si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as
fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.
Então, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a
ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, começou
a trepar pela ladeira levando suspenso á cintura o inanimado corpo do
seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.
Se a bôa Petra tivesse chegado n'aquella occasião e visto o perigo que o
marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que vê
e premeia as bôas-acções, deu n'aquelle momento forças a Mauricio para
chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.
Quando se viu fóra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o
peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu
graças á Providencia, que os salvara de tão imminente perigo.
O pintor continuava sem voltar a si.
Mauricio pôz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus
robustos braços Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que
não ficava muito longe.
Petra ao vêl-o entrar pallido, coberto de suor, a respiração offegante e
com Ernesto desmaiado nos braços, cujo rosto estava manchado de sangue,
soltou um grito de espanto e disse:
--Que foi, Mauricio? Que succedeu? Morreu o senhor Ernesto?
--Não, não morreu, respondeu Mauricio, está apenas desmaiado. Não te
assustes e ajuda-me a mettêl-o na cama.
Um quarto de hora depois Ernesto abriu os olhos, dirigiu um olhar vago
em redor, e vendo Mauricio e Petra juntos de si, extendeu-lhes as mãos e
disse com difficuldade:
--Obrigado, meus amigos, devo-lhes a vida e agradeço-lhes de toda a
minha alma, porque não quero morrer emquanto não concluir os tres
retratos que prometti ao conde de Loreto.
--Mau! mau! disse o caçador. É verdade que o perigo foi grande, mas já
lá vae. Que maldita raposa.
Ernesto não respondeu, mas, pegando na mão de Mauricio, apertou-a de
encontro ao peito com fraternal carinho.
CAPITULO XXVII
O anjo da morte
Durante quinze dias, Ernesto não sahiu de casa; pintava de manhã e de
tarde. Só alguns curtos momentos deixava a sua tarefa, para dar um
passeio em frente de casa.
Vendo pintar aquelle joven febril com os olhos encovados e a respiração
fatigante, dir-se-hia que tinha esse afan do homem de genio que presente
a morte e que quer concluir a obra que o deve immortalizar.
Estavam concluidos os retratos do conde, e de D. Ventura e tinha entre
mãos o de Amparo.
Ás vezes chamava Mauricio e perguntava-lhe:
--Conhécel-os? Parecem-se?
--Oh! Muito! São elles por uma penna.
Depois dava um charuto a Mauricio, accendia outro, apezar da tosse que o
fumo lhe causava, e continuava pintando.
No quarto do pintor, graças ás offertas do conde de Loreto,
encontravam-se todas as commodidades apetecidas. Quatro pelles de leão
almofadavam o sobrado; duas commodas cadeiras de braços forradas de
marroquim recebiam o pintor quando se sentia fatigado.
Muitas vezes dizia o pintor, sentado junto do fogão e tomando uma
chavena de café:
--Isto não é viver n'um monte: é ter um oasis no meio d'um deserto.
Certa manhã recebeu uma carta dos seus amigos Marcial e André,
dizendo-lhe que lhe haviam conferido o primeiro premio e que lhe iam
levar a medalha: que mandasse um homem á estação de Toledo para os
acompanhar ao monte.
Ernesto chamou Mauricio e disse-lhe:
--Ámanhã devem chegar a Toledo uns amigos de Madrid que veem passar
alguns dias commigo. É preciso que os vás esperar á estação, que
arranjes cavallos para o que fôr preciso e que os tragas para aqui.
Tambem seria bom que trouxesses da cidade o que tua mulher precisar.
Ernesto guardou os retratos para que os seus amigos não vissem. Era
avaro do seu thesouro, não queria que o profanasse a publicidade.
Marcial e André não eram caçadores; mas a caça é agradavel a todos os
homens, sem duvida porque os coelhos não usam revólver para se
defenderem, nem as perdizes disparam dardos contra os seus perseguidores.
Dizem que a caça é a imagem da guerra, sem duvida porque se queima
polvora e se derrama sangue; mas a mim parece-me que da guerra á caça
vae muita differença e bem crente estou de que o governo não passaria
todos os annos trinta e seis mil licenças de caça se o caçador corresse
tanto perigo como o soldado deante do inimigo.
Mas se todos gostam de disparar contra os inoffensivos coelhos, as
ladinas perdizes e as ligeiras lebres, não é para admirar que qualquer
habitante da cidade, ao encontrar-se n'um monte, povoado de caça e tendo
á sua disposição uma espingarda, não tente derramar sangue, ainda que
não seja senão para se baptisar com a cruz de Santo Eustachio.
Chegaram os amigos de Ernesto e depois dos abraços e das exclamações
ante o selvagem panorama, falou-se do quadro de Esther; almoçaram,
tomaram café, beberam tres garrafas de Champagne e pensaram em caçar
visto haver espingardas e caça.
Mauricio propoz uma batida e se bem que os caçadores não fossem muito
felizes, em compensação viram correr e voar muita caça.
Á noite, Petra serviu uma ceia, senão muito variada, pelo menos muito
abundante.
A mocidade tem bom estomago. Comeram bem e beberam muito melhor.
Falou-se de Ernesto chegar a Madrid e este disse:
--Não penso por emquanto em abandonar estes montes, porque estou aqui
perfeitamente. Convenci-me de que a solidão do campo e o ar saudavel
d'estas serras me são muito mais proveitosas do que a vida agitada da
cidade.
Todas as reflexões de Marcial, todos os conselhos de André não
conseguiram demover Ernesto. Os amigos convenceram-se de que seria
inutil falar em similhante assumpto.
Os amigos do pintor ficaram com elle mais tres dias. Chegou a hora da
partida. Marcial tinha em ensaios uma comedia e não podia retardar o seu
regresso a Madrid. Despediram-se promettendo fazer outra visita no mez
de maio, se Ernesto até então não tivesse abandonado os montes.
Ernesto, n'um ponto elevado, viu-os afastarem-se montados nos cavallos e
cantando o côro das bruxas de Macbeth.
--Aquelles são felizes, disse com tristeza, porque em seus corações vive
a alegria da juventude, a esperança da gloria. Ide em paz, meus
amigos, a quem nunca mais verei, a não ser que exista alguma cousa da
vida occulta ao olhar do homem para lá d'esse céu azul que se extende
sobre a minha cabeça.
Ernesto sentou-se. Uma volta do caminho tinha occultado os amigos, a
quem, como acabava de dizer, não tornaria a vêr.
Durante uma hora ficou immovel como o penedo que lhe servia de appoio.
Depois levantou-se, vagarosa e tristemente, dirigiu-se para casa, tirou
o retrato de Amparo, collocou-o no cavallete e pôz-se a pintar.
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Quando algum conhecido de Mauricio ia caçar aos montes, Ernesto
fechava-se no seu quarto e poucas vezes sahia. Pintava, lia, e bebia rhum.
Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e
os auxilios da sciencia.
Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa.
Passou o verão um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas
vezes mandára Mauricio a Madrid levar quadros de caça ao conde, ficando
em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:
--Isto será a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de
outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu
por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira
e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias
vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.
--É inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faça mais
falta um sacerdote.
Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar,
montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.
Ernesto, ao vêl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros,
dirigiu um olhar de gratidão a Mauricio, e disse:
--Tudo isso é inutil. O que preciso ámanhã é de um sacerdote.
O medico viu effectivamente que a doença de Ernesto era incuravel,
receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse
mais alguma novidade.
Ao sahir, disse a Petra:
--Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de
vida.
Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.
Estavam verdadeiramente impressionados.
Quando Mauricio á noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este
estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.
Ardia um bom fogo no fogão e, apezar do frio não ser muito, Ernesto
queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avançava a passos
gigantescos para se apoderar do coração, para extinguir a vida n'aquelle
corpo, para separar a alma da materia.
--Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu
lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e não temos tempo
a perder.
Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. Só de quando em quando olhava
para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que já tinha visto
defuntos com muito melhor parecer.
--Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz
fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A
vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, está sujeita
á vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal, é uma loucura, uma
temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga
com toda a força do seu desespero: «Não quero morrer.» Assim, pois, é
preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a
grandeza do homem não é sufficiente para prolongar um segundo sequer a
sua vida. Alexandre como Cesar, Aristoteles como Cicero, morreram
quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha
approxima-se e é preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.
Ernesto deteve-se, respirou, levou a mão ao peito e fixou os olhos em
Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua
alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem
estimava como a um pae, o affligiam.
--Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia
seguinte ao da minha morte, que não está longe. Por isso, te pedi para
te sentares e que me prestasses attenção. Dei grandes incommodos tanto a
ti como a tua mulher; têem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos
favores, e é por conseguinte meu dever não os esquecer na hora da minha
morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha
fortuna, pois bem sabes que não tenho herdeiros forçados; mas, apezar de
ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de
todos os beneficios que recebi.
--Mas, senhor Ernesto, nós é que devemos estar agradecidos ao senhor,
disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vêr entrar para
nossa casa, têem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do
que os insignificantes serviços que lhe temos prestado. Por isso não
temos que falar sobre esse assumpto.
--O interesse e o carinho que têem dispensado a este pobre doente, nunca
o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.
Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:
--Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens
duas commissões a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os
meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para
o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente todos, ao saberem que
deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o
que vires, a verdade. E agora só me falta dizer-te que encontrarás
escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herança,
como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto é, tudo isto
que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta
da commoda, é teu e de tua mulher.
Mauricio que havia já um boccado luctava para suster as lagrimas, levou
as mãos aos olhos.
--Vamos, não te afflijas; da-me um abraço e vae-te deitar. Só tenho
ainda a pedir-te para que ámanhã cedo me tragas um padre, porque é bom
pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos
occupando-se sómente dos pygmeus da terra.
Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente;
entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passára e acabaram por
desatar em amargo pranto.
N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.
De quando em quando vinham em bicos de pés até a porta do quarto de
Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.
Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os
cotovellos encostados na borda da meza, e a cabeça appoiada nas mãos.
Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.
Ás sete da manhã, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e
cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce
expressão d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presença
o pastor das almas d'algum povoado proximo.
O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram
pertence ao segredo inviolavel da confissão.
Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.
Ernesto disse-lhe:
--Faze favor de pôr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta
cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.
Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque não podia
trabalhar de pé, principiando a esboçar uma Nossa Senhora das Dôres.
Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.
A febre da morte guiava-lhe a mão.
Em dia e meio pintou uma formosa mãe do Nazareno, de corpo inteiro; mas
aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um
perfeito retrato da condessa de Loreto.
Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito ás
portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.
Mauricio e Petra ficaram assombrados ao verem-no concluido.
--Ah! Que pena um homem assim morrer tão novo! exclamou o rude caçador
n'um arranco de sublime enthusiasmo.
--Mauricio, disse Ernesto, quando eu morrer entregarás este quadro ao
sacerdote que me ouviu em confissão, e diras que, já que os francezes
roubaram de uma capella da sua modesta egreja uma formosa Senhora das
Dôres, eu offereço-lhe esta para que a ponha no seu logar, apezar de não
valer, estou certo, nem a quinta parte do que valia a outra.
No dia seguinte, Ernesto conheceu que lhe restava poucos minutos de vida.
O sol entrava pela janella.
O enfermo permaneceu cêrca de meia hora com o olhar fito no céu e as
mãos postas em religioso recolhimento.
Petra e Mauricio, que estavam a seu lado, não se atreviam a
interrompel-o d'aquelle doce extasis.
--Meus amigos, disse Ernesto, extendendo os braços e, pegando nas mãos
de Petra e de Mauricio, vêem aquella nuvemsinha branca que está suspensa
no espaço?
Os dois olharam para o céu, mas não viram nuvem nenhuma, contudo Petra
respondeu com voz fraca:
--Sim.
--Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! É
mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes são brancos como o disco
da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos são negros e de um
brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um
sorriso frio que penetra até a medulla dos ossos. Sobre a fronte lê-se a
palavra _Perdão_, e os seus braços extendem-se até mim como para me
receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. Dá-me a
paleta e os pinceis! Põe uma tela no cavallete!
Ernesto apertava as mãos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os
e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:
--Não posso!... Não posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!...
Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...
Os braços do pintor cairam sem forças, estremeceu todo o corpo,
abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil
suspiro se lhe escapou do peito.
Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.
A alma do pintor abandonára a materia.
Ernesto já não existia.
Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu
futuro, por um beijo.
Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e
com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descanço d'aquelle
desventurado moço que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e
entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a
morte que lh'o produzira.
CAPITULO XXVIII
Conclusão
O sacerdote, que ouvira o pintor em confissão, em signal de
agradecimento pela bellissima Senhora das Dôres que elle offerecera á
sua egreja, resou uma missa cantada pelo descanço da alma do artista.
Mauricio deu sepultura ao corpo de Ernesto no cemiterio da villa de Orgaz.
Depois de cumpridos estes tristes deveres, Mauricio dispôz-se a cumprir
as ultimas vontades do seu hospede.
Preparou tudo para a viagem e disse á mulher:
--Ámanhã vou a Madrid desempenhar-me das commissões de que me encarregou
o senhor Ernesto. Durante a minha ausencia se não queres ficar só
levar-te-hei até Toledo. Calculo não me demorar mais de tres dias.
--Vae socegado e sem pressa; eu não deixo a casa onde estão os nossos
haveres. Demais, os pastores têem as choças aqui perto, e se tivesse
necessidade, bem sabes que me prestariam qualquer auxilio.
Mauricio partiu.
A carta que Ernesto escrevêra aos seus amigos da rua do Prado,
resumia-se a uma terna despedida.
Sigamos, pois, Mauricio, a casa do conde de Loreto.
Fernando del Villar, por quem uma carruagem esperava á porta, descia a
escada do seu palacio quando viu entrar Mauricio com os tres quadros
perfeitamente empacotados.
O conde parou ao reconhecer o caçador dos montes de Toledo.
--Ah! É o senhor? lhe disse. Como está Ernesto?
--Morreu! respondeu Mauricio.
--Como? Morreu?
--Ha quatro dias, senhor conde.
--Pobre rapaz! Mas suba, suba.
O conde começou a subir precipitadamente, seguido de Mauricio,
atravessou varias casas e por fim entrou n'um elegante e luxuoso
escriptorio.
--Morreu!... repetiu o conde deixando-se cair n'uma cadeira. Pobre
Ernesto! Não esperava similhante noticia. Sente-se, sente-se, meu amigo,
e diga-me qual o fim da sua vinda, porque creio que ha mais alguma cousa
do que annunciar-me tão irreparavel desgraça.
--O senhor Ernesto encarregou-me na vespera da sua morte de trazer ao
senhor conde estes tres retratos e esta carta.
O conde levantou-se, desatou o cordão que prendia os quadros, e,
collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que
entrasse mais luz.
Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa,
não poude conter uma exclamação, um grito de assombro.
--Isto é admiravel! Isto é admiravel! Que pena que homens assim vivam
tão pouco!
E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.
O conde era um conhecedor de pintura. Viajára muito e vira muitissimo;
conhecia toda essa collecção de retratos celebres, que honram os seus
auctores, pendurados em exposição nas paredes dos museus; mas nenhum
ainda lhe produzira tanta admiração como a tela que tinha ante si.
O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e
sobretudo pela parecença.
Demais a bôcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma
expressão tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios
humidos, de uma côr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e
de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam para sempre a
alma do homem que o recebe.
Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas
exprimiam tambem amor e melancholia.
Ao conde de Loreto nunca parecêra tão formosa a mulher como n'aquelle
momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato,
onde a mão do pintor, sem se servir da adulação, possuia alguma cousa
mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma
do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bôcca encantadora.
Ninguem, ao vêr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos
divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor não violára nem
uma só linha, nem na mais delicada sombra, a posição natural d'aquella
incomparavel bôcca.
O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e,
amante da arte que immortalizou Raphael, não podia desviar os olhos do
quadro.
Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado.
Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.
Quando se cançou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mão. Era a
que pouco antes lhe entregára o honrado Mauricio.
Rasgou o envellope e leu:
«Senhor conde de Loreto.
«Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo á terra, pego na penna
com mão fraca para lhe enviar as minhas despedidas.
«Quando receber a minha carta já terei deixado de existir. Um sêr a
menos na terra, uma particula de pó a mais em algum ignorado
cemiterio d'estas regiões; mas em compensação, outros seres nascem,
emquanto o vento levanta o pó dos que morrem. O mundo segue o
seu caminho: esta é a cadeia da humanidade.
«Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. São as minhas ultimas
obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis não offenderão mais a
arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se
lhe poderá attribuir será a parecença, e isso, sem duvida por que
eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me não esqueci nem
um só instante dos meus amigos.
«Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra,
isto é, o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doença
dois irmãos carinhosos. Se eu fosse tão rico como Salomão,
deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo não
lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e só posso pagar-lhes
com amor e agradecimento os beneficios recebidos.
«Assim, pois, senhor conde, peço-lhe que entregue a Mauricio o valor
que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma
recompensa do muito que lhes devo.
«Mauricio é um honrado caçador de profissão que me serviu com
desinteresse e sem esperança de recompensa: não sabe portanto que me
occupo d'elle n'esta carta.
«Desculpe-me, senhor conde, a liberdade que tomo, e não se esqueça
de que ao soltar o meu ultimo suspiro bemdirei os meus amigos.
«Apresente os meus respeitos á senhora condessa e dê um abraço de
eterna despedida ao meu bom amigo D. Ventura.
_Ernesto._»
O conde acabou a leitura da carta commovido, dobrou-a e guardou-a na
algibeira.
Nos olhos havia uma certa humidade, devida ás lagrimas.
Mauricio, vendo que o conde guardava silencio, e desejando acabar com
aquella visita, disse:
--Se o senhor conde m'o permitte, retiro-me, pois preciso ainda esta
noite regressar a Toledo.
O conde dirigiu-se para o cofre, abriu-o, e, depois de pensar um
momento, começou a contar notas de banco.
--Mauricio, disse Fernando, ignora sem duvida qual a missão de que o meu
amigo Ernesto me encarrega n'esta carta.
--Só me disse para a entregar ao senhor conde juntamente com os retratos.
--Pois bem; Ernesto encarrega-me de lhe entregar seis mil duros que lhe
devo.
--A mim? disse admirado o caçador.
--Sim, a si.
--Mas que devo fazer a esse dinheiro? Porque elle nada me disse ao morrer.
--Guardál-os para si.
--É impossivel! Seis mil duros é uma fortuna para um pobre como eu.
O conde, admirado da honradez d'aquelle homem, teve um nobre pensamento,
e ajuntou:
--Desculpe-me; enganei-me.
--Eu logo vi que não podia ser, disse Mauricio quasi contente.
--Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil
duros são dez mil.
Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.
O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil
_reales_, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de
Mauricio, dizendo: