entrevista, falei-lhe com doçura, com humildade, pedi-lhe que me
vendesse o quadro, suppliquei-lhe, e julgando, sem duvida, que as minhas
palavras eram dictadas pelo medo, que eu era um cobarde, teve o
atrevimento de me dizer que se não ficava satisfeito com a sua
negativa, o assumpto liquidava-se d'outra maneira entre homens.
Desgraçado! Necessitei de todo o valor, de toda a força do homem que se
não póde bater, depois de ter morto cinco homens, para não o esbofetear
na sua propria casa. Mas quem sabe se esse insensato me fará faltar ao
meu juramento e terei de matal-o.
--Não, não, Fernando! Não quero que te batas! Não quero que te exponhas!
A tua vida pertence-me!
--Mas se esse homem, depois de ter dado pasto a maledicencia com o seu
importuno quadro, me insultar na rua, no theatro, n'um passeio, o que
hei de fazer senão bater-me?
--Pensa que um duello não serviria senão para augmentar essa
maledicencia que nos assusta, esse murmurio que receamos.
--Sim, concordo; mas não vejo outro caminho.
--Dize-me, Fernando, tens confiança em mim?
--Se a não tivesse, estaria como estou, aqui?
--Obrigada, meu amigo.
--Mas a que proposito veiu essa pergunta?
--Porque conheço o bello e nobre caracter de Ernesto.
--Vaes fazer-me algum elogio das suas qualidades moraes?
--Não; vou tranquilizar-te. Ouve. Uma casualidade fez com que eu
conhecesse Ernesto em Roma. Depois acompanhou-nos a Florença. Bondoso e
illustrado, levou-nos a toda a parte, e não demorou muito que não
percebesse que eu lhe não era indifferente. Bem sabes, Fernando, que não
tenho segredos para ti, porque o meu coração e a minha vida
pertencem-te, porque te amo de toda a minha alma.
--Sim, sim, não tenho duvidas a esse respeito e comprehendo
perfeitamente tudo quanto se póde passar entre uma menina e demais
formosa como tu e um homem como Ernesto, que viajam juntos. Amou-te,
fez-te uma declaração que não regeitaste, já por coquettismo, já
por compaixão. Isso é natural nas mulheres, não as censuro; mas ás vezes
traz más consequencias. Agora, por exemplo: Ernesto ao voltar a
Hespanha, encontra-te casada e julga-se com o direito de fazer a tua e a
minha desgraça, e apezar d'isso não tenho a mais pequena duvida de que
esse rapaz tem uma boa alma, um generoso coração.
--Dizes bem, é uma desgraça. Tomei aquelles passeios em Florença, por um
passatempo, por uma distracção. Aborrecia-me. Ernesto, pelo contrario,
julgou que eu o amava como Heloisa amou Abelardo... Lastimo tão funesto
engano. E agora auctoriza-me para que meu pae compre o quadro, eu
procurarei a maneira, sem faltar aos meus deveres de esposa, de liquidar
este assumpto satisfatoriamente, porque nada me interessa tanto como a
tua felicidade, meu Fernando.
--Repara, Amparo, que o que me propões é uma imprudencia. Ernesto para
ceder aos teus pedidos, póde ser exigente.
--N'esse caso, dir-te-hei: «Fernando, sou tua; o teu amor é a minha
vida. Mata esse homem, que me julgou capaz de faltar aos meus deveres.»
O conde soltou um grito, abraçou com enthusiasmo a mulher.
--Ah! disse Amparo, este abraço prova-me que te inspiro confiança, e que
annues ao meu pedido.
--Faze o que quizeres; mas fica sabendo que se antes de vinte e quatro
horas esse homem não explicar nos jornaes, de um modo satisfatorio para
mim, a parecença da condessa de Loreto com a Esther do seu quadro, não
me fica outro remedio senão matal-o.
E o conde cumprimentando a esposa, sahiu do quarto.
Amparo ficou por um momento como que oppressa sob o peso da ameaça que o
marido acabava de proferir.
Pela primeira vez comprehendeu até onde podia conduzil-a a
imprudencia do seu coquettismo em Florença.
Rapidamente lhe passaram pela imaginação as recordações d'aquellas
noites passadas com Ernesto no jardim do hotel do senhor Rosales.
--É preciso evitar a todo o transe que se batam. Um desafio entre meu
marido e Ernesto produziria um escandalo, e a maledicencia, duvidando da
minha honradez, poderia menoscabar na honra do conde. Se isto
succedesse, toda a felicidade que agora disfructo desappareceria. Não,
não, falarei com Ernesto e supplicar-lhe-hei se tanto fôr preciso.
Amparo deteve-se, como se tivesse commettido alguma imprudencia.
--Mas se lhe peço uma entrevista, continuou, ainda que esta seja com a
nobre intenção de evitar uma desgraça, se se sabe que a mulher do conde
de Loreto e o auctor do quadro de Esther se viram sem testemunhas, então...
Amparo escondeu o rosto entre as mãos, rompendo em amargo choro, porque
comprehendia que por todos os lados sómente encontraria difficuldades.
N'aquelle momento entrou D. Ventura.
--Que é isso? Que tens? Porque choras? Acabo de encontrar o teu marido
que me cumprimentou com uma frialdade um tanto importuna. Vou-me
convencendo de que os aristocratas quando se casam com a filha d'um
plebeu, embora este seja o mais honrado e o mais rico do mundo, sempre
julgam que lhe fazem favor. E olha, como isto me desgosta, e caso
continue assim, separo-me de vocês, ainda que o não te vêr me amargure a
velhice e abbrevie os dias que me restam de vida.
D. Ventura falava rapidamente, dissimulando mal o desgosto que sentia e
as lagrimas que lhe começavam a assomar aos olhos.
--Meu querido pae. Creio que nos ameaça uma grande desgraça.
Este grito sahido do peito de Amparo fez empallidecer o pae.
--Uma desgraça! exclamou. E que desgraça é essa?
--Ernesto foi um imprudente ao tomar-me para modelo do seu quadro.
--E é só isso? perguntou D. Ventura que não via motivo para se
sobresaltar d'aquelle modo. Se o motivo é o quadro, se não querem que
elle continue exposto, comprem-lh'o, e é assumpto concluido.
--Mas elle não o quer vender.
--Ora! Porque não lh'o pagam bem.
--Não, meu pae, não. Ernesto não o vende ainda que lhe offereçam um milhão.
--Pateta! Nem tu nem Ernesto sabem o que é um milhão. Não ha quadro do
mundo que valha essa quantia.
--O pae não conhece Ernesto.
--Mas entendamo-nos. Que é que tu queres? Que elle retire o quadro?
--Não é sómente que o tire da exposição, como tambem que publique nos
jornaes um artigo, assignado por elle, dizendo que o quadro é do conde,
o qual teve o capricho de que Esther fosse o retrato da esposa.
--Pois bem, falarei com Ernesto, e tudo se arranjará.
--Mas Ernesto recusa-se!
--Como! E porque recusa?
Amparo comprehendeu que era preciso revelar tudo ao pae, porque só elle
podia valer-lhe n'aquelle apuro, e pegando-lhe carinhosamente nas mãos e
olhando-o com doce expressão, disse-lhe:
--Porque Ernesto ama-me; porque tem ciumes, porque ao chegar a Hespanha
e encontrando-me casada lhe fugiram todas as esperanças do seu generoso
coração, e receio que commetta alguma loucura.
--Diabo! Diabo! Isso é muito differente! E teu marido sabe que Ernesto
te ama?
--Suspeita-o, e jurou bater-se com elle, se antes de vinte e quatro
horas não ficar completamente resolvida a questão do quadro.
D. Ventura deu um profundo suspiro.
Começava a vêr a questão sob o seu verdadeiro ponto de vista, e receava
que tivesse um desenlace fatal.
--Bem vê, meu pae que o meu sobresalto e o meu receio é fundado. Se
Fernando e Ernesto se baterem, se algum d'elles morrer...
--Tudo, menos isso. É preciso liquidar esse negocio. Vou falar com Ernesto.
--Negar-se-ha; estou crente. Será mais conveniente que eu lhe fale, mas
não na sua casa. É preciso que o papá o chame.
--Não vejo inconveniente. Mas onde? Amparo reflectiu um momento.
--Occupo o meu rez-do-chão d'esta casa; pois bem, escreva-lhe uma carta
pedindo-lhe para vir aqui; não a casa do conde de Loreto, mas--á sua.
D. Ventura sentou-se a uma mesa, pegou na penna e disse:
--Dicta a carta.
Amparo pensou alguns instantes. Depois disse:
_Senhor Ernesto Alvarez_
«Meu bom amigo
«Peço-lhe para que tão depressa receba esta carta tenha a bondade de
me vir procurar em minha casa pois desejo falar-lhe de um assumpto
da maior importancia.
«Julgo inutil participar-lhe que moro no rez-do-chão, onde o espero,
confiado em que se apressará em satisfazer o pedido de um amigo que
tanto o estima.
Sempre seu amigo,
_D. Ventura de Aguillar._»
Fechada a carta, enviou-a immediatamente por um creado.
Depois, D. Ventura e a filha desceram para o rez-do-chão.
--Agora, meu pae, disse Amparo, só lhe peço que quando vier Ernesto
me deixe a sós, com elle, mas é preciso que, detraz d'aquelle
reposteiro, seja testemunha da nossa entrevista.
--Farei o que quizeres, porque estas questões apoquentam-me atrozmente.
--Preciso, para que se ámanhã tentarem debicar em mim, ao menos o meu
pae saiba que não sou uma d'essas mulheres que faltam aos seus deveres
com facilidade.
Uma hora depois Ernesto era introduzido no gabinete em que estava Amparo.
D. Ventura occultou-se precipitadamente no quarto contiguo.
CAPITULO XVIII
A golfada de sangue
Ernesto, de pé, com o chapéu na mão, pallido, e surprehendido por se
encontrar com Amparo, não se atrevia a dar um passo.
Amparo que fazia grandes esforços para dominar a commoção que
experimentava sorriu-se e extendeu-lhe a mão.
--Que é isso, meu amigo! Tão zangado está comigo que não quer apertar-me
a mão?
--Senhora condessa, em verdade que a não esperava encontrar aqui,
tartamudeou Ernesto.
--Porque a suspeital-o não teria vindo, não é verdade? Agora vejo que
fiz bem em pedir a meu pae que escrevesse a carta. Mas, peço-lhe que se
sente aqui, ao meu lado; tenho que lhe falar de um assumpto de que
depende a tranquillidade da minha alma, o senhor que sempre foi tão bom
para commigo creio que não deixará de sel-o neste momento.
Ernesto sentou-se ao lado de Amparo, mas sentia-se muito commovido,
agitado e quasi sem forças para fixar os seus olhos no formoso rosto da
condessa.
--Conheço, senhor Ernesto, que me não assiste nenhum direito para lhe
pedir algum favor por mais insignificante que seja, porque comprehendo
que deve estar resentido commigo. Seria inutil desculpar-me; confesso-me
culpada, e fui, se assim quizer, uma _coquette_ que pagou esse tributo
de vaidade de que poucas mulheres escapam, e por isso vou-lhe falar, não
ao homem em cujo braço me appoiei para visitar o Colyseu de Roma e cujas
palavras carinhosas resoaram nos meus ouvidos como uma embriagadora
musica durante as noites de Florença, mas a um cavalheiro, a um homem
generoso e desinteressado, em cujo nobre coração só se albergam
sentimentos nobres, emfim, a si, senhor Ernesto, a quem não quero
occultar a situação em que me encontro, a si de quem depende a paz do
meu lar, a tranquillidade do meu espirito.
Amparo deteve-se, levou uma das lindas mãos aos olhos e enxugou as
lagrimas que durante a conversa lhe assomaram.
--Não creia, senhora condessa, que os meus labios pronunciem uma só
palavra que seja de recriminação, disse Ernesto. Desde que cheguei a
Madrid, e assim que soube que a senhora pertencia a outro, que era a
esposa do conde de Loreto, senti tão profunda dôr no coração, tão grande
magua na alma, que só então pude avaliar a enorme paixão que me tinha
inspirado. Não sou d'aquelles homens que se resignam a perder n'um
momento as esperanças que durante muito tempo acariciaram. Será isto uma
desgraça, concordo, porque não devemos encarar a sério esta vida.
Ernesto passou a mão pelo rosto, fez um esforço para se dominar e
continuou:
--Sou um nescio! Estou falando de mim, a senhora condessa, em logar de
lhe perguntar o que deseja e apressar-me a satisfazel-a. Peço-lhe
desculpa das minhas anteriores divagações, e ordene tudo quanto lhe
aprouver.
--Não, senhor Ernesto, não; conheço todo o mal que o meu coquettismo lhe
causou, e por conseguinte não podem ser-me indifferentes os seus
soffrimentos. O que quero, o que lhe imploro é que me perdôe e me não
odeie, o que lhe peço é que annua ao que esta manhã lhe foi pedir meu
marido, porque só assim poderá a minha alma viver tranquilla e
restabecer-se a paz n'esta casa.
--E... pensou bem no que me pede, minha senhora?
--Sim, sei que para si é um grande sacrificio. Se o senhor fosse outro
homem nunca me resolveria a pedir-lhe tão grande favor, senhor Ernesto,
mas do senhor espero tudo, porque se tanto fôr preciso, lançar-me-hei a
seus pés até que o consiga, porque o senhor não quererá que nos meus
olhos nunca mais sequem as lagrimas, nem vêr-me desprezada pela
maledicencia e odeiada de meu marido a quem tanto amo; porque se o
senhor não cede acontecerá indubitavelmente uma desgraça.
Ernesto fixou em Amparo um olhar intenso, profundo, como se pretendesse
lêr-lhe no fundo d'alma, e depois disse:
--O senhor conde de Loreto é um homem valente, um dextro atirador que
tem provado a sua habilidade e o seu valor em mais de uma occasião. Sei
que se eu recusar terminantemente ao que me pede nos bateremos, e não
sendo eu um espadachim, será d'elle o melhor partido. Tambem não terei
grande trabalho para lhe provar, minha senhora, que a ideia de um duello
de morte pouco me preoccupa. A vida só é preciosa para os que são
felizes e a senhora destruiu toda a minha felicidade. De mais ha já
algum tempo que goso de pouca saude, e por conseguinte é desnecessario
pensar em mim. Só temo que em Madrid me tomem por um cobarde; é epitheto
que não mereço e por isso me recusei a satisfazer os pedidos do senhor
conde.
--E quem ousará chamar-lhe cobarde? disse Amparo. Para que os seus
amigos fizessem similhante apreciação, seria preciso que houvesse alguma
cousa que não fosse natural. Acaba de chegar de Roma com o quadro de
Esther; em Roma estive este verão e lá esteve tambem meu marido. Nada
tão facil e tão interessante para a sublime obra que expôz n'um dos
salões da Exposição de pintura, como inventar uma d'essas anecdotas que
fazem na posteridade parte da historia de um quadro. Por exemplo: o
senhor precisava de um modelo para Esther; encontrou-me com o conde,
então meu noivo e seu amigo, e encontrando nas minhas feições tudo
quanto sonhava para a figura de Esther, pediu a Fernando para que eu
servisse de modelo. O conde annuiu com uma condição: a de comprar-lhe o
quadro pelo preço em que o senhor o avaliasse; e effectivamente
fechou-se o negocio por vinte e cinco mil duros. Tudo isto é o mais
natural do mundo. Ninguem depois de lêr nos jornaes a historia da
parecença de Esther com a condessa de Loreto, assignado por si, será
capaz de dizer que semelhante declaração foi escripta pela mão de um
medroso.
--Effectivamente, minha senhora, respondeu Ernesto, d'esse modo, na
minha historia, haveria um episodio fabuloso, o de vender um quadro no
seculo da photographia pela fabulosa quantia de meio milhão, e estou
certo de que tão vantajosa venda produziria inveja a muitos. Mas
ignorando todos que conheci em Roma e que acompanhei a Florença D.
Amparo d'Aguillar, ninguem supporá qual a verdadeira historia da
parecença de Esther com a condessa de Loreto; e para mim, basta-me que a
senhora o saiba e que o não ignore o senhor conde. Tambem julgo que a
senhora não quererá fazer-me o aggravo de me julgar interesseiro. O meu
quadro não vale vinte e cinco mil duros e por isso não posso ceder aos
seus desejos.
--Meu Deus! disse a joven juntando as mãos, e derramando abundantes
lagrimas. Julgava que este homem me amava, mas enganei-me.
Ernesto fez-se pallido até ficar livido, os olhos brilharam-lhe de um
modo terrivel, pegou bruscamente em uma mão de Amparo, e disse:
--Senhora, o meu amor é tão grande, que não encontraria palavras com que
podesse narrar-lh'o.
E pondo uma mão sobre o peito, continuou:
--Aqui, desde o momento em que perdi a esperança de realisar os meus
sonhos, sinto como que uma tempestade infernal que rebentará em breve,
despedaçando-me o peito. Oh! Como é insensato todo o homem que não sabe
ser superior ás paixões que o dominam. Eu nunca amara senão minha mãe e
a gloria. A que me deu o ser deixou de existir. Fiquei orphão, e a
gloria desde esse dia foi minha mãe, minha amada, minha vida; mas um dia
o destino ou a fatalidade collocou-a ante mim, e amei-a com toda a minha
alma. Este amor então foi correspondido, sellado com um beijo que ainda
me queima nos labios, que ainda abraza a alma, e depois...
Ernesto soltou uma gargalhada hysterica e ajuntou:
--Mas para que recordar-lhe o que a senhora esqueceu? Que deseja a
senhora? Fiz-lhe o sacrificio da minha felicidade, talvez o da minha
vida, farei tambem o da minha honra, estou disposto a tudo. O quadro é
seu, minha senhora; escreverei a noticia, e entregarei ao senhor conde
de Loreto o documento com que poderá retiral-o quando a Exposição
terminar. Depois, se quizerem, podem queimal-o, pois era esse o fim a
que o destinava.
Ernesto poz-se de pé, fazendo um esforço supremo, e como se as suas
ultimas palavras tivesse esgotado as forças, dirigiu-se para a porta.
Amparo olhava-o absorta, commovida, sem coragem para detel-o. Viu-o
partir, e notou que aquelle homem tremia como um ebrio.
Apenas sahira do gabinete, ouviu-se na antecamara um ruido como o que
produz um corpo ao cahir desamparado. A condessa soltou um grito e D.
Ventura sahiu da alcova.
--É um rapaz que vale quanto pesa, disse o commerciante.
--Meu pae, corra, succedeu qualquer cousa a Ernesto.
D. Ventura foi por onde o pintor tinha sahido, e effectivamente
encontrou-o estendido no chão.
Soltou um grito e pediu soccorro. Ernesto estava desmaiado com a cara e
o peito manchados de sangue.
Quando Amparo chegou, julgou que Ernesto se suicidara; os creados
levantaram-n'o e transportaram-n'o para a cama de D. Ventura, e quando
chegou o medico, soube-se a verdade: Ernesto tivera um grande vomito de
sangue que o obrigara a perder os sentidos.
Uma hora depois, quando voltou a si e abriu os olhos, o conde de Loreto,
Amparo, Ventura e o medico estavam em volta da cama.
O pintor estava extremamente pallido, mas com essa palidez mate,
melancholica, dos doentes de peito, e dirigindo um olhar vago e fatigado
em volta de si, disse com voz debil:
--Quanto me penalisa, senhores, este contratempo. Senti-me mal
repentinamente, como se se tivesse rompido qualquer cousa dentro do
peito; quiz evitar á senhora condessa um desgosto, e retirei-me á
pressa, mas ao chegar á antecamara, perdi os sentidos. Espero que me
desculparão o susto que lhes causei.
--O mais importante, meu amigo, disse o conde, é a sua saude, e desejo
que me faça o favor de permanecer em minha casa até que se encontre
completamente restabelecido.
Havia tanta doçura, tanto interesse n'aquella voz, que Ernesto, fixando
o conde com um olhar replecto de agradecimento, respondeu:
--Um doente nas minhas condições, senhor conde, é demasiadamente
importuno. Agradeço-lhe reconhecidissimo o seu offerecimento, mas não
devo acceital-o e peço-lhes que tão depressa o medico diga que me
encontro em estado de ir para minha casa, me concedam licença.
--Não será hoje nem ámanhã, respondeu o medico, e por conseguinte creio
que não nos devemos occupar d'outra cousa que não seja fortalecer o
nosso doente.
--Não se fala mais n'isso, disse D. Ventura, Ernesto é mais bem tratado
aqui do que em sua casa. Eu, em nome da nossa amizade, prohibo-lhe que
se levante da cama. Quando estiver restabelecido, quando estiver forte,
fará então o que lhe aprouver. Hoje mando eu.
Ernesto fez um movimento d'olhos indicando que se resignava. Sentia-se
tão fraco, que lhe seria impossivel ter-se de pé.
Ficou, pois, resolvido que ficaria no quarto de D. Ventura.
Quando o medico sahiu, Amparo deteve-o para lhe perguntar pelo doente.
--É grave, disse o facultativo. Mais tarde ou mais cedo morre. Deve ter
soffrido muito.
Amparo retirou-se para os seus aposentos, e, fechando a porta, chorou.
O remorso começava a preoccupar-lhe o espirito.
CAPITULO XIX
Pagar a hospitalidade
D. Ventura mandou pôr uma cama no quarto de Ernesto.
--Serei o seu enfermeiro, disse, Amparo, e o conde ajuda-me n'esta
tarefa. Animo, pois, amigo Ernesto, e não pense n'outra cousa que não
seja em restabelecer-se.
Desde aquella occasião o pintor encontrou uma familia carinhosa,
solicita, que lhe prodigalizou todo o bem estar. Nem elle mesmo podia
explicar o que se passava em redor de si.
Muitas vezes era Amparo quem lhe dava os remedios, limpando-lhe o
copioso suor que com frequencia lhe inundava a fronte, e isto fazia-o
mesmo deante do marido e com a amorosa solicitude de uma irmã.
D. Ventura logo ao segundo dia começou a tratar o enfermo por tu com a
ternura e o interesse de um pae.
Assim se passaram cinco dias. Ernesto falava pouco, não só porque o
medico lh'o prohibira, como tambem porque pensava muito em todos estes
acontecimentos.
O seu amor por Amparo era immenso. O conde indubitavelmente conhecia
esse amor, e comtudo, dedicado e obsequioso, consentia que sua mulher
passasse horas inteiras sentada a cabeceira da sua cama.
Em vão Ernesto perguntava a si mesmo porque era que aquella familia se
mostrava tão attenciosa, tão obsequiadora para com elle, e o seu coração
generoso repellia algum pensamento pouco favoravel para ella. O conde
parecia-lhe um homem digno e honrado, Amparo uma irmã, D. Ventura um
pae, e até o medico era para elle um amigo.
Desde que recuperára os sentidos, durante os dias em que se achava
n'aquella casa, ninguem lhe tornára a falar do quadro. Ernesto
sentindo-se mais alliviado, aproveitou um momento em que estava só, pois
desejava demonstrar áquella familia o seu reconhecimento.
Levantou-se da cama, chegou com algum custo a uma mesa onde estavam os
apetrechos de escripta, e poz-se a redigir um artigo.
Passada uma hora tinha acabado.
Então, voltou para a cama, tocou a campainha e disse ao creado que se
apresentou:
--Faça favor de dizer ao senhor D. Ventura que desejo falar-lhe.
O creado obedeceu e poucos momentos depois entrava o commerciante,
sorrindo como sempre.
--Bravo, bravo, disse elle. Já te vejo esse parecer mais animado e gosto
d'isso. Mas, saibamos o que quer o meu doente.
--Que leia isto, que mande tirar copias e que as remetta aos jornaes que
quizer.
E Ernesto entregou uns linguados de papel em que pouco antes escrevera.
D. Ventura leu para si. Quando acabou a leitura lançou-se nos braços de
Ernesto, exclamando com voz commovida:
--Obrigado, Ernesto, obrigado. Estas linhas trarão a paz a um lar e o
socego a um pae; és o homem mais generoso do mundo.
D. Ventura tinha os olhos cheios de lagrimas.
Ernesto estava impressionado ante a profunda satisfação do velho.
--Demais, disse o pintor, fingindo grande naturalidade, essa declaração
que destruirá por completo a maledicencia, vale bem pouco, e não vejo
motivo para que o senhor m'o agradeca. Em poucos dias estarei
completamente restabelecido, e sahirei de Madrid, e nem o senhor conde,
nem a senhora condessa me tornarão a vêr. Tenho um plano de vida que me
será proveitoso. Emquanto ás nossas excursões artisticas por Florença, e
Roma só me resta julgál-as um encantador sonho, filho d'uma imaginação
viva e impressionavel, e como os sonhos se esquecem procurarei
esquecêl-as tambem.
--Oh! Tu não dizes o que sentes, Ernesto, soffres e tentas occultal-o.
--E quem não soffre n'este valle de lagrimas? Existe porventura homem
feliz n'este mundo? Creio que não. A vida não é outra cousa senão um
castigo que Deus impõe á humanidade pelo peccado original;
resignemo-nos, pois e paguemos esse tributo ao Creador.
--Mas isso não me tranquillizou por completo. Dizes no teu artigo
que o quadro é propriedade do conde de Loreto, que o comprou em Roma,
com a condição de que Esther fosse o retrato de sua futura mulher, e
isso não é verdade.
--Meu amigo, ás vezes a mentira, que tem alguma cousa de santa, é
indispensavel.
--Comtudo o conde não te comprou o quadro.
--Mas se eu lh'o offereço.
--Isso não póde ser. Tu és pobre e nos não consentimos...
--Mau! O quadro, dado o caso de ser premiado pelo governo, poderá
render-me quando muito cinco ou seis mil duros. Com essa quantia é rico
um homem como eu.
--Mas nós podemos dar-te pelo quadro vinte mil duros.
--Isso seria roubar o dinheiro, e não creio que o senhor me faça a
offensa de me julgar interesseiro.
--Demais sei eu que todos os homens de talento desprezam o dinheiro.
--Pois então consinta que a minha pobre Esther salvando os filhos de
Israel fique em paga da carinhosa hospitalidade que me concederam, e não
se fala mais no assumpto. Mas não percamos tempo; é preciso que ámanhã
saia em alguns jornaes o meu communicado.
D. Ventura não poude convencer Ernesto a que acceitasse qualquer quantia
pelo quadro.
--Para todos, disse o pintor, o quadro foi comprado pelo conde de Loreto
pela importancia que lhe aprouver dizer, e eu não o desmentirei; para
nós, o quadro será uma offerta que eu faço ao esposo de D. Amparo de
Aguillar.