que em poucos dias nos vamos separar.
--Ámanhã nos tornaremos a vêr aqui, se eu puder vir; mas hoje... hoje
não devo ficar mais tempo.
--Pois bem, sim, separemo-nos, não quero que estejas inquieta; sou
demasiado feliz para te desgostar; mas se te inspiro confiança, se
queres que seja esta a noite mais bella da minha vida, permitte-me que
selle com um beijo a mutua promessa que acabamos de fazer.
--Meu Deus, Ernesto, por compaixão! Ah! Para que vim?
O pintor estreitou docemente o desfallecido corpo de Amparo de encontro
ao seu. Aquellas duas cabeças jovens, apaixonadas, uniram-se; aquellas
duas boccas tocaram-se e o doce som de dois beijos confundidos n'um
fugiu nas azas da brisa nocturna.
Pobre Ernesto! Elle tinha dado toda a sua alma n'aquelle beijo, emquanto
que Amparo só lhe tinha feito uma esmola como paga de agradecimento que
a sua deferencia para com ella inspirava.
Amparo desprendeu-se dos braços de Ernesto, sahindo rapidamente do
caramanchão.
Ernesto deixou-se cahir n'um dos bancos, murmurando em voz baixa:
--Meu Deus! Esta felicidade que sinto é demasiadamente grande para que
seja duradoura!
CAPITULO VII
Separação
No dia seguinte quando Ernesto appareceu no quarto de D. Ventura, este
disse-lhe:
--Que pallido que está? Que é isso? Não se sente bem? São más as aguas
de Florença?
--Pallido? respondeu Ernesto. Estou como sempre, estou bom.
--Não, não, está com muito má côr. Não achas, Amparo?
--Acho-o na mesma, papá, respondeu Amparo de um modo natural.
--Seja como fôr, disse Ernesto sorrindo-se, não pensemos n'isso e
tratemos de aproveitar o tempo que nos resta.
D. Ventura, que não tinha vontade propria, pegou no Guia, Ernesto e
Amparo nos seus _carnets_ de desenho e sahiram de casa com a incançavel
curiosidade dos viajantes.
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N'aquella noite foram ao theatro de _Alfiere_, onde se representava _O
pae de familia_, do celebre poeta cómico Carlos Goldoni, a quem chamavam
o _Molière italiano_.
Ao começar o primeiro acto abriu-se o camarote fronteiro ao dos
nossos amigos e entrou um joven vestido de rigoroso luto.
--Olhem, disse D. Ventura. É o nosso visinho do primeiro andar, o conde
de Loreto.
Amparo dirigiu o olhar machinalmente até ao camarote.
Ernesto, como sempre, ao ouvir pronunciar aquelle nome sentiu uma vaga
inquietação.
O conde de Loreto teria vinte e oito annos. Era alto; não podiam vêr-se
com facilidade as suas feições, mas de longe parecia muito pallido,
elegante e sympathico. Era um d'esses typos distinctos que fazem com que
se fixe n'elles a attenção. Como o panno acabára de levantar, o conde
sentou-se. Durante o acto esteve ouvindo com grande attenção. Ao acabar
sahiu do camarote para não tornar.
A mais de metade do terceiro acto, D. Ventura que parecia gosar falando
do seu visinho, disse:
--Que homem tão extraordinario!
--Quem? perguntou a filha.
--O conde de Loreto. Durante o primeiro acto, nem pestanejou, ouvindo
com attenção os versos de Goldoni, e durante o segundo e terceiro não
tornou a entrar, mostrando a indifferença irritante dos nossos elegantes
de Madrid em noite de estreia.
Amparo nada respondeu. Ernesto guardou silencio.
Depois da comedia representava-se uma d'essas farças em um acto que
tanto agrada aos italianos em que toma parte a figura de Polichinello;
farças vulgarmente improvisadas pelos actores que as representam.
Como D. Ventura era um bom hespanhol, não sabia passar sem o cigarro, e
sahiu do camarote para satisfazer o innocente vicio.
Ernesto e Amparo ficaram sós.
Durante alguns segundos ficaram silenciosos; ella parecia preoccupada,
elle triste.
Por fim Ernesto rompeu o silencio.
--Que tem, Amparo? Noto nos seus formosos olhos uma melancholia que me
entristece.
--Penso que em breve nos vamos separar.
--Ah! sim! É verdade! Mas esta noite...
--Não, Ernesto, não; esta noite não vou ao jardim, receio que meu pae
saiba.
--Pois bem, não quero ser exigente; não sáias, mas ao menos abre-me a
janella para que possa vêr o luar sem testemunhas importunas; que possa
dizer-te no silencio da noite o que sente o meu coração.
--Ámanhã, Ernesto, ámanhã, prometto-te abrir a janella para me despedir
de ti; hoje sinto-me mal; necessito descançar.
--Mas é uma crueldade roubar-me uma noite quando tão poucas nos restam.
Amparo fixou os seus olhos no pintor, e compadecida da triste e
apaixonada expressão de Ernesto, disse:
--Bem, abrirei.
Ernesto fez um movimento como para se apoderar de uma mão da Amparo, mas
esta conteve-o com o olhar, exclamando:
--Que vae fazer? Que imprudencia!
Ernesto conteve-se, e só então se recordou que se achava no theatro.
Durante a farça, D. Ventura riu-se muito. Ao acabar dirigiram-se para casa.
Á uma da madrugada, Ernesto estava junto á janella do quarto de Amparo.
Chamou suavemente. A janella abriu-se. Amparo apagara a luz; assomou á
janella e começaram um d'esses dialogos, doces, apaixonados, cheios de
encantadoras trivialidades, que só têem valor aos ouvidos dos namorados.
Quando eram tres horas. Amparo disse:
--Separemo-nos já, Ernesto.
--Bem, separemo-nos, mas dá-me outro beijo de despedida.
Amparo inclinou a cabeça e como na noite anterior, duas boccas se
juntaram, e um beijo cheio de amorosa ternura interrompeu o silencio da
noite.
Ernesto e Amparo, durante aquellas duas horas de amoroso colloquio,
fizeram mil promessas de amor e fidelidade.
--Não me esqueças nunca, disse o pintor; pensa sempre em mim.
Amparo tirou uma fita de seda com que prendia os cabellos e deu-a a
Ernesto.
--Esta fita será a que une os nossos corações. Pega, conserva-a.
Ernesto cobriu de beijos aquella fita, que jurou conservar toda a sua
vida como uma recordação de tão feliz noite.
Quando o pintor entrou no seu quarto, pegou na penna e escreveu na fita:
«_Florença, 2 de Julho de 186..._».
Depois deitou-se, e não demorou muito em gosar um d'esses sonhos de que
não quizera despertar.
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Dois dias depois, Amparo, seu pae e Ernesto entravam na sala de espera
da estação. O comboio estava preparado para partir; faltavam alguns
minutos para se pôr em andamento.
O pintor esforçava-se por se mostrar satisfeito, mas uma enorme tristeza
lhe opprimia o coração.
Nunca Amparo lhe parecera tão bella como n'aquella occasião, mas era
preciso resignar-se á separação.
Os olhares furtivos que ella lhe dirigia pareciam dizer-lhe:
--Confia e espera. Em breve nos tornaremos a juntar.
Rapidamente D. Ventura pôz a sua mala de mão sobre um banco da estação e
disse:
--Oh! Aquelle não é o conde de Loreto?
Ernesto e Amparo voltaram-se.
Effectivamente, o conde estava sentado a um canto com um livro na mão, e
falando em voz baixa com um velho de cabellos brancos, gravata branca e
sobrecasaca preta que o ouvia em respeitosa attitude.
O velho era um d'esses typos proprios para mordomo de casa rica; de
parecer carregado, severo e completamente barbeado.
O conde de Loreto parecia dar-lhe algumas ordens; o velho cumprimentou e
sahiu do salão e foi para o local destinado aos despachos na estação.
Ernesto poude vêr então perfeitamente aquelle rapaz, que parecia
seguil-o como uma sombra.
Era, em verdade, bello e distincto, notando-se-lhe na pallida e
sympathica physionomia uma profunda melancholia que interessava.
A julgar pelo traje, o conde ia emprehender alguma viagem.
--Irá para Paris, tambem? pensou Ernesto, sentindo-se inquieto, mau
grado seu, ante o conde de Loreto.
A sineta deu o signal. Os passageiros dirigiram-se para a gare afim de
escolherem logares.
D. Ventura, que caminhava á frente, deteve-se junto de um compartimento
de primeira classe, e disse:
--Aqui.
E subiu adeante para dar a mão a Amparo.
N'um canto do compartimento e sobre um banco estava uma mala de viagem;
no da frente o velho que pouco antes estivera falando com o conde de
Loreto.
Era por acaso ou propositadamente a escolha de D. Ventura? Quem sabe?
Talvez que o honrado commerciante, vendo n'um compartimento de primeira
classe o mordomo do conde de Loreto, escolhesse aquella carruagem com o
firme proposito de viajar com um compatriota de sangue azul, ou talvez
não reparasse senão depois no silencioso e sympathico ancião.
Mas a escolha causou um profundo desgosto a Ernesto, que pela primeira
vez sentiu no peito a terrivel punhalada do ciume.
O pintor apertou a mão do commerciante e depois a de Amparo,
enviando-lhe toda a sua alma n'um olhar.
--Até setembro, lhe disse.
N'aquelle momento ouviu-se uma voz varonil, mas doce e respeitosa, que
disse em castelhano:
--Dá-me licença, cavalheiro?
Ernesto deixou-o passar. O conde de Loreto cumprimentou e subiu para a
carruagem, indo sentar-se em frente do seu mordomo.
Apitou a locomotiva, e começou o comboio a mover-se e a sahir
pausadamente da estação.
Amparo e D. Ventura assomaram á janella e acenaram com um lenço ao seu
bom amigo.
Um momento depois, o comboio tinha desapparecido; mas Ernesto como se
estivesse pregado ao chão permanecia immovel e preoccupado.
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N'aquella noite, Ernesto partiu para Roma, levando a duvida na alma e o
ciume no coração.
Pobre sonhador! Infeliz artista, que tinha trocado por um beijo, a
felicidade, a paz do seu espirito e todos os seus sonhos de gloria!
CAPITULO VIII
Caminho de Hespanha
Ernesto encerrou-se no _atelier_. Era preciso ganhar o tempo perdido;
era preciso acabar o seu quadro quanto antes e regressar a Hespanha e
sobretudo era indispensavel fazer uma obra-prima que cobrisse o auctor
de gloria, que fosse falada em todo o mundo, e que Amparo se sentisse
orgulhosa. Mas ai! o pobre artista tinha a imaginação demasiadamente
occupada, a alma pouco socegada para conseguir o seu fim.
Comtudo, fez esforços heroicos, trabalhava emquanto tinha luz, e
durante as noites, fechado no quarto, passava longas horas, escrevendo
as impressões da sua alma no meio da soledade em que vivia.
--Ámanhã, quando nos tornarmos a reunir, pensava elle, entregar-lhe-hei
estas folhas de papel em que diariamente escrevo os meus pensamentos, e
ella verá que a não esqueci nem um só instante, que a continuo amando
como nunca.
Ernesto pintára um pequeno quadro, representando a scena do caramanchão,
no momento de dar e receber o beijo de Amparo. Os dois jovens, docemente
abraçados, estavam illuminados pela debil luz da lua.
O grupo era encantador; respirava amor, ternura, poesia.
Era aquelle quadro uma grata recordação que a sua alma sensivel
transportára á téla.
Em volta do quadro collocou a fita que lhe dera Amparo.
Durante a noite, Ernesto passava ás vezes um quarto de hora contemplando
o pequeno quadro, pendurado n'uma parede do seu quarto.
Depois pegava na penna e escrevia. Isto consolava-o.
O pintor acabou por fim o seu quadro e convidou para almoçar alguns
amigos para que vissem a sua obra e dessem a sua opinião.
A opinião geral foi de que ganharia o primeiro premio.
Ernesto meneou a cabeça em signal de duvida.
--Parece-me que podia fazer mais do que o que fiz, e duvido muito que o
meu quadro tenha o merito que suppõem.
Os seus companheiros trataram de convencêl-o de que o seu desalento, a
sua falta de confiança eram infundados.
No dia seguinte, Ernesto escreveu uma carta ao judeu Daniel.
O negociante de quadros, como sempre que se tratava de fazer algum
negocio, apresentou-se com pontualidade.
--Vou para Hespanha, disse Ernesto.
--O que quer dizer que precisa de dinheiro.
--Sim, vou expôr o meu quadro; por conseguinte escolha o que gostar.
Daniel passou revista aos quadros com a sua tranquillidade costumada, e
escolheu a maior parte das pequenas telas que o pintor possuia.
Depois de ajustar e ao entregar o dinheiro, disse Daniel:
--São os artistas tão pouco agarrados ao dinheiro!... E comtudo, o
dinheiro é a alma da vida. Com que então vae para Madrid?
--Sim, senhor. Ámanhã saio de Roma.
--No museu de Madrid ha quadros de muito merito, como tambem em varias
egrejas; e se o senhor fosse um homem de palavra...
Ernesto sorriu-se.
--Se eu não soubesse o quanto me aprecia, respondeu, quasi teria direito
a offender-me com as suas palavras.
O senhor Daniel que nunca abandonava a caixa de rapé, tomou uma pitada
com gravidade, e disse:
--Em Madrid existem preciosos originaes dos melhores auctores. Temos ahi
sobretudo os da escola hespanhola, e se quizesse tirar-me algumas copias
feitas com consciencia, não teria inconveniente em ficar com ellas.
--Isso depende do trabalho que tiver na minha patria.
--Será pouco. Em Hespanha não ha costume de proteger as artes. A
politica, os touros e a bolsa absorvem a attenção dos hespanhoes. As
artes e a agricultura encontram-se em completo abandono. Para ser
artista em Hespanha, precisa ter a força de vontade de Aristoteles, a
paciencia de Job, e o estomago privilegiado dos arabes; e para ser
agricultor a resignação de Santo Isidro, com a desvantagem de que no
tempo d'aquelle santo, os anjos desciam á terra e lavravam para que o
santo dormisse, e hoje os anjos não lavram. Mas, emfim, o senhor
pensará o que lhe convém e n'esse sentido me escreverá indicando-me
os tamanhos e o preço por que m'os vende.
Ernesto comprehendendo que o judeu tinha razão, não o contradisse,
porque sabido é que sendo Hespanha um paiz agricola, não tem outra
protecção senão a da Providencia. Quando chove muito succede como no
Egypto, têem boa colheita. Quando chove pouco, os pobres lavradores
pagam o mesmo ao _protector_ governo que não se occupa d'elles e morrem
de fome; mas isso pouco importa, comtanto que se receba a contribuição,
porque n'essa desgraçada nação chegou a ser impossivel encontrar-se um
governo _bom_ e _barato_.
Resumindo: Ernesto partiu de Roma, no dia seguinte, levando no quadro
uma esperança de gloria; no beijo que abrazara a sua alma uma esperança
de amor.
Tres mezes tinham decorrido desde o dia em que se separou de Amparo.
Durante este tempo, nem uma só carta recebêra.
Ernesto levava, sem saber porquê, a tristeza na alma. Ha presentimentos
que perseguem o homem com a tenacidade da sombra. O conde de Loreto fôra
para Ernesto, desde o primeiro dia, uma ave de mau agouro.
Deixemol-o viajar até Hespanha, e encontremo-nos novamente com a formosa
Amparo.
O coração da mulher é insondavel; não se póde definir, porque é vario e
caprichoso como a mesma natureza. Por isso Amparo, que indubitavelmente
sahiu de Florença enamorada do pintor, chegou a Paris pensando muito no
seu companheiro de viagem, o joven conde de Loreto.
Vejamos o que succedeu.
CAPITULO IX
De Florença a Paris
Fernando del Villar, conde de Loreto, depois de cumprimentar
respeitosamente com um movimento de cabeça os seus companheiros de
viagem, accomodou-se do melhor modo possivel no canto, e pôz-se a lêr.
Em frente d'elle, grave e immovel como _El banquero de Cera_, de Paulo
Féval, estava o velho mordomo. D. Ventura pensou que com uns
companheiros tão graves se iria aborrecer extraordinariamente, mas
restando-lhe a consolação de lêr até que se apresentasse melhor
occasião, tirou o _Guia_ que lhe offerecêra Ernesto.
Amparo, alguma cousa preoccupada com a recente despedida do homem a quem
julgava amar, fechou languidamente os olhos e entregou-se a essa doce
vida das recordações em que o passado é o presente da imaginação.
Durante a primeira hora tudo se passou da fórma por que acabamos de
descrever. Depois, como se prolongasse o silencio, Amparo, olhava
dissimuladamente o joven aristocrata que tão embebido estava na leitura.
O conde de Loreto era um d'esses homens a quem as mulheres não podem
olhar impunemente, porque o seu rosto pallido e formoso, a triste
expressão do seu semblante, convida o bello sexo a fazer esses terriveis
commentarios que lhe são tão peculiares.
Porque seria que sendo o conde de Loreto immensamente rico, estava tão
triste? Isto pensou Amparo. E vendo atravéz aquella melancholia
impropria da juventude, uma historia interessante, teve empenho em
conhecel-a.
Desde aquelle momento a felicidade de Ernesto estava ameaçada da morte.
D. Ventura, que tinha passado a maior parte da sua juventude atraz de um
balcão, com os olhos alegres, o sorriso nos labios, a lingua disposta a
entabolar conversação com os freguezes, aborrecia-se extraordinariamente
no meio d'aquelle silencio enfadonho e do ruido da trepidação que a
machina transmitte aos vagons.
Não podendo supportar aquella situação por mais tempo, deixou o livro e
dispôz-se a falar com a filha, pensando que talvez assim conseguisse
interessar o conde na conversa.
--Olha, Amparo, que delicioso panorama apresenta essa povoação collocada
assim na falda d'esse monte, exclamou Ventura. Oh! decididamente a
Italia é um paiz encantador.
--Que povo é este? perguntou Amparo.
--Diabo! É difficil de t'o dizer porque me esqueci de comprar o Guia dos
Caminhos de Ferro.
O conde levantou a cabeça e assomando-a á portinhola, disse com voz
harmoniosa e clara.
--Este povoado, chama-se, se me não engano, _Santa Maria della Spina_.
Amparo cumprimentou com a cabeça, como dando os agradecimentos ao conde
pela sua deferencia.
--Obrigado, senhor conde, disse D. Ventura, no tom mais amavel que lhe
foi possivel.
O conde tirou um livro da sua mala de mão, e dando-o a D. Ventura,
continuou:
--Possuo por casualidade dois Guias Geraes dos Caminhos de Ferro de
Italia e França. Se o senhor quer acceitar um...
--Bem vês, Amparo; isto é o que se chama viajar com sorte. Em Roma
encontrámos o bom Ernesto, que foi para nós o melhor dos _cicerones_;
aqui o senhor conde de Loreto offerece-nos um _Guia_ que tirará pelo
caminho todas as duvidas.
Fernando sorriu-se, e respondeu:
--O favor é tão insignificante, que não merece a pena falar n'elle;
sobretudo, entre compatriotas e visinhos, pois creio que somos visinhos
ha um mez.
--Sim, senhor, em casa de Rosales.
--Tive o prazer de ouvir esta senhora tocar piano algumas noites; toca
admiravelmente.
--E o senhor conde, segundo me disse minha filha, toca muito bem orgão.
Amparo se pudesse teria tapado a bôcca a seu pae. Mas já dissémos que D.
Ventura tinha muita vontade de falar, e sobretudo fazer-se amigo do conde.
--Ah! incommodei com o meu orgão algumas noites esta senhora?
--Pelo contrario, pelo contrario, senhor conde; ouvimol-o com muito
prazer. Abriamos as janellas para o ouvir melhor, ajuntou D. Ventura.
--O orgão, disse Amparo, tomando parte na conversa, receando sem duvida
que seu pae commettesse alguma imprudencia, é um dos instrumentos que,
quando bem tocado, expressa melhor o sentimento da musica.
--Sim, minha senhora, quando seja bem tocado, accrescentou o conde,
deixando assomar aos labios um sorriso imperceptivel: mas,
desgraçadamente, não succede isso commigo; toco por curiosidade, e nada
mais. Apaixonado pela musica até ao exaggero dedico-lhe alguns momentos
d'ocio. Admiro os grandes mestres, mas em mim a musica, como em tantos
outros, não é mais do que um adorno, uma parte da educação. Toco, é
verdade, mas toco muito mal, o que é o peior.
D. Ventura estava encantado com a singeleza e naturalidade com que se
expressava o conde.
--Quizera, comtudo, disse o pae de Amparo, saber tanto como o senhor.
--Saberia muito pouco, meu amigo; sobretudo, na Italia que estamos
atravessando, onde todos são musicos.
--O senhor conde chamar-me-hia indiscreto se lhe fizesse uma pergunta?
disse D. Ventura.
--Entre compatriotas que viajam juntos na mesma carruagem deve reinar a
maior franqueza. Póde perguntar o que quizer.
--Vae directamente para Paris, ou pensa detêr-se em alguma cidade de
Italia?
--Vou para Paris; já percorri tres vezes toda a Italia.
--Então faremos a viagem juntos.
--Pelo que me considero extremamente feliz.
--Paris é o povo mais alegre da Europa.
--E tem a vantagem de que os estrangeiros em Paris encontram-se quasi
tão bem como na sua patria.
--O caracter parisiense é a reunião da alegria e da amabilidade; gostam
de ser amaveis, e esforçam-se para o conseguir.
--Sempre que d'isso lhes resulte alguma vantagem, continuou o conde, mas
seja como fôr, passa-se admiravelmente uma temporada n'aquelles modernos
_boulevards_, onde o luxo reuniu todas as encantadoras loucuras. Oh! Só
para cear uma noite no café _Tortoni_, almoçar na _Maison Dorée_ e
passear uma tarde no _boulevard dos Italianos_ vale a pena fazer-se uma
viagem a Paris.
--E vae estar muito tempo na capital de França? perguntou D. Ventura.
--Tenho muito que fazer, disse Fernando, sorrindo-se; primeiro ouvir a
Patti na _Somnambula_, depois correr uma egua arabe nas proximas
corridas de cavallos. Quero ganhar o premio que offerece a Imperatriz,
que é uma rosa de brilhantes.
Amparo, que ouvia com prazer a conversa, ainda que não tomasse parte
n'ella, ás ultimas palavras do conde, pensou que não seria pelo valor da
rosa de brilhantes que elle desejava ganhar o premio, mas para fazer com
elle uma offerta a alguma pessoa querida.
Desde aquelle momento Fernando del Villar, conde de Loreto, era para
ella um homem que começava a espicaçar-lhe a curiosidade.
--Ah! disse D. Ventura. Tem em Paris a egua que vae correr?
--Tenho em Madrid os meus cavallos, mas mandei vir para Paris a minha
invencivel _Rabeca_. Creio que assistirão ás corridas.
--Teremos muito gôsto desde que se effectuem dentro d'um mez, e ao mesmo
tempo uma grande alegria em que seja vencedor.
Quando se começa uma viagem, durante os primeiros momentos, mais ou
menos prolongados, segundo o caracter dos viajantes, só reina o maior
silencio; cada um pensa quem será o companheiro da frente ou lado, mas
uma vez entabolada a conversa estabelece-se uma certa intimidade
agradavel que dura toda a viagem e ás vezes toda a vida.
Durante a viagem dos nossos conhecidos, reinou a maior harmonia. Amparo
e o conde falavam de musica; o mordomo e D. Ventura, de numeros. O
honrado millionario estava satisfeito por ter encontrado tão bons
companheiros.
Uma vez em Paris, como D. Ventura era um homem rico que viajava por
prazer e não tinha casa na moderna Babylonia, deixou ao conde de Loreto
a escolha do hotel onde deviam hospedar-se.
Fernando optou pelo Hotel do Louvre, e installaram-se em dois quartos
contiguos no segundo andar com toda a commodidade que offerece aos
passageiros o citado estabelecimento.
O conde quiz que se collocasse um orgão no quarto de Amparo,
offerecendo-se para lhe dar algumas lições.
--Sou muito pouco habilidosa, disse Amparo, agradecendo-lhe com um olhar
aquella deferencia.
--Ora, respondeu o conde. Para uma mestra de piano como Vossa
Excellencia nada mais facil que aprender orgão. Creia que em quinze dias
póde tocar perfeitamente.
--O que me vae custar uns oito ou dez mil _reales_, disse D. Ventura,
porque terei de comprar um.
--E nunca em melhor occasião do que agora que estamos em Paris, onde os
constructores mais afamados têem os seus armazens. Ámanhã
visitaremos alguns, com tres mil francos na carteira.
--Vejo, que tanto o senhor conde como Amparo, conspiram contra a minha
bolsa.
No dia seguinte compraram um orgão, precioso instrumento de doze
registos, incrustado em madreperola; uma verdadeira obra de arte que
custou a D. Ventura seis mil francos, e que foi escolhido pelo conde, e
o ex-commerciante não quiz deixar mal o joven aristocrata.
Pagou D. Ventura, encarregando o fabricante de lh'o remetter para
Hespanha, e não se tornou mais a falar no assumpto.
Todas as tardes Fernando dava lição de orgão a Amparo. Ao principio
estas lições foram curtas, depois prolongaram-se a duas horas.
Quando cantava a Patti iam juntos ao theatro; sómente o conde ia para as
cadeiras e D. Ventura para um camarote, mas durante os intervallos o
conde visitava o millionario.
Assim se passaram vinte dias. Amparo começava a pensar muito no conde e
pouco em Ernesto.