Durante dez minutos fez todos os esforços imaginaveis para o tornar a

si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as

fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.

Então, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a

ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, começou

a trepar pela ladeira levando suspenso á cintura o inanimado corpo do

seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.

Se a bôa Petra tivesse chegado n'aquella occasião e visto o perigo que o

marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que vê

e premeia as bôas-acções, deu n'aquelle momento forças a Mauricio para

chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.

Quando se viu fóra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o

peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu

graças á Providencia, que os salvara de tão imminente perigo.

O pintor continuava sem voltar a si.

Mauricio pôz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus

robustos braços Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que

não ficava muito longe.

Petra ao vêl-o entrar pallido, coberto de suor, a respiração offegante e

com Ernesto desmaiado nos braços, cujo rosto estava manchado de sangue,

soltou um grito de espanto e disse:

--Que foi, Mauricio? Que succedeu? Morreu o senhor Ernesto?

--Não, não morreu, respondeu Mauricio, está apenas desmaiado. Não te

assustes e ajuda-me a mettêl-o na cama.

Um quarto de hora depois Ernesto abriu os olhos, dirigiu um olhar vago

em redor, e vendo Mauricio e Petra juntos de si, extendeu-lhes as mãos e

disse com difficuldade:

--Obrigado, meus amigos, devo-lhes a vida e agradeço-lhes de toda a

minha alma, porque não quero morrer emquanto não concluir os tres

retratos que prometti ao conde de Loreto.

--Mau! mau! disse o caçador. É verdade que o perigo foi grande, mas já

lá vae. Que maldita raposa.

Ernesto não respondeu, mas, pegando na mão de Mauricio, apertou-a de

encontro ao peito com fraternal carinho.

CAPITULO XXVII

O anjo da morte

Durante quinze dias, Ernesto não sahiu de casa; pintava de manhã e de

tarde. Só alguns curtos momentos deixava a sua tarefa, para dar um

passeio em frente de casa.

Vendo pintar aquelle joven febril com os olhos encovados e a respiração

fatigante, dir-se-hia que tinha esse afan do homem de genio que presente

a morte e que quer concluir a obra que o deve immortalizar.

Estavam concluidos os retratos do conde, e de D. Ventura e tinha entre

mãos o de Amparo.

Ás vezes chamava Mauricio e perguntava-lhe:

--Conhécel-os? Parecem-se?

--Oh! Muito! São elles por uma penna.

Depois dava um charuto a Mauricio, accendia outro, apezar da tosse que o

fumo lhe causava, e continuava pintando.

No quarto do pintor, graças ás offertas do conde de Loreto,

encontravam-se todas as commodidades apetecidas. Quatro pelles de leão

almofadavam o sobrado; duas commodas cadeiras de braços forradas de

marroquim recebiam o pintor quando se sentia fatigado.

Muitas vezes dizia o pintor, sentado junto do fogão e tomando uma

chavena de café:

--Isto não é viver n'um monte: é ter um oasis no meio d'um deserto.

Certa manhã recebeu uma carta dos seus amigos Marcial e André,

dizendo-lhe que lhe haviam conferido o primeiro premio e que lhe iam

levar a medalha: que mandasse um homem á estação de Toledo para os

acompanhar ao monte.

Ernesto chamou Mauricio e disse-lhe:

--Ámanhã devem chegar a Toledo uns amigos de Madrid que veem passar

alguns dias commigo. É preciso que os vás esperar á estação, que

arranjes cavallos para o que fôr preciso e que os tragas para aqui.

Tambem seria bom que trouxesses da cidade o que tua mulher precisar.

Ernesto guardou os retratos para que os seus amigos não vissem. Era

avaro do seu thesouro, não queria que o profanasse a publicidade.

Marcial e André não eram caçadores; mas a caça é agradavel a todos os

homens, sem duvida porque os coelhos não usam revólver para se

defenderem, nem as perdizes disparam dardos contra os seus perseguidores.

Dizem que a caça é a imagem da guerra, sem duvida porque se queima

polvora e se derrama sangue; mas a mim parece-me que da guerra á caça

vae muita differença e bem crente estou de que o governo não passaria

todos os annos trinta e seis mil licenças de caça se o caçador corresse

tanto perigo como o soldado deante do inimigo.

Mas se todos gostam de disparar contra os inoffensivos coelhos, as

ladinas perdizes e as ligeiras lebres, não é para admirar que qualquer

habitante da cidade, ao encontrar-se n'um monte, povoado de caça e tendo

á sua disposição uma espingarda, não tente derramar sangue, ainda que

não seja senão para se baptisar com a cruz de Santo Eustachio.

Chegaram os amigos de Ernesto e depois dos abraços e das exclamações

ante o selvagem panorama, falou-se do quadro de Esther; almoçaram,

tomaram café, beberam tres garrafas de Champagne e pensaram em caçar

visto haver espingardas e caça.

Mauricio propoz uma batida e se bem que os caçadores não fossem muito

felizes, em compensação viram correr e voar muita caça.

Á noite, Petra serviu uma ceia, senão muito variada, pelo menos muito

abundante.

A mocidade tem bom estomago. Comeram bem e beberam muito melhor.

Falou-se de Ernesto chegar a Madrid e este disse:

--Não penso por emquanto em abandonar estes montes, porque estou aqui

perfeitamente. Convenci-me de que a solidão do campo e o ar saudavel

d'estas serras me são muito mais proveitosas do que a vida agitada da

cidade.

Todas as reflexões de Marcial, todos os conselhos de André não

conseguiram demover Ernesto. Os amigos convenceram-se de que seria

inutil falar em similhante assumpto.

Os amigos do pintor ficaram com elle mais tres dias. Chegou a hora da

partida. Marcial tinha em ensaios uma comedia e não podia retardar o seu

regresso a Madrid. Despediram-se promettendo fazer outra visita no mez

de maio, se Ernesto até então não tivesse abandonado os montes.

Ernesto, n'um ponto elevado, viu-os afastarem-se montados nos cavallos e

cantando o côro das bruxas de Macbeth.

--Aquelles são felizes, disse com tristeza, porque em seus corações vive

a alegria da juventude, a esperança da gloria. Ide em paz, meus

amigos, a quem nunca mais verei, a não ser que exista alguma cousa da

vida occulta ao olhar do homem para lá d'esse céu azul que se extende

sobre a minha cabeça.

Ernesto sentou-se. Uma volta do caminho tinha occultado os amigos, a

quem, como acabava de dizer, não tornaria a vêr.

Durante uma hora ficou immovel como o penedo que lhe servia de appoio.

Depois levantou-se, vagarosa e tristemente, dirigiu-se para casa, tirou

o retrato de Amparo, collocou-o no cavallete e pôz-se a pintar.

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..........................................................................

Quando algum conhecido de Mauricio ia caçar aos montes, Ernesto

fechava-se no seu quarto e poucas vezes sahia. Pintava, lia, e bebia rhum.

Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e

os auxilios da sciencia.

Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa.

Passou o verão um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas

vezes mandára Mauricio a Madrid levar quadros de caça ao conde, ficando

em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:

--Isto será a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de

outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu

por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira

e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias

vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.

--É inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faça mais

falta um sacerdote.

Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar,

montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.

Ernesto, ao vêl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros,

dirigiu um olhar de gratidão a Mauricio, e disse:

--Tudo isso é inutil. O que preciso ámanhã é de um sacerdote.

O medico viu effectivamente que a doença de Ernesto era incuravel,

receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse

mais alguma novidade.

Ao sahir, disse a Petra:

--Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de

vida.

Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.

Estavam verdadeiramente impressionados.

Quando Mauricio á noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este

estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.

Ardia um bom fogo no fogão e, apezar do frio não ser muito, Ernesto

queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avançava a passos

gigantescos para se apoderar do coração, para extinguir a vida n'aquelle

corpo, para separar a alma da materia.

--Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu

lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e não temos tempo

a perder.

Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. Só de quando em quando olhava

para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que já tinha visto

defuntos com muito melhor parecer.

--Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz

fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A

vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, está sujeita

á vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal, é uma loucura, uma

temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga

com toda a força do seu desespero: «Não quero morrer.» Assim, pois, é

preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a

grandeza do homem não é sufficiente para prolongar um segundo sequer a

sua vida. Alexandre como Cesar, Aristoteles como Cicero, morreram

quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha

approxima-se e é preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.

Ernesto deteve-se, respirou, levou a mão ao peito e fixou os olhos em

Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua

alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem

estimava como a um pae, o affligiam.

--Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia

seguinte ao da minha morte, que não está longe. Por isso, te pedi para

te sentares e que me prestasses attenção. Dei grandes incommodos tanto a

ti como a tua mulher; têem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos

favores, e é por conseguinte meu dever não os esquecer na hora da minha

morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha

fortuna, pois bem sabes que não tenho herdeiros forçados; mas, apezar de

ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de

todos os beneficios que recebi.

--Mas, senhor Ernesto, nós é que devemos estar agradecidos ao senhor,

disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vêr entrar para

nossa casa, têem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do

que os insignificantes serviços que lhe temos prestado. Por isso não

temos que falar sobre esse assumpto.

--O interesse e o carinho que têem dispensado a este pobre doente, nunca

o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.

Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:

--Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens

duas commissões a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os

meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para

o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente todos, ao saberem que

deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o

que vires, a verdade. E agora só me falta dizer-te que encontrarás

escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herança,

como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto é, tudo isto

que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta

da commoda, é teu e de tua mulher.

Mauricio que havia já um boccado luctava para suster as lagrimas, levou

as mãos aos olhos.

--Vamos, não te afflijas; da-me um abraço e vae-te deitar. Só tenho

ainda a pedir-te para que ámanhã cedo me tragas um padre, porque é bom

pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos

occupando-se sómente dos pygmeus da terra.

Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente;

entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passára e acabaram por

desatar em amargo pranto.

N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.

De quando em quando vinham em bicos de pés até a porta do quarto de

Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.

Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os

cotovellos encostados na borda da meza, e a cabeça appoiada nas mãos.

Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.

Ás sete da manhã, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e

cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce

expressão d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presença

o pastor das almas d'algum povoado proximo.

O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram

pertence ao segredo inviolavel da confissão.

Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.

Ernesto disse-lhe:

--Faze favor de pôr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta

cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.

Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque não podia

trabalhar de pé, principiando a esboçar uma Nossa Senhora das Dôres.

Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.

A febre da morte guiava-lhe a mão.

Em dia e meio pintou uma formosa mãe do Nazareno, de corpo inteiro; mas

aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um

perfeito retrato da condessa de Loreto.

Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito ás

portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.

Mauricio e Petra ficaram assombrados ao verem-no concluido.

--Ah! Que pena um homem assim morrer tão novo! exclamou o rude caçador

n'um arranco de sublime enthusiasmo.

--Mauricio, disse Ernesto, quando eu morrer entregarás este quadro ao

sacerdote que me ouviu em confissão, e diras que, já que os francezes

roubaram de uma capella da sua modesta egreja uma formosa Senhora das

Dôres, eu offereço-lhe esta para que a ponha no seu logar, apezar de não

valer, estou certo, nem a quinta parte do que valia a outra.

No dia seguinte, Ernesto conheceu que lhe restava poucos minutos de vida.

O sol entrava pela janella.

O enfermo permaneceu cêrca de meia hora com o olhar fito no céu e as

mãos postas em religioso recolhimento.

Petra e Mauricio, que estavam a seu lado, não se atreviam a

interrompel-o d'aquelle doce extasis.

--Meus amigos, disse Ernesto, extendendo os braços e, pegando nas mãos

de Petra e de Mauricio, vêem aquella nuvemsinha branca que está suspensa

no espaço?

Os dois olharam para o céu, mas não viram nuvem nenhuma, contudo Petra

respondeu com voz fraca:

--Sim.

--Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! É

mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes são brancos como o disco

da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos são negros e de um

brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um

sorriso frio que penetra até a medulla dos ossos. Sobre a fronte lê-se a

palavra _Perdão_, e os seus braços extendem-se até mim como para me

receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. Dá-me a

paleta e os pinceis! Põe uma tela no cavallete!

Ernesto apertava as mãos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os

e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:

--Não posso!... Não posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!...

Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...

Os braços do pintor cairam sem forças, estremeceu todo o corpo,

abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil

suspiro se lhe escapou do peito.

Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.

A alma do pintor abandonára a materia.

Ernesto já não existia.

Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu

futuro, por um beijo.

Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e

com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descanço d'aquelle

desventurado moço que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e

entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a

morte que lh'o produzira.

CAPITULO XXVIII

Conclusão

O sacerdote, que ouvira o pintor em confissão, em signal de

agradecimento pela bellissima Senhora das Dôres que elle offerecera á

sua egreja, resou uma missa cantada pelo descanço da alma do artista.

Mauricio deu sepultura ao corpo de Ernesto no cemiterio da villa de Orgaz.

Depois de cumpridos estes tristes deveres, Mauricio dispôz-se a cumprir

as ultimas vontades do seu hospede.

Preparou tudo para a viagem e disse á mulher:

--Ámanhã vou a Madrid desempenhar-me das commissões de que me encarregou

o senhor Ernesto. Durante a minha ausencia se não queres ficar só

levar-te-hei até Toledo. Calculo não me demorar mais de tres dias.

--Vae socegado e sem pressa; eu não deixo a casa onde estão os nossos

haveres. Demais, os pastores têem as choças aqui perto, e se tivesse

necessidade, bem sabes que me prestariam qualquer auxilio.

Mauricio partiu.

A carta que Ernesto escrevêra aos seus amigos da rua do Prado,

resumia-se a uma terna despedida.

Sigamos, pois, Mauricio, a casa do conde de Loreto.

Fernando del Villar, por quem uma carruagem esperava á porta, descia a

escada do seu palacio quando viu entrar Mauricio com os tres quadros

perfeitamente empacotados.

O conde parou ao reconhecer o caçador dos montes de Toledo.

--Ah! É o senhor? lhe disse. Como está Ernesto?

--Morreu! respondeu Mauricio.

--Como? Morreu?

--Ha quatro dias, senhor conde.

--Pobre rapaz! Mas suba, suba.

O conde começou a subir precipitadamente, seguido de Mauricio,

atravessou varias casas e por fim entrou n'um elegante e luxuoso

escriptorio.

--Morreu!... repetiu o conde deixando-se cair n'uma cadeira. Pobre

Ernesto! Não esperava similhante noticia. Sente-se, sente-se, meu amigo,

e diga-me qual o fim da sua vinda, porque creio que ha mais alguma cousa

do que annunciar-me tão irreparavel desgraça.

--O senhor Ernesto encarregou-me na vespera da sua morte de trazer ao

senhor conde estes tres retratos e esta carta.

O conde levantou-se, desatou o cordão que prendia os quadros, e,

collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que

entrasse mais luz.

Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa,

não poude conter uma exclamação, um grito de assombro.

--Isto é admiravel! Isto é admiravel! Que pena que homens assim vivam

tão pouco!

E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.

O conde era um conhecedor de pintura. Viajára muito e vira muitissimo;

conhecia toda essa collecção de retratos celebres, que honram os seus

auctores, pendurados em exposição nas paredes dos museus; mas nenhum

ainda lhe produzira tanta admiração como a tela que tinha ante si.

O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e

sobretudo pela parecença.

Demais a bôcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma

expressão tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios

humidos, de uma côr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e

de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam para sempre a

alma do homem que o recebe.

Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas

exprimiam tambem amor e melancholia.

Ao conde de Loreto nunca parecêra tão formosa a mulher como n'aquelle

momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato,

onde a mão do pintor, sem se servir da adulação, possuia alguma cousa

mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma

do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bôcca encantadora.

Ninguem, ao vêr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos

divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor não violára nem

uma só linha, nem na mais delicada sombra, a posição natural d'aquella

incomparavel bôcca.

O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e,

amante da arte que immortalizou Raphael, não podia desviar os olhos do

quadro.

Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado.

Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.

Quando se cançou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mão. Era a

que pouco antes lhe entregára o honrado Mauricio.

Rasgou o envellope e leu:

«Senhor conde de Loreto.

«Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo á terra, pego na penna

com mão fraca para lhe enviar as minhas despedidas.

«Quando receber a minha carta já terei deixado de existir. Um sêr a

menos na terra, uma particula de pó a mais em algum ignorado

cemiterio d'estas regiões; mas em compensação, outros seres nascem,

emquanto o vento levanta o pó dos que morrem. O mundo segue o

seu caminho: esta é a cadeia da humanidade.

«Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. São as minhas ultimas

obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis não offenderão mais a

arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se

lhe poderá attribuir será a parecença, e isso, sem duvida por que

eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me não esqueci nem

um só instante dos meus amigos.

«Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra,

isto é, o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doença

dois irmãos carinhosos. Se eu fosse tão rico como Salomão,

deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo não

lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e só posso pagar-lhes

com amor e agradecimento os beneficios recebidos.

«Assim, pois, senhor conde, peço-lhe que entregue a Mauricio o valor

que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma

recompensa do muito que lhes devo.

«Mauricio é um honrado caçador de profissão que me serviu com

desinteresse e sem esperança de recompensa: não sabe portanto que me

occupo d'elle n'esta carta.

«Desculpe-me, senhor conde, a liberdade que tomo, e não se esqueça

de que ao soltar o meu ultimo suspiro bemdirei os meus amigos.

«Apresente os meus respeitos á senhora condessa e dê um abraço de

eterna despedida ao meu bom amigo D. Ventura.

_Ernesto._»

O conde acabou a leitura da carta commovido, dobrou-a e guardou-a na

algibeira.

Nos olhos havia uma certa humidade, devida ás lagrimas.

Mauricio, vendo que o conde guardava silencio, e desejando acabar com

aquella visita, disse:

--Se o senhor conde m'o permitte, retiro-me, pois preciso ainda esta

noite regressar a Toledo.

O conde dirigiu-se para o cofre, abriu-o, e, depois de pensar um

momento, começou a contar notas de banco.

--Mauricio, disse Fernando, ignora sem duvida qual a missão de que o meu

amigo Ernesto me encarrega n'esta carta.

--Só me disse para a entregar ao senhor conde juntamente com os retratos.

--Pois bem; Ernesto encarrega-me de lhe entregar seis mil duros que lhe

devo.

--A mim? disse admirado o caçador.

--Sim, a si.

--Mas que devo fazer a esse dinheiro? Porque elle nada me disse ao morrer.

--Guardál-os para si.

--É impossivel! Seis mil duros é uma fortuna para um pobre como eu.

O conde, admirado da honradez d'aquelle homem, teve um nobre pensamento,

e ajuntou:

--Desculpe-me; enganei-me.

--Eu logo vi que não podia ser, disse Mauricio quasi contente.

--Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil

duros são dez mil.

Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.

O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil

_reales_, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de

Mauricio, dizendo:

Historia de um beijo · 第 11 / 12 段