--A caça que matarmos, exceptuando algumas peças que Petra cosinhará, é

tua e pódes vendêl-a e guardar o dinheiro. Eu comerei com vocês. Nada de

cerimonias, o modesto cosido e uma vez por outra uma perdiz com molho de

villão ou um coelho á caçadora, de que muito gósto, e por isso para

prato darei doze reales diarios. O café e o vinho ficam por minha conta.

Por agora aqui têem esse caixote, onde estão varias garrafas. Preciso

que me cedam a sala, porque tenciono pintar alguns boccados. Tambem

virei a precisar que de vez em quando vás a Madrid levar os quadros que

pintar e comprar varias cousas que me tornem mais ameno este deserto.

Emfim, meu caro Mauricio, sei que vou dar-te muitos incommodos, que vaes

ter muitos carinhos para commigo, mas eu procurarei recompensar-te o

melhor que puder.

--Offerece-me muito, disse o caçador, visto poder vender uma parte da

caça que matarmos, e então com o senhor que atira tão bem ou melhor do

que eu!...

--Mas estou doente, e já não tenho as infatigaveis pernas d'outros

tempos; e muitos dias deixaremos de matar por causa d'ellas.

Durante aquelle dia, Ernesto, Mauricio e Petra occuparam-se em

arrumações, transformando a sala em atelier para o pintor.

--Agora, meus amigos, só me falta advertil-os d'uma cousa, disse

Ernesto. Estou doente, e como todos os doentes tenho as minhas

rabugices. Quando estiver no meu quarto, depois de me chamarem duas

vezes para comer e eu não vier, comam sem esperarem por mim.

Mauricio e Petra notaram que Ernesto estava muito pallido e com mau

parecer, que tinha uma tosse tão sêcca e importuna que não prophetisavam

nada de agradavel para o seu hospede.

Quando Mauricio e sua mulher recolheram ao quarto, ella disse:

--Uhn! Parece-me que o senhor Ernesto não viverá por muito tempo.

--O mesmo penso eu.

--Sabes, Mauricio, que me parece que deve haver algum mysterio em tudo

isto?

--Anh! As mulheres não pensam n'outra cousa. Aqui não ha outro mysterio

senão que o senhor Ernesto está doente e que se vem restabelecer.

--Seja como fôr, que seja bem vindo, porque com elle veiu a fortuna.

Mauricio não respondeu. Como a mulher, suspeitára que algum desgosto

atormentava o seu hospede, mas mais prudente que Petra, disse de si para

comsigo:

--Dêmos tempo ao tempo que saberemos a verdade. Emfim, seja como fôr,

Ernesto é bom rapaz e sinto-me satisfeito por vêl-o em minha casa.

..........................................................................

..........................................................................

Ernesto estava fechado no quarto. Seriam onze horas da noite. O luar

entrava pela janella que se conservava aberta. A brisa nocturna levava

até elle, de envolta com as suas invisiveis pregas, o perfume das

silvestres plantas do monte.

Aos pés da cama, sobre duas pelles de carneiro, dormiam os dois cães que

Ernesto baptisára com os nomes de Roma e Florença.

O pintor, sentado junto de uma mesa, tinha na sua frente uma garrafa de

cognac e um copo.

Não illuminava o quarto outra luz senão a do astro da noite.

De vez em quando Ernesto bebia um gole de cognac e levava a mão ao

peito, respirando com difficuldade.

--Ah! Sim, sim, dizia, falando comsigo. A solidão dos montes, é o que me

convêm, porque longe da importuna charlatanice dos homens poderei

dedicar a ella todos os momentos da minha vida. Quizera apagar da minha

alma a recordação d'aquellas noites de Florença e arrancar dos meus

labios o beijo de fogo que me queima o coração. Mas é impossivel! Cada

vez a amo mais. Que seja feliz já que eu o não posso ser!

Ernesto bebeu de um só trago o conteúdo que ainda tinha no copo e

encheu-o novamente.

--A embriaguez sempre me repugnou, continuou, mas é o meu unico recurso

para esquecer. Que feliz é o homem que esquece!

E Ernesto esvasiou o segundo copo, fazendo um gesto de repugnancia; mas

dominando-se a si mesmo encheu-o pela terceira vez, despejando-o

rapidamente.

--Abraza-se-me a garganta, murmurou, mas é preciso que durma e que esqueça.

E, levantando-se tirou uma garrafa de champagne do armario onde as

arrumára, fez-lhe saltar a rolha, e bebeu com avidez, dizendo:

--Este é que é o grande vinho! Vinde, sonhos côr de rosa! Vinde, ainda

que seja uma mentira, uma illusão, fumo que desappareça ao sopro

terrivel da realidade!

E depois de exgotar a garrafa, deixou-se cahir na cama, onde não tardou

muito que adormecesse, porque estava completamente embriagado.

..........................................................................

..........................................................................

Mauricio e Petra levantaram-se com o sol, e viram, com grande assombro,

ao passarem pelo quarto de Ernesto, que as janellas estavam abertas.

--Sahiria tão cedo? disse Mauricio.

E entrou no quarto.

Ernesto dormia. Mauricio fechou a janella e sahiu nos bicos dos pés

para o não despertar, mas toda a precaução foi inutil, porque Ernesto

abriu os olhos e viu-o.

--Ah! És tu? disse elle. Bons dias, Mauricio. Que bem que dormi.

Mauricio reparou então que o seu hospede não se despira, e que sobre a

mesa estavam duas garrafas despejadas.

--Sabes, Mauricio, que estou com vontade de experimentar os meus cães?

--Podemos dar uma volta, se quizer.

--Mas é preciso ter alguma contemplação.

--Andaremos só o que quizer.

--Então vamos.

E Ernesto poz a cartucheira, pegou na espingarda e chamou os cães.

A uns quinhentos passos de casa, Roma e Florença levantaram os focinhos

e moveram a cauda com mais viveza do que a usual.

--Parece que os cães se sentem satisfeitos, disse Ernesto.

--Têem bom faro. Já sabem que este terreno é muito abundante de caça; e

estou crente que algum dia vou encontrar as perdizes dentro de minha casa.

Os cães deram signal: Roma todo curvado com o focinho junto ao matto,

Florença extendido. Roma encontrára uma peça de surpreza e Florença o

rasto verdadeiro.

Um bando de perdizes levantou-se então com estrepito do meio do matto á

investida dos cães.

Mauricio disparou, matando com o segundo tiro um perdigoto. Ernesto ia

tão distrahido que não teve tempo de fazer fogo.

Desde o rei ao batedor, desde o caçador ao armador, todos quantos

abandonam as commodidades da sua casa e se dedicam aos prazeres da caça,

são inimigos irreconciliaveis da perdiz; por isso a natureza a dotou com

uma vista melhor que a do lynce, de um ouvido superior ao da lebre, e de

um instincto de conservação tão grande que não ha animal que lhe ganhe.

Se a perdiz fosse tão dorminhôca como o arganaz e tão indolente como a

codorniz, teria desapparecido do reino animal antes de se inventar a

polvora.

O arganaz tem, comtudo, tanto engenho como somno; diga o ardil

maravilhosamente inventado por elle para apanhar o incauto passarinho

que vae pôr sobre elle, satisfeito por ter encontrado um ninho onde

guardar os ovos.

Mas deixemos esta digressão. Se algum dia as minhas occupações

permittirem, escreverei um livro para os caçadores que contenha a parte

agradavel e ridicula da caça, consignada na pratica de muitos annos de

experiencia passados na agreste e grata solidão dos montes.

Voaram as perdizes, surprehendidas no seu doce bem-estar, á sombra de um

sobreiro, e como o violento e rapido vôo da perdiz excita e põe nervoso

o caçador aficcionado, Mauricio exclamou:

--Vamos a ellas, senhor Ernesto.

--Sim, sim, vamos, já que não disparei.

Mauricio esqueceu n'aquelle momento que levava por companheiro um doente

fraco, e foi depressa, ou melhor dizendo, a correr pela encosta de um

barranco.

Ernesto fez esforços para o seguir mas a meio caminho largou a

espingarda, extendeu os braços e cahiu desamparado. Tinha desmaiado.

Mauricio deteve-se assustado, pegou no seu hospede ao collo e deitou a

correr até casa, que não era longe. Petra ao vêl-o entrar, trazendo

Ernesto nos braços, não poude conter um grito.

Mauricio continuou o seu caminho e deitou Ernesto na sua cama, o qual,

pouco depois, abriu os olhos, enviando um sorriso de agradecimento ao

caçador.

--Diabo! Que susto que me pregou, senhor Ernesto! Julguei que se

despenhava pelo barranco.

--Bem vês, Mauricio, que não presto para nada, nem mesmo para caçar. Já

estou melhor. Mas em quanto não estiver em estado de te acompanhar,

dedicar-me-hei a caça de espera. Agora tranquilliza-te, hoje em vez

de caçar, pintarei. É preciso matar o tempo.

Uma hora depois, Ernesto mais alliviado, tomava algum alimento e punha

uma tela n'um cavallete.

Pensou alguns minutos qual o assumpto de que trataria primeiro, e acabou

por decidir-se, esboçando a scena que pouco antes succedêra no barranco.

CAPITULO XXIII

Uma caçada

Durante oito dias Ernesto não tornou a pegar na espingarda. De manhã,

pintava, á tarde, seguido pelos cães dirigia-se a um monte proximo de

casa, sentava-se na parte mais alta e como gozava disfructando o

panorama que aquelle sitio apresentava, passava largas horas immovel

como uma estatua.

Algumas vezes, já noite, Mauricio ia buscal-o e ambos regressavam a casa.

Ao nono dia, Ernesto chamou Mauricio.

--Desejo que vás a Madrid, disse-lhe, entregar este quadro á pessoa que

te indicarei, mas preciso primeiro que matemos um javali, para offerecer

á mesma pessoa.

--Para isso é preciso fazermos uma espera toda a noite, e como o senhor

está muito fraco...

--Não te inquietes com a minha fraqueza; esperaremos. Preciso de um javali.

--Posso matal-o sósinho, se quizer.

--Não, não; quero acompanhar-te. Quando póde ser?

--Esta noite; sei onde se vae banhar uma manada d'elles, e é infallivel

matar-se algum.

--Um só chega.

--Pois matar-se-ha.

--Então prepara tudo para esta noite.

--Devo advertil-o de que o sitio onde vamos fazer a espera, fica a tres

quartos d'hora de caminho d'aqui.

--Não faz mal, iremos com antecedencia. Sahiremos cedo.

--Bem, bem.

Mauricio sahiu do quarto de Ernesto, meneando a cabeça em signal de

desgosto, chegou á cosinha, onde estava sua mulher, e disse-lhe:

--Petra, esta noite o senhor Ernesto quer que vamos á espera dos

javalis: tem desejos de matar um. Por isso cearemos uma hora antes de

pôr o sol. Talvez não voltemos em toda a noite.

--Mas isso é uma loucura. O sr. Ernesto não está em estado de passar

tantas horas ao relento da noite.

--Então que queres, embirrou que me ha de acompanhar!

--Mas não acho bôa a vida que leva para quem precisa restabelecer-se.

Mauricio encolheu os hombros, e, sentando-se num banco, enrolou um cigarro.

--Estamos em quarto minguante. Para matar uma ou duas peças é preciso ir

aos charcos do barranco da Culebra, pois vão ali de noite beber agua e

fossar no barro. O caminho não é dos melhores. Queira Deus que possa lá

chegar.

--Já lhe disseste isso? Porque não vae a cavallo?

--Já, mulher, já; mas diz que quer ir a pé e quando elle teima não ha

outro remedio senão obedecer.

Petra approximou-se do marido, e, baixando a voz, disse:

--Dize-me, Mauricio. Tu conhécel-o ha muito tempo?

--Sim, cacei com elle muitas vezes e sempre foi o melhor e o mais

generoso homem do mundo.

--E tinha o vicio que tem agora?

--Não, Petra, antigamente não bebia bebidas brancas, bebia sómente

vinho, e isso mesmo pouco. Hoje, como sabes, quasi todas as noites...

Mauricio deteve-se, dirigiu um olhar para a porta, e depois continuou:

--Hontem reprehendi-o amigavelmente, dizendo-lhe que não lhe podia

fazer bem beber tanto rhum, e elle, pondo-me uma mão no hombro, e

sorrindo-se com expressão bondosa, respondeu-me:

--Caro Mauricio, ha dôres tão terriveis, desgostos tão profundos, que

para os esquecer algumas horas é preciso embriagarmo-nos. A minha doença

não tem cura; deixa-me, pois, beber, esquecer, dormir.

--Quando eu disse que havia aqui algum mysterio!... disse Petra.

--Tambem me parece que tens razão; aqui deve haver mysterio.

--Sabes o que calculo? Que tudo isto deve ser obra de mulher.

--E porque calculas que seja obra de saias?

--Vaes vêr. Outro dia entrei no quarto para o tratar, como de costume, e

encontrei debaixo da almofada uma fita de seda, e um boccado de tela,

onde estava pintada uma cabeça de mulher extremamente formosa. Não tive

tempo para mais do que olhar rapidamente para estes objectos e tornal-os

a pôr no mesmo sitio em que os encontrei quando o vi entrar,

precipitadamente, dirigir-se para a cama, pegar n'elles e sahir do

quarto do mesmo modo, olhando-me de um modo estranho, como se quizesse

adivinhar se eu tinha visto. Fiz-me desentendida, e continuei arrumando

o quarto.

--Que curiosas são as mulheres.

--Juro-te que só por casualidade...

--Emfim, seja como fôr, visto que elle nada nos disse, nos não lh'o

devemos perguntar.

Como se vê a conducta de Ernesto causava viva curiosidade ao honrado

casal.

Ao cair da tarde Ernesto e Mauricio levantaram-se da mesa.

--Levamos Roma e Florença? perguntou o pintor.

--Parece-me melhor deixal-os em casa, respondeu Mauricio; não estão

costumados ás esperas, e poderão espantar-nos a caça. Levarei antes o

meu podengo para que procure a presa no caso de ficar ferida. _Currito_

(assim se chamava o cão de Mauricio) deita-se a meus pés e não se move

d'ahi.

--Vamos quando quizeres.

Mauricio carregou com escrupuloso cuidado a espingarda e guardou um

frasco de rhum no bolso. Ernesto pegou na sua e sahiram.

O sol começava a declinar.

--Temos tempo, disse Mauricio. D'aqui até aos charcos levaremos quando

muito tres quartos de hora. Reconheci esta manhã o terreno e calcúlo

pelas pégadas que são uma femea com sete a oito filhos, e dois machos

que não devem ter menos de dez annos. Os machos veem sós, antes ou

depois da femea. Parece-me que nos divertiremos, mas é preciso ter muita

paciencia, porque apezar de todas as rezes abandonarem as tocas quasi á

mesma hora, umas estão mais longe do que outras do barranco e chegam por

conseguinte mais tarde. Tenha cuidado em fazer fogo sobre a peça antes

d'ella entrar n'agua. Se cair morta fique quieto, porque quando o charco

estiver silencioso, em poucos minutos apresentar-se-nos-ha outra, e

assim successivamente se podem disparar alguns tiros durante a noite. O

sitio onde vamos é bom, e estaremos perfeitamente collocados.

Ernesto ouvia satisfeito as lições que lhe dava aquelle homem

experimentado.

Mauricio que como todo o caçador de profissão tinha uma vista

privilegiada, deteve-se, inclinou-se para reconhecer o caminho, e disse:

--Ola! Por aqui passou um veado de _dez pontas novas_; aqui ha pégadas

recentes; os córtes na herva são frescos. A femea caminhava mais á

direita: passou por aqui.

--Mas como diabo conheces se é femea ou macho? perguntou Ernesto,

admirado da certeza com que Mauricio falava.

--Isso salta bem a vista. Um montanhez practico nunca se engana. O veado

tem o passo maior do que a corça, e deixa a pégada mais profunda,

caminha com mais regularidade, e colloca a pata trazeira sobre a pégada

da pata deanteira. A corça tem o pé mal feito, os seus passos são mais

curtos, e por conseguinte, não chega com as patas trazeiras ás pégadas

das patas deanteiras. Emquanto ao conhecimento pelas pégadas, é

unicamente devido á grande practica. Quando se segue um rasto pelas

pégadas, o caçador deve conhecer se o veado que persegue é _estaquero_,

isto é, se lhe começam a sahir os paus, tem um anno; _enodis_, tem tres

a quatro annos, _diez condiles nuevos_, se entrou nos seis annos, ou

_ciervo viejo_, se tem mais de dez annos. A estes conhece-se facilmente;

têem os pés deanteiros mais desenvolvidos do que os trazeiros.

Depois d'estas explicações que deixaram Ernesto satisfeito, receou não

as poder pôr em practica sem commetter grandes erros.

De vez em quando o caçador dirigia um olhar furtivo ao seu companheiro,

cuja pallidez e difficil respiração o inquietavam.

A meio da ladeira, que tinham que transpôr para chegarem aos charcos,

situados em um dos barrancos, Mauricio deteve-se e disse com manifesto

interesse:

--Senhor Ernesto, vejo que está muito cançado. Quer encostar-se ao meu

braço?

--Não preciso, mas vamos mais devagar, se te parece.

Como quizer.

Quando chegaram ao cume, Ernesto teve necessidade de se sentar e,

encostando os cotovellos sobre os joelhos, deixou cahir a fronte entre

as mãos.

O caçador não disse nada; de pé, immovel, ficou contemplando Ernesto com

tristeza.

Mauricio não tinha palavras, mas sobrava-lhe coração para compadecer-se

do seu hospede, a quem julgava gravemente enfermo.

--Podemos continuar, disse Ernesto, levantando-se.

--Agora o caminho é mais facil, respondeu Mauricio. Os charcos estão

n'esse barranco; antes de um quarto de hora estaremos commodamente

sentados nos nossos postos.

Mauricio seguiu por uma vereda aberta entre a matta. Ernesto caminhava

atraz.

De vez em quando o caçador voltava a cabeça para vêr se o seu

companheiro o seguia.

Quando chegaram aos charcos ainda restavam alguns instantes de dia. As

magestosas sombras da noite avançavam com rapidez, mas a lua ia

rapidamente tornal-as menos escuras, pois o seu disco despontava já no

horisonte.

--Parece-me conveniente que fiquemos juntos, porque assim quando estiver

cançado voltaremos para casa, disse Mauricio.

--Mas mataremos menos caça.

--Quem sabe! Podem entrar juntas e então cada qual escolhe a sua.

Mauricio conhecia varios esconderijos em torno do charco e escolheu,

pelas recentes pégadas dos javalis, o que lhe pareceu melhor; dobrou o

capote, e estendeu-o no chão para que Ernesto estivesse mais

commodamente e esperaram calados.

A noite é mais magestosa, mais imponente, mais bella no meio do Oceano

ou n'uma montanha, do que nas ruas de Madrid. Nas grandes cidades vê-se

por toda a parte a mão do homem, mas no mar ou na montanha vê-se a de Deus.

Ernesto e Mauricio esperavam no mais profundo silencio. O pintor

entretinha-se contemplando o magnifico astro da noite que subia

magestosamente pelo céu enchendo o espaço de poetica e melancholica

luz, que cahindo como chuva de perolas sobre as armadas das arvores

e sobre as silenciosas aguas do charco, dava um tom encantador á paisagem.

Ernesto, como pintor, pensava em fazer um estudo d'aquelle logar e

pintar depois um quadro; mas ao mesmo tempo pensava na mulher do homem

que se compromettera a comprar-lhe tudo quanto pintasse durante a sua

estada nos montes de Toledo.

A presença da lua, o imperceptivel movimento das ramadas dos azinheiros,

o silencio da noite que o rodeava, fizeram-lhe recordar Florença. Fechou

os olhos para sonhar acordado, e os seus labios entreabriram-se em doce

extasis, como se fôsse a dar e receber um apaixonado beijo de amor.

N'aquelle momento para elle não existia mais do que o presente. A sua

vida era uma recordação; a sua alma apaixonada apresentava-lhe com todas

as côres da verdade as scenas apaixonadas e perdidas para sempre, causa

da sua desgraça, origem da sua morte.

Se tivesse entrado no charco um bando de cincoenta rezes, Ernesto não

ouviria; mas, felizmente tinha ao seu lado Mauricio, caçador de

profissão, que sem ter a imaginação preoccupada com outra cousa que não

fosse o fim para que fôra até alli, estava com o olhar fixo, o ouvido

attento e a espingarda prompta a despedir a morte e como o verdadeiro

caçador que quando faz uma espera tem o ouvido e a vista tão perspicaz

como a da perdiz, e por isso sem duvida Ernesto sentiu que o seu

companheiro lhe tocava no braço.

Ernesto abriu os olhos.

--Acorde, que já as ouço.

--Não estou a dormir, respondeu o pintor, mas não ouço nada.

--Pois já se approximam, tenha a certeza, ainda estão longe, e são

femeas; conhecem-se pelo barulho que fazem. Os machos veem sempre mais

silenciosos.

Ernesto applicou o ouvido, e, depois de um segundo de immobilidade,

meneou a cabeça dizendo:

--Pois eu não ouço nada.

--Sim? Pois tenha paciencia que não tardará muito que tenha de tapar os

ouvidos, porque a musica d'ellas, quando andam em manadas, não é por

certo das mais agradaveis. Veem a entrar por aquella clareira que está

na nossa frente. Antes de se metterem n'agua, de que tanto gostam, param

para conhecerem o terreno. Então deve fazer fogo, apontar á maior que

ficar a sua esquerda; eu entreter-me-hei com a direita a vêr se,

disparando ao mesmo tempo, matamos duas.

E Mauricio, collocando o bico do pé esquerdo sobre o de Ernesto, disse:

--Quando carregar com o meu pé, faça o _gosto ao dedo_ e faça fogo. E

agora silencio que já estão perto.

Dois minutos depois, Ernesto ouvia a algazarra que Mauricio lhe annunciára.

Esperaram, pois, pelo momento opportuno que se não devia fazer esperar

muito.

No sitio que Mauricio indicára appareceu de repente uma femea muito

grande seguida de seis javalis pequeninos cujas desegualdades de tamanho

indicavam ser de duas ninhadas differentes.

Ernesto pudéra ter feito fogo á femea; estava uns cinco passos afastada

dos filhos, levantando a cabeça em direcção aos charcos.

O pintor olhou para o seu companheiro como que a interrogál-o, mas o

caçador indicou com um movimento de olhos que esperasse. E

effectivamente a uns vinte metros de distancia do logar em que estava a

femea, abriu-se uma clareira e appareceu um javali quasi do dobro do

tamanho da femea.

A lua estava tão clara que os caçadores viram perfeitamente os animaes.

Ernesto sentiu o pé de Mauricio comprimir o seu, e como tinha a

espingarda apontada, disparou.

As duas detonações produziram no espaço um só echo.

A bala de Mauricio foi tão bem apontada que o javali deu um salto,

caindo sem vida depois de soltar um grunhido de raiva. A femea, a que

Ernesto apontára foi ferida na cabeça; deu duas voltas, quiz fugir, mas

foi cair junto ao charco; depois fez um esforço supremo, levantou-se

novamente, entrou na agua para tornar a cair revolvendo-se nas ancias da

morte, soltando grunhidos desesperados que pouco a pouco foram

enfraquecendo.

Os demais tinham desapparecido como por encanto.

Mauricio ouvia as palpitações do coração de Ernesto cujo ruido e

precipitação o assustaram.

--Está peor? lhe perguntou.

--Não, não; é o prazer que experimento n'este momento. Se tornasse a

renascer em mim a paixão da caça, talvez esquecesse uma historia que me

assassina, que será a causa da minha morte.

O pintor revelára a Mauricio n'um arranco de enthusiasmo, a causa da sua

melancholia, a origem da sua doença.

--E que fazemos agora? perguntou Ernesto.

--Primeiro que tudo castrar o macho para que sangre e a carne perca o

gosto a bravo.

Mauricio levantou-se, tirou a faca de matto da bainha, e sahiu do

esconderijo, dirigindo-se para o sitio onde estava o javali.

Ernesto segui-o, examinando com o mais particular interesse todas as

operações que Mauricio fazia ás duas peças mortas.

O caçador depois de lhe abrir todo o ventre e de lhe tirar os

intestinos, pendurou-os pelos pés para que sangrassem e ficassem limpos.

Depois lavou as mãos na agua do charco, e disse:

--Agora diga-me se quer dar por terminada a caçada ou quer fazer nova

espera, apezar de me parecer melhor, o primeiro caso, pois é preciso

esperar pelo menos duas horas até que volte outro javali.

--Vamos para casa. E as rezes?

--Ficam ahi. Venho logo buscal-as com o meu cavallo.

--Então dá-me um gole de rhum, e a caminho. Passei um bom boccado.

Ernesto bebeu e deu o frasco a Mauricio. Depois dirigiram-se para casa

onde o pintor chegou bastante fatigado.

CAPITULO XXIV

Uma carta e um annel

Ernesto deixou-se cahir na cama, e como sempre, o seu pensamento

occupou-se de Amparo.

--Ámanhã, disse, falando comsigo, ouvirá pronunciar o meu nome, e no

fundo da sua alma renascerá a recordação das noites de Florença. Os seus

labios, vermelhos como bagos de romã, recordar-se-hão tambem d'esse

beijo fatal que me fez o mais desgraçado dos homens, e pela mente do

conde de Loreto cruzará debil, mas ameaçador, o phantasma de uma duvida,

a sombra de uma suspeita.

Ernesto tinha sempre na mesa de cabeceira uma garrafa de rhum; extendeu

o braço, pegou na garrafa e bebeu um gole.

--Ha quasi um mez sem a vêr, continuou, e comtudo a ausencia não apagou

o fogo devorador d'esta paixão que me abraza. O conde de Loreto tinha

mais direito do que eu para ser amado, mas indubitavelmente não a ama

tanto. E que importa isso ás mulheres? O conde é rico, nobre, e a

vaidade é o dominio tentador do bello sexo. Se o amor é o fogo d'alma

que transmitte calôr ás ideias dos homens de genio, devo fazer grandes

quadros.

E Ernesto soltou uma gargalhada, pegou novamente na garrafa, e

quasi a despejou de um trago.

Na sua physionomia, no seu olhar, assomaram os symptomas da embriaguez

produzida pelo alcool.

Com a lingua, presa e balbuciante, começou a falar em voz alta.

Historia de um beijo · 第 9 / 12 段