VI

Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em commodidades,

Amaro sentiu-se feliz. A S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande

cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o «quarto do

senhor parocho andava que nem um brinco»! Amelia tinha com elle uma

familiaridade picante de parenta bonita: «tinham calhado um com outro»,

como dissera, encantada, D. Maria da Assumpção. Os dias iam assim

passando para Amaro, faceis, com boa mesa, colchões macios e a

convivencia meiga de mulheres. A estação ia tão linda que até as tilias

floresceram no jardim do Paço: «quasi milagre»! disse-se: o senhor

chantre, contemplando-as todas as manhãs da janella do seu quarto, em

robe-de-chambre, citava versos das _Eclogas_. E depois das longas

tristezas da casa do tio da Estrella, dos desconsolos do seminario e do

aspero inverno na Gralheira--aquella vida em Leiria era para Amaro como

uma casa sêcca e abrigada onde o alegre lume estala e a sôpa cheirosa

fumega, depois d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.

Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas

de casimira, meias de lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As

manhãs estavam frias: e àquella hora só algumas devotas, com o mantéo

escuro pela cabeça, rezavam aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de

branco.

Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os pés no

lagedo, emquanto o sacristão, pachorrento, contava «as novidades do

dia».

Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava á igreja; e tendo

dobrado o joelho rapidamente diante do Santissimo Sacramento, subia

devagar ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam com uma claridade

pallida na larga luz da manhã, juntava as mãos, murmurava, curvado:

--_Introibo ad altare Dei._

--_Ad Deum qui lætificat juventutem meam_, resmungava, n'um latim

syllabado, o sacristão.

Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma

devoção enternecida. «Estava agora habituado», dizia. E como não ceava,

e áquella hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já sentia

appetite, engorolava depressa, monotonamente, as santas leituras da

Epístola e dos Evangelhos. Por traz o sacristão, com os braços cruzados,

passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando

de revez para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito

devota, que elle «trazía d'olho» desde a Paschoa. Largas resteas de sol

cahiam das janellas lateraes. Um vago aroma de junquilhos sêccos

adocicava o ar.

Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, limpava o calice com

o purificador; o sacristão, um pouco vergado dos rins, ia buscar as

galhetas, apresentava-as, curvado--e Amaro sentia o cheiro do oleo

rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella parte da missa, por um

antigo habito de emoção mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido:

com os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza,

a exhortação universal á oração--_Orate, fratres!_ E as velhas

encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa,

apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde pendiam grandes rosarios

negros. Então o sacristão ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando

ligeiramente com uma das mãos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro

consagrava o vinho, levantava a hostia--_Hoc est enim corpus

meum!_--elevando alto os braços para o Christo cheio de chagas rôxas

sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mãos

batiam concavamente nos peitos; e no silencio sentiam-se os carros de

bois rolando, com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à volta do

mercado.

--_Ite, missa est!_ dizia Amaro emfim.

--_Deo gratias!_ respondia o sacristão respirando alto, com o allivio da

obrigação finda.

E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus

dar a benção, era já pensando na alegria do almoço, na clara sala de

jantar da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora já Amelia o

esperava com o cabello cahido sobre o penteador, tendo na pelle fresca

um bom cheiro de sabão d'amendoas.

Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar onde a S.

Joanneira e Amelia costuravam. «Estava aborrecido em baixo, vinha um

bocado para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira pequena, ao

pé da janella, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia

de luneta na ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava com o

cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a

sua risca fina, nitida, um pouco afogada na abundancia do cabello; os

seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos de cera, oscillavam,

faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra;

as olheiras leves côr de _bistre_ esbatiam-se delicadamente sobre a

pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu

peito cheio respirava devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda,

espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. Então Amaro gracejava:

--Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!

Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as coisas interessantes do

dia: o major despedira a criada; ou havia quem offerecesse dez moedas

pelo porco do Carlos do correio. De vez em quando a _Ruça_ vinha ao

armario buscar um prato ou uma colhér: então fallava-se do preço dos

generos, do que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as lunetas,

traçava a perna e, balouçando o pé calçado n'uma chinela d'ourelo,

punha-se a dizer os pratos:

--Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor parocho gostará, foi para

variar...

Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria

affinidade de gostos com Amelia.

Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrára

uma carta; perguntou-lhe pelo _derriço_; ella respondeu, picando

vivamente o posponto:

--Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...

--Não é tanto assim, acudiu elle.--Mas suspendeu-se, muito vermelho,

affectando tossir.

Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo pediu-lhe para

sustentar nas mãos uma meadinha de retroz que ella ia dobar.

--Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S. Joanneira. Ora a tolice!

Isto, em se lhe dando confiança!...

Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:--elle estava alli para

o que quizessem, até para dobadoura! Era mandarem, era mandarem! E as

duas mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas maneiras do

senhor parocho, «que até tocavam o coração»! Ás vezes Amelia pousava a

costura e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, corria a mão pela

espinha do _Maltez_ que se arredondava, fazendo um _ron-ron_ de gozo.

--Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada, com os olhos muito

ternos.

E a voz de Amaro murmurava, perturbada:

--Bichaninho gato! bichaninho gato!

Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio á idiota ou ir palrar

á cozinha. Elles ficavam sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um

longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente.

Então Amelia cantarolava baixo o _Adeus_ ou o _Descrente_: Amaro

accendia o seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.

--É tão bonito isso! dizia.

Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo depressa; e a espaços,

erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o posponto, passando-lhe por

cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.

Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque tudo que era _ella_ ou

vinha d'_ella_ lhe parecia perfeito: gostava da côr dos seus vestidos,

do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabellos, e olhava até

com ternura para as saias brancas que ella punha a seccar á janella do

seu quarto, enfiadas n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade

d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto d'ella entreaberta, ia

resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas d'um

paraiso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficára

sobre o bahú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar

os dentes, todo pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir, andar

com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras das portas

estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava

que era padre: o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em baixo,

longe; via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como d'um monte se

vêem as casas desapparecer no nevoeiro dos valles; e só pensava então na

doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou

mordicar-lhe a orelhinha.

Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, batia o pé:

--Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario ser homem!

Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de Amelia fallava em cima,

o _tic-tic_ das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoção cahia

como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá

voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cerebro, frementes,

arrulhando, roçando-se umas pelas outras como um bando de pombas que

recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava então a

sua liberdade perdida: como desejaria não a vêr, estar longe de Leiria,

n'uma aldeia solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia

de proverbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces

verdejam e os gallos cacarejam ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o--e

o encanto recomeçava, mais penetrante.

A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor

do dia. A S. Joanneira trinchava, emquanto Amaro conversava cuspindo os

caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre a toalha.

A _Ruça_, cada dia mais etica, servia mal, sempre a tossir: Amelia ás

vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro

queria levantar-se logo, attencioso.

--Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! dizia ella. E

punha-lhe a mão no hombro, e os seus olhos encontravam-se.

Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estomago,

sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo

copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; ás vezes mesmo,

com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amelia debaixo

da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava não ter

uma irmãzinha assim»!

Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no môlho do guisado; a mãi

dizia-lhe sempre:

--Embirro que faças isso diante do senhor parocho.

E elle então rindo:

--Pois olhe, também eu gósto. Sympathia! magnetismo!

E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas. Mas o

crepusculo crescia, a _Ruça_ trazia o candieiro. O brilho dos copos e

das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S. Joanneira

_mamã_; Amelia sorria, d'olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes

cascas de tangerina. D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava

muito tempo partindo nozes com as costas da faca e quebrando a cinza do

cigarro na borda do pires.

Áquella hora apparecia sempre o conego Dias; sentiam-no subir

pesadamente, dizendo da escada:

--Licença para dois!

Era elle e a cadella, a _Trigueira_.

--Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites! dizia assomando á porta.

--Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava logo a S. Joanneira.

Elle sentava-se, exhalando um profundo _uff!_--Vá lá a gotinha do café!

E batendo no hombro do parocho, olhando para a S. Joanneira:

--Então como vai cá o seu menino?

Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava trazer no bolso o

_Diario Popular_; Amelia interessava-se pelo romance, a S. Joanneira

pelas correspondencias amorosas nos annuncios.

--Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, deliciando-se.

Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos que lhe contára a tia, dos

fidalgos que conhecera «em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia,

enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa, roendo vagarosamente

a ponta do palito.

Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia à

cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas

negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma maçã

raineta, fazendo debaixo da roupa uma saliencia quasí imperceptivel,

fixava em todos, com custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.

--É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe Amelia ao ouvido. Vem

vêr como está.

A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:

--Ah! é o menino!

--É o menino, é, diziam rindo.

E a velha ficava a murmurar, espantada:

--É o menino, é o menino!

--Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! Deus lhe dê uma boa

morte!

E voltavam para a sala de jantar onde o conego Dias, todo enterrado na

velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o ventre,

dizia logo:

--Ora vá um bocadinho de musica, pequena!

Amelia ia sentar-se ao piano.

--Ó filha, toca o _Adeus_! recommendava a S. Joanneira começando a sua

meia.

E Amelia, ferindo o teclado:

Ai! adeus! acabaram-se os dias

Que ditoso vivi a teu lado...

A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, soprando o fumo do

cigarro, sentia-se todo enleado n'um sentimentalismo agradavel.

Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se

então a lêr os _Canticos a Jesus_, traducção do francez publicada pela

sociedade das _Escravas de Jesus_. É uma obrasinha beata, escripta com

um lyrismo equivoco, quasi torpe--que dá á oração a linguagem da

luxuria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes

d'uma concupiscencia allucinada: «Oh! vem, amado do meu coração, corpo

adoravel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero!

Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me!» E um amor divino, ora

grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge,

declama assim em cem paginas inflammadas onde as palavras _gozo_,

_delicia_, _delírio_, _extase_, voltam a cada momento, com uma

persistencia hysterica. E depois de monologos phreneticos d'onde se

exhala um bafo de cio mystico, vêm então imbecilidades de sacristia,

notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de jejuns, e orações para

as dôres de parto! Um bispo approvou aquelle livrinho bem impresso; as

educandas lêem-n'o no convento. É beato e excitante; tem as eloquencias

do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e

dá-se ás confessadas: é a cantharida canonica!

Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aquelles periodos sonoros,

tumidos de desejo; e no silencio, por vezes, sentia em cima ranger o

leito de Amelia: o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça ás

costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vêl-a em collete

diante do toucador desfazendo as trancas; ou, curvada, desapertando as

ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios

muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de

a possuir.

Começára então a recommendar-lhe a leitura dos _Canticos a Jesus_.

--Verá, é muito bonito, de muita devoção! disse elle, deixando-lhe o

livrinho uma noite no cesto da costura.

Ao outro dia, ao almoço, Amelia estava pallida, com as olheiras até ao

meio da face. Queixou-se de insomnia, de palpitações.

--E então, gostou dos _Canticos_?

--Muito. Orações lindas! respondeu.

Durante lodo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste--e

sem razão, ás vezes, o rosto abrazava-se-lhe de sangue.

Os peores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando

João Eduardo vinha passar as noites «em familia». Até ás nove horas o

parocho não sahia do quarto; e quando subia para o chá desesperava-se de

vêr o escrevente embrulhado no seu chale-manta, sentado junto de Amelia.

--Ai o que estes dois têm para ahi palrado, senhor parocho! dizia a S.

Joanneira.

Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar a sua torrada, com os

olhos fitos na chavena.

Amelia, na presença de João Eduardo, agora, não tinha com o parocho a

mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o

escrevente calado chupava o cigarro; e havia grandes silencios em que se

sentia o vento uivar, encanado na rua.

--Olha quem andar agora nas aguas do mar! dizia a S. Joanneira fazendo

devagar a sua meia.

--Safa!... acrescentava João Eduardo.

As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro: detestava-o

pela sua pouca devoção, pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle

sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.

--Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira.

--Estou tão cansada! respondia Amelia apoiando-se nas costas da cadeira,

com um suspirosinho de fadiga.

A S. Joanneira, então, que não gostava de «vêr gente mona», propunha uma

_bisca de tres_; e o padre Amaro, tomando o seu candieiro de latão,

descia para o quarto, muito infeliz.

N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-a _casmurra_. A intimidade

do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidia mesmo fallar á S.

Joanneira, dizer-lhe «que aquelle namoro de portas a dentro não podia

ser agradavel a Deus». Depois, mais razoavel, resolvia esquecel-a,

pensava em sahir da casa, da parochia. Representava-se então Amelia com

a sua corôa de flôres de laranjeira, e João Eduardo, muito vermelho, de

casaca, voltando da Sé, casados... Via a cama de noivado com os seus

lençoes de renda... e todas as provas, as certezas do amor d'ella pelo

«idiota do escrevente» cravavam-se-lhe no peito como punhaes...

--Pois que casem, e que os leve o diabo!...

Odiava-a então. Fechava violentamente a porta à chave como para impedir

que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o _frou-frou_ das

suas saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava com o

coração aos saltos, immovel e ancioso, os ruidos que ella fazia em cima

ao despir-se, palrando ainda com a mãi.

Um dia Amaro jantára em casa da snr.^a D. Maria da Assumpção; fôra

depois passear pela estrada de Marrases, e á volta, ao fim da tarde,

encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no

patamar, estavam os chinelos de ourelo da _Ruça_.

--Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi á fonte e esqueceu-se de fechar a

porta.

Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde com a snr.^a D. Joaquina

Gansoso, n'uma fazenda ao pé da Piedade, e que a S. Joanneira fallára em

ir á irmã do conego. Fechou devagar a cancella, subiu á cozinha a

accender o seu candieiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da

manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam

rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da

S. Joanneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa;

surprehendido, afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela porta

entreaberta espreitou.--Oh Deus de Misericordia! a S. Joanneira, em saia

branca, atacava o collete; e, sentado á beira da cama, em mangas de

camisa, o conego Dias resfolegava grosso!

Amaro desceu, collado ao corrimão, fechou muito devagarinho a porta, e

foi ao acaso para os lados da Sé. O céo ennevoára-se, leves gotas de

chuva cahiam.

--E esta! E esta! dizia elle assombrado.

Nunca suspeitára um tal escandalo! A S. Joanneira, a pachorrenta S.

Joanneira! O conego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos

do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrição,

as dignidades ecclesiasticas! Que faria então um homem novo e forte, que

sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!...

Era, pois, verdade o que se cochichava no seminario, o que lhe dizia o

velho padre Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:--«Todos são

do mesmo barro!» Todos são do mesmo barro,--sobem em dignidades, entram

nos cabidos, regem os seminarios, dirigem as consciencias envoltos em

Deus como n'uma absolvição permanente, e têm no emtanto, n'uma viella,

uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das attitudes

devotas e da austeridade do officio, fumando cigarros de estanco e

palpando uns braços rechonchudos!

Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquella, a S. Joanneira

e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um

velho conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem feita,

desejavel--outr'ora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos

declives da idade, áquelles amores senis e mal pagos? As duas

mulherinhas, que diabo, não eram honestas! Recebiam hospedes, viviam da

concubinagem. Amelia ia sósinha á igreja, ás compras, á fazenda; e com

aquelles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante!--Resumia,

filiava certas recordações: um dia que ella lhe estivera mostrando na

janella da cozinha um vaso de rainunculos, tinham ficado sós, e ella,

muito córada, puzera-lhe a mão sobre o hombro e os seus olhos reluziam e

pediam; outra occasião ella roçára-lhe o peito pelo braço! A noite

cahira, com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa,

cheio de uma só idéa deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da

rapariga, como o conego era o amante da mãi! Imaginava já a boa vida

escandalosa e regalada; emquanto em cima a grossa S. Joanneira

beijocasse o seu conego cheio de difficuldades asthmaticas,--Amelia

desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias brancas, com um

chale sobre os hombros nús... Com que phrenesi a esperaria! E já não

sentia por ella o mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a idéa

muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panellinha, dava

áquelle homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos

pulinhos pela rua.--Que pechincha de casa!

A chuva cahía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de jantar.

Subiu.

--Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, ao apertar-lhe a mão, a

humidade da nevoa.

Sentada á mesa, costurava com um chale-manta pelos hombros: João

Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a S. Joanneira.

Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do escrevente dera-lhe

de repente, sem saber porque, o duro choque d'uma realidade antipathica:

e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dansar uma sarabanda na

imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam--vendo alli Amelia ao pé

do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido

afogado, junto do candieiro de familia!

E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, as paredes com o seu

papel de ramagens verdes, o armario cheio de louça luzidia da

Vista-Alegre, o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho piano mal firme

nos seus tres pés torneados; o paliteiro tão querido de todos--um Cupido

rechonchudo com um guardachuva aberto erriçado de palitos, e aquella

tranquilla bisca jogada com os dichotes classicos. Tudo tão decente!

Affirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da S. Joanneira, como

para descobrir n'ellas as marcas das beijocas do conego: ah! tu, não ha

duvida, és «uma barregã de clerigo ». Mas Amelia! com aquellas longas

pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as

libertinagens da mãi; ou, experiente, estava bem resolvida a

estabelecer-se solidamente na segurança d'um amor legal!--E Amaro, da

sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do

seu rosto, da virgindade do seu passado.

--Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. Joanneira. E para João

Eduardo:--Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar?

O escrevente, namorado, distrahia-se.

--É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a cada momento.

Depois elle esquecia-se de _comprar cartas_.

--Ah menino, menino! dizia ella com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo

essas orelhas!

Amelia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno casabeque preto

com botões de vidro, que lhe disfarçava a fórma do seio.

E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, d'aquelle casaco

amplo escondendo a belleza que mais appetecia n'ella! E nada a esperar!

Nada d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, nem a

brancura d'aquelles peitos! Queria casar--e guardava _tudo_ para o

outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, d'um

odio complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu direito d'amar...

--Está incommodado, senhor parocho? perguntou Amelia, vendo-o mexer-se

bruscamente na cadeira.

--Não, disse elle sêccamente.

--Ah! fez ella com um leve suspiro, picando rapidamente o posponto.

O escrevente, baralhando as cartas, começára a fallar de uma casa que

queria alugar; a conversa cahiu sobre arranjos domesticos.

--Traze-me luz! gritou Amaro à _Ruça_.

Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôz a vela sobre a commoda; o

espelho estava defronte, e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio,

ridiculo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma colleira, e por

traz a corôa hedionda. Comparou-se instinctivamente com o outro que

tinha um bigode, o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de eu

estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu

nome, uma casa, a maternidade; elle só poderia dar-lhe sensações

criminosas, depois os terrores do peccado! Ella sympathisava talvez com

elle, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar;

nada mais natural! Via-se pobre, bonita, só: cubiçava uma situação

legitima e duradoura, o respeito das visinhas, a consideração dos

lojistas, todos os proveitos da honra!

Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estupida,

que não percebia que ao pé d'ella, sob uma negra batina, uma paixão

devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! Desejou

que ella fosse como a mãi,--ou peor, toda livre, com vestidos garridos,

uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma femea

facil como uma porta aberta ...

--Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada!--pensou,

recahíndo em si um pouco envergonhado. Está claro: não podemos pensar em

mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!

Abafava. Abriu a janella. O céo estava tenebroso; a chuva cessára; o

piar das corujas na Misericordia cortava só o silencio.

Enterneceu-se, então, com aquella escuridão, aquella mudez de villa

adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu sêr, o

amor que sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismo

devoto: via a sua linda cabeça, d'uma belleza transfigurada e luminosa,

destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella n'um

desfallecimento d'adoração, como no culto a Maria e na Saudação

Angelica; pediu-lhe perdão anciosamente de a ter offendido; disse-lhe

alto: És uma santa! perdôa!--Foi um momento muito dôce, de renunciamento

carnal...

E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade que descobria

subitamente em si, pôz-se a pensar com saudade--que se fosse um homem

livre seria um marido tão bom! Amoravel, dedicado, dengueiro, sempre de

joelhos, todo d'adorações! Como amaria o _seu_ filho, muito

pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! Á idéa d'aquellas felicidades

inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. Amaldiçoou, n'um

desespero, «a pêga da marqueza que o fizera padre», e o bispo que o

confirmára!

--Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco desvairado.

Sentiu então os passos de João Eduardo que descia, e o rumor das saias

de Amelia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no

beiço, de ciume. A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.--Mas

a sensação d'amor mystico que o penetrára um momento, olhando a noite,

passára; e deitou-se, com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 23 / 45 题