profundas trevas da minha alma, a que acompanha a fria soledade do meu
coração; as seis lettras do seu nome, as notas mais harmoniosas que
resôam no fundo do meu peito. Insensato! A tua vida não é mais do que um
sonho, que se desvanece ante o sopro da realidade. Tu recebeste tres
beijos, durante tres noites de luar; aquelles beijos encerravam o veneno
do teu sangue. A tua vida não é vida; o teu amor é só uma recordação.
Onde está a morte? Porque tarda tanto? Porque não chega, quando a espero
de braços abertos?
Ernesto fechou os olhos. Os seus labios entreabriram-se para deixar
passar um suspiro, e ficou dormindo pensando em Amparo.
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Mauricio entrou no quarto do seu hospede ás cinco da manhã.
Ernesto levantou-se.
--Está tudo prompto para partires? perguntou.
--Sim senhor; tenho o javali grande preso convenientemente ao cavallo. Á
femea, segundo as suas ordens, tirei-lhe a cabeça e o lombo; o resto
fica em casa.
--Espera, disse Ernesto.
E pegando n'uma carta que estava sobre a mesa e n'uma tira de papel,
continuou:
--Entregas esta carta, o javali grande e estes dois quadros ao senhor
conde de Loreto, rua do Barquillo, n.º..., e comprarás tudo o que vae
mencionado n'esta lista.
Ernesto abriu uma gaveta da commoda, tirou dez moedas de cinco duros e
entregou-as a Mauricio.
Depois escreveu rapidamente n'uma folha de papel:
«Meus bons amigos
Marcial e André
«Remetto-lhes uma cabeça de javali que cosinharão no restaurante do
_Armiño_ para almoçarem com alguns amigos, bebendo por este caçador
_selvagem_ que se não esquece de vocês.
«Sempre amigo
«_Ernesto._»
--A cabeça e o lombo da femea entrega-os onde diz este envellope, rua do
Prado. Vae com Deus e vem ámanhã, se te fôr possivel.
Mauricio sahiu, despedindo-se da mulher, e encaminhou-se para Toledo,
onde devia tomar o comboio de Madrid.
Ernesto pegou na espingarda, chamou os seus cães Roma e Florença, e
sahiu tambem em busca de perdizes, prevenindo Petra de que não viria
almoçar antes do meio dia.
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O conde de Loreto, Amparo e D. Ventura estavam almoçando quando entrou
um creado dizendo-lhes que estava á porta um homem que parecia um
montanhez, que trazia uma carta, um javali e uns quadros.
--Ah! exclamou o conde, Ernesto cumpriu a sua palavra. Dize a esse homem
que suba e tragam vocês o javali para o vêrmos.
Dois creados trouxeram o javali para cima de uma mesa.
--Soberbo animal! exclamou Fernando. Pelas cerdas e pelos dentes bem se
vê que deve ser velho.
--Oito annos, respondeu Mauricio. Vale bem a onça de chumbo que lhe deu
a morte.
--Pelo que vejo, Ernesto diverte-se pelos montes?
--Diverte-se, exclamou o caçador, tudo menos isso; está muito
doente, dorme pouco e não tem appetite. A bem dizer que se alimenta só
com café e rhum. Tenho cá um palpite em que não morrerá de velho.
Todos escutavam com interesse as palavras de Mauricio.
--Disseram-me que traz uma carta e uns quadros, disse Fernando.
--A carta está aqui: os quadros deixei-os n'aquella casa.
O conde leu em voz alta o seguinte:
«Senhor conde de Loreto
«Ignoro ainda se é proveitosa ao meu corpo esta soledade em que vivo
ha vinte dias, mas conheço que é ao espirito.
«No cume d'estas montanhas não se vêem homens, não se encontra a
animação nem o bulicio das grandes cidades, mas o ar é mais puro, o
horisonte mais limpido, o ambiente mais perfumado e respira-se com
mais facilidade.
«Seja como fôr, espero sem sobresalto que se resolva o problema da
minha enfermidade, sem me occupar muito se será ou não vantajoso o
desenlace.
«Com o portador d'esta, caçador infatigavel e amigo leal, em casa de
quem vivo no meio d'estes barrancos solitarios, remetto-lhe o
primeiro javali que matámos e dois quadros sobre assumptos de caça,
genero a que tenciono dedicar-me emquanto tiver forças para
sustentar o pincel.
«Não marco preço aos quadros que lhe envio, porque d'isso falaremos
depois de lhe mandar doze. Demais, ainda que pobre, hoje não preciso
de dinheiro, mas avisál-o-hei quando precisar. Seja, portanto, o meu
banqueiro.
«Para lhes provar que não os esqueço, desejava que me concedessem
auctorização para fazer trez retratos de memoria, ainda que se
admire ao vêl-os, o meu leal amigo D. Ventura.
«Deponha aos pés da senhora condessa os meus respeitos, dê um abraço
em seu sogro e não esqueça que n'este deserto fica esperando
occasião de lhe ser util
«o seu amigo e obrg.º
«_Ernesto Alvarez._»
Amparo ouvira lêr a carta sem descerrar os labios, mas agradecia do
fundo da alma a fórma delicada como estava escripta.
Só lhe prendeu a attenção a auctorização que pedia para pintar os tres
retratos, entre os quaes devia figurar o seu.
--Quando tenciona voltar para Toledo? perguntou o conde ao caçador.
--Desejava ir esta noite no comboio das sete e quarenta. Os meus
affazeres em Madrid, depois de sahir d'esta casa, resumem-se apenas a
algumas compras de que o senhor Ernesto me encarregou, e entregar uma
cabeça de javali e um lombo a uns senhores que moram na rua do Prado.
--Tem algum inconveniente em me dizer que objectos o senhor Ernesto o
encarregou de comprar.
--Não, senhor; aqui está a relação.
E Mauricio entregou-a ao conde que depois de lêr, disse:
--Meu amigo, tenho em casa tudo quanto Ernesto deseja; não precisa,
pois, ir comprar cousa alguma. Agora vá almoçar emquanto escrevo uma
carta, depois irá levar a cabeça a esses senhores, e meia hora antes do
comboio partir encontrará na estação, despachado para Toledo, tudo
quanto Ernesto pede.
Mauricio com sinceridade natural, ia entregar ao conde o dinheiro que
Ernesto lhe dera.
--Não, esse dinheiro entregue-o a quem lh'o deu, e demais, far-me-ha o
favor de acceitar esta _onza_,[2] para comprar um presente a
sua mulher.
Mauricio tentou recusar a _onza_, mas o conde obrigou-o a acceitál-a.
Depois, conduziram-n'o a outra casa onde lhe serviram o almoço.
O conde escreveu entretanto a seguinte carta.
«Amigo Ernesto
«Os quadros são bellos e o javali soberbo. Quando os homens têem
talento trabalham em todos os generos. Obrigado pela sua boa
memoria, obrigado, porque se não esqueceu de nós, apezar do mal que
lhe temos feito.
«Pede-me auctorização para fazer tres retratos; concedo-lh'a
satisfeito não só por lhe ser agradavel a si como tambem ás pessoas
que vão ser retratadas nas telas.
«Desejava passar uma temporada na sua companhia para caçarmos
juntos, e para vêr se o convencia a abandonar essa vida solitaria,
principalmente durante os quatro mezes de rigoroso inverno.
«Até então veremos o que posso conseguir. Hei de fazer a diligencia.
«Fico esperando os doze quadros que me annuncia na sua carta, o que
me prova que se sente animado para o trabalho.
«Adeus, meu amigo, e não esqueça que lhe desejamos todas as
propriedades.
«Sempre seu amigo,
«_Fernando del Villar._»
O conde leu a carta á mulher e disse:
--Agora, minha querida, escreve quatro linhas ao nosso amigo; talvez
isso lhe faça bem.
Amparo olhou o marido, receando que aquelle desejo envolvesse uma
intenção pouco agradavel.
O conde sorriu-se porque comprehendêra a duvida da mulher. Mas
rodeando-lhe a cintura, e, dando-lhe um beijo apaixonado, disse-lhe:
--Leio nos teus olhos, minha querida, a desconfiança, e sinto-o; isso
indica-me que me amas muito, mas que me conheces pouco. Escreve a
Ernesto, sou eu que t'o peço. Quatro palavras tuas far-lhe-hão bem, o
desgraçado ama-te de toda a sua alma. Muito desgraçado o fizemos. Não
sejamos egoistas até ao ponto de sermos malvados gozando com a sua
agonia, com a sua dôr, que só terá fim com a morte. Escreve-lhe, pois, o
que quizeres, Amparo.
O conde sorrindo-se com bondade, e dando segundo beijo na esposa,
continuou:
--Não lerei o que escreves. Adeus. Quando acabares fecha a carta e
entrega-a tu mesma a esse homem.
E o conde sahiu.
Amparo ficou com a carta na mão e como que pregada ao chão.
Aquella confiança que o marido acabava de mostrar era verdadeira ou um
laço?
Amparo não podia crêr na hypothese de um laço n'um homem tão generoso
como Fernando.
O conde de Loreto não era um homem vulgar. Amava a mulher, perdoára-lhe
o seu coquettismo com Ernesto antes de o conhecer a elle, calculava as
dôres e os soffrimentos do pintor a quem estimava devéras e por isso
disséra á mulher que escrevesse.
Amparo sentou-se, pegou na penna e durante dez minutos não soube como
começar.
De subito teve uma ideia. Os olhos brilharam-lhe, o semblante
reanimou-se-lhe: dir-se-hia que receava transmittil-a ao papel, mas
fazendo um esforço, e com mão mal segura, escreveu:
«Senhor Ernesto
«Ja que meu marido o auctoriza a fazer os tres retratos, e julgando
que d'elles um será o meu, peço-lhe, (queira perdoar este capricho
de mulher), que se não esqueça do vestido que tinha em Roma quando
veiu offerecer-me o que fizera, e que ainda conservo sobre o fogão
do meu gabinete.
«Trate-se, porque desejamos em breve vêl-o completamente restabelecido.
_Amparo._»
A condessa fechou a carta e foi entregál-a a Mauricio, que já tinha
acabado de almoçar.
--Entregue esta carta ao senhor Ernesto, mas só a elle, disse-lhe.
--Sim, senhora condessa.
Amparo ia a sahir, mas deteve-se.
--É casado? perguntou.
--Sim, minha senhora.
--Então faça favor de dar da minha parte este annel a sua mulher, e
recommendar-lhe que trate do senhor Ernesto com todo o carinho.
E Amparo como que envergonhada por aquelle arranco, tirou um annel do
dedo, entregou-o a Mauricio e sahiu, dizendo para comsigo:
--Assim comprehenderá que me não é indifferente o seu soffrimento e que
a sua morte me ha de custar algumas lagrimas.
Mauricio ficou um momento immovel. Pensava se aquella mulher tão formosa
teria alguma coisa que vêr com os padecimentos do seu hospede.
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Á hora indicada pelo conde, Mauricio estava na estação, onde um
creado lhe entregou uma guia do caminho de ferro.
--Que é isto? perguntou elle.
--Da parte de meu amo, o senhor conde de Loreto. Com esta guia lhe
entregarão em Toledo, pois que foram expedidas em grande velocidade,
duas caixas e um caixote grande. N'ellas vae tudo quanto o senhor
Ernesto encommendou.
Mauricio guardou a guia na carteira e entrou para a _gare_, tomando
então logar n'um compartimento de terceira classe.
Durante a viagem, o caçador olhou muitas vezes para o annel, e pensava
em quem lh'o dera, dizendo de si para comsigo:
--Parece-me que vou descobrindo alguma cousa do segredo!
CAPITULO XXV
O regresso de Mauricio
Quando Ernesto sahia só, afastava-se pouco da habitação de Mauricio.
Muitas vezes pendurava a espingarda no ramo de um azinheiro, e, subindo
com difficuldade ao mais alto monte, sentava-se ahi, ficando largas
horas a contemplar a paisagem; outras, sem temer o perigo, descia ao
mais fundo dos barrancos, agarrando-se ás plantas, gozando tambem
n'aquella silenciosa soledade, onde o menor suspiro faz na concavidade
das rochas um echo como se repetisse a voz humana.
Então esquecia os cães, a espingarda e a caça, e a recordação
inolvidavel de Florença preenchia-lhe por completo a sua imaginação.
O seu amor por Amparo era tão constante, tão verdadeiro, tão grande,
que, enchendo todo o seu ser, formára n'elle uma segunda natureza tão
poderosa que era impossivel separar-se d'elle sem perder a vida.
Conhecia, comtudo, toda a loucura da sua paixão, e acceitára-a como se
acceita uma d'essas doenças que se não procura e que nos causa a morte.
Se Ernesto tivesse encontrado uma Heloisa, a terra para os dois amantes
teria sido um paraiso, mas encontrára uma _coquette_ que lh'a
converteu em pantanoso charco, que lhe envenenou o sangue ao aspirar os
maleficos miasmas que exhalava.
O seu mal era irremediavel. O amor tem muitas vezes a sua dose de veneno
que causa a morte.
Mas, apezar d'isso, o coração de Ernesto era tão grande, tão nobre, tão
generoso, que não odiava aquella que era seu tormento, antes pelo
contrario, amava-a cada vez mais.
Talvez que ainda lhe restasse um pouco de esperança, e d'essa esperança
emanava a doce compaixão que sentia por Amparo.
Por outro lado, o conde de Loreto era um homem digno de ser amado. Quão
doloroso teria sido para Ernesto vêr-se preferido por um homem indigno,
por um ser desprezivel, como acontece tantas vezes na vida!
Quantos exemplos se podem citar de levianas mulheres que espesinham a
honra de homens illustres nos braços de amantes despreziveis!
Ernesto reconhecia no conde grandes qualidades, e isto fazia-lhe menos
culposa a conducta de Amparo. Conhecia tambem que, se o conde não fosse
um homem superior e menos conhecedor do mundo, sabendo os antecedentes
de Roma e Florença e a parecença de Esther com a mulher, tomaria isso
por uma grave offensa e o assumpto não teria ficado assim. Talvez um
duello, e, por conseguinte, o escandalo que segue casos d'esta natureza,
teria augmentado as difficuldades a Ernesto para chegar até Amparo,
para ser talvez amado por ella com a vertiginosa paixão do adulterio.
Com a conducta prudente, digna e sabia do conde, evitou todos os perigos
que ameaçavam o marido, a mulher e o amante, cortando com um só golpe a
cabeça á repugnante maledicencia, que já comecava a levantar-se,
sorrindo-se de uma maneira satanica.
Por isso, Amparo e Ernesto admiravam o procedimento do conde de Loreto,
e este por seu lado, podia dormir tranquillo, com a segurança de que sua
mulher não o trahiria. E emquanto a Ernesto, sabia que de rival
intransigente se convertêra em amigo leal.
Amparo, comtudo, passou mal algumas noites. Amava com delirio o marido,
mas convencida de que ella era a causadora da doença de Ernesto, temia o
momento em que uma carta participasse a sua morte, isto é, que em seu
peito entrasse o remorso, que tira o somno, que entristece a alma, que
põe uma nuvem no coração.
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Mauricio chegou ao monte ao amanhecer do dia seguinte; Petra acabava de
se levantar, e ouvindo assobiar correu a abrir a porta.
O caçador não vinha só. Acompanhava-o um homem com tres burros
carregados com os objectos que o conde enviára a Ernesto.
--Tudo isto é para nos? perguntou Petra, depois de abraçar o marido.
--É para o senhor Ernesto, que lh'o manda um amigo de Madrid. Mas tambem
trago um presente para ti.
--Isso já eu esperava porque os bons maridos não se esquecem das
mulheres quando vão ás grandes cidades.
O homem começou a descarregar as caixas e o caixote, deixando tudo junto
da porta.
Mauricio entretanto metteu dois dedos da mão direita no bolso do collete
e tirou a _onza_ que o conde lhe dera, dizendo em voz baixa:
Pega: isto offereceu-me aquelle senhor a quem levei o javali e os
quadros como gorgeta. É para comprares o que quizeres.
--Uma _onza_! Fizeste bem em a não trocares, porque a mulher cuidadosa
pensa sempre no dia de ámanhã, e, quando apanha á mão uma moeda d'estas,
guarda-a como um remedio contra as necessidades da vida.
--E o senhor Ernesto? perguntou Mauricio.
--Ainda dorme.
--Hontem sahiu?
--Sim, um boccadito de manhã. Voltou muito cançado e comeu pouco.
Coitado! está cada vez mais triste. Esta noite entrei no quarto para vêr
se queria tomar alguma coisa, e encontrei-o com os olhos inchados,
enegrecidos, como se tivesse chorado. Muito grande deve ser o seu desgosto.
Mauricio guardou silencio; e como o homem já tinha descarregado todos os
objectos pagou-lhe, dizendo:
--Petra, dá a este homem alguma coisa de comer e de beber.
Mauricio entrou em casa, dirigindo-se ao quarto de Ernesto, e, como
reinava o mais profundo silencio, pensou que se não respondesse,
chamando baixinho, seria melhor deixal-o dormir.
Chamou, pois, á porta suavemente, mas a voz do hospede respondeu:
--Quem é?
--Sou, eu, senhor Ernesto.
--Ah! Mauricio! Espera que vou abrir.
Ernesto saltou da cama, abriu a porta e tornou a deitar-se.
--Bem vindo sejas, Mauricio. Não te esperava tão cedo. Abre a janella e
dá-me conta da tua missão.
--O conde de Loreto é um sujeito muito generoso, disse Mauricio. Depois
de me receber muito bem e de me dar de almoçar como a um principe,
deu-me uma _onza_ em ouro.
Mauricio continuou contando tudo quanto se passára em casa do conde e
terminou:
--Emquanto a senhora condessa entregou-me esta carta para si e
perguntando-me se era casado, disse-me: Pois dê este annel da minha
parte a sua mulher para que tratem com muito cuidado o senhor Ernesto.
O pintor sentiu-se commovido até ao fundo d'alma. Mauricio comprehendeu
o effeito das suas palavras, e, tirando a carta e o annel, entregou tudo
ao hospede.
--Mas este annel é para tua mulher, disse Ernesto, fixando-o com um
olhar penetrante.
Mauricio sorriu-se e disse:
--Isso é uma joia bôa de mais para quem está todo o dia a trabalhar.
Póde guardal-a. E de mais, Petra não sabe de nada, e olhos que não vêem
coração que não sente.
Ernesto não poude conter a sua alegria e lançou-se nos braços de
Mauricio, cujo procedimento delicado lhe causou profunda admiração.
--Ah! já me esquecia, disse Mauricio. Tambem os seus amigos da rua do
Prado me deram esta carta para si.
E, entregando a carta, sahiu do quarto afim de deixar só o seu hospede,
de quem começava a descobrir o segredo.
Ernesto, ao vêr-se só, beijou repetidas vezes o annel, apertando-o
depois com delirio de encontro ao peito.
Leu a carta do conde e o post-scriptum da condessa, guardou-a juntamente
com o annel n'uma gaveta da commoda, e, procurando serenar, disse:
--Ella não me esqueceu; isto sempre serve de consolação para o meu
peito. Vejamos o que me dizem Marcial e André, os meus bons amigos.
Ernesto então leu:
«Illustre Robinson dos montes de Toledo
«Recebemos a _tua cabeça_ e o _teu lombo_. e ámanhã brindaremos á
tua saude no restaurant do _Armiño_.
«Não deves admirar-te de que te tenhamos na conta de um animal
feroz, pois que outro nome não merece o homem que deixa as delicias
de Madrid pelos selvagens barrancos dos montes de Toledo.
«Agora outro assumpto. Tens todas as probabilidades que te concedam
o primeiro premio ao teu celebre quadro de Esther. Se assim fôr,
iremos entregar-te a medalha de ouro, e beber comtigo uma duzia de
garrafas de Champagne.
«Procura, comtudo, restabelecer-te rapidamente e voltares, porque
nós preferimos comer sentados em volta de uma mesa, pisando
alcatifas, recebendo o calor de fogões e a luz do gaz, do que comer
no campo sobre o duro chão, acariciado pelas formigas e outros
animaes importunos.
«Estimando-te sempre e admirando como nunca.
«Somos teus amigos
«_Marcial e André._»
Ernesto sorriu-se tristemente quando acabou a leitura da carta.
--Ah! exclamou. Que feliz que é o mortal que encontra uma mulher que o
ama e dois amigos leaes e carinhosos! Mas a felicidade nunca é completa
para o homem. Só encontrei os amigos. Onde acharei a mulher?
E deixando cahir a cabeça sobre o peito melancholicamente, ficou immovel
como uma estatua.
CAPITULO XXVI
Uma caçada ás raposas
Se nos entretivessemos detalhando dia a dia a vida de Ernesto desde que
chegou a casa de Mauricio até ao dia em que deixou de existir, fariamos
um livro interminavel. Procuraremos, pois, tocar sómente nos pontos que
julgamos mais importantes.
Ernesto, como dissémos, cançava-se muito a subir as encostas, e o ponto
que escolhera para caçar não era dos mais commodos.
Um doente de peito pode caçar sem perigo, mas em terrenos planos que não
cancem os pulmões; porêm os montes de Toledo, os de Almenara e outros
não têem nada de hygienicos para um caçador de pouca saude.
Poder-se-ha matar muita caça, respirar-se ar puro mas são fatigantes em
demasia! Ernesto, pois, escolhêra mau sitio para se restabelecer, mas,
como a vida lhe importava pouco, era o mais apropriado para lhe dar cabo
dos seus arruinados pulmões.
Ernesto tratava-se pouco. Quando sentia a mente cheia de ideias tristes,
pegava na espingarda, chamava os cães e sahia. Se tropeçava com um bando
de perdizes, segui-as até que, cançado, se deixava cahir no chão,
permanecendo ás vezes mais de uma hora soffrendo angustias de morte.
Muitas vezes a noite surprehendeu-o nos barrancos, e Mauricio,
sobresaltado, sahia em sua procura; e então o honrado caçador trazia-o
ás costas até casa. Petra e Mauricio lamentavam em voz baixa a teimosia
de Ernesto em não querer que se chamasse o medico do povoado proximo.
--Está claro, dizia Mauricio. A dôr que o afflige é tal que deseja
acabar depressa com a vida, e quando menos pensarmos encontramol-o morto
no monte.
Demais Ernesto, cuja fraqueza era em extremo, ia perdendo as forças e o
appetite, e tinha caprichos extraordinarios que faziam estremecer Mauricio.
Certa manhã do mez de março (nevára muito durante a noite anterior e o
sol que começava a elevar-se no horisonte convertia o gelo em brando
rócio que tornava difficil o transito pelas ladeiras dos barrancos).
Mauricio e Ernesto estavam no cume de um monte, quando se aperceberam de
que andava uma raposa n'um monte proximo. Ernesto disparou, e o arisco
animal soltou um grunhido.
O tiro ferira a raposa nas patas trazeiras; mas com o instincto da
conservação arrastou-se até a borda de um barranco, deixando-se cair
para a frente.
Ernesto correu até chegar á mesma borda do precipicio.
Mauricio gritou-lhe:
--Cuidado, cuidado, senhor Ernesto. Por ahi não ha passagem.
Ernesto dirigiu um olhar para o abysmo, viu a raposa que fazia esforços
desesperados para chegar a uma toca, onde por fim se metteu.
--Indubitavelmente tem alli a femea e os filhos. Se pudessemos descer...
disse Mauricio.
--E porque não? respondeu Ernesto, avançando intrepidamente até a
abertura do abysmo.
--O terreno está escorregadio; é uma temeridade descer por este
despenhadeiro. Um pé em falso, uma tontura, precipital-o-hia a
quinhentas varas de profundidade, sobre um leito de pedras.
Ernesto inclinou-se, e, agarrando-se a uma matta que vegetava na borda
do abysmo, começara descendo, procurando appoio para os pés nas
saliencias da rocha e nos arbustos que cresciam entre as fendas.
Mauricio advertiu segunda vez do perigo imminente que o seu hospede
corria, mas Ernesto, detendo-se na sua descida e levantando a
cabeça, disse sorrindo-se:
--Não receies, meu bom Mauricio, ninguem morre sem que Deus queira; e se
succeder faltar-me o appoio que procuro tranquillamente, e precipitar-me
no abysmo, previno-te de que na minha carteira acharás um testamento que
te livra de toda a responsabilidade.
E continuou descendo.
Mauricio sustinha com trabalho os cães, olhando com admiração para Ernesto.
Não faltava valor ao caçador para descer por aquelle difficil e perigoso
caminho; mas isto teria sido uma imprudencia, pois, descendo atraz,
augmentava muito o perigo do pintor.
Mauricio era um bom christão, acreditava nos destinos da Providencia, e,
calculando que d'aquelle perigo só Deus podia salvar Ernesto,
encommendou-o com fervor ao Altissimo.
A descida de Ernesto até chegar ao penedo onde se havia refugiado a
raposa ferida, durou quatro minutos.
O pintor dirigiu um olhar sereno para o abysmo, murmurando em voz baixa:
--Mais profunda é a soledade da minha alma.
Mauricio fechou os olhos muitas vezes, julgando que o seu amigo ia
despenhar-se, quando ao pôr o pé ou a mão em algum appoio este cedia.
Por fim Ernesto chegou a uma especie de plataforma. Alli estava seguro,
mas era extremamente difficil subir, visto necessitar para isso de muita
força nos pulsos.
De repente Mauricio, que se dispunha a descer, viu que as pernas de
Ernesto se dobravam e que caia desamparado sobre as rochas que o
sustentavam, dando com a cabeça n'um sovereiro, que providencialmente o
salvou de uma queda fatal.
Mauricio soltou um grito. Ao principio julgou que o seu hospede rolasse
para o abysmo, e então era indubitavel que o seu corpo, feito em mil
pedaços, não pararia senão quando chegasse ao fundo. Com grande
surpresa sua, viu que o mesmo sovereiro que crescia na fenda da rocha
deteve o corpo da queda mortal, mas observou tambem que o corpo estava
immovel e como morto e que da bôcca sahia algum sangue.
Mauricio, deixando-se levar pelo seu generoso coração, confiado nas suas
herculeas forças desceu rapidamente até onde estava Ernesto,
completamente desmaiado.