No dia seguinte, ao levantar-se, Amparo, viu varios jornaes sobre uma

pequena mesa de pau rosa.

--Que é isto? perguntou. Cuidam que me vou dedicar á politica?

--Não sei, minha senhora, mas o papá disse-me que os puzesse ahi e que

dissesse da sua parte á senhora condessa, quando se levantasse, que

lesse um communicado que trazem os jornaes.

Amparo suspeitou do que tratava o communicado, pegou no jornal e leu em

voz baixa o que se segue:

«Senhor director do...

«Espero da sua amabilidade que publicará esta carta no seu

acreditado jornal que tão dignamente dirige, pois importa ao senhor

conde de Loreto e ao que subscreve a presente carta, desvanecer

certas equivocas apreciações que uma parte do publico que visita a

Exposição de pintura tem feito sobre o meu quadro de Esther.

«Ha alguns mezes estava em Roma pintando o quadro de Esther quando

tive a honra de ser visitado por Fernando del Villar, conde de

Loreto, com a então sua futura esposa, hoje condessa de Loreto.

«Verdadeiro enthusiasta pela pintura, o conde de Loreto, protector

dos artistas, propôz-me comprar o quadro por uma quantia bastante

elevada; attendendo ao pouco ou nenhum merecimento da minha tela,

acceitei o negocio e ficou desde então o quadro de Esther sendo

propriedade do conde de Loreto.

«A partir d'ahi o conde passou a visitar-me todas as manhãs,

passando algumas horas no meu atelier vendo-me pintar.

«Um dia, ao ter quasi terminada a minha obra, occupava-me em retocar

a figura de Esther, quando o conde me disse:

--«Meu amigo, tenho um capricho de homem rico que desejava

satisfazer. Se o senhor não se escandalizasse e quizesse, a cabeça

da rainha Esther poderia ser o retrato da senhora que em breve será

minha mulher. Ha algum inconveniente n'isso?

--«Nenhum, senhor conde, lhe respondi. Nem conheci a celebre judia

da tribu de Benjamin, a bondosa sobrinha de Mardoques, nem vi mesmo

algum retrato d'ella, mas desde já aposto qualquer cousa em como a

mulher do rei Assuero não foi mais bella do que a joven que d'entre

em pouco será a condessa de Loreto.

«Poucos dias depois, a cabeça de Esther era um retrato bastante

parecido da senhora D. Amparo de Aguillar, condessa de Loreto.

«Assim fica explicada a similhança que com a esposa do senhor conde

de Loreto tem a figura principal do meu quadro.

«Peço-lhe me desculpe o incommodo que lhe causo, mas a rectidão do

meu caracter e o agradecimento a isso me obrigam, e antecipadamente

agradece, o que é

De V. S.ª

Att.º V.or Cr.º e Obrg.º

_Ernesto Alvarez._»

Quando Amparo acabou a leitura ouviu a voz do marido que lhe pedia

auctorização para entrar. Entrou com o jornal na mão.

--Entra, Fernando. Não precisas auctorização para entrar no meu quarto,

lhe respondeu.

O conde approximou-se da mulher e depois de lhe ter dado um carinhoso

beijo na face e dirigir-lhe um sorriso amoroso, disse:

--Bom dia, querida Amparo, bom dia. Vejo que ambos lemos o communicado

de Ernesto.

--Sim; meu pae mandou-me estes jornaes.

--Tambem m'os mandou a mim, e vinha perguntar-te se sabes o que se

passou entre teu pae e Ernesto.

--Não sei.

--Fosse o que fosse, a conducta d'esse rapaz não póde ser mais nobre.

Bem vês que nos offerece o quadro, porque tu bem sabes que lh'o não

comprei.

--Sim, é um rasgo de generosidade pouco vulgar n'um homem que não tem

outro patrimonio senão os pinceis.

--Mas nós não podemos consentir em similhante offerta.

--Ou pelo menos compensal-o com outra.

--Dizes bem. N'este assumpto convém proceder com toda a delicadeza.

Vinha lêr-te isto mas como já lêste, retiro-me e vou vêr Ernesto.

Almoçamos juntos?

--Sim, meu Fernando, espero-te aqui para me contares tudo o que resolveres.

Fernando tornou a abraçar a mulher e sahiu.

Amparo ao vêr-se só, deixou-se cair n'uma cadeira e leu pela segunda vez

o jornal.

--Ah! exclamou, exhalando um suspiro que brotava do mais fundo da sua

alma. Ernesto vale cem vezes mais do que eu. Causei toda a sua desgraça.

O coração tambem me diz que serei a causa da sua morte. Que Deus me

perdôe o mal que fiz a esse homem.

E, cobrindo o rosto com as mãos, deu livre curso ás lagrimas.

CAPITULO XX

Abnegação

Quando o conde entrou no quarto de Ernesto, acabava este de se vestir.

Pallido, com o parecer cadaverico, o semblante do pintor tinha

impressos os profundos vestigios da enfermidade que lhe minava o peito.

O conde admirou-se de o vêr levantado. Ernesto, sorrindo, veiu-lhe ao

encontro.

--O medico já lhe deu auctorização para se levantar? perguntou Fernando.

--Os medicos são uns ignorantes. Se seguisse os seus conselhos, ficaria

ainda um mez na cama, mas tenho esperanças de me restabelecer d'outra

maneira sem auxilio da medicina.

--Senhor Ernesto, disse o conde com voz carinhosa, ignoro o que tenciona

fazer para se curar, mas reprovo que abandonasse a cama.

--O meu plano de vida é muito simples, senhor conde, reduz-se a ir viver

no monte, a respirar o ar puro e livre do campo, longe da balburdia da

cidade, do bulicio dos homens; é o remedio mais efficaz para os doentes

do peito. Em outros tempos fui um enthusiastico amador da caça. Quando o

governo me fez seu pensionista, quando parti para Roma, offereci os meus

cães e as minhas espingardas e abandonei a minha distracção favorita. Em

poucos dias adquirirei todos os apetrechos e partirei para os montes de

Toledo onde conheço um caçador de profissão, viverei com elle, caçando

umas vezes, pintando outras, e quem sabe se a vida semi-selvagem que vou

emprehender me restabelecerá a saude.

O pintor procurava dissimular o cansaço que a conversação lhe causava.

O conde, que o conhecia, disse com commoção:

--Ernesto, offender-se-ha commigo se lhe falar com a franqueza de irmão?

--Pelo contrario, senhor conde, julgar-me-hei muito honrado.

--Pois bem, o senhor crê que essa viagem, essa vida semi-selvagem, como

acaba de dizer, lhe será tão proveitosa, como diz?

--Sem perceber de medicina, comprehendo que a vida do campo é muito

proveitosa aos doentes do peito.

--Comtudo a vida de caçador é agitada e precisa de corpos robustos e

fortes.

--Quem sabe se o meu se fortalecerá?

--Duvido!

--É preciso dar-se tempo ao tempo.

--Mas ainda que assim seja o senhor não é rico e precisa trabalhar para

viver.

--Tão pouco precisa um caçador de profissão! disse Ernesto sorrindo-se.

Álêm d'isso pintarei quadros pequenos, que, vendendo-os baratos, sempre

terei quem m'os compre; por exemplo, assumptos de caça, paisagens

tiradas do natural. Oh! tenho esperanças que nada me faltará.

--Está então resolvido a emprehender essa nova vida e eu não me opponho,

mas quero propor-lhe um negocio.

--Qual?

--O senhor precisa de quem lhe compre os quadros que pintar.

--Certamente.

--Pois bem, compro-lh'os eu. Como vê não tenho muitos quadros bons nas

minhas paredes, e por isso espero que me permitta pagar-lhe o que está

na Exposição das Bellas-Artes.

--Emquanto a esse creio que o senhor já leu a carta que enviei aos

jornaes, e como digo que recebi em Roma antes de concluir...

--Mas isso não é verdade.

--Que importa? O quadro é seu, senhor conde, e não falemos mais de

similhante assumpto. Emquanto á venda dos que pinte de futuro, isso é

diverso e não vejo inconveniente em que o senhor m'os compre.

--Fixemos então desde já o preço, ficando assente que recebo todos

quantos o senhor pintar.

--Isso é offerecer muito.

--Compro todos. Marque preço.

--Marcarei quando lh'os mandar, a não ser que o senhor me indique desde

já os assumptos e os tamanhos.

--Isso fica á sua escolha.

--Pois então fica desde hoje sendo o meu unico comprador.

--E o senhor o meu pintor. Mas repito que é uma loucura abandonar os

recursos da capital quando a saude não esta sufficientemente restabelecida.

--Pelo contrario, senhor conde, é muito conveniente abreviar a minha

partida.

Fernando encolheu os hombros conhecendo que Ernesto estava firmemente

resolvido a sahir de Madrid.

--Não insisto mais, apezar de lamentar que nos deixe tão depressa,

porque de amigos tão generosos, tão nobres como o senhor, é sempre

custosa a separação.

--Senhor conde, antes de nos separarmos tomarei a liberdade de lhe falar

com a rude franqueza de um homem que sempre foi dominado pelos impulsos

do seu coração. Odiei-o de morte durante algum tempo. Então não conhecia

o conde de Loreto mais do que de nome; hoje é diverso: tive occasião de

tratar comsigo, de apreciar o que vale, e a minha alma, sempre generosa,

arrepende-se de haver abrigado, ainda que por pouco tempo, sentimentos

perversos. A carta que mandei aos jornaes não é outra cousa que o

descargo da minha consciencia. Preciso, pois, partir e esquecer. O

senhor sabe que amei Amparo, e tambem não ignora que ainda a amo.

Tratou-me como a um bom amigo, e nada mais. Sei que são felizes, e que

se amam muito. Uma imprudencia minha esteve a ponto de destruir toda

essa felicidade, que não tem preço entre dois esposos. Reparei essa

imprudencia e tranquillizou-se um tanto a minha consciencia. O passado

será um sonho para mim, o presente, a soledade dos montes, até ao dia em

que Deus queira apagar o meu nome do grande livro dos vivos.

Ernesto calou-se. O conde fixou n'elle um profundo olhar que demonstrava

a admiração que sentia ouvindo expressar-se com tão nobre franqueza,

julgando inverosimil que na corrupta sociedade ainda se pudesse

encontrar n'um homem um rival tão generoso.

--Vá, disse o conde, depois de uma pausa, parta, mas nunca esqueça que

tem em todas as occasiões que precisar um irmão, em Fernando del Villar.

--Obrigado, senhor conde, não esquecerei o seu offerecimento. Peço-lhe

me desculpe para com a senhora condessa, pois não me posso despedir

d'ella, e que mande que uma das suas carruagens me leve a minha casa.

--Como! Partir sem apertar a mão a minha mulher, sem lhe dizer adeus?

Não, senhor Ernesto. Julga porventura que sou um d'esses maridos zelosos

e ridiculos que desconfiam da mulher a quem deram o nome? Julga-me capaz

de lhe fazer a offensa de duvidar de si, o homem mais generoso que

conheço, o melhor dos meus amigos? Não. Amparo virá despedir-se de si;

peço-lhe que não deixe esta casa sem que assim succeda.

--Não insisto mais. Já que assim deseja despedir-me-hei da senhora

condessa.

--Vou eu mesmo chamal-a.

O conde sahiu, murmurando em voz baixa:

--Este homem venceu-me á força de generosidade.

..........................................................................

..........................................................................

A condessa acabava de se pentear: estava vestida com uma simples bata

branca.

Ao vêr entrar o marido exclamou:

--Tu, outra vez aqui!

--Sim, Amparo, venho annunciar-te a partida de Ernesto.

--Não é possivel, ainda está muito doente, segundo diz o medico.

--Isso mesmo lhe disse eu, mas insiste em se querer restabelecer no

campo, e está resolvido a abandonar hoje mesmo a nossa casa. Pedi-lhe

que se não fosse, sem primeiro se despedir de ti e de teu pae. É

preciso que meu sogro, que tem mais confiança com elle, o convença a que

receba o valor do quadro que tão generosamente nos offerece.

--Será inutil; não receberá nada.

--Comtudo espero que teu pae insista pela ultima vez. Não pódes calcular

o quanto me interessa esse pobre rapaz, pobre como Diogenes e generoso

como Lucullo. Fala-lhe, fala-lhe sem perda de tempo; eu, entretanto vou

á loja de Manuel Arenas fazer umas compras.

Fernando tocou uma campainha e disse ao creado:

--Avise o senhor Ernesto de que a senhora condessa deseja vêl-o.

E depois, abraçando Amparo, continuou:

--Adeus, minha amiga. Procura convencer esse tresloucado. Não me demoro.

Vou comprar umas cousas para Ernesto. É preciso presenteal-o como a um

principe que pensa em passar uma grande temporada no monte, dedicando-se

a caça.

CAPITULO XXI

Abandonando Madrid

Amparo, depois do conde sahir, ficou immovel, preoccupada. Ia

despedir-se de Ernesto, talvez para não mais o vêr; ia ter uma

entrevista sem testemunhas com o homem a quem tão desgraçado fizera, e

esta entrevista era proporcionada, pedida pelo marido.

Por um momento Amparo receou que aquillo fosse um laço, mas rapidamente

affastou similhante pensamento, conhecendo a nobreza com que procederam

Ernesto e o conde de Loreto.

--Não, não; Fernando não póde ter ciumes; tem confianca absoluta,

sabe que o amo com toda a minha alma, disse Amparo, falando comsigo.

Comtudo quer que me despeça de Ernesto a quem tão desgraçado fez uma

leviandade, filha do coquettismo. Devo obedecer-lhe, ainda que me seja

dolorosa esta entrevista.

E como n'aquelle momento entrasse o creado para annunciar que o senhor

Ernesto esperava a condessa, Amparo encaminhou-se para o quarto do pintor.

Ernesto, ao vêr entrar Amparo, pôz-se de pé, mas foi-lhe preciso

encostar-se ao espaldar d'uma cadeira.

A condessa não se commoveu menos, vendo a extrema pallidez do seu antigo

apaixonado.

--É verdade, senhor Ernesto, o que o meu marido acaba de me dizer? Pensa

em deixar-nos?

--Senhora condessa, respondeu o pintor com uma tranquillidade que

assombrou Amparo, sinto-me muito melhor, e resolvi restabelecer-me no

campo. Dentro em pouco as brisas do outomno annunciarão o inverno, e

creio que me é conveniente fortalecer-me primeiro.

--Se a sua resolução é inabalavel, não nos devemos oppôr, nem meu marido

nem eu, mas creia, senhor Ernesto, que ambos sentimos do coração que o

senhor deixe tão depressa esta casa, que podia considerar como sua.

Ernesto sorriu-se amargamente, fez um movimento de indifferença com os

hombros, e ajuntou:

--Ha creaturas, minha senhora, para quem o mundo é um deserto, um campo

de tristes saudades. Sósinhos na terra, vivem, sem uma affeição que os

console, sem um peito carinhoso onde possam reclinar a fronte nas horas

d'amargura. Para estes seres, a sociedade dos homens é demais, porque

desconhecendo o embuste e a falsidade, são sempre enganados; eu talvez

pertença a essa desgraçada familia de orphãos das grandes cidades. Por

isso estou resolvido a nunca mais pisar as suas ruas, por isso me vou

encerrar como um selvagem nos montes de Toledo esperando no meio

d'aquelles agrestes barrancos o ultimo momento da minha vida, que

felizmente não se fará esperar muito.

Amparo inclinou tristemente a cabeça sobre o peito. As palavras eram uma

terrivel accusação, um castigo ao seu coquettismo.

--Porque me não odeia, senhor Ernesto? tartamudeou Amparo. Porque me não

despreza?

--Senhora, a minha alma não póde nem odiar, nem desprezar, nem esquecer.

As noites de Florença e de Roma imprimiram n'ella uma impressão

demasiadamente profunda.

A condessa comprehendeu que a conversa ia seguindo um rumo perigoso.

--Pois bem, senhor Ernesto, disse, peço-lhe em nome da amizade que

apague da memoria essas noites.

--Impossivel; é uma recordação que faz parte da minha vida; e por assim

dizer a minha segunda natureza. Quando der o ultimo suspiro, quando

deixar de existir, então, sim, então é que se extinguirá do meu peito.

--Mas sente-se assim tão doente? perguntou Amparo, que, aturdida ante as

sentidas recriminações do pintor, não sabia que dizer.

--Quem sabe se serei um d'esses ridiculos apprehensivos que á força de

pensarem na morte sempre d'ella vão escapando!

E sorrindo com um ar triste, continuou:

--O ar saudavel das montanhas talvez me restabeleca.

E puxando o cordão da campainha, disse a um creado:

--Diga ao senhor D. Ventura que me vou embora immediatamente e que o

espero para me despedir.

Amparo, ante aquella resolução inesperada, que punha fim á entrevista de

uma maneira brusca, levou as mãos á cara para occultar as lagrimas que

lhe fôra impossivel suster.

--Póde-me odear, se assim lh'o apraz, disse a condessa; mereço-o, porque

não ha palavra com que possa desculpar o meu procedimento.

E sahiu precipitadamente do quarto.

--Ah! exclamou Ernesto, vendo-a sahir. Não posso esquecer esta mulher!...

Deixou-se cair n'uma cadeira, como se o abandonassem as forças para

suster-se de pé.

Em vão D. Ventura procurou persuadir Ernesto de que a vida de caçador

montez, quando se carece de saude, é uma temeridade. O pintor estava

resolvido, e sahiu de casa do conde.

Quando chegou a sua casa da rua do Prado, quando os seus amigos André e

Marcial o viram entrar pallido como um cadaver e fraco como um

convalescente, depois de oito dias de ausencia, não puderam conter um

grito de assombro.

Ernesto explicou-lhes a ausencia e participou-lhes o plano que concebêra

para se curar.

N'aquella mesma noite escreveu uma carta a Mauricio, caçador de

profissão, que vivia nos montes de Toledo.

Tres dias depois, Mauricio respondeu a Ernesto, offerecendo-lhe a sua

casa, participando-lhe que se casára, e que, por conseguinte, podia

estar com alguma commodidade.

Ernesto fôra caçador n'outros tempos, antes de partir como pensionista

para Roma. Era d'aquella epocha que conhecia Mauricio, com quem entrára

em algumas caçadas.

Resolvido a emprehender a viagem, principiou a dispôr tudo, isto é, pôz

n'um caixote alguns quadros, o cavallete, a caixa das tintas e os

pinceis; n'outra metteu alguns livros de estudo e de recreio.

Só lhe faltavam os apetrechos de caça, quando uma manhã em que se

dispunha a sahir para comprar todos esses artigos, viu entrar o mordomo

do conde de Loreto, seguido de dois creados que traziam duas caixas e

dois bellos cães inglezes, um Setter e outro Pointer.

O mordomo avançou com o seu costumado ar grave, e, entregando uma carta

a Ernesto, disse-lhe:

--Meu amo, o senhor conde de Loreto, manda-me entregar esta carta,

estas caixas e estes cães, ao senhor, encarregando-me de lhe pedir o

desculpe de não vir pessoalmente, mas é-lhe inteiramente impossivel.

A um signal do mordomo, os creados arriaram no chão as duas caixas e

amarraram os cães ao pé de uma mesa.

--Creio que o senhor não deseja mais nada, ajuntou o mordomo, vendo que

Ernesto guardava silencio.

--Diga ao senhor conde que lhe agradeço reconhecidissimo a offerta que

se digna fazer-me, e que lhe falarei ou escreverei antes de partir.

O mordomo cumprimentou e sahiu seguido dos creados.

Então Ernesto fez uma caricia aos cães, que se acercaram, meneando a

cauda, e exclamou:

--Aqui estão os meus novos amigos. Oh! Estes sim, que não me venderão!

E sentando-se n'uma cadeira, abriu a carta do conde e leu:

«Meu bom amigo

«Deixou-me com o quadro de Esther uma recordação que conservarei

emquanto viver; permitta-me que lhe remetta tambem como uma

lembrança, os meus melhores cães e algumas armas e objectos que

podem ser de muita utilidade no campo.

«Carlos I de Inglaterra offereceu a Rubens, em pleno parlamento, a

espada que levava cingida á cinta, um diamante que trazia no dedo e

uma banda de diamantes que lhe cruzava o peito. Tudo isto foi a paga

do magnifico retrato d'aquelle monarcha que mais tarde tão maus

boccados fez passar a Luiz XVI. Permitta, pois, que eu, sem ser rei,

tome a liberdade de offerecer alguns apetrechos de caça, de

pouco valor, e não esqueça que espero com anciedade noticias da sua

saude e algum quadro dos que me prometteu.

«Minha mulher e meu sogro cumprimentam-n'o e desejam vêl-o

brevemente em Madrid restabelecido da sua doença

Seu amigo

_Fernando del Villar._»

Ernesto leu duas vezes a carta, e, soltando um suspiro, murmurou em voz

baixa:

--Eis-me amigo do conde de Loreto, de um homem com quem estive a ponto

de me bater.

Ernesto abriu as caixas, encontrando n'ellas tudo quanto póde necessitar

no campo um caçador de dinheiro.

Só a mão de uma pessoa intelligente teria sido capaz de reunir todos

aquelles objectos.

Ernesto encontrou duas espingardas, uma de Scotte de dois canos, do

systema Lefaucheux, outra de Greener para tiro de bala, uma excellente

botica de viagem, uma barraca de campo, uma mala de couro da Russia com

quinhentos cartuchos carregados com chumbo, e outra com duzentos

carregados com bala; um fato completo de camurça, botas de cautchouc,

facas de matto, um rewolver Flaubert de doze tiros, com ornamentações de

ouro, um estojo com todas as peças em prata, duas mantas inglezas e

varios artigos todos diversos e uteis.

Indubitavelmente o conde de Loreto gastára mais de cinco mil duros com o

presente.

Ernesto contemplou tudo com profunda melancholia.

--É preciso acceitar, disse. Ia para Toledo com um equipamento mais

modesto. Emfim, tanto melhor para o pobre Mauricio, que se se portar

bem, será o meu herdeiro no dia em que eu morrer.

Como se vê, Ernesto, não deixava nem um só momento a ideia da morte.

N'aquella noite Ernesto escreveu a seguinte carta:

«Senhor conde

«A opportunidade produz sempre bom resultado no animo impressionavel

das creaturas. Dispunha-me a sahir de casa com tenção de comprar

alguns apetrechos de caça, quando vi entrar o seu creado com o que

me enviou.

«Sem ter nada de Pedro Paulo Rubens, não agradecerei menos os

presentes que me fez, do que agradeceu o pintor flammengo os

donativos de Carlos I.

«Obrigado, pois, senhor conde, pela sua delicada offerta. Ámanhã

parto e talvez nos não tornemos a vêr, apezar dos bons desejos que

têem pelo meu restabelecimento. Ha doenças que cada hora qua passa

nos leva uma parte da existencia, são as incuraveis; e a minha é

d'essas que se chamam de morte.

«Não é o medo nem a apprehensão que me fazem dizer isto; sei bem

qual é o mal que me consome, e só terei illusões, quando tiver sido

tocado pelos dedos gelados da morte. Deus quer que os doentes do

peito sonhem com a vida nos ultimos momentos.

«Adeus, senhor conde. Em breve lhe enviarei por pessoa da minha

confiança o primeiro quadro que pintar, e assim o irei fazendo

successivamente, mas não receio, que a collecção seja muito grande.

«Cumprimentos á senhora condessa e ao senhor D. Ventura, e não

esqueça este desterrado voluntariamente, que prefere a solidão do

campo ao ruido e bulicio dos homens.

«Sempre seu amigo

_Ernesto Alvarez._»

No dia seguinte, Ernesto, depois de fazer varias compras, entre as quaes

se contava um vestido para a mulher de Mauricio, despediu-se dos amigos

e entrou n'uma carruagem de primeira para Toledo.

Ernesto possuia por uma unica fortuna, ao partir de Madrid, dez mil

reales que lhe produziram os objectos e quadros que vendeu.

Álêm dos quinhentos duros e dos presentes do conde de Loreto, levou uma

grande caixa com garrafas de champagne, rhum, cognac, aguardente e bom

café.

--Esta caixa será a minha alegria, disse Ernesto, sorrindo-se para os

amigos. O rhum concilia o somno e o champagne alegra os pensamentos.

..........................................................................

..........................................................................

Mauricio esperava-o em Toledo.

Carregou-se toda a bagagem em varios animaes e partiram para os montes,

onde o caçador morava.

CAPITULO XXII

Vida de recordações

A mulher de Mauricio não conhecia Ernesto; mas vendo-o chegar com o

marido e toda aquella bagagem, disse:

--É um principe que entra para nossa casa.

E effectivamente, o pintor foi para aquelle honrado casal tanto como um

principe, a julgar pela generosidade com que pagava os serviços que

recebia.

Petra ficou louca de contentamento, vendo sobre uma cadeira o presente

que Ernesto lhe trouxera, e que constava de um vestido de lã, um lenço

de seda e uns brincos de ouro e coral.

Mauricio examinava tambem com satisfação uma espingarda de dois canos,

de fabrico belga, e uma forte e boa faca de matto.

--Mauricio, disse Ernesto, depois de entregar os presentes; estou muito

doente e venho passar algum tempo comtigo. Sei que vives da caça.

Nomeio-te meu caçador, e dou-te um duro por dia. Aqui tens

adeantadamente dois mezes.

Ernesto pôz na mesa sessenta duros.

Mauricio e Petra olharam para o dinheiro, sem comprehenderem uma palavra

de tudo aquillo.

Historia de um beijo · 第 8 / 12 段