Era evidente que uma grande fadiga do espirito se apoderára do conde e

os seus amigos retiraram-se.

D. Ventura entrou no quarto da filha a quem contou tudo quanto se

passára, que com esse natural egoismo da mulher se alegrou profundamente

ao saber que o conde se tinha sahido bem do lance de honra, visto ella

não conhecer o infeliz Heitor morto no desafio, e unirem-na a Fernando

relações de amizade que iam tomando o caracter de uma paixão verdadeira.

Entretanto, o conde de Loreto fechava-se no quarto, permanecendo o resto

do dia sentado n'uma cadeira. Nem elle mesmo poderia dizer se o somno se

assenhoreou d'elle algum momento.

Quando a obscuridade da noite se espalhou por todo o quarto, levantou a

cabeça e disse:

--É uma desgraça que já não tem remedio; tenho uma mão fatal. Esta é

a quinta vez que causo a morte ao proximo e uma profunda dôr a um pae.

E passando a mão pela fronte, como se quizesse livrar-se dos tristes

pensamentos que o preoccupavam, levantou-se e tocou a campainha.

Francisco, o mordomo, tão pallido, tão commovido como o amo, entrou com

uma luz na mão.

--Bôas noites, senhor conde, disse deixando a vella sobre uma mesa.

--Bôas noites, Francisco. Já sabes; matei um homem.

--E todavia o senhor tinha-me dito que não mais se bateria ainda que o

insultassem.

--É verdade; jurei não me bater, mas para que ninguem duvidasse de que

sei defender o meu decoro, não me pude conter, e agora arrependo-me. Ah!

se fosse em Hespanha não me tinha batido.

--O remedio que ha, disse Francisco, é esquecer o passado.

--Isso é mais difficil do que parece. Na memoria, como n'uma chapa

d'aço, grava o buril do tempo todos os acontecimentos da vida. Só a

morte tem o privilegio de os apagar. Mas tu disseste: já não tem

remedio. Prepara tudo, que ámanhã sahiremos de Paris. Necessito, pelo

menos, afastar-me d'esta terra.

--E para onde vamos, senhor?

--Para Hespanha.

--Está bem.

Fernando del Villar exhalou um suspiro e sahiu do quarto dirigindo-se ao

de Amparo.

CAPITULO XII

Como se pede

O piano é um grande recurso para aquelles que possuem e sentem na alma

as doces e gratas impressões da musica, essa linguagem universal a que

renderam tributo até os proprios deuses.

Amparo estava tocando. Tinha na estante a partitura da _Estrangeira_,

mas os dedos percorriam machinalmente o teclado, e os olhos fixavam-se

distrahidamente nas notas.

A musica para ella n'aquelle momento não era mais do que um grato ruido,

adormecedor, como o sussurro cadencioso de uma fonte que convida á

meditação.

Não pensava quasi nada no piano, muito pouco na partitura que tinha ante

si, mas muito no conde de Loreto.

De Florença a Paris, isto é, trinta e seis horas de comboio, foram

sufficientes para a formosa hespanhola se enamorar.

Antes d'esta viagem a casualidade collocára, ainda que momentaneamente,

no palacio de Médicis, Fernando e Amparo; depois em Paris as corridas de

cavallos e o duello reforçaram a ideia fixa que começava a dominál-a.

N'este momento Amparo estava só. D. Ventura sahira, depois de lhe contar

tudo quanto sabia referente ao desafio do conde.

Tocava, pois, piano, pensando no seu companheiro de viagem, quando ouviu

passos atraz de si; voltou a cabeça, e encontrou-se com Fernando que lhe

dirigiu um cumprimento respeitoso e um sorriso cheio de tristeza.

--Bôas noites, senhora D. Amparo. Talvez a venha incommodar, disse o conde.

--Incommodar-me? respondeu ella, parando de tocar. Pelo contrario. Bem

vê que estou só... Meu pae é um valdevinos; abandona-me e então o piano

é o meu recurso. Mas que tem? Está mais pallido que de costume, e

noto-lhe uma expressão de tristeza na physionomia.

--Suppunha que não ignorava a desgraça que me succedeu hoje, e venho

despedir-me.

--Como? abandona Paris?

--Ámanhã.

--Tão depressa.

--Pensava passar aqui alguns mezes, mas agora é-me impossivel; necessito

vêr outro sol, respirar outro ar.

--E para onde vae?

--Para Hespanha.

--Então, sr. conde, não tardará muito que nos vejamos lá, porque, apezar

de tudo, creio que o céu de Hespanha é o melhor de todos.

--Diz muito bem, e sobretudo quando no céu de Paris a imaginação

preoccupada vê algumas manchas de sangue que perturbam o socego e roubam

a paz de espirito.

--Verdadeiramente, é uma desgraça que as leis da honra imponham aos

homens deveres tão desagradaveis. Meu pae contou-me tudo, e posso

garantir-lhe que tão desgraçado acontecimento me penalizou bastante.

O conde sentou-se n'uma cadeira proximo do banco de Amparo.

--Não parece senão que me persegue algum genio fatal, disse elle, como

se falasse comsigo. Quando o destino me colloca ante um homem com a arma

homicida na mão, juro-o pela memoria de meu pae, sempre preferi morrer a

matar, e expuz generosamente o peito ante o perigo, sem me preoccupar em

evitál-o. Mas indubitavelmente uma força superior á minha vontade guia a

minha mão, e sempre vejo cahir sem vida o meu adversario. Só a

primeira vez que me bati tive desejos de sahir vencedor; era uma

creança, e a vaidade e o amor proprio cegavam-me. Então tive a desgraça

de matar um amigo intimo, um antigo condiscipulo. Pobre Arthur! E

sobretudo, pobre mãe aquella, em cujos olhos não mais se lhe sêccaram as

lagrimas, até que a dôr a conduziu ao sepulchro!

O conde deteve-se. Bastava vêr-lhe o semblante, ouvir-lhe o timbre da

voz para comprehender o estado do espirito. Amparo escutava-o

interessada e sem se atrever a interrompêl-o.

O conde, mudando de tom, continuou.

--Com franqueza, não sou ridiculo? Vim despedir-me de V. Ex.ª, e

estou-lhe contando historias que só a podem commover; mas ha dias em que

se apodera de mim uma tristeza tão grande que não sei falar de outra

coisa senão da minha vida passada, ou o que é o mesmo, dos meus

remorsos, porque os sinto, senhora D. Amparo, e a minha sorte é

duplamente desgraçada porque não tenho uma pessoa, que sendo depositaria

das minhas amarguras, me console com os seus conselhos.

--Senhor Fernando, exclamou a joven verdadeiramente commovida, receando

que só o desespero fosse o motivo da melancholia do conde; senhor

Fernando, se julga que posso ser essa amiga, apezar da minha pouca

experiencia do mundo, não me occulte nada e honre-me com a sua confiança.

--Senhora D. Amparo, ajuntou o conde com vehemencia, póde ser para mim o

anjo salvador que me arranque do antro escuro em que me revolvo,

conduzindo-me ao reino da luz e da felicidade; porque eu, qual judeu

errante vagueando pelo mundo, necessito d'uma alma sensivel que me

comprehenda, um coração bondoso que palpite com o meu e que se compadeça

de mim. De que serve a mocidade e a riqueza? Preciso amar e ser amado. O

bulicio do mundo não é sufficiente para distrahir a tenacidade do meu

pensamento, a soledade da minha alma. Para esquecer o passado

necessito que comece para mim uma vida nova; é indispensavel regenerar o

meu coração, porque não póde calcular a persistencia com que me persegue

o infortunio. Um anno depois do meu desgraçado lance com Arthur a quem

matei, estava na Italia, precisamente em Florença, no palacio de

Médicis, defronte do grupo de Niobe onde a vi pela primeira vez...

O conde deteve-se, fez um brusco movimento com a cabeça, e exclamou:

--Só uma creança ou um louco seria capaz de entabolar similhante

conversação; e talvez eu seja uma e outra coisa. Desculpe-me, minha

senhora, e perdôe-me todas as loucuras commettidas esta noite; mas parto

ámanhã, talvez que nos não tornemos a vêr mais, porque, já lhe disse,

como o judeu errante percorro o mundo em busca de uma alma que me

comprehenda, que se una á minha e que me dê parte da sua paz, da sua

tranquillidade, da sua seiva. Ao vêl-a, disse: «É este o anjo que

cubiço.» Mas creio-me indigno de merecêl-o; e já que o segredo do meu

coração assomou aos labios, ainda que lh'o quizesse occultar, a senhora

teria já comprehendido que a amo, e só me resta supplicar-lhe que não me

guarde rancor por tanto atrevimento, e que me permitta antes de partir

apertar-lhe a mão como amigo.

Se Amparo não tivesse verdadeira sympathia pelo conde, se não estivesse

disposta a amal-o, necessariamente ter-lhe-hia parecido tão rara como

incoherente a declaração que o conde lhe acabava de fazer.

Mas Amparo amava o conde, e não se enganava ao pensar que era amada por

elle. Por isso, aturdida, trémula, com voz commovida e pouco firme, o

olhar fixo no chão, extendeu a mão a Fernando e disse:

--Pois bem; se o senhor julga que depende de mim a sua felicidade,

confie a meu pae, logo que elle volte, o seu segredo e partamos juntos

para Hespanha.

O conde soltou um grito, pegou na mão que Amparo lhe offerecia, e

cobriu-a de beijos.

..........................................................................

N'aquella noite o conde pediu a D. Ventura a mão da filha.

O honrado millionario mal poude dissimular a alegria que similhante

pedido lhe causava. Era-lhe tão agradavel ouvir chamar á filha

condessa!... Fraqueza por certo muito natural n'um homem nas condições

de D. Ventura.

Mas, ainda assim, não se precipitou: ouviu com apparente serenidade o

pedido, e concedeu o seu consentimento, depois de ouvida a opinião da

filha.

Quando o conde sahiu, D. Ventura foi ao quarto de Amparo.

--Venho dar-te uma noticia surprehendente, inesperada, talvez agradavel.

--O que é papá?

--Que o conde parte para Hespanha.

--Já sabia.

--Já sabias?! E quem t'o disse?

--Elle proprio.

--Mas sabes que quer partir ámanhã, se isso lhe fôr possivel?

--Sim.

--E sabes tambem que me pediu a tua mão?

--Calculava tambem, meu pae, accrescentou Amparo, sorrindo-se.

--Por conseguinte atraiçoaram-me?

--O que perdoará, porque é muito generoso.

--Será possivel que todos os paes sejam malucos?

--Malucos só no preciso, isto é, d'alma e coração.

--Sim, sim. Mas, dize-me que lhe hei-de responder.

--Responda-lhe que sim, é o mais logico.

--E o casamento.

--Celebrar-se-ha em Madrid.

--Claro. Quem se casa em França residindo em Hespanha?

--Pois então já sabe; quando o conde lhe perguntar pela resposta

definitiva, diga que sim e é assumpto concluido.

--Mas olha, Amparo, agora que já se póde dizer que és a promettida

esposa do conde de Loreto, vou contar-te uma cousa. Em Florença, suppuz

que tu e Ernesto se amavam; mas assim é melhor; enganei-me, com o que

muito folgo, porque, minha filha, n'estes tempos é mais acceitavel para

marido um conde rico, do que um artista pobre. Ernesto pinta muito bem,

mas não tem uma peseta.

Amparo ao recordar-se de Ernesto commoveu-se; mas a commoção foi

passageira, como a ave que cruza sobre a nossa cabeça para não mais voltar.

Dois dias depois, um compartimento de primeira classe conduzia a

Hespanha com a velocidade da locomotiva os nossos conhecidos. Era o dia

28 de junho.

CAPITULO XIII

Os tres amigos

Dois mezes depois dos ultimos acontecimentos que acabamos de narrar,

isto é, no dia 1 de setembro ás seis horas da manhã, dois rapazes

passeavam na gare da estação do sul, esperando o comboio correio de

Alicante.

--Garanto-te, dizia um d'elles, que Ernesto traz um grande quadro.

--E eu concedo-lhe o primeiro premio, ainda antes de o vêr.

--Tem muito talento.

--Sim, mas segundo pude perceber nas suas ultimas cartas, está enamorado.

--O amor abre muitas vezes o caminho.

--Quando nos não conduz a precipicios horriveis.

--Isso tudo depende da mulher que o inspira.

--Dizes bem; ella faz do homem ou um heroe ou um parvo, mas quasi sempre

o segundo caso.

--Não te concedo voto no assumpto.

--Como! Collocas-me fóra das leis do sentimento humano?

--Sim, porque és um exaggerado e odeias o sexo fraco.

--Tenho motivos para isso. Procurei estudar a mulher e estou convencido

de que para ellas o mais importante é a exterioridade. Uma gravata bem

posta, brilhante e bem feita bota de polimento; n'uma palavra um _dandy_

adamado e escravo da moda, e que tenha o cabello sempre bem apartado,

tem muitas probabilidades de ser amado; emquanto que um homem de

verdadeiro merito, que cuide mais da sua intelligencia do que do seu

traje, fica sempre derrotado em questões de amor. A historia

apresenta-nos milhares de exemplos: todos os homens que honraram a sua

patria não tiveram a quinta parte das aventuras amorosas de Lovelace,

cuja arte se reduzia em fazer olhares ternos e trazer magnificas

fivellas de prata nos sapatos.

--Ovidio foi amado por uma princeza.

--Quase esqueceu d'elle ao vêl-o n'uma masmorra.

--Tasso foi amado por uma fidalga.

--Que lhe não mandou nem um simples coto de vela quando por sua causa

estava no calabouço escrevendo, _Jerusalem libertada_. Mas tu só me dás

dois exemplos. Olha, André, Cesar foi o primeiro da sua epocha, a grande

figura de Roma, e comtudo, a sua mulher, Pompeya, preferiu-lhe um

imberbe creançola, Publio Clodio, que se vestia de mulher para pôr ao

conquistador do mundo, uma corôa que não era por certo de louro. Pobre

Cesar! Como era calvo, a sua cabeça estava sempre ameaçada.

Os que assim matavam o tempo esperando o comboio, era um poeta a quem

conheceremos pelo nome de Marcial e um pintor que se chamava André,

ambos amigos intimos de Ernesto e a quem este remettêra de Alicante

um telegramma avisando-os da sua chegada.

Marcial e André viviam juntos n'uma mansarda da rua do Prado, tinham um

creado para ambos e comiam no café Suisso.

O unico patrimonio de Marcial era a penna; a fortuna de André, os

pinceis. Os dois amigos tinham passado a fatal epocha de bohemios e

tanto Marcial com os seus dramas; como André com os seus quadros,

ganhavam o sufficiente para viver bem e serem muitas vezes a Providencia

de alguns companheiros.

Mas continuemos na gare, que não tardará que visitemos a mansarda da rua

do Prado.

O agudo silvo da locomotiva annunciou aos dois amigos que o comboio

entrava nas agulhas; deixaram, pois, a discussão e dispuzeram-se a

abraçar Ernesto.

Effectivamente chegou o comboio, e n'elle Ernesto, que se lançou nos

braços dos seus amigos.

--Agora que já te abracei, digo que te acho muito abatido, disse Marcial.

--Effectivamente, estavas melhor quando partiste de Madrid, ajuntou

André. Roma continúa a ser uma cidade doentia.

--Pois estou bom, completamente bom, e com um appetite devorador,

respondeu Ernesto; mas, quando se vôa de Roma a Civita-Vecchia, de

Civita-Vecchia a Marselha, de Marselha a Alicante, de Alicante a Madrid

sem descançar nem uma noite, e quando de mais temos a infelicidade de

enjoar no mar, creio que se não póde exigir a um corpo como o meu, magro

e doente, que se apresente ante os seus amigos com as bochechas e a

barriga de Sancho.

--Mas porque não vieste por Paris?

--Tinha pressa de chegar a Madrid, e receei demorar-me na capital do

visinho imperio mais do que podia. E bem sabes que breve se fecha o

praso para a apresentação dos quadros; chego, pois, a tempo.

Arranjaram-me casa?

--Tens a nossa. Nós temos casa.

--Tenho quarto?

--Viverás como um principe desthronado, não te apoquentes.

--Conduzam-me, então, para onde quizerem.

--E a tua bagagem?

--Reduz-se a uma mala, dois caixotes com quadros, e a tela que venho

expôr, que vem enrolada em um cylindro de madeira. Aqui está a guia.

--Dá-m'a. Pepe encarrega-se de tudo. É um rapaz muito esperto.

Os tres amigos sahiram da estação, entregaram a guia ao creado que se

chamava Pepe, e subiram para um trem.

Para chegar á mansarda dos artistas era necessario subir noventa e seis

degraus.

Uma vez vencida a difficuldade dos noventa e seis degraus, a mansarda

occupada pelo pintor e pelo poeta era alegre como uma manhã de maio.

Alli respirava-se o ar puro; d'alli o céu parecia mais azul e a vista

espairecia contemplando as arvores do Retiro e do Prado.

André fizera da sala o seu _atelier_, onde tudo se encontrava n'uma

desordem encantadora e propria do genio.

Marcial reservara a saleta para escriptorio. Ficava ainda a casa de

jantar bastante grande, outra sala, dois quartos e a cosinha.

A segunda sala estava adornada com moveis alugados para receber Ernesto.

Devemos advertir que era uma d'essas mansardas decentes, que têem fogão

em todas as casas, e que rendem ao senhorio oito mil reales por anno.

Quando os tres amigos se installaram na sala que servia de _atelier_ a

André, este disse:

--Aqui tens o nosso palacio, que de hoje em deante será tambem teu, se é

que desejas viver comnosco.

--Está claro! Acceito uma parte da casa, porque vejo que têem um

grande _atelier_ e admiraveis luzes para trabalhar.

--O que quer dizer que vens disposto a continuar com os pinceis.

--Bem sabes que são elles o meu unico patrimonio.

--Ai! Ernesto, por desgraça, em Hespanha a pintura pouco rende.

--Bem sei; mas trabalhando muito, espero não morrer de fome.

--Morrer de fome, estando comnosco!? exclamou Marcial. Isso não é facil;

aqui os bens são communs e d'esse modo nunca nos falta nada. Demais o

teu quadro será premiado, tu ficas rico, garanto-t'o eu.

--Não confio em promessas de poetas.

--O tempo te convencerá de que laboras n'um erro. Mas tratemos de outra

coisa. Que tal te déste em Roma?

--Bem como sempre. Roma é a minha patria.

--Sim, é a patria dos artistas. Mas agora dize-me com franqueza, tu

tiveste o mau gosto de te enamorares?

--Meu caro Marcial o amor não é outra cousa do que uma contribuição que

todos pagamos, mais tarde ou mais cedo.

--Em boa hora o fosse. Eu procurarei pagál-o o mais tarde possivel. Mas

com o direito que me concede a boa amizade, permitte-me que te continue

a interrogar.

--Pergunta o que quizeres.

--Amas?

--Creio que sim.

--Vamos vêr. Quantos graus attinge o teu amor?

--Muitos, respondeu Ernesto, sorrindo-se.

--E quem é ella?

--Se me permittem, guardarei segredo.

--Não ha inconveniente; mas sem dar nome ao santo, creio que nos pódes

dar alguns pormenores.

--Isso é diverso.

--É nova?

--Vinte annos.

--Formosa?

--Como o mais bello sonho d'um pintor.

--Bem, bem, a arte deve ser irmã da belleza. É rica?

--Sim, por meu mal.

--Diabo! Isso não se explica.

--Digo por meu mal, porque se fosse pobre como eu, já seria minha mulher.

--Tão enamorado estás?

--Para que negál-o? Não tenho segredos para vocês, que são os meus

unicos amigos: amo-a com toda a minha alma.

--De fórma que, quando terminar a exposição, regressas a Roma.

--Não, porque ella vive em Madrid.

--Anh! Isso é diverso; do mal o menos. Esperamos que nol-a apresentarás

quando já não fôr segredo o teu amor.

--Prometto-o, tão depressa alcance o consentimento do pae. Por agora só

lhes peço uma cama onde me deite algumas horas, porque estou muito

moido.

--Tens razão, vem. Nós mesmo te vamos acompanhar ao quarto que te

reservámos, mas não consentimos que durmas até muito tarde, porque

convidámos uns amigos para almoçar.

--Acordem-me quando quizerem.

Um quarto de hora depois dormia docemente emballado pela gloria e pelo

amor.

Pobre Ernesto! Como estava longe de imaginar a volubilidade da creatura

a quem entregára toda a sua alma n'um só beijo!

CAPITULO XIV

Curiosidade não satisfeita

Emquanto Ernesto dormia, os seus amigos collocaram convenientemente a

tela que o pintor trouxera de Roma.

--Magnifico! exclamou Marcial ao vêl-a. Estou crente que na Exposição

não apparecerá nada melhor.

--É uma grande obra, ajuntou André, contemplando o quadro com olhos de

entendedor. Ernesto obtem o primeiro premio.

--Mas espera. Já vi esta cabeça de mulher em alguma parte, disse o poeta

fixando uma das figuras do primeiro plano, que representava a rainha

Esther.

--Eu tambem, ajuntou o pintor.

--Recordemo-nos onde.

Mas de repente deu uma palmada na testa, e exclamou:

--Espera, já sei! Esta cabeça não é outra senão a de uma menina que

conheço e que mora em Madrid. É a filha do milionario D. Ventura

d'Aguillar.

--Ah! Sim! Aquelle sujeito que vem muito ao Suisso e que é tão amigo dos

artistas.

--Esse mesmo.

--E que faz esse senhor?

--Não o vejo desde o inverno passado. Deve andar viajando.

--Preoccupações dos ricos durante o verão.

--Sabes que examinando este magnifico retrato me assalta uma suspeita?

--Qual é?

--Que seja a linda Amparo o amor de Ernesto.

--Tambem me parece que tens razão em o suspeitares, visto que não ha

muito ainda nos disse que ella era rica.

--Decididamente está decifrado o enigma.

--Sendo assim, sou de opinião que Ernesto deve dar, o mais breve

possivel, o nó gordio.

--Nunca! Um artista de merecimento, um homem de talento deve ser

solteiro toda a vida; o matrimonio é um obstaculo para a sua gloria.

--Seja como fôr, o quadro é admiravel.

--E devemos confessar que Ernesto será uma gloria nacional.

--O quadro produzirá um effeito grandioso; tambem eu não esperava menos.

--Se Ernesto encontrasse um Cosme de Médicis, tinha a fortuna feita.

--Desgraçadamente para os pintores aquelles tempos passaram.

--Sim, dizes bem.

Ás onze horas chegaram tres amigos de Ernesto, pintores tambem, que

estavam convidados para almoçar com Marcial e André.

Ernesto continuava dormindo, somno que se respeitou durante meia hora

que passaram entretidos a contemplar o quadro.

Por fim decidiram-se a despertar o hospede, e Ernesto deixou a cama

entre applausos, felicitações e abraços dos amigos.

Tudo sorria em volta de Ernesto, e elle pensava de si para si:

--Hoje estou com os meus amigos; ámanhã... oh! ámanhã irei vêl-a ao seu

palacio de Caramanchel.

Ernesto ignorava que Amparo tivesse morrido para elle.

Os seis amigos foram para o restaurant do Arminho, onde estava

encommendado o almoço.

Os poetas e os pintores são tão pobres de dinheiro como ricos de

imaginação. Quando a venda de um quadro ou a estreia de uma peça

lhes rende algum dinheiro, gastam-no alegremente com o mesmo

desprendimento de principes. Ao acabar-se o ultimo centimo puxa-se pela

intelligencia e cria-se outra obra. Assim passam a vida esses

sonhadores, esses filhos do genio que vivem acariciados pelo sopro da

gloria e pela interminavel melodia das suas illusões.

O restaurant do Arminho hoje já não existe; ha ainda pouco tempo que

fechou as suas portas, convertendo-se no de Madrid. Mas seja como fôr,

occupemo-nos do primeiro.

O Arminho no seu pequeno, mas elegante recinto, não era frequentado por

pobres ou economicos. O serviço era á lista, e os pratos caros, mas bons.

Os frequentadores sabiam que um simples almoço lhes custava um par de

duros, mas sabiam tambem que era preciso pagar, não só os manjares que

depositavam no estomago, como as gravatas brancas dos creados e o

serviço de prata em que eram servidos.

N'uma grande cidade como Madrid ha o costume de se atirar o ouro por um

lado, emquanto que do outro alguns desgraçados morrem de fome.

Marcial encarregára-se do almoço. N'aquelle dia os estomagos dos amigos

estavam á sua disposição. Escreveu n'um papel os quatro pratos fortes de

que devia compôr-se, deixando ao gosto do cosinheiro do restaurant as

sobremezas e os vinhos.

Os seis jovens, alegres e cheios de illusões, tinham bom apetite;

comeram como quem não sente remorsos na consciencia, falaram de

pinturas, de theatros, de mulheres.

Ernesto ouvia com certa satisfação os seus amigos; fallava menos do que

elles sem duvida, porque tinha a imaginação mais preoccupada.

Quando chegou o _Champagne_, o vinho da alegria, do amor, quando

começaram os brindes e os epigrammas picantes. Marcial levantou-se com

um copo na mão, e disse:

--Brindo pelo original que serviu de modelo ao nosso amigo para

pintar a formosa figura de Esther no quadro que será a admiração de Madrid.

Todos esvasiaram os copos.

--E se essa figura que tanto celebras fosse uma creação minha? disse

Ernesto, sorrindo-se.

--Então, respondeu Marcial maliciosamente, brindo pellas bellas creações

do teu genio, e se alguma vez tiver a triste ideia de me casar,

pedir-te-hei primeiro que pintes uma mulher a teu gosto, e juro-te que

não consumarei o sagrado laço do matrimonio sem que encontre uma de

carne que seja egual á do teu retrato. Mas, que queres, parece-me que já

vi a tua Esther com trajes á moderna.

--Estás enganado, respondeu Ernesto com embaraço.

--Senhores, disse André, levantando-se, eu, em nome da fraternal amizade

que nos une, peço que respeitem o silencio do nosso amigo.

--Pois eu, pelo contrario, peço que nos conte todos os seus segredos,

exclamou um dos convidados. Entre amigos como nós, tudo é commum, até os

segredos.

--Tem razão. Ernesto não deve ser avarento dos seus segredos, já que

nunca o foi da sua bolsa.

--Fala!

Historia de um beijo · 第 5 / 12 段