contente e calada, e procurava estabelecer-se regaladamente.
No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.
--Não está, disse-lhe um criado da cavallariça.
Ao outro dia voltou, já inquieto. Os batentes verdes estavam abertos; e
Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete vermelho
fixado com varões de metal. Da alta claraboia cahia uma luz suave; ao
cimo da escada, no patamar, sentado n'uma banqueta de marroquim
escarlate, um criado encostado á parede branca envernizada, com a cabeça
pendente e o beiço cahido, dormia. Fazia um grande calor; aquelle alto
silencio aristocratico aterrava Amaro; esteve um momento com o seu
guardasol pendente do dedo minimo, hesitando; tossiu devagarinho, para
acordar o criado que lhe pareceia terrivel com a sua bella suiça preta,
o seu rico grilhão d'ouro; e ia descer quando ouviu por detraz d'um
reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o lenço o pó
esbranquiçado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho
n'uma larga sala com estofos de damasco amarello; uma grande luz entrava
das varandas abertas, e viam-se arvoredos de jardim. No meio da sala
tres homens de pé conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:
--Não sei se incommódo...
Um homem alto, de bigode grisalho e oculos de ouro, voltou-se
surprehendido, com o charuto ao canto da boca e as mãos nos bolsos. Era
o senhor conde.
--Sou Amaro...
--Ah, disse o conde, o senhor padre Amaro! Conheço muito bem! Tem a
bondade... Minha mulher fallou-me. Tem a bondade...
E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quasi calvo, de calças
brancas muito curtas:
--É a pessoa de quem lhe fallei.--Voltou-se para Amaro:--É o senhor
ministro.
Amaro curvou-se, servilmente.
--O senhor padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi creado de pequeno
em casa de minha sogra. Nasceu lá, creio eu...
--Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro que se conservava afastado,
com o guardasol na mão.
--Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora,--já não ha
d'isso!--fel-o padre. Houve até um legado, creio eu... Emfim, aqui o
temos parocho... Onde, senhor padre Amaro?
--Feirão, excellentissimo senhor.
--Feirão!?... disse o ministro estranhando o nome.
--Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado. Era um
homem magro, entalado n'uma sobrecasaca azul, muito branco de pelle, com
soberbas suiças d'um negro de tinta e um admiravel cabello lustroso de
pomada, apartado até ao cachaço n'uma risca perfeita.
--Emfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguezia pobre, sem
distracções, com um clima horrivel...
--Eu metti já requerimento, excellentissimo senhor, arriscou Amaro
timidamente.
--Bem, bem, affirmou o ministro. Ha de arranjar-se.--E mascava o seu
charuto.
--É uma justiça, disse o conde. Mais, é uma necessidade! Os homens novos
e activos devem estar nas parochias difficeis, nas cidades... É claro!
Mas não: olhe, lá ao pé da minha quinta, em Alcobaça, ha um velho, um
gottoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a fé.
--É verdade, disse o ministro, mas essas collocações nas boas parochias
devem naturalmente ser recompensas dos bons serviços. É necessario o
estimulo...
--Perfeitamente, replicou o conde; mas serviços religiosos,
profissionaes, serviços á Igreja, não serviços aos governos.
O homem das soberbas suiças negras teve um gesto d'objecção.
--Não acha? perguntou-lhe o conde.
--Respeito muito a opinião de vossa excellencia, mas se me permitte...
Sim, digo eu, os parochos na cidade são-nos d'um grande serviço nas
crises eleitoraes. D'um grande serviço!
--Pois sim. Mas...
--Olhe vossa excellencia, continuou elle, sôfrego da palavra. Olhe vossa
excellencia em Thomar. Porque perdemos? Pela attitude dos parochos. Nada
mais.
O conde acudiu:
--Mas perdão, não deve ser assim; a religião, o clero não são agentes
eleitoraes.
--Perdão... queria interromper o outro.
O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras
pausadas, cheias da auctoridade d'um vasto entendimento:
--A religião, disse elle, póde, deve mesmo auxiliar os governos no seu
estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...
--Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo pelliculas
mascadas de charuto.
--Mas descer ás intrigas, continuou o conde devagar, aos _imbroglios_...
Perdôe-me, meu caro amigo, mas não é d'um christão.
--Pois sou-o, senhor conde! exclamou o homem das suiças soberbas. Sou-o
a valer! Mas tambem sou liberal. E entendo que no governo
representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais solidas...
--Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero e
desacredita a politica.
--Mas são ou não as maiorias um principio _sagrado_? gritava rubro o das
suiças, accentuando o adjectivo.
--São um principio _respeitavel_.
--Upa! upa, excellentissimo senhor! upa!
O padre Amaro escutava, immovel.
--Minha mulher ha de querer vêl-o, disse-lhe então o conde. E
dirigindo-se a um reposteiro que levantou:--Entre. É o senhor padre
Amaro, Joanna!
Era uma sala forrada de papel branco assetinado, com moveis estofados de
casimira clara. Nos vãos das janellas, entre as cortinas de pregas
largas d'uma fazenda adamascada côr de leite, apanhadas quasi junto do
chão por faxas de sêda, arbustos delgados, sem flôr, erguiam em vasos
brancos a sua folhagem fina. Uma meia luz fresca dava a todas aquellas
alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas d'uma cadeira uma arara
empoleirada, firme n'um só pé negro, coçava vagarosamente, com
contracções aduncas, a sua cabeça verde. Amaro, embaraçado, curvou-se
logo para um canto do sofá, onde viu os cabellinhos louros e frisados da
senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de
ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda,
sentado diante d'ella n'uma cadeira baixa, com os cotovêlos sobre os
joelhos abertos, occupava-se em balançar, como um pendulo, um
_pince-nez_ de tartaruga. A condessa tinha no regaço uma cadellinha, e
com a sua mão sêcca e fina, cheia de veias, acamava-lhe o pêllo branco
como algodão.
--Como está, snr. Amaro?--A cadella rosnou.--Quieta, _Joia_... Sabe que
já fallei no seu negocio? Quieta, _Joia_... O ministro está alli.
--Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé.
--Sente-se aqui, senhor padre Amaro.
Amaro pousou-se á beira d'um _fauteil_, com o seu guardasol na mão--e
reparou então n'uma senhora alta que estava de pé, junto do piano,
fallando com um rapaz louro.
--Que tem feito estes dias, snr. Amaro? disse a condessa. Diga-me uma
coisa: sua irmã?
--Está em Coimbra, casou.
--Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anneis.
Houve um silencio. Amaro, d'olhos baixos, passava, com um gesto
embaraçado e errante, os dedos pelos beiços.
--O senhor padre Liset está para fóra? perguntou.
--Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, disse a condessa. Está o
mesmo sempre; muito amavel, muito dôce. É a alma mais virtuosa!...
--Eu prefiro o padre Felix, disse o rapaz gordo estirando as pernas.
--Não diga isso, primo! Jesus, brada aos céos! Pois então o padre Liset,
tão respeitavel!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma
bondade... Vê-se que é um coração delicado...
--Pois sim, mas o padre Felix...
--Ai, nem diga isso! Que o padre Felix é uma pessoa de muita virtude,
decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais...--E com um gesto
delicado procurava a palavra:--mais fina, mais distincta... Emfim, vive
com outra gente.--E sorrindo para Amaro:--Pois não acha?
Amaro não conhecia o padre Felix, não se recordava do padre Liset.
--Já é velho o senhor padre Liset, observou ao acaso.
--Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que
enthusiasmo!... Ai, é outra coisa!--E voltando-se para a senhora que
estava junto do piano:--Pois não achas, Thereza?
--Já vou, respondeu Thereza, toda absorvida.
Amaro afirmou-se então n'ella. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com
a sua alta e forte estatura, uma linha de hombros e de seio magnifica;
os cabellos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a pallidez do
rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Marie Antoinette; o seu
vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as
pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom
monotono das alvuras da sala; o collo, os braços estavam cobertos por
uma gaze preta, que fazia apparecer através a brancura da carne; e
sentia-se nas suas fórmas a firmeza dos marmores antigos, com o calor
d'um sangue rico.
Fallava baixo, sorrindo, n'uma lingua aspera que Amaro não comprehendia,
cerrando e abrindo o seu leque preto--e o rapaz louro, bonito,
escutava-a retorcendo a ponta d'um bigode fino, com um quadrado de vidro
entalado no olho.
--Havia muita devoção na sua parochia, snr. Amaro? perguntava no emtanto
a condessa.
--Muita, muito boa gente.
--É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou ella com
um tom piedoso.--Queixou-se da obrigação de viver na cidade, nos
captiveiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de
Carcavellos, rezar na pequena capella antiga, conversar com as boas
almas da aldeia!--e a sua voz tornára-se terna.
O rapaz rechonchudo ria-se:
--Ora, prima! dizia; ora, prima!--Não, elle, se o obrigassem a ouvir
missa n'uma capellinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!...
Não comprehendia, por exemplo, a religião sem musica... Era lá possivel
uma festa religiosa sem uma boa voz de contralto!?
--Sempre é mais bonito, disse Amaro.
--Está claro que é. É outra coisa! Tem _cachet_! Ó prima, lembra-se
d'aquelle tenor... como se chamava elle? O Vidalti. Lembra-se do
Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglezinhos? O _tantum ergo_?
--Eu preferia-o no _Baile de mascaras_, disse a condessa.
--Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!
No emtanto o rapaz louro viera apertar a mão á senhora condessa,
fallando-lhe baixo, muito risonho. Amaro admirava a nobreza da sua
estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe cahira uma luva, e
apanhou-lh'a servilmente. Quando elle sahiu Thereza, depois de se ter
aproximado vagarosamente da janella e olhado para a rua--foi sentar-se
n'uma _causeuse_ com um abandono que punha em relêvo a magnifica
esculptura do seu corpo; e voltando-se preguiçosamente para o rapaz
rechonchudo:
--Vamo-nos, João?
A condessa disse-lhe então:
--Sabes que o senhor padre Amaro foi creado commigo em Bemfica?
Amaro fez-se vermelho: sentia que Thereza pousava sobre elle os seus
bellos olhos d'um negro humido como o setim preto coberto de agua.
--Está na provincia agora? perguntou ella, bocejando um pouco.
--Sim, minha senhora, vim ha dias.
--Na aldeia? continuou ella, abrindo e cerrando vagarosamente o seu
leque.
Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse,
acariciando o cabo do guardasol:
--Na serra, minha senhora.
--Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Ha sempre neve, diz que a
igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao
ministro a vêr se o mudavamos. Pede-lhe tu tambem...
--O quê? disse Thereza.
A condessa contou que Amaro requerera para uma parochia melhor. Fallou
de sua mãi, da amizade que ella tinha a Amaro...
--Morria-se por elle. Ora um nome que ella lhe dava... Não se lembra?
--Não sei, minha senhora.
--Frei _Maleitas_!... Tem graça! Como o snr. Amaro era amarellito,
sempre mettido na capella...
Mas Thereza, dirigindo-se á condessa:
--Sabes com que se parece este senhor?
A condessa affirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.
--Não se parece com aquelle pianista do anno passado? continuou Thereza.
Não me lembra agora o nome...
--Bem sei, o Jalette, disse a condessa. Bastante. No cabello, não.
--Está visto, o outro não tinha corôa!
Amaro fez-se escarlate. Thereza ergueu-se arrastando a sua soberba
cauda, sentou-se ao piano.
--Sabe musica? perguntou, voltando-se para Amaro.
--A gente aprende no seminario, minha senhora.
Ella correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas,
e tocou a phrase do _Rigoleto,_ parecida com o _Minuete de Mozart_, que
diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da senhora de
Crécy--e cujo rhythmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que
findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.
Amaro estava enlevado. Aquella sala rica com as suas alvuras de nuvem, o
piano apaixonado, o collo de Thereza que elle via sob a negra
transparencia da gaze, as suas tranças de deusa, os tranquillos
arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéa d'uma existencia
superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em _coupés_
acolchoados, com arias de operas, melancolias de bom gosto e amores d'um
gozo raro. Enterrado na elasticidade da _causeuse_, sentindo a musica
chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu
cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e,
assustado, demora o seu prazer--pensando que vai voltar á dureza das
côdeas sêccas e á poeira dos caminhos.
No emtanto Thereza, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga aria
inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:
_The village seems dead and asleep
When Lubin is away!..._
--Bravo! bravo! exclamou o ministro da justiça apparecendo á porta,
batendo dôcemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!
--Tenho um pedido a fazer-lhe, snr. Correia, disse Thereza erguendo-se
logo.
O ministro veio, com uma pressa galante:
--Que é, minha senhora? que é?
O conde e o sujeito de magnificas suiças tinham entrado discutindo
ainda.
--A Joanna e eu temos que lhe pedir, disse Thereza ao ministro.
--Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.
--Mas, minhas senhoras, disse o ministro sentando-se confortavelmente,
com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata? É uma
coisa grave? meu Deus! prometto, prometto solemnemente...
--Bem, disse Thereza batendo-lhe com o leque no braço. Então qual é a
melhor parochia vaga?
--Ah! disse o ministro comprehendendo e olhando para Amaro, que vergou
os hombros, córado.
O homem das suiças, que estava de pé fazendo saltar circumspectamente os
berloques, adiantou-se, cheio de informações:
--Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital do districto e séde do
bispado.
--Leiria? disse Thereza. Bem sei, é onde ha umas ruinas?
--Um castello, minha senhora, edificado por D. Diniz.
--Leiria é excellente!
--Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, séde do bispado, uma
cidade... O senhor padre Amaro é um ecclesiastico novo...
--Ora, snr. Correia! exclamou Thereza, e o senhor não é novo?
O ministro sorriu, curvando-se.
--Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coçava
ternamente a cabeça da arara.
--Parece-me inutil, o pobre Correia está vencido! A prima Thereza
chamou-lhe novo!
--Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece que seja uma lisonja
excepcional; eu não sou tambem tão antigo...
--Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te que já conspiravas em 1820!
--Era meu pai, calumniador, era meu pai!
Todos riram.
--Snr. Correia, disse Thereza, está entendido. O senhor padre Amaro vai
para Leiria!
--Bem, bem, succumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas é uma
tyrannia!
--_Thank you_, fez Thereza, estendendo-lhe a mão.
--Mas, minha senhora, estou a estranhal-a, disse o ministro fixando-a.
--Estou contente hoje, disse ella. Olhou um momento para o chão,
distrahida, dando pequeninas pancadas no vestido de sêda, levantou-se,
foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeçou a dôce aria ingleza:
_The village seems dead and asleep
When Lubin is away!..._
Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.
--É negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se com o bispo.
D'aqui a uma semana está nomeado. Póde ir descansado.
Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto
do piano:
--Senhor ministro, eu agradeço...
--Á senhora condessa, á senhora condessa, disse o ministro sorrindo.
--Minha senhora, eu agradeço, veio elle dizer á condessa, todo curvado.
--Ai, agradeça a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias, parece.
--Minha senhora... foi elle dizer a Thereza.
--Lembre-me nas suas orações, senhor padre Amaro, disse ella. E
continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano--as tristezas da
aldeia quando Lubin esta ausente!
Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho. Mas não tornára a
esquecer aquella manhã em casa da senhora condessa de Ribamar,--o
ministro de calças muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo o
seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e
louro que dizia _yes_...Cantava-lhe sempre no cerebro aquella aria
triste do _Rigoleto_; e perseguia-o a brancura dos braços de Thereza sob
a gaze negra! Instinctivamente via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em
torno do pescoço airoso do rapaz louro:--detestava-o então, e a língua
barbara que fallava, e a terra heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as
fontes á idéa de que um dia poderia confessar aquella mulher divina e
sentir o seu vestido de sêda preta roçar pela sua batina de lustrina
velha, na escura intimidade do confessionario.
Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços da tia, partiu para
Santa Apolonia, com um gallego que lhe levava o bahú. A madrugada
rompia. A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se. Ás vezes
uma carroça passava rolando, abalando a calçada; as ruas pareciam-lhe
interminaveis; saloios começavam a chegar montados nos seus burros, com
as pernas balouçadas, cobertas de altas botas enlameadas; n'uma ou
n'outra rua uma voz aguda já apregoava os jornaes; e os moços dos
theatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.
Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do sol alaranjava o ar por
detraz dos montes da Outra-Banda: o rio estendia-se, immovel, riscado de
correntes de côr de aço sem lustre; e já alguma vela de falua passava,
vagarosa e branca.