A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta,
apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.
Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel
dissabôr.
Alberto o Grande, no seu curioso livro _De secretis mulierum_ diz que a
leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não
virgem: _Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est
corrupta, statim mingit_.
Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da
morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.
Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do
incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente
amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina.
Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que
por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos
ardores do sol, um massiço de leitugas.
Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as
sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle
morreu pouco tempo depois.
Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a
vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto
com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia
e outros seis na de Venus.
Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o
que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou
que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e
ficasse livre os restantes quatro.