eterna, até ao momento em que partiste para nos trazeres o melhor quadro
que verão os contemporaneos.
--Sim, conta-nos a historia dos teus amores.
--Basta, senhores! exclamou Ernesto, estendendo os braços para
restabelecer a ordem. Quem diabo lhes disse que estou enamorado?
--Foi Marcial.
--É uma calumnia.
--Podemos provar-te o contrario.
--De que maneira?
--Apresentando-te o original da tua Esther.
Ernesto estremeceu.
--N'esse caso, só se poderia attribuir a uma casualidade, disse
inquieto.
--A amizade não deve ser exigente, disse André desejoso de livrar o seu
amigo d'aquelles apuros. Visto que Ernesto não conta, respeitemos o seu
silencio, e tomemos café.
--Sim, sim; tomemos café, ajuntou Marcial, e com pouco assucar, para que
allivie um pouco a cabeça, dissipando os vapores do vinho!
--Isso é um insulto; chamas-nos _piteireiros_.
--Póde ser que tenhas razão, disse outro. Apesar de tudo, o piteireiro é
um ser feliz.
--Que seria dos homens se não existisse o vinho?
--Uma sociedade de paes graves.
--Um vasto cemiterio.
--Viva o vinho!
--E os homens despreoccupados, que se não importam de se embriagarem!
--Viva a Inglaterra, onde a embriaguez é respeitada.
--E está na ordem do dia.
--Ah! Nós, os hespanhoes, somos uns hypocritas; criticamos os
piteireiros, mas bebemos vinho.
Desde aquelle momento a conversa dos seis rapazes foi tão animada, tão
alegre, que nos seria difficil reproduzil-a.
Contos, anecdotas, escandalos da capital, tudo serviu de assumpto, em
redor d'aquella mesa, onde fumegava a digestiva _moka_ e o estomacal
_cognac_.
Ás seis da tarde abandonaram o restaurant, e dirigiram-se para
Castelhano. Necessitavam respirar o ar fresco do campo.
CAPITULO XV
Carta interrompida
Penetremos na encantadora quinta que D. Ventura possuia em _Carabanchel
de Arriba_; mas não nas elegantes e luxuosas habitações, pois que Amparo
que é quem procuramos, está n'um caramanchão situado no extremo de uma
recta e larga rua formada por altos e copados castanheiros da India.
Para que o leitor se inteire de tudo o que succedeu desde que perdeu de
vista a formosa herdeira de D. Ventura, bastará dar-se ao incommodo de
lêr a carta que Amparo escreve a uma amiga intima e antiga condiscipula.
Leiamos, pois:
«Minha querida Luiza
«Desde o dia do meu casamento com o conde de Loreto, isto é, ha um
mez, nem tu sabes o que tem sido de mim nem eu sei nada de ti. Agora
que meu marido me deixou, pois alguns negocios o prendem todo o dia
em Madrid, vou dar-te parte da minha vida.
«Escrevo-te, ouvindo o canto das aves sobre a minha cabeça, e
aspirando o perfume do jasmim e da madresilva. A minha alma
necessita da doce quietação que me rodeia, para poder expressar-te
toda a immensa felicidade que sinto.
«Ah! Luiza, já sei que amas um homem, e que és egualmente amada por
elle. Porque se não casam? E porque não veem para o campo?
«Ignorava que no coração d'uma creatura o amor infundisse uma
felicidade tão ineffavel como a que experimento. É bem verdade que
Fernando, meu marido, é o melhor dos homens.
«Se visses a maneira amavel e obsequiosa que tem sempre para
commigo! Eu sou, por assim dizer, a rainha absoluta d'este pequeno
paraizo. Meu pae ri-se do que chama caprichos de menina amimada, e
Fernando approva immediatamente, tendo por logico e natural até o
mais estranho e excentrico.
«Muitas vezes pergunto a mim propria se esta felicidade poderá durar
muito. Mas porque não ha de durar? Quando o amor é verdadeiro, dura
tanto como a vida. Que digo? Mais do que a vida, pois acompanha a
alma até á eternidade.
«Mas vou-te falar de Fernando a quem só conheces superficialmente.
Imagina, querida Luiza, um rapaz bonito, com um coração de anjo, a
quem os genios da musica e da pintura bafejaram em creança, pois que
Fernando é musico e pintor.
«Toca orgão de uma maneira admiravel, e desenha quasi tão bem como
Gustavo Doré, cujos bellos trabalhos conheces.
«Junta a isto uma bondade sempre disposta a comprazer e poderás
imaginar quem é o homem que me coube por sorte para companheiro de
toda a minha vida.
«Demais, Fernando tem uma conversação que fascina.
«Quando de noite passeamos pelo jardim de braço dado, deleita-me
ouvir-lhe os planos que formulou para que a minha felicidade seja
mais duradoura.
«Se soubesses as viagens encantadoras que projecta para a proxima
primavera!...»
Estava a carta n'este ponto, quando Amparo ouviu pronunciar o seu nome;
levantou a cabeça e não poude conter um grito.
Tinha na sua frente, seu pae e Ernesto.
D. Ventura, alegre e risonho como sempre; o pintor pallido como um cadaver.
Amparo ao vêl-o, deixou cair a penna da mão, exclamando:
--Ah! é o sr. Ernesto!
--Elle proprio, respondeu D. Ventura, collocando familiarmente uma mão
no hombro do pintor. Surprehendeste-te, não é verdade? Pois olha que a
mim tambem me succedeu o mesmo, apezar de o esperar mais dia, menos dia,
visto a exposição abrir em meados do mez.
Durante este curto dialogo, Ernesto guardou silencio. Os olhos tinha-os
fixos em Amparo e os labios entre-abertos deixavam assomar um sorriso
tão amargo como doloroso.
Amparo por sua parte, parecia perturbada. A presença inesperada de
Ernesto produzira-lhe um effeito desagradavel. Nos olhos d'aquelle homem
estava o ameaçador olhar do amante offendido.
Aquelle homem era para ella um terrivel presagio, um vivo remorso.
Desejava estar a cem leguas d'alli.
--Sem duvida, que viemos importunar esta senhora, disse Ernesto
procurando dominar-se.
--Não, senhor Ernesto; escrevia a uma amiga, e tenho tempo. Só á noite é
que parte o correio.
--Demais, disse D. Ventura, o senhor não é uma visita importuna para
nós, mas um bom amigo a quem tratamos com o maior prazer e recebemos
sempre com satisfação. Se assim não fosse commetteriamos uma ingratidão.
De fórma nenhuma se esquecem facilmente as nossas excursões por Florença
e Roma.
Innocentemente D. Ventura feriu no mais recondito o coração da fllha.
--Creio, senhor Ernesto, que concluiu o seu quadro que vimos começado em
Roma, disse Amparo.
--Sim, minha senhora, concluio-o, e espero depois de ámanhã,
requerer um logar para a proxima exposição.
--Onde iremos admiral-o e orgulharmo-nos, porque somos amigos do pintor,
ajuntou D. Ventura.
--Quem o duvida?
--Mas dize-me: onde está o teu marido. Desejava apresentar-lhe Ernesto.
--Fernando foi esta manhã a Madrid e não volta senão á tarde.
--É pena; mas tudo se póde remediar, ficando Ernesto e almoçando comnosco.
Decididamente D. Ventura parecia disposto a atormentar a filha.
Ernesto comprehendeu que Amparo desejava vêr-se livre da sua presença,
mas a noticia inesperada do seu casamento, causára-lhe tão terrivel
effeito, que acceitou o almoço que lhe offerecia D. Ventura, só pelo
prazer de atormentar aquella _coquette_ que brincára com o seu coração
para depois o despedaçar.
O almoço ia ser egualmente terrivel para os dois, mas Ernesto devorado
pelo ciume, pela raiva, pelo desespero, estava resolvido a soffrer tudo.
Acceite o convite, D. Ventura, que não sabia estar quieto em parte
alguma, teve ainda outro ensejo mais lamentavel para atormentar a filha
do que os anteriores.
--Ernesto é como da familia e como fica para almoçar, vou dar as ordens
necessarias e escrever duas cartas; passeiem pelo jardim, que eu venho
buscal-os depois.
E dizendo isto dirigiu-se precipitadamente, para casa.
N'aquella occasião Ernesto daria a D. Ventura, a vida, e até a gloria;
tinha necessidade de falar com Amparo sem testemunhas, de ouvir uma
explicação da sua conducta; e demais, continuar o fingimento, a
dissimulação, seria impossivel.
Quando n'um peito cheio de juventude e apaixonado se levanta essa
terrivel tempestade do ciume, é difficil dominál-a, chega o momento
em que, esquecendo-se dos deveres sociaes, estala e produz um conflicto.
Ernesto, ao vêr-se só, suspirou com força.
Amparo comprehendeu a sua situação e conhecendo o generoso coração de
Ernesto, juntou as mãos, deixou assomar aos olhos duas claras e
transparentes lagrimas e com voz commovida, disse:
--Pela memoria de sua mãe, pela recordação d'aquellas noites imprudentes
de Florença, rogo-lhe, Ernesto, que se esqueça de tudo e me perdôe.
O pintor fixou um olhar intenso, sinistro, n'aquella mulher que nunca lhe
parecêra tão bella, e dominando-se, mas estremecendo ao mesmo tempo,
como se o fosse a acommetter um ataque nervoso, disse:
--Perdoar, é facil; basta ter um coração grande e generoso; esquecer é
impossivel, senhora, quando se tem uma alma como a minha, quando se
sente na bôcca o fogo de um beijo que ha de causar a minha desgraça e a
minha morte.
E levando a mão á cabeça, em tom desesperado, exclamou:
--Tudo isto é um sonho! É impossivel que isto seja realidade! Que mal
fiz a esta mulher, para que depois de mostrar-me o céu, me lance no
abysmo do desespero?
--Ernesto, senhor Ernesto, por piedade. Conheço que fui uma imprudente,
que sou culpada, mas que quer...
--Senhora, exclamou Ernesto com dignidade, ha procedimentos, que nem
Cicero com toda a sua eloquencia, poderia explicar satisfatoriamente, e
o seu, é um d'elles; e, se eu, vendo-me enganado, me quizesse vingar, se
eu n'este momento em que a vida me é indifferente, commettesse um
d'esses crimes que lança o desespero nos homens, seria mais desculpavel
ainda ante os homens do que a senhora ante a sua consciencia.
--É verdade, é verdade! murmurou Amparo, escondendo o rosto nas
mãos. Póde-me matar se lhe apraz.
--Não tenha medo; tenho bastante coragem para receber a morte sem me
defender. Até ainda ha pouco a esperança, essa bella flôr da vida que
tudo embelleza, esse grato perfume da alma, acariciou o meu coração,
porque a luz d'uns olhos que outr'ora se fixaram nos meus cheios de
ternura, illuminava todo o meu sêr; mas, agora, encontro-me subitamente
mergulhado na mais profunda escuridão. Foi tudo um sonho, tudo uma
mentira; a senhora nunca me amou; as noites de Florença foram momentos
passageiros de delirio, entretenimento de mulher _coquette_, esmola
concedida por uns labios lisongeiros, falso ouropel que tive a veleidade
de receber por ouro puro; e emquanto recebia um beijo falso, dava a
minha alma inteira. Ah! Que louco fui! Se ao menos tivesse tido
compaixão de mim, se se tivesse dignado escrever-me uma carta,
dizendo-me: «Ernesto, esqueça tudo quanto se passou entre nós; vou
casar-me com o conde de Loreto, meu pae exige-o, é um compromisso que
não posso evitar...» uma desculpa qualquer, uma mentira ao menos, porque
ha mentiras desculpaveis porque nos fazem bem... Mas não; a senhora,
pelo contrario, guardou silencio, e eu continuava alimentando as minhas
illusões. Hoje chego a esta casa com a alma repleta de amor e de
esperança e o seu pae diz-me com a mesma frieza e indifferença como se
me falasse de um dos seus negocios: «Amparo casou com o conde de
Loreto.» Comprehende, senhora, o effeito que em mim produziu esta
noticia? As palavras não matam porque eu ainda vivo.
Amparo chorava. Só então comprehendeu a gravidade da sua imprudencia. O
conde de Loreto fascinara-a: desde o dia das corridas em Paris amava-o
de toda a sua alma, mas se antes de casar ouvisse as justas
recriminações que lhe dirigia Ernesto, não teria pronunciado o _sim_ de
esposa junto ao altar.
Mas o coquettismo, essa arma terrivel da mulher, quando esgrimida contra
um coração enamorado e sensivel, dera os seus terriveis fructos e jé
era tarde para retroceder.
Por isso Amparo não encontrava palavras com que se defendesse, com que
se justificasse.
N'estes casos, a mulher tem dois caminhos; ou rir-se do amante enganado,
ou confiar na sua generosidade e pedir-lhe perdão.
Amparo nem por sonhos pensou no primeiro caso; conhecia bem o amor de
Ernesto e a bondade do seu coração; por isso appellou para o segundo
recurso, e, levantando a cabeça, apresentou ante os olhos do pintor o
seu rosto interessante, formoso e pallido, e, derramando lagrimas, disse:
--Pois bem, sim, Ernesto; fui uma _coquette_, uma imprudente, uma
leviana. O meu procedimento não tem desculpa; mas amo o meu marido e
preferiria cem vezes a morte a faltar ao que a minha honra e os meus
deveres de esposa me impõem. Se não é bastante generoso para perdoar,
mate-me, antes que Fernando conceba a menor suspeita, e antes que a mais
pequena nuvem empanne a sua felicidade, prefiro morrer. Mas o senhor é
bom e terá dó de mim.
Ernesto começava a sentir-se enternecido. Amava tanto aquella mulher que
não se sentia com coragem para lhe negar fosse o que fosse. Amparo
aproveitava-se das vantagens que ia conquistando.
--Sejamos, pois, amigos, como nos primeiros dias em que nos conhecemos;
irmão, se quizer, mas perdôe-me e esqueça-me... não será tão cruel que
m'o negue.
--Amparo, a senhora não póde imaginar o sacrificio que me pede; mas faz
bem em confiar em mim. Como poderei ser a causa da desgraça da mulher
que amo de toda a minha alma? Perdôo-lhe todo o mal que me fez, mas
esquecer... é impossivel. Para amar não é preciso ser correspondido. Mas
para que prolongar por mais tempo uma scena que me despedaça o coração?
Adeus, minha senhora, seja feliz, viva socegada, porque entre os dois
abriu-se, desde hoje, um abysmo, no fundo do qual estão sepultadas
todas as minhas illusões, toda a minha felicidade.
E Ernesto sahiu do caramanchão como o demente que arrebatado pela
vertigem do seu doente cerebro não sabe para onde caminha.
O primeiro movimento de Amparo foi detêl-o; porém conteve-se, calculando
que ia commetter uma segunda imprudencia, e de mais graves consequencias
do que a primeira.
Uma vez só procurou serenar-se.
--Pobre Ernesto! disse ella, enxugando as lagrimas. Nunca imaginei que
fosse tão grande o seu amor. Ah! Tem muita razão para me odiar. Foi uma
imprudencia.
E, recordando-se de que uma só palavra de Ernesto poderia perturbar a
sua felicidade, exclamou:
--Meu Deus! Permitti que esse homem não seja assaltado pela terrivel
paixão da vingança.
Amparo fixou o olhar na carta que escrevia tão alegre, poucos momentos
antes, á sua amiga, e não tendo paciencia nem socego n'aquelle momento
para concluil-a, guardou-a na carteira do seu estojo de viagem.
Quando o pae voltou, Amparo estava quasi socegada, ou pelo menos fingia,
para que se não suspeitasse nada da scena que acabára de dar-se
n'aquelle logar.
--Aonde está Ernesto? perguntou D. Ventura.
Rapidamente imaginou uma desculpa que motivasse a precipitada fuga do
pintor.
--Ernesto, disse, acaba de sahir.
--Mas, volta para almoçar?
--Não; disse-me para lhe pedir desculpa de se retirar, mas havia-se
esquecido de que tinha uma entrevista importante em Madrid ás duas horas
da tarde.
--Todos os artistas têem a cabeça á razão de juros. Mas emfim que
remedio! Almoçaremos sósinhos.
E offerecendo o braço á filha, dirigiram-se para casa.
CAPITULO XVI
Propostas
Ernesto chegou a casa e deixou-se cahir desesperadamente na cama;
sentia-se fatigado, um desejo irresistivel de chorar, um calor immenso
nas fontes e um frio glacial no coração.
Deitou a cabeça nas almofadas e chorou.
Ás cinco horas da tarde, Marcial e André foram buscal-o para irem
jantar, e ao verem-n'o pallido, com o parecer decomposto e os olhos
avermelhados, perguntaram sobresaltados:
--Estás doente? Que tens?
--Nada, meus amigos, nada; quero estar só. Deixem-me; esta tarde não
tenho appetite.
--Mais uma prova de que estas doente, e por isso não te abandonaremos.
--Por Deus, não me obriguem a levantar. Um boccado de socego far-me-ha
bem. Repito-lhes que não tenho nada. Vão tranquillos que lhes peço eu.
Depois de meia hora de inuteis perguntas, Marcial e André sahiram
afflictos do quarto de Ernesto.
--Indubitavelmente ha alguma cousa, disse o poeta.
--Que diabo succederia? ajuntou André.
--Parece-me que anda n'este mysterio o original da formosa Esther do
quadro.
--Tambem o creio.
--Não te disse elle esta manhã, que ia a Carabanchel?
--Sim.
--Em Carabanchel tem D. Ventura uma casa de campo.
--Que lhe succederia?
--Quem sabe! Talvez algum desengano.
--Seja o que fôr, procuremos indagar. É uma desgraça ter um coração
impressionavel como o de Ernesto; vae dar-lhe muitos desgostos.
Marcial e André recolheram n'aquella noite mais cedo que de costume.
Ernesto continuava deitado; no quarto não tinha luz. Marcial
approximou-se da cama com um phosphoro acceso para vêr se o seu amigo
ainda dormia.
O pintor tinha os olhos abertos.
O poeta accendeu a vela que estava na mesa de cabeceira, puxou uma
cadeira e sentou-se proximo da cama do amigo.
--Olha, Ernesto, a dissimulação só tem logar entre pessoas que se não
estimam. É em vão que procuras occultar-me o que te succedeu. Soffres,
tens uma d'essas dôres immensas que opprimem o coração. Basta olhar-te
para a cara para te adivinhar. Comprehendes que, estimando-te como a um
irmão, não me posso retirar tranquillo, só porque me dizes: «Não tenho
nada». Confia, pois, na minha amizade, deposita em mim as tuas maguas.
Quem sabe se poderei servir-te de consolação?
Ernesto apertou carinhosamente a mão do amigo e disse:
--Sei quanto me estimas; sei de quanto é capaz o teu generoso coração.
Somos amigos ha muito tempo, e nunca tive o mais leve motivo para
duvidar da tua amizade. Em nome, pois, d'essa amizade, peço-te que
respeites o meu silencio e que me deixes só.
--Está bem, obedeço; mas não esqueças nem um só momento de que me
encontro disposto a fazer o sacrificio da minha vida, se com ella posso
evitar-te algum desgosto.
Marcial sahiu do quarto de Ernesto na occasião em que ia a entrar André.
--Onde vaes? lhe disse.
--Vêr Ernesto.
--Deixa-o, está dormindo; o que precisa é de socego.
No dia seguinte Ernesto levantou-se de melhor parecer, e os tres amigos
tomaram juntos uma chavena de chá e alguns biscoitos inglezes.
Nem André, nem Marcial tornaram a perguntar a causa da sua tristeza, mas
elles tambem estavam tristes e desgostosos.
N'aquelle mesmo dia ficou o quadro de Ernesto na exposição. Á noite
reuniu-se com os amigos no café. Todos respeitaram a taciturnidade do
pintor, porque todos o estimavam e se compadeciam da sua
incomprehensivel tristeza.
Assim se passaram quinze dias. A exposição de pintura abriu as portas ao
publico, e o quadro de Ernesto arrancou um grito de admiração aos
espectadores.
A figura de Esther era uma obra tão perfeita como a Virgem de Murillo. O
quadro tinha sempre um grupo de admiradores, que o contemplavam com
verdadeiro extasi.
Uma manhã Ernesto acabava de se levantar quando José, o creado, entrou
participando-lhe que um cavalheiro lhe desejava falar.
Esse cavalheiro não era outro senão Fernando del Villar, Conde de Loreto.
Ernesto procurando simular uma serenidade que não sentia, offereceu-lhe
uma cadeira, e perguntou tranquillamente o que desejava.
--Vi e admirei o precioso quadro que tem na exposição de pintura, disse
o conde. É na verdade uma obra-prima. Tenho a absoluta certeza de que
alcança o primeiro premio, e venho vêr se o senhor m'o quer vender.
--Senhor, disse Ernesto, creia que concede ao meu trabalho mais
merecimentos do que os que realmente tem. Mas de modo nenhum desejo
desfazer-me d'elle emquanto o jury não resolver.
--Entretanto póde confiar, disse o conde, que o jury lhe concede o
primeiro premio, e eu compro-lhe o quadro como uma obra-prima. Póde
pedir-me quanto quizer sem receio de que me pareça exaggerado o preço.
Felizmente sou rico, e sei avaliar o valor das obras como a tela de Esther.
--Tenho tambem que advertir-lhe, senhor conde, de que um correspondente
da casa de Rotschild já me fez proposta sobre o quadro.
--Rotschild é mais rico do que eu, disse o conde, sorrindo-se, mas tenho
mais direitos do que elle ao quadro a que nos referimos.
--O senhor tem mais direito?! exclamou Ernesto, comprehendendo o ponto
para onde o conde desejava levar a conversa.
--Sim, porque o senhor não ignora que a cabeça de Esther tem uma grande
parecença, parecença de retrato perfeito, com uma mulher que tenho em
muita conta, e cujo bom nome me importa mais do que e vida.
--Não serei eu que o contradiga na sua opinião, senhor conde, mas se é
retrato, é por pura casualidade, pois foi pintado de imaginação.
--Creio, senhor, ajuntou o conde manifestando a sua importancia, que
n'estas coisas o melhor é falar com a maxima franqueza.
--Nada ha de que eu mais goste.
--Assim, pois, começarei por lhe dizer o que o senhor não ignora, e é
que a cabeça de Esther não é outra cousa senão o retrato de minha
mulher, a quem o senhor conheceu em Roma e em Florença.
--Pois bem, senhor conde, ainda que assim seja, ainda que visse e
tratasse em Roma e Florença com a senhora que hoje é sua esposa, ainda
que a minha memoria tivesse sido tão feliz que retivesse as suas feições
e as transportasse á tela, tudo isso não é mais do que uma liberdade que
tomei, e se o offende essa liberdade, a questão, entre pessoas de bem,
tem uma solução que o senhor não ignora.
Ernesto pronunciára estas palavras com a altivez de quem provoca. O
conde ouviu-o tranquillamente e sem demonstrar a mais leve agitação.
Quando o pintor concluiu, o conde fez um movimento de olhos e de rosto,
manifestando o desgosto que lhe causava similhante provocação.
--Senhor, disse pausadamente, primeiro que tudo, previno-o de que não
vim aqui ao som de guerra e julgo por tanto fóra de proposito a solução
que acaba de me propôr. Que conseguiriamos batendo-nos? Justamente o
contrario do que desejo e do que o senhor desejará ámanhã. Poderia
provar-lhe, sem que lhe ficasse duvida alguma, que não sou um cobarde, e
que me tenho batido mais de uma vez.
Ernesto sorriu-se.
--Perdôo-lhe essa nova provocação, ajuntou o conde, e torno a pedir-lhe
não só que me venda o quadro, como tambem que espalhe a noticia de que
eu lh'o encommendei em Roma, pedindo-lhe que este fosse o retrato de
Amparo.
--Nunca!
O conde estremeceu, augmentou de uma maneira terrivel a sua pallidez, os
seus olhos brilharam momentaneamente de uma fórma sinistra, e fazendo um
esforço violento para dominar-se, continuou sem levantar a voz, com
humilde entoação.
--Creia, meu amigo, que está em completo erro se julga que vim aqui com
exigencias; longe do meu espirito toda a ideia de ameaça; só supplico.
Se o senhor se nega a vender-me o quadro, mas se deseja evitar a minha
mulher graves desgostos, creio que por fim cederá a publicar um artigo
nos jornaes em que explique satisfatoria e convincentemente para todos,
a similhança que tem a figura de Esther com Amparo.
E o conde, levantando-se ajuntou:
--Pense, e pense tambem nas graves consequencias que a todos podem
trazer a sua negativa. Espero até ámanhã a sua resposta em minha casa.
Este cartão indica-lhe a minha residencia em Madrid.
E deixando sobre uma mesa um bilhete de visita, cumprimentou-o e sahiu.
Ernesto permanecia sentado com o olhar provocador, sem se dignar
corresponder ao cumprimento que o conde lhe dirigira ao sahir.
CAPITULO XVII
Confiança
Quando o conde entrou na carruagem que o esperava á porta, deu ordem que
o conduzissem para casa, e deixou-se cahir no assento rugindo de raiva.
--Ah! exclamou falando comsigo. Aquelle insensato julgou talvez que tive
medo. E não conheceu o horrivel tormento que me causava o conter-me.
Terei que matar outro homem? Não, não, mil vezes não. Consentirei antes
que elle me esbofeteie, preferirei fazer saltar os miolos.
Quando o conde chegou a casa, situada na rua do Barquillo, entrou no
quarto de vestir de Amparo, que o esperava inquieta e commovida.
--O tal senhor Ernesto, disse o conde, sentando-se n'um sofá, é menos
generoso do que suppunhas. Nem quer vender-me o quadro, nem publicar uma
communicação em que explique decentemente a natural curiosidade de todos
que te conhecem.
--Mas elle não tinha nenhum direito para fazer o que fez, para me pintar
n'um quadro com risco de me comprometter, exclamou Amparo tartamudeando.
O conde sorriu-se, e fazendo um movimento de hombros, disse: