Quando a mulher faz comparações, a derrota de um dos comparados é

infallivel. Vejamos como o conde de Loreto cahiu a fundo sobre o pintor.

Tudo estava preparado para as corridas.

A Imperatriz Eugenia, com toda a sua côrte, devia assistir.

D. Ventura tinha conseguido a peso d'ouro, alugar uma luxuosa caleche.

Amparo mandára fazer uma elegantissima _toilette_. A festa promettia ser

das mais brilhantes. Toda a aristocracia de sangue e de dinheiro se

reunia n'aquellas corridas. Amparo desejava vivamente que Fernando

ganhasse o premio. D. Ventura, pela sua parte, dizia:

--É uma questão de honra nacional.

Ao meio dia appareceu Fernando: estava pallido, nervoso; no rosto tinha

marcados signaes de desgosto.

--Succedeu uma grande desgraça, exclamou.

--Morreu _Rabeca_? perguntou D. Ventura.

--Não, respondeu, esforçando-se por se rir.

--Mas o que é? disse Amparo.

--O meu jockey que está doente e que não póde correr.

--É verdade que é um contratempo. Mas não se encontrará outro?

--Outro? exclamou o conde assombrado. E quem me responde pela sua

habilidade, pelos seus dotes, pela boa fé de um jockey alugado? Todos os

leões de Paris, todos os afficionados de equitação, que não são poucos,

que frequentam á noite a _Maison Dorée_ e á tarde o _boulevard dos

Italianos_ conhecem _Rabeca_ e têem grande interesse em que fique

vencida; e seriam capazes de comprar o jockey que n'ella corrresse, para

que a sopeasse e perdesse. Demais isso é sériamente grave para mim. Se

não corre a minha _Rabeca_ perco cinco ou seis mil francos que apostei a

noite passada com um _lord_ que traz tambem um dos seus cavallos para a

corrida de hoje. A aposta está feita com as seguintes condições: «Se por

qualquer casualidade um dos cavallos não puder correr dá-se por perdida

a aposta.» É preciso portanto que _Rabeca_ corra, e por isso venho

dizer-lhes que não os posso acompanhar, pois que sou eu quem a vae correr.

--O senhor? disseram ao mesmo tempo pae e filha.

--Sim, eu. Sei que é uma desvantagem para mim. O jockey do meu

adversario pesa escassamente tres arrobas: é um liliputiano, um homem em

miniatura, é o rei dos jockeys, emquanto eu péso muito mais. Mas não

quer dizer nada: a minha egua fará um esforço e vencerá.

--Permitta-me que lhe diga, disse D. Ventura, que se expõe...

--Isso é o menos. Quando chegar á terceira volta, saltarei já

affoitamente. Tenho confiança na egua.

E o conde, depois de algumas respostas dadas aos argumentos que lhe

apresentavam os seus amigos, sahiu, despedindo-se d'elles.

Como se póde calcular o interesse de Amparo cresceu uns setenta e cinco

por cento.

CAPITULO X

A rosa de brilhantes

Uma hora depois, a caleche de D. Ventura estava parada quasi ao fim da

pista.

D'aquelle ponto tinha a vantagem de vêr perfeitamente o cavallo que

chegasse em primeiro logar á meta e estar proximo do camarote imperial

onde o vencedor devia ir receber o premio.

Amparo, de pé sobre as almofadas da carruagem, com a mão esquerda

appoiada no hombro do pae, percorria com o binoculo o pittoresco

panorama que a rodeava.

Parecia-lhe impossivel que se pudesse reunir tanto luxo, tanta riqueza

n'uma cidade.

Dizem os francezes que Paris é a capital do mundo civilizado, e em

verdade assim é.

Quando a imperatriz Eugenia entrou no camarote, fez um signal com o

lenço para que começassem as corridas, e ouviu-se então o sonoro som dos

clarins.

Amparo sentia palpitar o coração com violencia; deixou de olhar para o

camarote e viu na pista, no ponto por onde deviam entrar os

concorrentes, o conde de Loreto.

N'aquelle momento daria tudo quanto lhe exigissem para conceder a

victoria ao seu companheiro de viagem.

Pouco depois, ouviu-se o tropel que vinha do lado para onde se fixaram

todos os olhares, e o precipitado e forte galope de muitos cavallos

chegou aos ouvidos de Amparo como surdo rumor da tempestade que avança

com rapidez.

Começaram por admirar os cavallos; de todos os lados se ouviam bravos e

gritos de enthusiasmo, misturados com exclamações de raiva.

Quando um cavallo passava adeante de outro, ouvia-se um rugido de raiva

que exhalava o peito do vencido.

Entretanto aquella quantidade de cavallos, deitando espuma pela bôcca,

fogo pelas narinas, avançava com uma velocidade vertiginosa até ao sitio

onde estava Amparo.

Aquillo era um furacão de carne, empenhado pelo amor-proprio; parecia

que arrebatava tudo.

Amparo tremia; estremecia, mau grado seu, procurando avidamente o conde

de Loreto entre aquelles bonets de variadas côres.

Subitamente soltou um grito e fez com que D. Ventura, que contemplava

boquiaberto aquelle soberbo espectaculo, voltasse a cabeça.

--Que é? perguntou elle.

--Alli, alli! exclamou Amparo. Vem á frente e traz n'uma mão o bonet e

na outra o _stick_.

--Oh! meu Deus! Que loucura! Póde cahir.

N'aquelle momento o conde de Loreto passou pela frente da caleche de

Amparo com velocidade de um raio. Mas apesar d'isso, cumprimentou-a com

o bonet.

Amparo levou a mão ao peito como para conter as palpitações do coração.

Fernando levava pelo menos quarenta metros de avanço a todos os outros

concorrentes.

Quando chegou á ultima valla, _Rabeca_ saltou com tanta facilidade como

se aquelle fosse o primeiro obstaculo. Um applauso geral resoou dedicado

ao cavalleiro e cavallo.

O conde de Loreto ganhára a rosa de brilhantes e os cincoenta mil

francos, e não tardou que não estivesse rodeado de admiradores e curiosos.

Fernando del Villar apertava a mão de alguns desconhecidos e

cumprimentava os espectadores.

O _lord_ approximou-se montando um soberbo cavallo de pura raça arabe.

--Ganhou, senhor conde, disse apertando-lhe a mão. Esta noite espero-o

para cear na _Maison Dorée_, não só para lhe pagar o que lhe devo, como

tambem para lhe propôr um negocio, ácêrca da sua preciosa egua.

N'essa occasião approximou-se um dignitario da côrte a dizer-lhe que a

imperatriz Eugenia esperava o vencedor.

O conde não esperou segundo convite: dirigiu a egua para o camarote

real. Grande quantidade de cavalleiros o acompanharam.

Ao chegar, Fernando desmontou-se e foi introduzido no camarote pelo

fidalgo.

--Disseram-me que era hespanhol, disse Eugenia em castelhano.

--Nasci na Andaluzia, senhora, respondeu o conde inclinando-se

respeitosamente.

--Ainda bem, somos compatriotas. Aqui tem o premio que ganhou.

A imperatriz entregou-lhe um estojo de velludo. O conde ajoelhou-se para

o receber, beijou a mão e sahiu do camarote.

Amparo não perdera o conde de vista nem um só momento. Quando viu que se

dirigia para a sua carruagem, sentiu uma commoção desconhecida, como

nunca tinha experimentado.

Fernando foi até ella, sorrindo-se.

--Bravo! bravo! exclamou D. Ventura, enthusiasmadissimo. Fazia o senhor

muito bem, caro conde, em ter toda a confiança na valente _Rabeca_.

--É invencivel, disse elle. Tinha inteira segurança, de que, a não me

succeder uma desgraça, o triumpho era meu.

E extendendo o braço, apresentou o estojo a Amparo, dizendo-lhe:

--Senhora D. Amparo, como sei que pedia a Deus para que me concedesse a

victoria, como sei o interesse que tomou, ouso pedir-lhe que acceite

como uma recordação d'este dia o premio que me acaba de offerecer a

imperatriz dos francezes.

Amparo pegou com mão trémula no estojo, e antes de ter tempo para

responder uma só palavra de agradecimento por aquella amabilidade, o

conde partiu a galope em direcção a Paris.

D. Ventura estava louco de alegria.

Amparo commovida, pallida, seguiu o conde com a vista.

--É um cavalheiro, disse o commerciante.

--Sim, papá; não se póde ser mais delicado.

--Mas, vamos vêr isso que tens na mão. Parece que não estás em ti.

E D. Ventura, notando que a filha corava, sorriu-se maliciosamente.

Amparo abriu o estojo: tinha um broche de brilhantes. Não se podia

exigir mais gosto n'uma joia d'aquella natureza.

--Em verdade, é um bonito premio, disse D. Ventura, fixando os olhos no

broche.

Amparo guardou silencio.

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..........................................................................

Sigamos o conde de Loreto, que, entregando a egua ao creado, tomou um

trem de praça que o conduziu ao hotel do Louvre.

--Pódes dar-me os parabens, meu leal Francisco, disse o conde, abraçando

o velho mordomo.

--Quer dizer que ganhou o primeiro premio!

--Não só o primeiro premio como tambem a aposta que tinha feito com lord

Rutheney.

--Que grande alegria me dá, senhor conde, disse Francisco sem perder um

só momento a sua peculiar gravidade. Temos gasto tanto dinheiro durante

a viagem!

--Ahi vens tu com os teus malditos numeros.

--Senhor, o interesse que tomo pela casa faz com que muitas vezes tenha

certas liberdades...

--Vamos, Francisco, não comeces a attribuir a ti faltas que não

commetteste. Quando o meu pae morreu disse-me: «Nunca deixes Francisco;

viu-te nascer, estima-te com idolatria e é honrado e leal.» Desde

então ainda não tive de que pense que não é tão grande como devia ser,

em relação ao que gasto; mas que queres... quando estiver arruinado,

quando me vir como vulgarmente se diz com a corda na garganta, então

seguirei o teu conselho e casarei. E a proposito: Que tal te parece a

filha do nosso companheiro de viagem?

--É extremamente formosa!

--E nada mais? perguntou o conde, sorrindo-se.

--E que tem doze milhões de dote.

--O que te traz preoccupado. Emfim, até lá veremos. Quem sabe se terás

razão, aconselhando-me a que case! Mas, dá-me algum dinheiro; vou cear

com alguns amigos á _Maison Dorée_ e talvez se jogue.

--Hontem dei ao senhor conde tres mil francos.

--Sim, e hoje não tenho nem um centimo,

Francisco exhalou um suspiro, abriu a gaveta e deu tres notas de mil

francos ao amo, dizendo:

--O tal inglez não pagará esta noite?

--É natural; mas não devo acceitar um convite com sentido no que me devem.

Fernando calçou as luvas, pôz o chapéu, pegou n'uma delicada bengala de

canna da India, e sahiu.

A _Maison Dorée_ é um dos taes estabelecimentos que só se encontram em

Paris. Ponto de reunião da elegante e louca mocidade, centro d'esses

seres felizes, sempre occupados em não fazer nada; come-se, joga-se e

murmura-se, gastando dinheiro ás mãos cheias.

Ahi tudo se sabe, tudo se commenta; e mais de uma vez têem ficado a

honra das mulheres da moda, de mistura com o _Champagne_ e o _Rheno_

sobre aquellas elegantes mesas.

O conde de Loreto estava convidado para jantar com o lord que fizera a

aposta, que o esperava com pontualidade britannica.

Depois de cumprimentar, lord Rutheney tirou a carteira e entregou

friamente os cincoenta mil francos que perdera.

--Senhor conde, antes que comecemos a jantar, e segundo o costume

inglez, de não fazer nada depois de nos levantarmos da mesa, vou

propôr-lhe um negocio. Quer vender-me _Rabeca_? Dou-lhe por ella egual

quantia á que me fez perder.

--Mylord, desejo conservál-a.

--Então não falemos mais no assumpto.

E pediu que lhes servissem o jantar.

Durante este, lord Rutheney fez elogios á egua do conde.

--É um precioso animal, dizia. Se me pertencesse, nas proximas corridas

annunciadas em Londres, jogaria duas ou tres mil libras esterlinas com

certeza de ganhar. Pena será se soffrer algum desastre.

Depois de jantar lord Rutheney e o conde de Loreto entraram no café.

Depois passaram á sala do jogo e o conde sentou-se proximo ao banqueiro.

Fernando jogava forte, mas com pouca sorte.

Meia hora foi sufficiente para perder quanto trazia comsigo.

Então voltou-se para o inglez que estava a seu lado ganhando mais de mil

francos e disse-lhe sorrindo-se:

--Mylord, fica fechado o negocio: _Rabeca_ é sua.

Lord Rutheney inclinou a cabeça em signal de approvação, e entregou ao

conde cincoenta notas de mil francos.

Depois, tirou tranquillamente a charuteira e d'ella um havano e

dirigiu-se pachorrentamente para a sala de fumo.

Sentou-se n'um commodo divan, e começou a saborear o delicioso charuto.

Proximo do sitio em que se achava o conde, fumavam quatro rapazes,

conversando em voz alta.

Nenhum d'elles reparára, em Fernando.

--Desengana-te, Heitor, dizia um d'elles, o teu cavallo está muito longe

de ser o que é a egua do hespanhol, e o arabe de lord Rutheney.

--Pois apezar da tua opinião, respondeu com voz alterada Heitor,

garanto-te que se o meu jockey não tivesse sido um parvo, ganhava o

primeiro premio.

--A ti succede o mesmo que a Marco Antonio quando os seus gallos iam

combater com os de Octavio Augusto, que perdia e para consolação á sua

pouca sorte arranjava sempre uma desculpa. O cavallo de lord Rutheney

levava ao teu mais de vinte metros de avanço. Emquanto ao do hespanhol

não se fala, esse não era um animal, era um raio: nem mesmo o vento

corria mais do que elle.

--Os hespanhoes, respondeu Heitor, em tom desdenhoso, têem nas veias um

sangue mixto de godo e arabe, e não é para estranhar que saibam dar

vantagens aos cavallos nas corridas. O conde de Loreto parecia um cigano

correndo d'aquella maneira.

Fernando ao ouvir estas palavras, pôz-se de pé e pallido, com o olhar

turvo e ameaçador, dirigiu-se para o grupo que falava de si e encarando

o que acabava de falar, disse-lhe:

--O conde de Loreto sabe correr como um cigano e bater-se como um

cavalheiro.

E dizendo isto, atirou uma luva ao rosto de Heitor, que se lançou sobre

o seu antagonista.

Fernando extendeu o braço e deteve-o com incrivel facilidade.

Todos o rodearam.

Da parte do conde foi um creado chamar lord Rutheney.

--Que foi? perguntou elle.

--Quer ser meu padrinho?

--Como? Tem alguma pendencia?

--Sim, senhor. Este cavalheiro acaba de me insultar e tenho de me bater.

--Tem a escolha das armas.

--Cedo-a ao meu adversario: espero-o no café.

Pouco depois lord Rutheney reunia-se ao conde de Loreto.

--Já está tudo combinado, disse o inglez. Batem-se ao florete, ámanhã,

ás oito horas da manhã, no bosque de Bolonha.

--Perfeitamente. Espero-o ás seis no hotel do Louvre.

--É sufficientemente forte ao florete para se pôr na frente de um

adversario que o escolhe para se bater?

--Manejo-o regularmente, e tenho pouco amor á vida; com estes dois

requisitos não me devo arrecear d'um lance. Mas se me permitte,

retiro-me. São dez horas: esta noite canta a Patti, e desejo ouvil-a,

porque ámanhã mata-me o meu adversario.

Lord Rutheney conduziu-o na sua carruagem á Opera.

Quem visse Fernando na sua cadeira applaudindo com enthusiasmo a celebre

Patti, não supporia que elle se ia bater no dia seguinte.

Á meia noite entrou no seu quarto do hotel do Louvre, sentou-se,

accendeu um charuto, e dirigindo um olhar tranquillo a Francisco,

disse-lhe:

--Ámanhã bato-me ás oito horas da manhã.

O mordomo recuou dois passos, e exclamou assombrado:

--Outra vez?!

--Sim, é a quinta. Quem sabe se será a ultima? Não é vontade minha;

quando menos se pensa, um insolente ou um enfatuado atravessa-se-nos no

caminho, insulta-nos, e a honra exige que nos batamos. Cinco vezes me

tem succedido isso. Prepara, pois, os meus floretes, e deita-te. Ah!

Esquecia-me. Ámanhã cedo, mandarás por um creado _Rabeca_ a lord

Rutheney; vendi-lh'a; e, verdade verdade, que isso me desgosta mais do

que o duello.

Francisco fez um gesto como se fosse para falar.

--Não te inquietes, não te inquietes com reflexões inuteis; o duello é

inevitavel. Quero dormir para estar fresco. Bôa noite. Acorda-me ás

cinco e tres quartos.

E o conde principiou a deitar-se.

Francisco sahiu triste e preoccupado.

Alguns minutos depois o conde de Loreto dormia profundamente.

O honrado mordomo não se deitou: ser-lhe-ia impossivel dormir, e

preferiu estar levantado.

Ás cinco horas e meia entrou no quarto do amo.

O velho esteve-o contemplando por alguns momentos. Notava-se-lhe na

triste expressão do rosto o estado do seu espirito. Receava pela vida do

amo.

Por fim disse em voz alta:

--Senhor, são horas.

O conde abriu os olhos, bocejou, e, fixando um olhar somnolento no

mordomo, disse:

--Nunca perdoarei ao meu adversario este delicioso sonho que me rouba.

Que mau costume baterem-se de manhã!

Fernando vestiu-se com esmero, como se fosse fazer uma visita de

cerimonia, com a differença de que em vez do frack ridiculo e

incommodativo, vestiu uma sobrecasaca preta.

--Querido Francisco, disse o conde, dando o ultimo toque na gravata em

frente ao espelho, se o meu adversario me matar, o que é provavel, mas

não impossivel, tu te arranjarás como puderes, com os meus crédores; e

visto o remanescente da minha fortuna ser para a avarenta da minha tia,

a marqueza del Ramo, aconselho-te que fiques com tudo quando te seja

possivel, porque não é justo que ao cabo de tantos annos de bons

serviços, tenhas que procurar um novo amo, que indubitavelmente te não

trataria como mereces. Agora faze o favor de dizer ao creado que me

sirva o chá. Mylord não se póde demorar; são já seis horas, e é pontual

até ao exaggero.

Effectivamente lord Rutheney, acompanhado de outro amigo, entrou no quarto.

--Creio, senhores, que temos tempo de tomar uma chavena de chá, disse o

conde.

Rutheney olhou para o relogio.

--Os meus cavallos conduzir-nos-hão em menos de uma hora: temos tempo,

isto é, podemos dispor de sessenta minutos.

--Creio que este cavalheiro, ajuntou o conde, indicando o companheiro do

lord, será o meu segundo padrinho.

--É _mister_ Carlos Bobbe, meu medico e meu amigo; servirá, pois, de

medico e de testemunha.

--Tanto melhor. Mas vamos ao chá.

O creado entrou trazendo uma bandeja com chavenas e pratos, que deixou

sobre uma meza.

_Mister_ Bobbe bebeu cinco chavenas de chá; lord Rutheney tres e o conde

uma.

--Quando quizerem, meus senhores, disse Fernando, vendo que os padrinhos

collocavam as chavenas na bandeja, como prova de que não queriam beber

mais.

Fernando abraçou o mordomo, cujo rosto circumspecto e os olhos

arroxeados o fizeram sorrir.

--Não receies, lhe disse; sahir-me-hei bem como das outras vezes. E

partiu.

CAPITULO XI

Mais um

Quando Francisco ficou só, não poude conter as lagrimas; deixou-se cahir

n'uma cadeira e chorou.

A dôr do mordomo era tão profunda, tão verdadeira que ao entrar o creado

para o serviço, nem sequer deu pela sua presença.

O creado que servia seis quartos do corredor do segundo andar era um

rapaz tão diligente como desembaraçado, e ao vêr o profundo pesar do

velho creado do conde e que este sahira tão cedo, acompanhado de dois

amigos, suspeitou tudo, mas em vez de dirigir a palavra a Francisco,

julgou que era mais conveniente confiar as suas supposições ao hespanhol

que occupava o quarto n.º 14, intimo do conde de Loreto. Assim,

dirigiu-se para o quarto de D. Ventura e chamou-o.

D. Ventura ainda não perdera o costume de madrugar; estava levantado

e disposto a barbear-se. Abriu a porta, julgando que fosse o conde a

propor-lhe algum passeio para aquelle dia, e encontrou-se com o creado e

o seu eterno sorriso.

--Que ha? perguntou D. Ventura.

O creado falava, ainda que mal, o hespanhol, mas o sufficiente para se

fazer comprehender pelos hospedes.

--Cavalheiro, disse elle, sei que sou um tanto indiscreto e importuno

batendo tão cedo á porta de um hospede...

--Bem, bem. Que é? perguntou D. Ventura.

--Mas sei tambem, continuou o creado, que o senhor é o amigo intimo do

senhor conde de Loreto.

--Sim, homem, sim, acaba.

--Pois bem, o senhor conde deve correr algum perigo, porque o vi sahir

acompanhado de dois inglezes; e o mordomo do conde assim que elle sahiu,

pôz-se a chorar amargamente. Não quero equivocar-me, mas julgo que o

senhor conde vae bater-se.

--Diabo! Bater-se? Isso é grave!

--É muito, cavalheiro.

--Mas não sabes porquê?

--Só vi metter no trem os floretes.

D. Ventura sahiu precipitadamente do quarto, e entrou no do conde.

Francisco continuava prostrado na cadeira e com o rosto occulto entre as

mãos.

--Que novidades temos? perguntou em voz alta D. Ventura.

O mordomo levantou a cabeça. Aquelle rosto veneravel estava decomposto

pelas lagrimas e pela dôr: tinha uma expressão de profunda tristeza.

--É certo o que me acabam de dizer? É certo que Fernando foi bater-se?

--Desgraçadamente é certo, senhor D. Ventura.

--Diabo! Não sei para que se expõe a vida assim com tanta facilidade. Eu

tive pelo menos, cincoenta mil questões, e nunca tive necessidade de me

bater com pessoa alguma. Para que temos os tribunaes, se fazemos

justiça por nossas mãos? E demais, o que deu origem ao duello, valeria a

pena?

--Não sei detalhes; só me disse que se ia bater; mas ia apostar em como

o meu amo o não provocou, pois que o conde é incapaz de offender alguem.

Oh! se o seu adversario o matasse era uma desgraça.

--Era, era! Mas tenho esperança em que não será assim. Ora o diabo do

rapaz!...

E como o mordomo continuasse gemendo e suspirando, D. Ventura pôz-se a

passear pelo quarto.

Assim se passou meia hora. Nenhum dos dois falava. D. Ventura pensou,

por fim, que seria mais conveniente esperar o resultado no seu quarto do

que junto do mordomo, cuja dôr o affligia duplamente.

--E a que horas saberemos o resultado? perguntou D. Ventura.

--Creio que ás nove, pouco mais ou menos.

--E são só oito! Mas, não se poderia dar parte ás auctoridades para

evitar o duello?

--Se tal fizessemos, o senhor conde nunca nos perdoaria.

--Diz bem; não ha outro remedio senão esperar e conformarmo-nos com a

sorte. Ora o diabo do rapaz! Vou vêr se a minha filha já se levantou, e

peço-lhe que tão depressa saiba alguma cousa me avise.

O quarto de Amparo era separado do de seu pae por uma debil parede

communicando por uma porta.

Amparo ouvira entre sonhos parte do que o creado dissera a D. Ventura.

Quando este entrou já estava levantada.

--Não me occulte nada, disse, quero saber tudo quanto se passa.

--Pois, filha, o que se passa é pouco agradavel. Fernando a esta hora

bate-se em duello.

Amparo empallideceu e como se lhe faltassem as forças, sentou-se n'uma

cadeira.

--Que é isso? Estás doente? Era só o que faltava.

--Não se assuste; não tenho nada.

--Nada! nada! Não me capacitas de que é sem motivos que perdes as

côres, commoveste-te, e isso é natural, muito natural, sim, senhora;

porque demais, o conde é um joven que se faz estimar; e se tivessemos a

desgraça de o perder, se o seu inimigo o matasse...

--Cale-se, papá, cale-se! exclamou Amparo estremecendo. Não diga isso

nem a brincar.

--Sim, bôa brincadeira, não haja duvida! Ora o diabo do rapaz!

D. Ventura, depois de barbeado, assomava á porta a cada momento.

Nunca o tempo lhe parecera tão comprido.

Quando o relogio do quarto deu as nove horas, disse:

--Já se não póde demorar.

Como se estas palavras fossem como um amuleto magico, ouviram-se os

passos de varias pessoas no corredor.

D. Ventura chegou á porta e não poude conter um grito.

--É elle? perguntou Amparo.

--É.

--E como vem? perguntou a medo.

--Perfeitamente, andando pelo seu pé. Ah! Louvado seja Deus!

E dizendo isto, sahiu precipitadamente do quarto, entrando no do conde.

--Venha um abraço, venha um abraço, exclamou.

O conde deixou-se abraçar.

--Com que então, foi feliz? perguntou D. Ventura com infantil alegria.

Muito folgo, muito folgo.

Fernando dirigiu um olhar de censura ao mordomo, e deixando assomar aos

labios um amargo sorriso, disse:

--Sabe então que me bati. Pois, visto isso, só me resta dizer-lhe que o

lance foi desgraçado; teve graves consequencias.

--Como? Está ferido? exclamou D. Ventura.

--Não, infelizmente.

--Não o comprehendo.

--Senhor D. Ventura, quando por uma d'essas nescias exigencias de decoro

se batem dois homens e um d'elles morre no que chamamos campo da honra,

o que sobrevive, o que torna para casa vencedor, traz uma espinha

cravada na alma que permanece ahi toda a vida. Indubitavelmente alguma

maldição está suspensa sobre a minha cabeça. Tenho má mão para desafios.

E o conde deixou-se cair n'uma cadeira, dando mostras do mais profundo

abatimento.

--Conheço, senhor conde, que se deve ter um remorso muito grande em

matar um homem, disse D. Ventura, mas, que remedio? Quando se tem em

frente um inimigo armado que cubiça a nossa vida temos o dever de

disputál-a.

Lord Rutheney pronunciou algumas palavras para tranquillisar o conde que

parecia vivamente incommodado.

--Agradeço o interesse que lhes inspirei, disse Fernando; mas ao mesmo

tempo, desejava que fizessem o favor de me deixarem só, pois estou

fatigado e preciso descançar.

Historia de um beijo · 第 4 / 12 段